sábado, 3 de março de 2012

A solução é a “economia verde”?

Ivo Lesbaupin
A humanidade está hoje na direção da não-sustentabilidade, caminhando rapidamente para tornar a Terra inabitável.
O mundo está sofrendo um aquecimento global sem precedentes, que tem produzido a multiplicação de eventos climáticos extremos (fortes ondas de calor, invernos rigorosos, tempestades e inundações, incêndios cada vez mais frequentes, furacões e tsunamis), a extensão das áreas de seca no mundo, forte impulso na desertificação, perdas frequentes de colheitas, redução das áreas agricultáveis, e a secagem temporária ou permanente de inúmeros rios.
Está também derretendo fontes de água doce como as geleiras, os glaciares e as calotas polares, produzindo o aumento do nível dos mares. 
Estamos desmatando numa velocidade incrível por toda parte, o que faz prever o desaparecimento total das florestas em alguns países nos próximos anos[1].
Nossa água doce está sendo utilizada em uma quantidade muito acima de sua capacidade de reposição. Além disso, ela está sendo poluída pelo não-saneamento, pelos agrotóxicos, pelos produtos tóxicos das indústrias e da mineração. 
O processo de acidificação dos mares leva cientistas a prever que, possivelmente dentro de 30 a 40 anos, desaparecerão os peixes.
Recifes de corais inteiros já desapareceram ou estão em vias de desaparecer. 

Quais as causas destas mudanças climáticas tão dramáticas, destes desastres ambientais?
Em primeiro lugar, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera, numa proporção muito maior nos últimos duzentos anos – e sobretudo nos últimos trinta anos - do que nos setecentos mil anos anteriores. 
Esta emissão é produzida, em primeiro lugar, pela utilização de combustíveis fósseis – petróleo, gás, carvão. Ora, estes, especialmente o petróleo, têm sido a principal fonte de energia dos últimos cem anos. A “civilização do automóvel” tornou a emissão de gases um fenômeno exponencial e a poluição das cidades (e da atmosfera em geral) um fato habitual. 
O gás metano é o um dos principais produtores de efeito estufa. Ora, um dos produtores deste gás é o gado. A extraordinária multiplicação do número de cabeças de gado no mundo – não para atender as necessidades de alimentação - aumentou enormemente a produção de metano. 
Outro produtor de gás metano são os lagos artificiais das usinas hidrelétricas que inundam partes de florestas. A madeira submersa, no correr do tempo, apodrece e produz metano. 
Em segundo lugar, a destruição dos bens naturais é produzida por um modelo de desenvolvimento centrado na produção e no consumo cada vez maior de bens, o modelo produtivista-consumista. 
Como a obtenção de lucros é o principal objetivo dos produtores, interessa-lhes que todo cidadão seja consumidor e que seja consumidor insaciável, de modo a comprar cada vez mais produtos. Esta obsessão pela produção tem como consequência a utilização dos bens naturais renováveis numa velocidade maior do que a sua capacidade de reposição e dos bens não renováveis em direção à sua extinção – o que pode variar é o prazo em que estes bens vão desaparecer.
Além disso, a produção incessante de bens exige uma quantidade de energia sempre maior, tornando também crescente a necessidade de geração de energia. 
Sabe-se que os países desenvolvidos têm apenas 20% da população mundial mas utilizam 80% dos recursos naturais. A Terra é limitada, ela não comporta uma produção sem fim. Se o consumo dos habitantes da China se igualar ao consumo dos habitantes dos Estados Unidos, nem duas Terras serão suficientes. E a China, assim como a maioria dos países, almeja um nível de consumo semelhante.
O que tem levado a desmatar nesta velocidade alucinante? O que tem levado a consumir muito mais água doce do que sua capacidade de reposição? o que tem levado a poluir as águas numa proporção tão grande? 
O modelo econômico dominante não busca apenas atender às necessidades dos cidadãos: ele produz incessantemente uma enorme quantidade de bens e procura convencer, pela propaganda, que são absolutamente indispensáveis para a vida. Ele os produz não para durarem, mas para se tornarem rapidamente obsoletos e precisarem ser repostos[2]. Ele não os produz para poderem ser consertados, mas para serem, ao menor defeito, trocados por um novo. O modo como tais produtos são feitos impede que eles sejam consertados ou mesmo que sejam aperfeiçoados. Este modelo é baseado na descartabilidade dos produtos, com a consequente geração de um lixo cada vez maior e inaproveitado. 
Pois bem, estas são as principais causas dos nossos graves problemas ambientais.

O que o documento-base (“rascunho zero”) produzido pela ONU para a Rio+20 propõe como solução a estes problemas? 
A “economia verde”[3].
 A “economia verde” propõe a redução da utilização do petróleo, do gás e do carvão nos próximos anos? A “economia verde” propõe a progressiva mudança da matriz energética do mundo, para passarmos dos combustíveis fósseis às energias renováveis (solar, eólica, geotérmica, etc.)? 
Não.
Então, a “economia verde” não pretende atacar a principal causa do aquecimento global e, consequentemente, não pretende atacar a principal causa das dramáticas mudanças climáticas que a humanidade está sofrendo. 
A “economia verde” pretende superar o modelo produtivista-consumista, fonte da destruição acelerada dos nossos bens naturais e do aquecimento global? 
Não.
Ao contrário, o “rascunho zero” encoraja fortemente os negócios e a indústria – e, aí dentro, especialmente as grandes empresas - a mostrarem sua liderança na realização da “economia verde”. Não se pede mudança nesta forma de agir da indústria, das grandes empresas, do business as usual
O documento apóia os instrumentos de mercado para reduzir a destruição dos bens naturais. Acredita que a solução virá do aumento do comércio mundial, do livre comércio (sem barreiras) entre os países. Enfatiza a importância do Banco Mundial, do FMI (Fundo Monetário Internacional), da OMC (Organização Mundial do Comércio) para a implementação desta “economia verde”. 
Em suma, o documento pretende que se faça uma “economia verde” sem mexer no essencial da economia dominante, naquele essencial que a torna depredadora da natureza. Quer manter as mesmas instituições – FMI, OMC, BM - que lideraram o processo de neoliberalização das economias dos últimos trinta anos, período no qual, a depredação da natureza foi ainda maior que nos períodos anteriores, graças à “desregulação”, à redução ou anulação dos controles públicos sobre a atuação dos bancos e das empresas. 
A prioridade atribuída ao capital financeiro e seus lucros – e, por isso, ao controle da inflação e dos gastos públicos em políticas sociais – desvalorizou os seres humanos, desprestigiou os trabalhadores, gerou um desemprego massivo e estrutural por toda parte, enfraqueceu os direitos humanos. Hoje, os seres humanos são menos importantes que a dívida pública: para enfrentá-la, tudo é válido, mesmo a destruição das condições de vida digna para as pessoas (como está ocorrendo na Europa atual). Os governos não governam em primeiro lugar para os cidadãos, governam para pagar aos bancos, aos investidores (nacionais e internacionais). 
E a concorrência desenfreada entre as empresas levou a uma destruição mais acelerada dos bens naturais, ao aumento do aquecimento global. 
O que tem feito o “mercado” com relação aos bens naturais até agora? Na sua busca desregulada de lucro – que é o objetivo essencial do mercado -, as empresas exploram a natureza até o seu esgotamento. Esta é a razão pela qual as florestas estão desaparecendo, o petróleo continua sendo usado como principal fonte de energia, a água tem sido esgotada em inúmeras fontes por todo o globo terrestre. As condições de “comércio livre” têm favorecido a destruição da pequena agricultura de países emergentes pelos países desenvolvidos. 
Por que não se substituiu o investimento na produção de automóveis individuais pelo investimento na produção de meios de transporte coletivos (trens, metrôs e outros), muito mais eficientes, muito mais úteis para a população e menos poluentes? Porque as grandes empresas automobilísticas querem continuar a ter lucro e os governos as favorecem. A solução, portanto, não é o “mercado”, é o controle do “mercado”, é a submissão da lógica da busca do lucro individual à lógica da busca do bem público: os governos devem investir recursos públicos nos transportes coletivos, solução primeira para reduzir a utilização dos automóveis individuais, para reduzir o consumo dos recursos usados em sua fabricação, para a redução da utilização de combustíveis fósseis e da poluição atmosférica. 
Por que as florestas são desmatadas? Porque contêm madeira que tem muito valor no “mercado”. E porque devem ceder espaço para o agronegócio (o “mercado”). O que vai impedir o desmatamento? A exigência pública de que as florestas sejam preservadas. Não é o “mercado” que preserva a floresta, ao contrário, é sua afirmação como bem comum, bem de todos, do qual ninguém pode se apropriar privadamente. 
Para dar um exemplo de “precificação” dos bens naturais: o que aconteceu quando os serviços públicos de água em Cochabamba (Bolívia) foram privatizados (ou: passaram a ter “valor de mercado”) no ano 2000? O preço dos serviços de água foram quadruplicados - para dar lucro. Antes, era um serviço para a população: um serviço público não precisa de lucro, basta investir o necessário à sua realização. Já o serviço prestado por uma empresa privada, precisa de lucro para os seus proprietários e, eventualmente, para gastar menos (e ter mais lucro), a empresa pode deixar de fazer os investimentos necessários. A água só voltou ao valor anterior quando o serviço voltou a ser público, isto é, quando saiu do “mercado”. 
A solução para a grave crise ambiental que estamos vivendo não é, pois, a colocação de preço nos bens naturais e nos “serviços ambientais”. É a preservação dos bens e dos processos naturais como bens comuns, como bens de todos, de toda a humanidade. Nós não precisamos de uma “economia verde”: nós precisamos de uma outra economia, nós precisamos de um outro desenvolvimento.
_______________________
[1] Segundo Jared Diamond, no Haiti restam florestas em apenas 1% do território. A destruição de florestas pluviais acessíveis em terras baixas fora de parques nacionais já está virtualmente completa na Malásia peninsular e, na taxa atual, se completará em menos de uma década nas ilhas Salomão, Filipinas, Sumatra, Sulawesi (Diamond, Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro, Record, 2009).
[2] Como se explica que, mesmo dispondo de tecnologias e materiais mais aperfeiçoados, muitos bens produzidos hoje durem menos que produtos antigos – como é o caso de vários eletrodomésticos?
[3] O “rascunho zero” foi elaborado a partir de contribuições de países, grupos regionais, organizações internacionais e se baseou fortemente num amplo relatório feito pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) sobre a “economia verde” – de mais de 600 páginas (cf. www.unep.org/greeneconomy ).
Ivo Lesbaupin é secretário-executivo do Iser Assessoria e membro da diretoria executiva da Abong.
Fonte: ISER Assessoria.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vídeo mostra o que está por trás da reforma do Código Florestal

“De onde vem a força do agronegócio?” mostra, de maneira didática, quem ganha e quem perde na estruturação e financiamento do agronegócio brasileiro. O vídeo foi lançado na quarta-feira (29/2) durante café-da-manhã da Frente Parlamentar Ambientalista, na Câmara dos Deputados. 
Baseado em análise das pesquisadoras Regina Araujo, doutora em geografia pela universidade de São Paulo, e Paula Watson, também formada em geografia pela USP, o vídeo é a expressão gráfica da análise textual.
Texto e vídeo mostram que o Brasil é o segundo maior exportador individual de produtos agrícolas do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, ambos com a produção apoiada na monocultura “Nossas leis ambientais estão em construção desde a década de 1930, e até agora não provocaram nenhum impedimento ao espantoso crescimento do agronegócio”, lembram as pesquisadoras.
“Grandes agricultores querem fazer a sociedade crer que a produção agrícola brasileira, entre as potências agrícolas, fazem do agronegócio o porto- seguro da economia brasileira.  No entanto nosso modelo agrícola não é ambientalmente sustentável, não favorece a sociedade, a agricultura familiar e colocará  em risco grande parte da biodiversidade , risco que hoje é controlado pela legislação ambiental brasileira. Daí o interesse em alterar o Código Florestal e favorecer ainda mais o grande agricultor”, mostra a animação.
A disseminação do vídeo ao maior número de pessoas tornará possível a reflexão e maior compreensão sobre o que está em jogo na reforma do Código Florestal Brasileiro e porque essa reforma é tão prejudicial à sociedade como um todo.
A WWF pede:
Ajude a divulgar o vídeo por meio de blogs, link em seus perfis das redes sociais, ou mesmo conversando sobre o assunto em casa, no trabalho e com amigos.
Fonte: WWF

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Abaixo-assinado: Cerrado como tema da Campanha da Fraternidade 2015

Para assinar o abaixo-assinado click aqui

PROPOSTA PARA A CF 2015
TEMA: FRATERNIDADE E O CERRADO BRASILEIRO
LEMA: CERRADO: ÁGUA E VIDA PARA O BRASIL
JUSTIFICATIVA
1.      ATÉ QUANDO O CERRADO SERÁ FONTE DE ÁGUAS?
Quando pessoas agem sem saber o que sua prática provocará no ambiente da vida, pode-se dizer que estão sendo ingênuas e, em certo sentido, irresponsáveis. Mas quando se tem clara e segura informação sobre o que acontecerá com a mesma prática, o agir passa a ser responsabilidade de quem decide fazer o que lhe interessa; se a conseqüência de suas ações é um desastre ambiental, atingindo todos os seres vivos que dependem desse ambiente, o ou os envolvidos devem responder por crime contra a vida.
É o que sucedeu e está acontecendo com o Cerrado. Pessoas e empresas podem ter participado do seu desmatamento sem ter informações sobre as conseqüências de suas ações; podiam até achar que estariam dando um sentido útil ao solo deste bioma. Mas o mesmo não se pode dizer dos que, de forma planejada, interferiram no ambiente vital do Cerrado em vista de seus interesses de enriquecimento sem levar a sério as informações e a consciência sobre as conseqüências de sua prática predadora. Em relação aos sucessivos Programas de Desenvolvimento do Cerrado – PRODECER I, II, III e IV -, pode-se dizer que correspondia a interesses japoneses, mas não se pode dizer que sua implantação não contou com informações que davam conta do desastre ambiental que ele provocaria. A CPT produziu cartilhas e provocou debates e mobilizações, ainda na década de 1970, alertando para as características do Cerrado, afirmando ser preferível o cultivo em pequenas unidades familiares.
O bioma Cerrado ocupa 24% do território brasileiro, com pouco mais de dois milhões de quilômetros quadrados. Localizado no Planalto Central, faz-se presente nos estados de Minas Gerais, Goiás, Tocantins, MaranhãoMato GrossoMato Grosso do SulPiauí e o Distrito Federal.

2.      O DESAFIO ATUAL
Sabe-se que o Cerrado é um imenso provedor de águas para todos os biomas brasileiros, de modo especial para a Caatinga, a Amazônia e o Pantanal, e suas águas chegam ao estuário do Prata, na Argentina. Faz parte essencial desse serviço ambiental o reabastecimento dos aqüíferos, incluído o segundo maior deles, o Guarani, que só perde para o Alter do Chão, na Amazônia.
O Cerrado possui um número de nascentes que abastece as bacias hidrográficas de todo o país (ANA, 24/04/2011):
Nascentes no Brasil: 84.184
Nascentes no Cerrado: 19.964
- Bacia do Paraná: 9.184 nascentes, sendo 4.800 (52%) no Cerrado
- Bacia Tocantins–Araguaia: 6.610 nascentes, sendo 5.229 (83%) no Cerrado
- Bacia do São Francisco: 6.534 nascentes, sendo 3.420 (52,3%) no Cerrado
- Bacia Paranaíba: 3.581 nascentes, sendo 1.618 (45,2%) no Cerrado
- Bacia do Paraguai: 2.191 nascentes, sendo 1.916 (87,4%) no Cerrado
- Bacia Amazônica: 38.111 nascentes, sendo 1.337 (3,5%) no Cerrado
O que faz do Cerrado um provedor de água é um conjunto de características deste bioma, que é um dos mais antigos do planeta. Deve-se ao fato de constituir-se num extenso planalto, com solos pobres e arenosos, uma vegetação relativamente baixa e rala, um período fixo do ano com chuvas intensas, seguido por um período sem chuvas, uma incrivelmente rica biodiversidade. Abastecido pelas chuvas, guarda água como uma grande esponja e a oferece generosa e permanentemente aos ambientes mais baixos.
Esta tem sido e continua sendo a vocação que a Terra deu ao bioma Cerrado. Mas as ações humanas, especialmente através do avanço nas últimas três décadas, da pecuária e da agricultura química e baseada em monoculturas extensas, bem como da mineração, interferiram profundamente em sua vegetação, solo e subsolo, em seus córregos e rios, e o estão levando ao estresse e à desertificação. Ninguém sabe ainda com exatidão quais as conseqüências de tudo isso no próprio Cerrado e nos biomas que o circundam, mas certamente serão negativas.
Por outro lado, o aquecimento da Terra, provocado também pela progressiva destruição do Cerrado, vai criando novas dificuldades para a vida neste bioma: a média de temperatura aumenta, o período de chuvas diminui, o tempo de seca aumenta, a incidência de enchentes tende a crescer, o solo, já nu e quase sem vitalidade, resseca mais rapidamente, córregos e até rios, agredidos e assoreados, vão desaparecendo. Até onde irá esse processo predador?!
3.      PROPOSTA DE TEMA E LEMA PARA A CF 2015
Três motivos devem ser destacados para propor que a CF 2015 assuma como temaFraternidade e o Cerrado Brasileiro:
1)      Sem dúvida, o Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil: dados oficiais reconhecem que perto de 60% da cobertura vegetal foi depredada, mas a PUC-GO afirma, a partir das pesquisas do seu Instituto do Trópico Sub-úmido – conhecido como Instituto do Cerrado -, que mais de 80% do Cerrado desapareceu; se o desmatamento continuar na velocidade atual, em poucos anos o Cerrado deixará de existir.
2)      O Cerrado é o bioma mais importante do Brasil: importante por sua biodiversidade, por sua capacidade de guardar e distribuir água; por ser, então, um bioma de equilíbrio para o país.
3)      O Cerrado pode ser fonte importante de produção de alimentos: uma vez superada a fase de depredação e exploração do agronegócio, seu solo pode ser recuperado pela dinâmica agroecológica da produção camponesa familiar, que se baseia na reorganização da diversidade biológica, na recuperação da riqueza da vegetação, das sementes, das frutas, dos seres vivos do bioma.
É por causa da importância do Cerrado para a vida humana, para as demais formas de vida e para o equilíbrio da própria vida da Terra que estamos propondo que a Campanha da Fraternidade de 2015 o assuma como Tema. Temos certeza de que a CF ajudará as comunidades cristãs e toda a população brasileira a terem consciência da importância do Cerrado como bioma brasileiro, e mobilizará as pessoas de boa vontade em favor do Projeto de Emenda Constitucional (PEC 115/95) que inclui o Cerrado na relação de biomas considerados patrimônio nacional – junto com a Caatinga e o Pampa; em favor da preservação do resta de cobertura vegetal e da implementação de áreas de reflorestação; em favor de mudanças nas formas de utilização do solo para pecuária e agricultura baseadas na monocultura e no uso intensivas de insumos químicas, que provocam rápida transição para uma região semi-árida ou para a desertificação; em favor dos povos e culturas próprias do Cerrado, com incentivos em favor da reforma agrária e da ampliação de áreas destinadas à agroecologia, produzindo alimentos sadios a partir de sementes e espécies da sua riquíssima biodiversidade.
Fonte: CPT Goias

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Teria a Alemanha uma dívida de guerra com a Grécia?

Teria a Alemanha uma dívida de guerra com a Grécia? “Os alemães, que estão relutando em financiar um segundo plano de socorro para a Grécia, deveriam se lembrar de tudo aquilo que eles pilharam nesse país durante a Segunda Guerra Mundial [...] Com os juros, são 81 bilhões de euros que eles devem a Atenas. Essa é uma outra maneira de ver a Europa e sua história”. O homem que diz isso não é um ex-resistente grego, nem mesmo um membro da oposição grega - ele nem grego é. Trata-se do eurodeputado Daniel Cohn-Bendit, interpelando na quarta-feira (15) os dirigentes alemães no Parlamento europeu após a recusa da troika europeia em conceder um segundo plano de ajuda de 130 bilhões de euros a Atenas. A reportagem é do jornal Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 22-02-2012. Teria a Alemanha uma dívida de guerra em aberto com a Grécia? A pergunta pode parecer absurda, mas ela tem o mérito de reposicionar a crise da dívida que tem atravessado o continente europeu em um longo período. Acusados de maus pagadores, sufocados por vários planos de rigor, enervados pelas decisões alemãs, há cada vez mais gregos relembrando o passado de Berlim. No início de 2010, durante uma viagem pela Alemanha, Theodoros Pangalos, então vice-premiê, havia lançado uma bomba nas ondas da BBC: “Eles tomaram as reservas de ouro do Banco da Grécia, eles tomaram o dinheiro grego e nunca devolveram. É um assunto que deverá ser abordado algum dia”. Em dezembro do mesmo ano, o ministro grego das Finanças, Philippos Sahinidis, foi mais longe ao calcular a dívida alemã para com seu país em 162 bilhões de euros, comparando com o montante da dívida grega que chegava a 350 bilhões de euros no final de 2011. Mais recentemente, foi a vez do herói da Resistência Manolis Glezos, 89, conhecido por ter retirado a bandeira nazista da Acrópole em 1941, de pedir pelo pagamento do empréstimo imposto à Grécia pelo regime nazista. “Com os prejuízos de guerra”, que Atenas ainda se reserva o direito de reivindicar, “São 162 bilhões de euros, sem juros”, calcula. Quanto deve a Alemanha? 81 bilhões, como diz Cohn-Bendit? 162 bilhões, de acordo com as reivindicações gregas? 68 bilhões, como afirma o “Le Point”? Ou nada, como sustenta Berlim? A batalha de números que cerca esta questão é proporcional à complexidade da situação. Estamos em 1941. No dia 6 de abril, a Wehrmacht invadiu a Grécia. Ela permaneceria ali até 1944. Em sua obra “Na Grécia de Hitler” [“Inside Hitler’s Greece”], o historiador Mark Mazower afirma que a Grécia talvez seja o país que mais sofreu com o jugo nazista - depois da Rússia e da Polônia - e que ela passou por uma “pilhagem sistemática de seus recursos”. Em 1941, os nazistas impuseram ao Banco Central grego, assim como fizeram em outros países, um empréstimo de 476 milhões de reichsmarks a título de contribuição para o esforço de guerra. Esse “empréstimo” nunca foi pago, pela simples razão de que ele não figura no acordo de Londres de 1953 que determina o montante das dívidas externas contraídas pela Alemanha entre 1919 e 1945. Para não repetir os erros do tratado de Versalhes e poupar esse novo aliado do Oeste diante da ameaça comunista, os Estados Unidos consentiram em reduzir a dívida da Alemanha pela metade. Solicitou-se às vítimas da Ocupação que elas esquecessem seus pedidos de reparação. O objetivo estratégico dos aliados era edificar uma Alemanha forte e serena, e não arruinada pelas dívidas e humilhada. Washington conseguiu sobretudo dos países beneficiários do Plano Marshall que eles desistissem de exigir imediatamente o que lhes era devido, adiando possíveis reparações para um reunificação da Alemanha como parte de um “tratado de paz”. “A partir daí, a Alemanha teve plena saúde, enquanto o resto da Europa sofria para curar as feridas deixadas pela guerra e pela ocupação alemã”, resume o historiador da Economia Albrecht Ritschl, professor alemão da London School of Economics, em uma entrevista ao “Der Spiegel” (em versão francesa no “Courrier International”). A Alemanha deu o calote três vezes Esse adiamento permitiu que a República Federal da Alemanha vivesse um verdadeiro “milagre econômico”, o famoso Wirtschaftswunder, durante quatro décadas. E na hora de pagar a conta, Bonn deu um jeito de não honrar seus compromissos. O chanceler Helmut Kohl conseguiu de fato que o Tratado de Moscou de 1990 ratificando a reunificação não trouxesse a menção “tratado de paz”, uma das condições que figuravam no acordo de 1953 para possíveis pagamentos. “Era uma forma de continuar fugindo das reparações. “Na prática, o acordo de Londres de 1953 liberava os alemães da obrigação de pagar suas dívidas de guerra”, resume o jornal alemão. Em outras palavras, o atual campeão econômico da zona do euro deu o calote três vezes ao longo do século 20: nos anos 1930, em 1953 e em 1990. “A Alemanha não pagou suas reparações após 1990 - com exceção das indenizações pagas aos trabalhadores forçados”, diz Albrecht Ritschl ao “Der Spiegel”. “Os créditos obtidos à força nos países ocupados durante a Segunda Guerra Mundial e os gastos associados à Ocupação tampouco foram pagos. À Grécia também não.” Mas “ninguém na Grécia se esqueceu de que a República Federal devia sua boa forma econômica aos favores consentidos por outras nações”, ele diz. A República Federal indenizou a Grécia uma única vez: 115 milhões de marcos alemães (cerca de 58 milhões de euros). Foi em 1960, como parte de um acordo global com diversos países europeus e Israel. Desde então, a Alemanha acredita ter quitado sua dívida. Melhor ainda, ela não hesita em lembrar que ela “pagou desde 1960 cerca de 33 bilhões de marcos alemães em ajuda à Grécia, tanto de maneira bilateral como parte da União Europeia”. A isso se deve acrescentar que a Grécia recebeu mais de US$ 700 milhões da época como parte do Plano Marshall. Cohn-Bendit: uma questão “moral” Só que nesse período de crise continental, nem todo mundo, inclusive na Alemanha, se satisfaz com os imensos favores concedidos a Berlim após a guerra. Sufocados por suas dívidas e pressionados por Berlim a aplicar os planos de austeridade, há cada vez mais gregos querendo dividir parte de seu fardo com seus antigos invasores. A soma de 162 bilhões de euros mencionada vai bem além do pagamento do empréstimo forçado, estimado entre 54 bilhões e 81 bilhões de euros. Além disso, ela engloba os 108 bilhões avaliados durante a Conferência Internacional de Paz em Paris para a reparação dos prejuízos causados pelas tropas nazistas à infraestrutura econômica do país. Já Daniel Cohn-Bendit se coloca em um “plano moral”: “Os alemães, que se dizem virtuosos, acreditam que os gregos pecaram e que eles devem pagar. Ora, os que mais pecaram foram justamente os alemães, cuja dívida foi apagada porque os americanos viram ali um interesse estratégico. Por que não considerar que salvar a Grécia é algo estratégico, em vez de fazer esse país se pôr de joelhos?”. Fonte: IHU

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Alemanha pressiona Grécia a abrir mão da sua democracia

Quando o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, propôs que a Grécia adiasse suas eleições como condição para receber nova ajuda, chegamos ao ponto em que o sucesso não é mais compatível com a democracia.O comentário é de Wolfgang Münchau, publicado pelo jornal Financial Times e reproduzido pelo jornal O Estado de S. Paulo, 21-02-2012.
Shäuble quer prevenir uma escolha democrática "errada". Similar é a sugestão de que as eleições aconteçam, mas uma grande coalizão permaneça no poder, independentemente do resultado.
A zona do euro quer impor sua escolha de governo à Grécia, no que a transformaria em sua primeira colônia.
A origem da proposta é um dilema legítimo. Schäuble sabe que é arriscado liberar fundos antes de uma eleição. O que impede que o novo governo mude o acordo?
Não ajuda o fato da Grécia ter um histórico ruim de implementar políticas.
Mas, para superar a desconfiança, a zona do euro está procurando garantias inacreditavelmente extremas.
Uma coisa é os credores interferirem no gerenciamento de políticas de um país beneficiário. Outra é dizer a ele para suspender eleições. Na própria Alemanha, isso seria inconstitucional.
Falta de confiança é a razão pela qual o pacote grego foi adiado até o último minuto possível e porque as últimas propostas contêm pedidos tão perigosos, como a presença permanente dos credores e do FMI no país.
Logo, haverá mais austeridade e, em algum momento, alguém vai reagir.
A estratégia alemã parece ser tornar a vida na Grécia tão insuportável que os próprios gregos vão querer sair da zona do euro.
A chanceler alemã, Angela Merkel, certamente não quer ser vista com uma arma na mão.
É uma estratégia de suicídio assistido, uma tática extremamente perigosa.
Fonte: IHU

sábado, 18 de fevereiro de 2012

As pedras no caminho da RIO+20

Celso Dobes Bacarji*
“Um bilhão de pessoas estão na miséria plena. É a tragédia da civilização”. A frase é do professor e economista Ladislau Dawbor, dita nesta terça-feira (14/02) em palestra na reunião do Comitê Paulista para a Rio+20. Segundo ele, o grau de desigualdade no mundo está atingindo limites insuportáveis. “É o saco cheio planetário”.
Mas, para o professor Dawbor, a extrema desigualdade não está acontecendo por falta de recursos do Planeta. A produção atual de grãos, diz ele, abasteceria com 800 gramas diárias cada habitante da Terra. Apesar disso, morrem de fome 10 a 11 milhões de crianças por ano.
“Se a gente dividir o PIB mundial, que contabiliza US$ 60 trilhões, pelas 7 bilhões de pessoas teríamos uma renda per capita de mais de US$ 8 mil”. Com tanto esfomeado no mundo, esse dinheiro está na mão de quem? Para o professor Dawbor, está nas mãos das organizações econômicas globais.
O gráfico do desempenho da economia nos últimos trinta anos, segundo o professor Dowbor, tem quatro grandes linhas: a dos salários, que permaneceu estável, a da produtividade, que cresceu a 30 graus, mais ou menos, a dos lucros, que empinou pelo menos 60 graus e a dos lucros financeiros, que disparou na vertical.
O professor Dowbor cita um exemplo de lucro do mercado financeiro: “Vocês viram o lucro do Itaú em 2011? Superou o orçamento do programa bolsa família”. Em seguida, dá uma aula de como o dinheiro se multiplica na ciranda financeira internacional com um exemplo cristalino: o Lehman Brothers tinha uma alavancagem de 36 para 1, Isto é, para cada dólar que ele tinha, ele emprestou 36.
O pior é que os governos são os intermediários dessa tragédia. “Vou explicar para vocês rapidamente o que está acontecendo na Europa, agora. O Banco Central Europeu repassou dinheiro para os bancos a 1% de juros, para que eles não quebrassem, e agora os bancos estão emprestando esse dinheiro para a Espanha a 6%. Grande negócio”, observa Dowbor.
Citando dados do estudo “Rede do poder das corporações mundiais”, realizado pelo Instituto ETH, da Suíça, o professor alerta para a questão da governança mundial. Atualmente 737 grupos econômicos controlam 80% do PIB global. O núcleo desse poder está nas mãos de 147 grupos, com 40% de toda riqueza produzida. E um agravante, 75% desses 147 concentram seus recursos no mercado financeiro.
Outro ponto de estrangulamento para a sustentabilidade do Planeta, de acordo com o economista da PUC, é a questão da democratização do conhecimento. Para dar uma idéia do peso da tecnologia na economia atual, ele estima que pelo menos 95% do preço de um celular de última geração correspondem ao valor do conhecimento. A mão de obra e o material empregado ficam com os 5% restantes. Para a sustentabilidade, essa é uma questão vital, diz ele. Em sua opinião, é preciso que as tecnologias limpas sejam livres de patentes, ou não será possível chegar a uma economia verde, como querem os organizadores da Rio+20.
Por fim, as crises econômica e ambiental globais, na opinião de Ladislau Dowbor, exigirão o fortalecimento do poder local. Uma coisa que já vem acontecendo em muitas cidades do mundo. Na Espanha, algumas já voltaram a utilizar as pesetas, o antigo dinheiro nacional, no comércio local, como forma de fugir da crise do Euro. A prática tende a expandir e já se calcula que pelo menos 1,7 bilhão de euros pode voltar a circular em pesetas, no país.
Para o professor, há fortes bases políticas para o fortalecimento dos governos locais, abrindo um espaço colaborativo na sociedade. Ele acredita que cada vez mais será necessário que as comunidades decidam sobre a forma como serão geridos os recursos naturais locais. Passa por aí a solução de dilemas como o de Belo Monte, ou como o desmatamento da Amazônia, que é provocado pelo tripé da exploração madeireira, agrícola e pecuária, controlada por grandes grupos econômicos mundiais.
Para a perspectiva da Rio+20, uma Conferência que estabelece como foco a sustentabilidade ambiental e a inclusão social, a palestra de Dowbor representa o caminho das pedras. Seu raciocínio leva a conclusão de que será preciso: (1) promover a distribuição de riquezas, (2) estabelecer uma nova governança global, (3) regular o mercado financeiro, (4) democratizar o conhecimento e (5) fortalecer do poder local, para que a nossa civilização se salve de uma catástrofe.
Um detalhe: o professor Dowbor não é um grande otimista quando fala das perspectivas dos acordos globais capitaneados pela ONU. Para ele, a partir do fortalecimento do poder local, é mais fácil chegar a um acordo direto entre nações, ou grupos de nações, do que esperar um consenso global. A partir dessa ótica, o que esperar da Rio+20?
*Celso Dobes Bacarji é jornalista e atua na área ambiental.
Fonte: Mercado Ético

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Monsanto é condenada na França por intoxicação de agricultor



Apicultores franceses protestam em frente à sede da Monsanto, nos arredores de Lyon, em foto do dia 20 de janeiro de 2012.
Apicultores franceses protestam em frente à sede da Monsanto, nos arredores de Lyon, em foto do dia 20 de janeiro de 2012.
REUTERS/Robert Pratta

RFI
O agricultor francês Paul François, que havia, sozinho, entrado na Justiça francesa com um processo inédito contra o grupo americano da indústria agroquímica Monsanto, saiu vitorioso nesta segunda-feira. A empresa deverá pagar uma indenização por danos causados pela inalação de um herbicida.

"A Monsanto é responsável pelos danos causados a Paul François após a inalação do produto Lasso e deverá indenizá-lo pelo prejuízo após uma perícia médica", considerou o Tribunal Superior de Lyon.
Hoje, o agricultor tem 47 anos e é considerado inválido. O incidente aconteceu em 2004, quando ele trabalhava como produtor de cereais. Ao abrir o contêiner de um pulverizador, Paul François recebeu no rosto vapores do herbicida produzido pelo gigante da indústria agroquímica. Em seguida, ele teve náuseas e outros sintomas, como gagueira, vertigem e dores de cabeça, que o obrigaram a interromper suas atividades por quase um ano.
Em maio de 2005, um ano depois de ter inalado o herbicida, análises médicas demonstraram que estavam presentes em seu organismo traços de monoclorobenzeno, um potente solvente que faz parte da composição do Lasso junto com o produto ativo, o anacloro. Três anos mais tarde, o agricultor, que se tornou um porta-voz das vítimas de pesticidas, fez com que a Justiça reconhecesse seus transtornos como doença profissional e posteriormente abriu o processo contra a Monsanto.
Segundo o advogado do agricultor, a Monsanto faltou com sua "obrigação de informação", ao não detalhar a composição do produto na etiqueta e ao não advertir sobre os riscos de inalação, nem sobre a necessidade de utilizar uma máscara ao manipulá-lo. Na França, o produto Lasso só foi retirado do mercado em 2007, depois da proibição no Canadá, Inglaterra e Bélgica.
Fonte:RFI