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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Obrigado Lourival ... o adeus da CPT Triânglo Mineiro

 


No dia 11 de junho, faleceu Lourival Soares, histórico agente da CPT no Triângulo Mineiro, das CEBs, lutador do povo e referência na luta pela Reforma Agrária em Minas Gerais. Lourival era assentado de Reforma Agrária no PA Rio das Pedras, no município de Uberlândia, MG. Lorival foi protagonista da primeira ocupação de terras para fins de Reforma Agrária em Minas Gerais, quando em 1983, um grupo de famílias ocuparam uma área no município de Ituiutaba, naquele mesmo estado. Esta ocupação ficou conhecida com o nome Roça Comunitária, fruto da convivência nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), acompanhadas pelos Padres Oblatos de Maria, junto a CPT. 

Lorival dedicou sua vida à luta pela terra, pelos direitos dos trabalhadores e pela organização popular. Sempre ligado às CEBs e a uma vivência concreta da fé. Militante do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), deixou um legado de compromisso com a justiça social, a resistência e a construção de um mundo mais digno e solidário. Sua memória permanece viva nas comunidades e nas lutas que ajudou a fortalecer.

A seguir um tributo um homenagem de gratidão ao Lourival.

Obrigado Lourival,

Por sua espiritualidade vivida no dia a dia da história. Esta foi a vida do nosso irmão de fé e de lutas, Lourival. Quantas coisas aprendemos com seu testemunho. Mais do que tudo, Lourival, nos ensinou que a cruz e a ressurreição de Jesus são experimentadas palpavelmente no cotidiano da vida. A terra dominada, nas mãos de uns poucos, os latifúndios ... o povo sem o direito a terra, o acúmulo dos proprietários e a miséria que perambula pelos campos. Lourival nos mostrou que tudo isso são cruzes construídas através da história de modelos econômicos e políticos impostos, pelo chamado de desenvolvimento capitalista. Aprendemos com o Lourival, que ocupar a terra, resistir no chão, viver em comunidade como irmãos, irmãs e a natureza, são já aqui nesta vida sinais da ressurreição.

Lourival, te conheci pela primeira vez na Roça Comunitária em Ituiutaba, nos idos do início dos anos 1980. Que força, que testemunho, junto com companheiros e companheiras, vivendo o essencial do cristão, ter tudo em comum, dividir os bens com alegria.

Dai para frente te conheci também, nas beiras de tantas cercas rompidas pela força dos sem-terra; nos caminhos das Romarias da Terra cantando para os romeiros na carroceria do caminhão; nas vivencias dos círculos bíblicos das CEBs; nas longas e alegres rodas de prosas e conversas em acampamentos e assentamentos; na construção contínua do partido dos trabalhadores, da luta sindical e dos movimentos sociais. 

Lourival, da Pastoral da Terra, sempre vivendo tudo com coragem, otimismo lúcido e alegria fraterna, sem perder a ternura e a vivência amorosa com a própria família.

Lourival, agora você está no aconchego do colo de Deus, daquele que tudo criou. Lourival, além de tudo esse seu legado imenso, de você fica sua visão e a vivência de que o mundo é uma grande Roça de Deus. Você nos ensinou que o mundo é uma Grande Roça Comunitária, terra de Deus, terra de todos, de todas e de tudo da natureza. Mundo, Roça Comunitária onde se cultiva e cuida, com amor e carinho, justiça e paz. 

Obrigado, Lourival, irmão de fé e de luta, você está mais do que nunca vivo. Lourival, nosso irmão cristão.

Nossa eterna gratidão, 

Frei Rodrigo Péret


segunda-feira, 28 de julho de 2025

O Tempo é Agora: Fé, Resistência e Justiça rumo à COP30

 

Plenária da Pré-COP (Foto Frei Pedro Neto)

A declaração final da Pré-COP Leste reúne o clamor e o compromisso profético de representantes dos Regionais Leste 1, 2  e 3  e do Sul 1 da CNBB diante da urgência climática e da injustiça socioambiental. Realizado em Belo Horizonte, o encontro reforça a centralidade da conversão ecológica, denuncia falsas soluções e convoca a Igreja a assumir uma postura ativa e coerente na defesa da vida e dos territórios. Esta é uma voz coletiva que aponta caminhos de esperança e justiça rumo à COP30 e à Cúpula dos Povos, em Belém do Pará.

DECLARAÇÃO FINAL - PRÉ-COP LESTE

Conversão ecológica, resistência às falsas soluções e compromisso com a justiça socioambiental 

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”. Mt5.6


Reunidos em Belo Horizonte, Minas Gerais, no Colégio Marista Dom Silvério, entre os dias 25 e 27 de julho de 2025, representantes dos Regionais Leste 1, Leste 2, Leste 3 e Sul 1 da CNBB, abrangendo os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, assumimos coletivamente o chamado à conversão ecológica, à resistência às falsas soluções climáticas e à construção de um compromisso profético em preparação à COP 30, que ocorrerá em novembro de 2025, em Belém do Pará.


Diante do colapso climático global, que atinge de forma mais dura os pobres e territórios vulnerabilizados, reconhecemos o fracasso das últimas Conferências do Clima em oferecer soluções concretas. O aquecimento global já ultrapassa 1,5°C, e os acordos internacionais, dominados por interesses econômicos, são insuficientes diante de uma crise sistêmica que ameaça toda a vida. Vivemos um mundo atravessado por múltiplas crises, com guerras e violências, cujo ápice se revela no genocídio em Gaza, expressão extrema de nossa crise civilizatória.


Em nossa região Sudeste do Brasil, o modelo econômico agrava a degradação dos biomas, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, manguezais e zonas costeiras, através do avanço urbano-industrial, da mineração, do agronegócio, da exploração do gás e do petróleo, do uso indiscriminado do agrotóxico e da especulação imobiliária. A contaminação das águas, a perda da biodiversidade, a expulsão de comunidades e a periferização tornam visível a injustiça ambiental e social.


A partir de duas mesas de painéis, uma sobre a Crise Climática e a Justiça Socioambiental e outra sobre a Ruptura com o Modelo Econômico Predatório e Falsas Soluções, nos organizamos em 5 grupos de trabalho para aprofundar cinco eixos da nossa Pré-COP: 1 - Soberania dos Povos, Direitos Territoriais e Justiça Socioambiental; 2 - Justiça Climática e Reparação Histórica; 3 - Ruptura com o Modelo Econômico Predatório, Não à Economia Verde; 4 - Descarbonização e Falsas Soluções; 5 - Centralidade da Vida, Dignidade Humana e Direitos da Terra.


Os grupos convergiram na compreensão de que a crise climática está profundamente ligada, ao sistema capitalista, à injustiça social, ao racismo ambiental e ao extrativismo predatório. Criticaram a chamada economia verde, a mercantilização da natureza e as falsas soluções tecnológicas. Propuseram, em contrapartida, uma ruptura com o modelo econômico vigente e a construção de uma nova economia baseada na justiça socioambiental, na agroecologia e nos saberes ancestrais. Reivindicaram a soberania alimentar e energética, bem como políticas públicas construídas a partir das comunidades e a responsabilização dos grandes poluidores. Destacaram também a necessidade de coerência institucional, incluindo uma atuação profética da Igreja, que deve assumir papel ativo, educativo e articulador nas lutas por direitos, territórios e dignidade.


Denunciaram as falsas soluções, como os mercados de carbono, os megaprojetos de energia e a expansão da mineração, que aprofundam desigualdades e ameaçam territórios sem enfrentar as causas estruturais da crise. A crise climática é inseparável da injustiça social, do racismo ambiental e do extrativismo. Seus impactos recaem sobre os povos indígenas, quilombolas, comunidades periféricas, camponesas, ribeirinhas e tradicionais. É urgente responsabilizar juridicamente os grandes emissores, corporações e governos, e exigir que os compromissos assumidos nas COPs tenham força legal e sanções reais.

 

Nós bispos, padres, diáconos, religiosos e religiosas, leigas e leigos, presentes nesta Pré-COP, reafirmamos, com esperança, a ecologia integral como eixo da nossa missão evangelizadora, tendo como referências centrais a encíclica Laudato Si’ e a exortação Laudate Deum. Anunciamos a conversão ecológica como caminho de fé e espiritualidade para um mundo novo. Caminho de irmandade universal entre toda criação, como nos convida Francisco de Assis, no Cântico das Criaturas. Propomo-nos a fortalecer as CEBs, as Pastorais Sociais e a Pastoral da Ecologia Integral, com a presença efetiva da Igreja nos territórios e na escuta e convivência ativa junto às populações vulnerabilizadas. A formação de lideranças religiosas e comunitárias deve ser prioridade, que leve ao comprometimento, articulando espiritualidade, saberes tradicionais, ciência e consciência política.

 

A Igreja deve se manter coerente entre seu discurso e sua prática, evitando recursos e alianças com empresas poluidoras e adotando medidas sustentáveis em suas estruturas. Reafirmamos sua missão profética diante do Estado e do mercado, com atuação firme nas políticas públicas, conselhos, conferências e demais espaços de participação popular, inclusive oferecendo suporte jurídico às lideranças. É compromisso urgente enfrentar o racismo ambiental e as desigualdades estruturais que atingem especialmente povos indígenas, quilombolas, comunidades periféricas e ribeirinhas.

 

Destacamos a proposta dos Regionais aqui presentes levarem essas diretrizes para a Assembleia dos Bispos, com o objetivo de tornar a Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração em uma comissão nacional permanente, e que se constitua em todos os regionais da CNBB.

 

Defendemos políticas públicas estruturantes, com participação social, que garantam moradia, água, saneamento e saúde às comunidades em risco socioambiental, assegurando também os direitos da natureza. É essencial atuar nos Planos de Saneamento, Diretores e de Mobilidade Urbana, promovendo justiça espacial e o direito à permanência nos territórios. Rejeitamos propostas como o “PL da devastação”, a lógica da “escala de trabalho 6x1”, e defendemos leis populares, como a “taxação das grandes fortunas”, bem como leis voltadas à justiça climática. Uma ação urgente passa pelo combate ao desmatamento, com foco na preservação dos biomas, e na contenção da urbanização predatória e dos grandes empreendimentos. A preservação das florestas é compromisso espiritual, territorial e ambiental, não financeiro, em diálogo com os povos que nelas vivem.

 

Em contraste ao modelo capitalista que devasta e aprofunda a crise climática, apontamos para a vida que prevalece apesar de tudo o que acontece.

 

Anunciamos os modos de vida e os saberes dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que representam formas sustentáveis e harmoniosas de habitar a terra, baseadas no cuidado com a natureza, na coletividade e no respeito aos ciclos da vida. Identificamos, ainda, sinais concretos de esperança presentes nos territórios. Alternativas comunitárias e coletivas, baseadas na economia do cuidado, na agroecologia, na agricultura familiar, na economia solidária, no decrescimento. Expressões para nós de uma Economia de Francisco e Clara. Essas comunidades cultivam uma relação de reciprocidade com os territórios, oferecendo caminhos concretos para a justiça socioambiental e a regeneração da vida. Comprometemo-nos com organizações populares e as iniciativas comunitárias autônomas, como cooperativas e redes de solidariedade.

 

No cenário internacional, exigimos compromissos vinculantes nas COPs, o cancelamento das dívidas externas e a responsabilização dos países historicamente poluidores.

 

Confiamos aos nossos Regionais da CNBB, sob as bênçãos de Deus, a continuidade dos trabalhos.


Que a COP 30, em Belém, seja um marco de escuta do grito da Terra e dos Pobres, de denúncia profética das estruturas de morte e de anúncio de novos caminhos para uma sociedade justa e com respeito à natureza. Saudamos, com esperança, a Cúpula dos Povos, onde movimentos e organizações sociais nacionais e internacionais se mobilizam por alternativas reais e por justiça climática. Que as vozes dos territórios sejam ouvidas e respeitadas nas negociações. O tempo é agora. A conversão ecológica é urgente. A justiça climática é inegociável.


             “Trabalhem por uma justiça ecológica, social e ambiental”Papa Leão XIV (Mensagem ao II Encontro Sinodal de Reitores de Universidades para o cuidado da Casa Comum realizado na Puc do Rio de Janeiro - maio de 2025).


Pela intercessão de Nossa Senhora da Abadia das águas sujas e de São Francisco de Assis 

De Belo Horizonte a Belém: seguimos em comunhão, esperança e luta. 

Belo Horizonte, 27-07-2025.



quarta-feira, 4 de junho de 2025

De Roma à periferia de Uberlândia: o gesto profético de Leonardo Boff

Cozinha Comunitária Assentamento Maná, Uberlândia.  Foto: Artur

Cinco dias após receber o Prêmio Laudato Si’ em Roma por seu compromisso com a ecologia integral, o teólogo Leonardo Boff desembarcou no Brasil e seguiu direto para o assentamento Maná, na periferia de Uberlândia (MG). Esse gesto simples, mas profundamente simbólico, diz muito sobre a coerência de uma vida inteira dedicada à fé encarnada, à justiça socioambiental e à opção pelos pobres.

Foto: Artur

Boff foi estar com o povo que luta todos os dias por dignidade, terra, moradia e alimento. Na cozinha comunitária do assentamento Maná, sentou-se para conversar com lideranças de nove cozinhas comunitárias que, em Uberlândia, formam uma rede de solidariedade ativa, resistência urbana e cuidado com a vida. O tom da roda de conversa era de esperança e resistência. Boff e Marcia escutaram, partilharam e reafirmaram a importância de manter acesa a chama da luta.

O assentamento Maná nasceu em 2013, fruto da ocupação de uma área por famílias sem teto. Desde então, as famílias enfrentam o desafio da regularização fundiária, já parcialmente aprovada, mas ainda incompleta. A comunidade resiste, cresce e se fortalece — e as cozinhas comunitárias são parte essencial dessa construção coletiva. 

Mais do que distribuir alimentos, as cozinhas comunitárias de Uberlândia são verdadeiros núcleos de organização comunitária. Ali se prepara comida, sim — mas também se cozinha a solidariedade, se alimenta a esperança e se planta a transformação social. São espaços que unem o campo e a cidade. Com a participação de Cooperativas de Alimentos da Reforma grária conecta assentamentos de reforma agrária, áreas de agricultura familiar com os bairros e ocupações urbanas onde a fome ainda machuca.

As cozinhas comunitárias são geridas por organizações da própria base e contam com o apoio de importantes parcerias, como a Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade (AFES), a Central dos Movimentos Populares (CMP), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Juntas, essas iniciativas garantem o direito à alimentação saudável, fortalecem a soberania alimentar e promovem formação e empoderamento para populações em situação de vulnerabilidade. Essas cozinhas são verdadeiros territórios de resistência e cuidado, onde a justiça socioambiental se concretiza diariamente. 

Ao visitar esse espaço, Leonardo Boff não apenas prestou solidariedade. Ele reafirmou, com o corpo presente e o coração atento, aquilo que sempre defendeu em sua teologia: a centralidade dos pobres, a sacralidade da Terra, a espiritualidade comprometida com a vida.

Boof recebendo o premio em Roma

A homenagem recebida por Boff em Roma, no dia 30 de maio, foi significativa. O Prêmio Laudato Si’, que foi entregue pela Ordem dos Frades Menores na Pontifícia Universidade Antonianum, reconhece sua contribuição à ecologia integral — um conceito que une cuidado com a Casa Comum e justiça social. 

Na visita ao assentamento Maná esse reconhecimento ganhou carne, chão e povo. Em tempos de crises múltiplas — climática, social, espiritual — o gesto de Boff nos lembra que o compromisso com a ecologia integral não se mede apenas por discursos, mas pela escolha dos lugares e dos rostos com os quais se caminha. Da solenidade na Universidade Pontifícia Antonianum em Roma, à cozinha de uma ocupação em Uberlândia, ele nos mostra o que significa, viver com os pés na terra e o coração no Evangelho.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Leonardo Boff recebe prêmio da Ordem Franciscana por Ecologia Integral

 

Leonardo Boff e Frei Massimo Fussarelli Ministro Geral dos Franciscanos

No dia 30 de maio de 2025, a Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, foi palco de um momento histórico e profundamente simbólico para toda a Família Franciscana: o teólogo brasileiro Leonardo Boff foi homenageado pela Ordem dos Frades Menores (OFM), franciscanos, por sua contribuição excepcional à causa da ecologia integral. Ele recebeu esse premio das mãos do Ministro Geral dos OFM, o Frei Massimo Fussarelli.

Esse reconhecimento, concedido em ocasião solene, destaca-se não apenas pela sua relevância simbólica, mas também pela autoridade espiritual e profética que carrega. Em tempos de múltiplas crises – climática, social, espiritual e civilizatória – a figura de Boff emerge como um dos grandes porta-vozes da esperança ativa, da fé encarnada e da justiça cósmica.

Homenagem na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma,

Um reconhecimento franciscano

A homenagem integra uma celebração ampla e significativa: os 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, e os 10 anos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. Em honra a esses dois marcos, a Ordem dos Frades Menores decidiu reconhecer, com distinção especial, cinco pessoas e organizações em todo o mundo que se destacam por seu compromisso concreto com a ecologia integral.

Entre os homenageados estão:

  • Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, figura de referência no diálogo inter-religioso e na defesa da Criação;

  • A REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica), símbolo de resistência e esperança nos territórios ameaçados da Amazônia;

  • O Movimento Laudato Si’, expressão global da conversão ecológica e da mobilização profética;

  • E, com profunda reverência, Leonardo Boff, cuja vida e obra têm iluminado o caminho da ecoteologia, da libertação e da espiritualidade franciscana.

Boff: teologia com raízes na terra e olhos no céu

Leonardo Boff, hoje professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é autor de inúmeras obras de referência mundial, como "Grito da Terra, Grito dos Pobres" — uma síntese poderosa de ética, ecologia e espiritualidade — e "Jesus Cristo Libertador", marco fundador da teologia da libertação. Com sua linguagem acessível e profunda, Boff denuncia as estruturas de dominação e propõe um novo pacto de convivência entre os seres humanos, a Terra e o Divino.

Inspirado pela mística de Francisco de Assis, Boff resgata a fraternidade universal não como um ideal romântico, mas como um chamado urgente à ação ética, política e espiritual. Sua obra aponta para a necessária superação do paradigma tecnocrático e consumista, propondo em seu lugar uma cultura do cuidado, da simplicidade e da reverência à vida.

A Casa Comum como horizonte franciscano

O prêmio da OFM a Leonardo Boff não é apenas uma homenagem pessoal — é o reconhecimento de uma trajetória que ecoa o espírito de Francisco: a escuta dos pobres, o amor pelas criaturas, a crítica profética ao poder que destrói e o anúncio de um novo modo de habitar o mundo.

Neste tempo sinodal e de grave emergência ecológica, a voz de Boff segue sendo um farol para a Igreja, para os movimentos sociais e para todos que buscam integrar espiritualidade, justiça e compromisso ecológico.

Ao reconhecer Leonardo Boff, a Ordem dos Frades Menores reafirma o chamado de São Francisco: "Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas!" — e nos convida, mais uma vez, a sermos guardiões da vida e da Casa Comum.

domingo, 22 de setembro de 2024

Conselho Mundial de Igrejas: Terra como Bem Comum, Não como Mercadoria

 

Limuru, Quênia (Foto Frei Rodrigo Péret)

O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) realizou uma Consulta em agosto de 2024 no Quênia sobre o tema "Terra como Bem Comum, Não como Mercadoria". O evento reuniu teólogos, ativistas e líderes religiosos, de vários continentes, para discutir a importância de proteger a terra como um bem comum, destacando lutas em diversas partes do mundo, incluindo as lutas contra o avanço da mineração, no Brasil, onde a chamadas energias limpas exigem mais extração de minerais e terras raras. A resistência contra projetos de compensação de carbono em Serra Leoa e lutas de comunidades indígenas e marginalizadas, como o movimento Land Back Lane no Canadá. A Consulta resultou em um comunicado teológico, que convoca as igrejas a adotarem uma postura ativa na defesa dos territórios e propõe ações concretas, como a transformação de terras da igreja em espaços comunitários, promovendo justiça social e econômica , bem como e a investigação de casos de apropriação indevida de terras, reforçando o compromisso das igrejas em buscar justiça redistributiva e reparadora.

A seguir leia o Comunicado Teológico:

Consulta NIFEA sobre Terra como Bem Comum, não como Mercadoria 
28-30 de agosto de 2024, Limuru
Comunicado Teológico sobre Terra como Bem Comum

Vindos de terras diversas, belas e ao mesmo tempo afligidas na África, Ásia-Pacífico, América Latina e Caribe, Oriente Médio, Europa e América do Norte, nós – teólogos, ativistas, acadêmicos, estudantes e trabalhadores da igreja – nos reunimos de 28 a 30 de agosto de 2024 na Universidade St. Paul em Limuru, Quênia, para a Consulta sobre “Terra como Bem Comum, não como Mercadoria” da Nova Arquitetura Financeira e Econômica Internacional (NIFEA). Enraizado em uma visão de uma Economia da Vida, o NIFEA é uma iniciativa do Conselho Mundial de Igrejas, a Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas, a Federação Luterana Mundial, o Conselho Mundial Metodista e o Conselho para a Missão Mundial.

Tirando sabedoria e força de nossas crenças e nossa conexão com a terra, examinamos os sistemas econômicos e sociais injustos que têm separado as pessoas da terra e degradado a própria terra, que é a base de toda a vida. Reconhecemos que a terra tem dignidade e direitos inerentes em si mesma, não apenas porque tem valor para os seres humanos. No entanto, também compreendemos que a criação, incluindo os seres humanos, e a terra têm uma relação profundamente simbiótica. Além disso, reconhecemos que a terra não existe por si só, mas está entrelaçada com toda a matéria do universo.

Em nossos tempos, no entanto, a terra está sendo cada vez mais reduzida a uma mercadoria. Está sendo abstraída do restante da criação, à qual está integralmente conectada. No contexto atual, a terra é vista como propriedade privada; a posse e o controle sobre ela geram poder econômico, político, cultural e simbólico.
Portanto, discutimos caminhos e estratégias para construir um entendimento de terra para o bem comum, em vez de para o lucro. Oferecemos este comunicado teológico e um quadro de advocacia como nossa reflexão coletiva e compromisso de promover visões e políticas econômicas alternativas que reconheçam a terra como bem comum e não como mercadoria.

Discernimos que...

Sob a influência do capitalismo globalizado, a terra tem sido cada vez mais retirada da posse comum e privatizada para fins de lucro. Tornou-se um ativo abstrato para investimento especulativo. Em nome de uma “economia verde” e impulsionado pelo desenvolvimento de culturas de agrocombustíveis, esquemas de compensação de carbono e pela demanda por minerais raros necessários para tecnologias de geração de energia de baixo carbono, o apropriação de terras intensificou-se, despojando comunidades e até mesmo gerações futuras; fomentando fome, violência e violações de direitos humanos; e produzindo “zonas de sacrifício” de destruição ambiental, aprofundando a injustiça climática. Cada vez mais vemos terras comuns sendo cercadas. Nas áreas rurais, os bens comuns utilizados para a pastagem e agricultura de subsistência estão sendo usurpados por grandes corporações ou projetos de desenvolvimento. Nas áreas urbanas, há um encolhimento dos espaços públicos à medida que estes estão sendo comercializados. Em vez de ser o espaço de onde a vida emerge e prospera, a terra tornou-se reduzida a propriedade privada da qual se deriva ganho financeiro. Reconhecemos a conivência de corporações multinacionais, elites locais e o estado em impulsionar essa agenda.

As raízes dessa questão foram rastreadas até o colonialismo, que visava afirmar a posse e o controle sobre a terra. As potências coloniais frequentemente utilizavam meios violentos e justificavam suas ações utilizando a teologia cristã. A terra era considerada "terra nullius", como ‘vazia,’ ignorando as populações nativas e indígenas, bem como a fauna e flora que viviam na terra. A terra e seus habitantes foram conquistados e subjugados, e as populações locais foram frequentemente deslocadas, forçadas a trabalhar para os colonos ou aniquiladas para se apoderar do controle.

O legado do colonialismo continua a se manifestar na apropriação contemporânea de terras de comunidades indígenas e nativas, tratando a terra como um recurso a ser explorado, em vez de como um parente ou algo com quem se deve conviver. Essa visão contrasta fortemente com a crença indígena de que os seres humanos pertencem à terra, e não o contrário. Durante uma visita de imersão, encontramos um grupo de ativistas indígenas Ogiek que falaram sobre sua luta para recuperar suas terras, preservá-las e viver suas vidas em relação com a Terra. Eles perguntaram: Quando nossa terra natal será restaurada? Eles e os participantes que compartilharam exemplos de apropriação de terras e exploração expressaram o clamor por justiça e desafiaram as igrejas a romperem o silêncio e se posicionarem ao lado dos marginalizados.

Reconhecemos que a posse e o controle da terra estão profundamente ligados ao patriarcado e à raça. Sob o controle patriarcal, a terra tem sido possuída e controlada por homens, embora as mulheres estejam frequentemente envolvidas em práticas agrícolas de subsistência que alimentam famílias e comunidades. Em comunidades ao redor do mundo, as mulheres são marginalizadas quando se trata de acesso e tomada de decisões sobre a terra. Além disso, seu conhecimento está sendo simultaneamente roubado e subvalorizado. Da mesma forma, também encontramos um elemento racial na questão da terra, com raças dominantes tirando o controle da terra das comunidades racializadas que oprimem. Em muitos casos, a degradação da terra e a expulsão das populações dela têm sido a causa de migração e migração forçada.

Em meio às deslocações sociais e ecológicas geradas pela transformação da terra em mercadoria, surgiram movimentos de resistência contra a colonização, justiça fundiária e proteção social e ecológica. Movimentos rurais, urbanos e indígenas têm estado na linha de frente dessas lutas. Nós celebramos particularmente as histórias de resistência e esperança que compartilhamos e ouvimos, incluindo, entre outros, a Black Farmer's Food Security Network nos Estados Unidos, ações de igrejas pela justiça alimentar e climática em Serra Leoa, o Land Back Lane e movimentos sociais que viram os povos indígenas e as mulheres se mobilizarem por direitos à terra e florestas no Canadá e na Índia.

Afirmamos... 

Deus criou a terra e a chamou de boa. A terra é boa em si mesma e, na narrativa bíblica da criação, ela é boa mesmo antes dos seres humanos serem criados. No entanto, a terra também é valorizada por sua fecundidade e pela abundância que traz para a vida não humana e humana. Juntamente com os oceanos, rios e lagos, é o espaço onde Deus age e o lugar dentro do qual a maioria da vida encontra seu solo e existência. No entanto, não queremos romantizar a terra ou a natureza como benevolentes; entendemos que também podem ser violentas e perigosas para muitas comunidades vulneráveis, especialmente em uma era de mudanças climáticas induzidas pelo ser humano.

“O Senhor é dono da terra e de tudo o que nela existe” (Salmo 24:1). Isso desafia a noção de propriedade da terra, que entra em conflito com a ideia bíblica de que os humanos são meros guardiões da Terra. No entanto, também precisamos reconhecer a complexidade desse texto. Elevar um direito divino acima dos direitos humanos levou à violação dos direitos das pessoas por aqueles que se veem como os eleitos. Vemos que isso acontece até hoje, no contexto da Palestina, onde o direito divino está sendo invocado para confiscar terras dos palestinos. Além disso, verificamos que a ideia de que a terra pertence a Deus foi historicamente invocada pelas potências coloniais para reivindicar terras sob o pretexto de realizar uma missão divina. À luz disso, os participantes foram lembrados da necessidade de desafiar teologias e práticas enganosas. Reconhecemos ainda que a linguagem e as teologias que falam dos seres humanos como guardiões e administradores caem em noções hierárquicas que elevam os seres humanos e suas necessidades e prioridades acima das da terra e da criação não humana. Essas teologias nem sempre foram úteis e, às vezes, até prejudiciais e destrutivas.

As leis do Jubileu e do Sábado regem a visão bíblica da terra; essas leis não apenas prescrevem descanso para a terra, mas também exigem a devolução da terra àqueles de quem ela foi tomada. Na visão bíblica, todos deveriam ter acesso à terra, e ela não era reservada apenas aos poderosos. Em vez disso, a terra estava inserida em uma relação de aliança entre as pessoas e Deus, e quebrar essa aliança era considerado um pecado contra Deus. A Bíblia mostra que nem mesmo os reis tinham o direito de tirar a terra de seus súditos.

Reconhecemos Mateus 5:5, que ressoa com o Salmo 37, dizendo: “Bem-aventurados os humildes, pois eles herdarão a terra”. A terra não é destinada aos poderosos; somos lembrados repetidas vezes de que os altivos serão derrubados e humilhados, enquanto os humildes serão satisfeitos. Reconhecemos que a terra é destinada aos pobres e despossuídos, e que são eles, e não os poderosos, que herdarão a terra.

Compreendemos... 

Que a terra tem sua própria agência e dignidade. As comunidades indígenas nos ensinam que os humanos e a terra estão profundamente conectados. Não podemos imaginar a vida sem a terra e vice-versa. A terra não é algo que deve ser possuído e explorado para acumulação de riqueza. Ao contrário, ela é um lar comum para toda a criação, a ser preservada para a manutenção da vida. A terra desempenha um papel importante na regulação do clima, dos sistemas hídricos e de outros processos ecológicos essenciais para a vida.

Reconhecemos que só poderemos mudar este sistema econômico prejudicial se ouvirmos os mais oprimidos. Somos chamados não apenas a ouvir e sermos guiados pelas vozes dos empobrecidos e despossuídos, mas também a ouvir a terra. Jó 12:8 nos lembra de falar com a Terra, e ela nos ensinará. Somos chamados não apenas a tratar a Terra com cuidado, mas também a aprender com ela.

Comprometemo-nos a... 

Como igrejas e participantes da Consulta NIFEA sobre “Terra como Bem Comum, não como Mercadoria,” arrependermo-nos de nossas teologias e ideologias antropocêntricas que veem a terra como utilitária e servindo aos interesses humanos, em vez de ter direitos e dignidade inerentes. Com espírito de humildade, comprometemo-nos a ouvir a terra.

Confessamos nossa cumplicidade na apropriação de terras. Comprometemo-nos a documentar casos de apropriação de terras, a estar presentes para as comunidades afetadas e a compartilhar suas histórias de resistência.

Comprometemo-nos a conscientizar e fomentar a reflexão espiritual sobre a terra como bem comum.

Comprometemo-nos a ser comunidades proféticas de resistência capazes de falar a verdade ao poder e denunciar a injustiça fundiária.

Comprometemo-nos a trabalhar por justiça redistributiva, reparadora e restauradora, e particularmente por ações e solidariedade com agricultores, mulheres e comunidades indígenas que foram negadas o acesso à terra que lhes é de direito.

Chamamos... 

Para ações concretas das igrejas, como converter terras de propriedade da igreja em espaços comuns e hortas comunitárias para o bem público; 

Para que as igrejas realizem missões de apuração de fatos sob a perspectiva dos despossuídos, incluindo a busca por publicar a própria cumplicidade das igrejas na apropriação de terras; 

(Leia o mesmo texto original em Inglês)

Fonte: World Council of Churches


quinta-feira, 4 de julho de 2024

Colonialismo energético, território de sacrifício. A real Face da Transição Energética no Vale do Jequitinhonha


Na segunda década do século XXI, o discurso sobre mudanças climáticas e a transição para uma energia dita coma limpa, promovido por corporações e governos, esconde um aumento crescente e devastador da exploração de territórios. Isso ocorre tanto por meio de projetos minerários quanto de produção de energia e infraestrutura. Portanto, é falso afirmar que se trata de uma verdadeira transição para energia limpa. Na realidade, trata-se de mais mineração nos territórios, causando sérios danos ecológicos e sociais em vários países, especialmente no Sul Global.

Ainda, sob a fachada de progresso e desenvolvimento, as corporações e os governos promovem falsas promessas de um futuro melhor. No entanto, a exploração de novas fronteiras minerárias e de outros grandes projetos do capital é apenas mais um capítulo de uma longa história de promessas vazias e exploração contínua. Um relatório do Banco Mundial destaca que para alcançar uma grande capacidade de “energia renovável” exigirá um aumento drástico na extração minerária de materiais como o lítio, agravando a crise de sobre-extração e seus impactos negativos inerentes, como o desmatamento, destruição de solos, perda de biodiversidade, contaminações e danos aos recursos hídricos. 

O colonialismo energético está por trás desses conflitos, perpetuando um modelo econômico extrativista que beneficia poucos em detrimento das populações locais e da destruição de muitos territórios que são decepados e incorporados na “máquina do lucro”. O capitalismo em crise busca se reconfigurar, agora com o mito da energia e produção verde. 

No Vale do Jequitinhonha, o chamado colonialismo energético se manifesta pela desapropriação, fragmentação e transformação de terras e territórios através de megaprojetos de mineração. Esse modelo de exploração imposto à região é o mesmo que se espalha por toda Minas Gerais. Não existe mineração verde ou sustentável. A mineração consiste em arrancar o minério da terra, exportá-lo, às vezes processa-lo e deixar um rastro de destruição. Essa prática causa profundos impactos nas práticas e valores culturais, ecológicos e agrícolas, perpetuando um modelo econômico extrativista que beneficia poucos no Norte Global, em detrimento das populações locais.

Essa é uma roupagem nova para um processo já visto muitas vezes no Vale do Jequitinhonha. Ciclos de exploração econômica têm se repetido desde o século XVIII, com as riquezas sendo constantemente extraídas em benefício de poucos. Desde a mineração de pedras preciosas, a criação de grandes fazendas e monocultivos de eucalipto e a produção de energia com a barragem de Irapé.  Na atual busca pela extração minerária do lítio vemos a usurpação de terras sob os velhos pretextos de "desenvolvimento" e "progresso". Desta forma, os habitantes do Vale têm sido sistematicamente prejudicados e marginalizados.

A Comissão Episcopal Regional para Ecologia Integral e Mineração do Regional Leste 2 da CNBB e as instituições abaixo assinadas denunciam veementemente essas práticas predatórias e reitera que as promessas de desenvolvimento e riqueza para a região não mais nos convencem. As comunidades tradicionais e os povos do Vale do Jequitinhonha continuarão a resistir e lutar pela justiça e pelo reconhecimento de seus direitos.

Belo Horizonte, 04 julho 2024

Comissão Episcopal Regional para Ecologia Integral e Mineração do Regional Leste 2 da CNBB

Rede Igrejas e Mineração Minas Gerais

Comissão Pastoral da Terra

Caritas Brasileira

Conselho Indigenista Missionária

Conselho Pastoral dos Pescadores

Comissão de Meio Ambiente da Província Eclesiástica de Mariana

Serviço Interfraciscano de Justiça Paz e Ecologia

Fórum Permanente em Defesa da Bacia do Rio Doce

Instituto Padre Nelito Dornelas

Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade



quinta-feira, 9 de maio de 2024

Solidariedade com as pessoas e comunidades do Estado do Rio Grande do Sul

 

Sinais dos tempos


“Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e, entretanto, não sabeis discernir esta época? E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?” (Lucas 12,56).

A Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB solidariza-se, profundamente, com as pessoas e comunidades do Estado do Rio Grande do Sul, com 1,3 milhão de desabrigados, mais de 100 famílias em luto pelo falecimento de seus entes queridos, 128 desaparecidos, 350 municípios devastados pelas enchentes. Há ainda a dramática perda de animais domésticos e silvestres, de matas e lavouras, da destruição de casas, de bens domésticos, além do imenso impacto na saúde psíquica e emocional dos atingidos. Nos somamos aos esforços de atendimento às necessidades emergenciais.

Tudo está interligado em nossa Casa Comum. Por isso, é preciso sabedoria para ler os sinais dos tempos. Desde a década de ’70, cientistas nos avisavam que o Aquecimento Global produziria impactos inimagináveis nos seres vivos e no planeta. E que era preciso mudar os rumos de uma civilização baseada na queima de combustíveis fósseis e na devastação do meio ambiente. Portanto, nada do que hoje acontece, deixou de ser avisado e previsto.

Porém, o modelo civilizatório não mudou. Continua emitindo gases de efeito estufa cada dia mais, expandindo monocultivos e devastando florestas. Logo, o Aquecimento Global cresce. Os fenômenos extremos se multiplicam, com ondas de calor, nevascas, chuvas torrenciais, secas, derretimentos das geleiras, elevação do nível dos mares, extinção de espécies, assim por diante. Se as petroleiras já decidiram que vão elevar o consumo de petróleo até 2050, de que adiantam todos os outros esforços?

Falemos claro: quem decide o rumo de um progresso que privilegia uma minoria rica, que concentra mais de 50% da riqueza de nosso planeta, são as petroleiras e um estilo de neoliberalismo colonialista e predador. Enquanto isso, os poderes que deveriam defender os seres humanos e não humanos e o planeta Terra, se submetem a essa hegemonia.

No Brasil, as mudanças na legislação ambiental, a invasão dos territórios comunitários e indígenas, a derrubada das florestas para expansão da criação de gado, cultivo em larga escala de soja, milho e eucalipto, a ação das mineradoras e do garimpo, formam a tempestade perfeita para o que hoje acontece no Rio Grande do Sul, onde as alterações radicais do Código Ambiental em 2019 foram importantes cúmplices das catástrofes que hoje acontecem.

Diante de tudo isso, nosso querido Papa Francisco tem convocado a humanidade a uma conversão integral (LS 216) para enfrentar essas mudanças. Até aqui, no entanto, as reações têm sido insuficientes. São louváveis e indispensáveis todas as manifestações de solidariedade ao povo do Sul: no entanto, elas não podem ser apenas uma “onda caridosa” momentânea! A ciência e a sabedoria dos povos nos dizem que estes fenômenos vão se repetir, cada vez mais, com maior intensidade, à medida que a temperatura global subir, se não atuarmos decididamente nas causas dos problemas socioambientais. Como disse Gandhi “a natureza pode suprir todas as necessidades da humanidade, menos a sua ganância”. Tudo isso nos indica que estamos colhendo o que plantamos, e as piores consequências recaem, sobretudo, na conta dos mais vulneráveis.

Portanto, é preciso reagir, pois a pior hipótese é a imobilidade indiferente ou negacionista! Essa não nos pertence. Autoridades mundiais e locais, religiões, ciência, militantes, movimentos populares, povos tradicionais, todos somos convidados a dar-nos as mãos e buscar novos caminhos, que amenizem tantos sofrimentos e nos permitam sonhar e construir outros mundos possíveis, de justiça e paz. Como escreveu o Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’, rezemos: "Deus dos pobres (...) curai a nossa vida, para que protejamos o mundo e não o depredemos, para que semeemos beleza e não destruição. Tocai os corações daqueles que buscam apenas benefícios à custa dos pobres e da terra".

Livramento de Nossa Senhora, 08 de maio de 2024

Dom Vicente Ferreira

Presidente da Comissão para Ecologia Integral e Mineração







quarta-feira, 9 de março de 2022

De Wall Street à Amazônia: grande capital financia desmatamento via mineração

Grandes instituições financeiras norte-americanas e brasileiras continuam financiando a destruição da Amazônia, investindo em mineradoras que fazem pressão para operar em territórios indígenas, diz um novo relatório.

Reportagem é de Jenny Gonzales, publicada por Mongabay, 07-03-2022.

Entre as grandes financiadoras estão a BlackRock, o Capital Group e a Vanguard, dos EUA, que juntamente com o fundo de pensões brasileiro Previ têm participações, empréstimos e outras formas de investimento financeiro em nove companhias de mineração, num total de US$ 54,1 bilhões.

As mineradoras citadas no relatório, entre elas a Vale, a Anglo American e a Rio Tinto, têm histórico de destruição ambiental e violações aos direitos humanos no Brasil e em outros países, e várias já estão operando perto de Terras Indígenas brasileiras, poluindo rios e prejudicando a saúde de comunidades.

Um projeto de lei que tramita no Congresso permitiria a mineração em Terras Indígenas, algo que atualmente é proibido pela Constituição; a Autoridade Nacional de Mineração (ANM), por sua vez, continua registrando pedidos de mineração em áreas que se sobrepõem a TIs.

Grandes gestores de investimentos, entre eles a BlackRock e o Capital Group, estão entre as mais de uma dúzia de instituições brasileiras e norte-americanas que financiam pesadamente empresas de mineração que estão destruindo territórios indígenas e o modo de vida de seus habitantes na Amazônia.

Esta é a descoberta de um relatório publicado em 22 de fevereiro pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) – a maior organização indígena do país –, a ONG Amazon Watch e o Projeto Amazônia Minada.

As 20 instituições de investimento destinaram um total de US$ 54,1 bilhões a nove conglomerados de mineração – incluindo as gigantes Vale, Anglo American, Belo Sun, AngloGold Ashanti e Rio Tinto – entre 2016 e outubro de 2021, de acordo com o relatório.

Desse montante, US$ 14,8 bilhões vieram apenas de três empresas norte-americanas – BlackRock, Capital Group e Vanguard – sendo que a Black Rock sozinha investiu US$ 6,2 bilhões nas mineradoras. (A BlackRock, o Capital Group e a Vanguard não responderam a pedidos de comentário feitos pela reportagem da Mongabay.)

As empresas sediadas nos EUA, segundo o relatório, “continuam sendo as principais financiadoras da destruição provocada pela mineração, com a posse de ações e títulos mais significativos, ou oferecendo os maiores empréstimos ou financiando as mineradoras”, diz o relatório.

Mina de ferro e ouro localizada a 32 km do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá. Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace.

Sete das 20 instituições de investimento são brasileiras, lideradas pela Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, seguida pelo Banco Bradesco. A Mongabay entrou em contato com a Previ e o Bradesco, mas não recebeu resposta.

As mineradoras, por sua vez, apresentaram milhares de solicitações à Agência Nacional de Mineração (ANM) para prospecção em áreas que se sobrepõem a reservas indígenas e unidades de conservação totalmente protegidas na Amazônia. A mineração em reservas é proibida pela Constituição brasileira.

Essas empresas estavam entre as 570 mineradoras, grupos internacionais e associações do setor que juntos tinham 2.478 pedidos de mineração pendentes em 261 territórios indígenas registrados na ANM em novembro passado, diz o relatório. Os pedidos abrangem um total de 10,1 milhões de hectares de terras, uma área maior do que a Coreia do Sul.

“Os valores para as operações dessas companhias no Brasil [fornecem] uma visão mais detalhada dos interesses que as instituições financeiras têm no país”, diz Rosana Miranda, assessora de campanha da Amazon Watch. “É uma rede complexa, não só devido aos meandros que envolvem as mineradoras subsidiárias, mas também pela falta de transparência do setor financeiro, que costuma ser usada como ferramenta para evitar a responsabilização por investimentos potencialmente destrutivos.”

O relatório também contextualiza a crescente financeirização do setor de mineração, dado o aumento do preço de várias commodities minerais. Isso levou a um novo boom, com o valor de mercado das 50 maiores mineradoras do mundo subindo de mais de US$ 1 trilhão durante o primeiro ano da pandemia de covid-19 para US$ 1,4 trilhão em julho de 2021, de acordo com o relatório.

Miranda diz que muitos bancos e gestores de ativos justificam esses investimentos como “passivos”, sobre os quais eles têm pouca influência. “Isso é uma ideia falsa, não só porque eles podem (e devem) ter mais controle sobre seu portfólio, mas também porque os fundos indexados têm critérios de seleção que são criados pelos gestores dos fundos – e se este critério não está levando em conta o futuro do planeta, então precisa ser revisto”, diz ela.

Entre 2016 e 2021, os cinco maiores financiadores de mineradoras destacados no relatório eram empresas do Brasil e dos Estados Unidos. (Imagem: Amazon Watch/APIB/Profundo Research and Advice)

“As áreas indígenas sempre estiveram sob muita pressão por parte do setor da mineração, mas o que está acontecendo no governo Bolsonaro é um ataque coordenado no momento dessa pressão”, diz Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, uma rede de organizações da sociedade civil brasileira que defende ações para evitar as mudanças climáticas.

Astrini observou que o PL 191 – um projeto de lei que está tramitando no Congresso Nacional com o objetivo de liberar as atividades de mineração em territórios indígenas – veio logo depois de conversas com mineradoras. “Agora também há investidores, como mostra o relatório, colocando dinheiro nessa agenda de invasão das áreas indígena. Os povos indígenas no Brasil estão passando por um dos momentos mais delicados porque há várias forças econômicas e políticas contra essas populações.”

O Projeto de Lei 191/2020, que tramita no Congresso, permitiria a mineração em Terras Indígenas – uma atividade que atualmente é proibida pela Constituição –, negando o direito de veto dos povos originários. Se o projeto for aprovado, o impacto na Amazônia será imensurável, alertam ativistas. Imagem: Amazon Watch.

Financistas afetam a vida dos povos indígenas

Em 2021, o desmatamento associado à mineração na Amazônia brasileira aumentou 62% em relação a 2018, o ano anterior à posse de Jair Bolsonaro como presidente. Apesar da atividade de mineração nos territórios indígenas ser ilegal, empresas têm pressionado para que isso seja permitido.

Entre elas está a Vale, a maior mineradora do Brasil e a quinta do mundo em termos de faturamento. A Vale, junto com a Samarco e a BHP, foi responsável pelo colapso de uma barragem de rejeitos no município de Brumadinho (MG) em 2019, que desencadeou um dos maiores desastres da mineração do mundo. Embora a Vale tenha anunciado em setembro passado que abriria mão de todos os seus pedidos de mineração em Terras Indígenas, no mês seguinte a empresa apresentou dois novos pedidos de prospecção em áreas adjacentes à TI Xikrin do Cateté, no Pará, lar dos povos Kayapó e Xikrin. Em novembro passado, a Vale tinha 75 solicitações pendentes junto à ANM que se sobrepunham a Terras Indígenas da Amazônia.

Desde 2011, a Vale vêm extraindo níquel perto da Terra Indígena Xikrin do Cateté. Um estudo da Universidade Federal do Pará (UFPA) encontrou níveis excessivos de contaminação por metais pesados em todas as amostras retiradas dos habitantes da comunidade, e alertou que, sem medidas para conter a poluição no Rio Cateté causada pela mina Onça Puma, “estaremos vendo o fim da etnia Xikrin”.

A Vale nega que sua mina seja responsável pelos impactos identificados pelos pesquisadores da UFPA na comunidade indígena.

Em um comunicado, a Vale afirmou que não tem direitos sobrepostos a reservas indígenas no Brasil. “Em 2021, a Vale renunciou a todos os seus direitos minerários em Terras Indígenas no Brasil, tendo, ainda, desistido dos pedidos de autorizações para pesquisa e concessões para lavra (extração) mineral.”

A companhia acrescentou que mantém pedidos de permissão de exploração e concessões de mineração em áreas vizinhas a Terras Indígenas “sem qualquer interseção com áreas demarcadas no país, em plena conformidade com a legislação vigente no Brasil.”

Além disso, a Vale disse que as acusações de contaminação no Rio Cateté são “improcedentes”, citando relatórios de especialistas que comprovam “não haver causalidade entre a operação de mineração de Onça Puma e a suposta contaminação.”

A ANM não respondeu aos pedidos de comentário da Mongabay sobre por que continua registrando pedidos para atividades de mineração em terras que se sobrepõem a reservas indígenas. Uma portaria de 2015 exige que as operações de mineração mantenham um distância de pelo menos 10 quilômetros de terras indígenas.

O Rio Paraopeba, em Minas Gerais, depois do colapso da barragem de rejeitos de mineração das empresas Vale, Samarco e BHP. Até hoje, o rio continua contaminado com ferro, manganês e cobre. Foto: Christian Braga/Greenpeace

“Companhias como a Vale declararam que retirariam os pedidos feitos à ANM e, ao mesmo tempo, receberam um financiamento gigantesco nos últimos anos”, disse Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Apib, à Mongabay.

“Mesmo que elas se mudem para áreas próximas [às reservas indígenas], conforme permite a Portaria 60/2015, essas atividades contaminam nossas terras de qualquer forma, uma vez que os metais pesados associados à mineração acabam alcançando os leitos dos rios que correm pelas reservas”, acrescenta Dinamam Tuxá.

Angohó Pataxó, líder comunitária e uma dos 222 indígenas cujas terras e vidas foram afetadas pelo desastre da barragem de Brumadinho, disse à Mongabay que a Vale não reconhece que os impactou diretamente [com o desastre].

“Eles argumentam que nós não vivíamos perto da barragem, mas a cerca de 20 quilômetros dali”, disse ela em entrevista por telefone. “O Rio Paraopeba, contudo, que corre pela aldeia, foi contaminado, bem como nossas terras. Não podemos mais pescar ou caçar, vivemos de doações. E não podemos batizar as crianças que nasceram desde o desastre porque o rio está morto.”

NOTA: Em e-mail enviado em 7 de março de 2022, após a publicação da reportagem, a AngloGold Ashanti informou que “não opera e não tem interesse em operar em Terras Indígenas”. Segundo a nota de posicionamento, a empresa solicitou requerimentos de pesquisa mineral em diversas regiões no país na década de 1990. “Três dessas áreas posteriormente foram demarcadas como Terras Indígenas, o que levou a companhia a desistir das mesmas. No entanto, como não houve atualização do processo no sistema da ANM, a AngloGold Ashanti ratificou a retirada do requerimento de pesquisa em 21 de junho de 2021.”

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Fonte: MONGABAY

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