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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Nota de Pesar do SINFRAJUPE, homenagem a Frei Sérgio

 

                                                            BrF| Crédito: Corbari

O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE divulgou, nesta terça-feira (3), uma Nota de Pesar pelo falecimento de Frei Sérgio Antônio Görgen (OFM), frade franciscano, um de seus fundadores e referência profética na Igreja comprometida com os pobres e o cuidado com a criação.

A nota destaca Frei Sérgio como profeta da Justiça, da Paz e do Cuidado com a Criação, cuja vida foi marcada pela fidelidade ao Evangelho, pela espiritualidade franciscana e pelo compromisso com os sem-terra, os pequenos agricultores e as lutas do povo.

Leia abaixo a  íntegra da Nota 

Nota de Pesar do SINFRAJUPE – Frei Sérgio Antônio Görgen, OFM

Com profundo pesar, mas sustentados pela fé no Deus da Vida, o Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE despede-se de Frei Sérgio Antônio Görgen, OFM, um de seus fundadores, irmão menor e profeta do nosso tempo. Sua vida foi testemunho coerente de uma espiritualidade franciscana viva, encarnada nas lutas do povo, especialmente dos sem terra, dos pequenos agricultores e das comunidades camponesas, às quais dedicou sua existência com coragem, ternura e radicalidade evangélica.

Frei Sérgio soube unir mística e ação, contemplação e compromisso político, inspirando-se nos passos de São Francisco e Santa Clara. Sua profecia se expressou na defesa intransigente da justiça social, da Reforma Agrária, da soberania alimentar e do cuidado com a Casa Comum, assumindo sempre o lado dos pobres e excluídos. Foi um homem do Evangelho vivido “com os pés no chão”, que fez da própria vida uma oferenda a serviço do Reino.

Agradecemos a Deus pelo dom da vida de Frei Sérgio, por sua palavra firme, seu gesto fraterno e sua fidelidade até o fim. Sua memória permanece viva nas sementes lançadas na terra, nas organizações populares que ajudou a construir e na esperança que segue animando as lutas do povo. Que a Irmã Morte o conduza ao abraço misericordioso do Criador, e que seu exemplo continue a nos inspirar na caminhada por Justiça, Paz e Ecologia.

Frei Sérgio Antônio Geörgen, OFM: presente na luta, presente na esperança, presente na vida que resiste.

Uberlândia, 3 de fevereiro de 2026.

Equipe Executiva do SINFRAJUPE

Frei José Francisco de Cássia dos Santos, OFM

Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM

Moema Miranda, OFS

Maria Zélia Castilho Rogedo, OFS

Lucas Lins, JUFRA



quarta-feira, 4 de junho de 2025

De Roma à periferia de Uberlândia: o gesto profético de Leonardo Boff

Cozinha Comunitária Assentamento Maná, Uberlândia.  Foto: Artur

Cinco dias após receber o Prêmio Laudato Si’ em Roma por seu compromisso com a ecologia integral, o teólogo Leonardo Boff desembarcou no Brasil e seguiu direto para o assentamento Maná, na periferia de Uberlândia (MG). Esse gesto simples, mas profundamente simbólico, diz muito sobre a coerência de uma vida inteira dedicada à fé encarnada, à justiça socioambiental e à opção pelos pobres.

Foto: Artur

Boff foi estar com o povo que luta todos os dias por dignidade, terra, moradia e alimento. Na cozinha comunitária do assentamento Maná, sentou-se para conversar com lideranças de nove cozinhas comunitárias que, em Uberlândia, formam uma rede de solidariedade ativa, resistência urbana e cuidado com a vida. O tom da roda de conversa era de esperança e resistência. Boff e Marcia escutaram, partilharam e reafirmaram a importância de manter acesa a chama da luta.

O assentamento Maná nasceu em 2013, fruto da ocupação de uma área por famílias sem teto. Desde então, as famílias enfrentam o desafio da regularização fundiária, já parcialmente aprovada, mas ainda incompleta. A comunidade resiste, cresce e se fortalece — e as cozinhas comunitárias são parte essencial dessa construção coletiva. 

Mais do que distribuir alimentos, as cozinhas comunitárias de Uberlândia são verdadeiros núcleos de organização comunitária. Ali se prepara comida, sim — mas também se cozinha a solidariedade, se alimenta a esperança e se planta a transformação social. São espaços que unem o campo e a cidade. Com a participação de Cooperativas de Alimentos da Reforma grária conecta assentamentos de reforma agrária, áreas de agricultura familiar com os bairros e ocupações urbanas onde a fome ainda machuca.

As cozinhas comunitárias são geridas por organizações da própria base e contam com o apoio de importantes parcerias, como a Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade (AFES), a Central dos Movimentos Populares (CMP), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Juntas, essas iniciativas garantem o direito à alimentação saudável, fortalecem a soberania alimentar e promovem formação e empoderamento para populações em situação de vulnerabilidade. Essas cozinhas são verdadeiros territórios de resistência e cuidado, onde a justiça socioambiental se concretiza diariamente. 

Ao visitar esse espaço, Leonardo Boff não apenas prestou solidariedade. Ele reafirmou, com o corpo presente e o coração atento, aquilo que sempre defendeu em sua teologia: a centralidade dos pobres, a sacralidade da Terra, a espiritualidade comprometida com a vida.

Boof recebendo o premio em Roma

A homenagem recebida por Boff em Roma, no dia 30 de maio, foi significativa. O Prêmio Laudato Si’, que foi entregue pela Ordem dos Frades Menores na Pontifícia Universidade Antonianum, reconhece sua contribuição à ecologia integral — um conceito que une cuidado com a Casa Comum e justiça social. 

Na visita ao assentamento Maná esse reconhecimento ganhou carne, chão e povo. Em tempos de crises múltiplas — climática, social, espiritual — o gesto de Boff nos lembra que o compromisso com a ecologia integral não se mede apenas por discursos, mas pela escolha dos lugares e dos rostos com os quais se caminha. Da solenidade na Universidade Pontifícia Antonianum em Roma, à cozinha de uma ocupação em Uberlândia, ele nos mostra o que significa, viver com os pés na terra e o coração no Evangelho.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Leonardo Boff recebe prêmio da Ordem Franciscana por Ecologia Integral

 

Leonardo Boff e Frei Massimo Fussarelli Ministro Geral dos Franciscanos

No dia 30 de maio de 2025, a Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, foi palco de um momento histórico e profundamente simbólico para toda a Família Franciscana: o teólogo brasileiro Leonardo Boff foi homenageado pela Ordem dos Frades Menores (OFM), franciscanos, por sua contribuição excepcional à causa da ecologia integral. Ele recebeu esse premio das mãos do Ministro Geral dos OFM, o Frei Massimo Fussarelli.

Esse reconhecimento, concedido em ocasião solene, destaca-se não apenas pela sua relevância simbólica, mas também pela autoridade espiritual e profética que carrega. Em tempos de múltiplas crises – climática, social, espiritual e civilizatória – a figura de Boff emerge como um dos grandes porta-vozes da esperança ativa, da fé encarnada e da justiça cósmica.

Homenagem na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma,

Um reconhecimento franciscano

A homenagem integra uma celebração ampla e significativa: os 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, e os 10 anos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. Em honra a esses dois marcos, a Ordem dos Frades Menores decidiu reconhecer, com distinção especial, cinco pessoas e organizações em todo o mundo que se destacam por seu compromisso concreto com a ecologia integral.

Entre os homenageados estão:

  • Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, figura de referência no diálogo inter-religioso e na defesa da Criação;

  • A REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica), símbolo de resistência e esperança nos territórios ameaçados da Amazônia;

  • O Movimento Laudato Si’, expressão global da conversão ecológica e da mobilização profética;

  • E, com profunda reverência, Leonardo Boff, cuja vida e obra têm iluminado o caminho da ecoteologia, da libertação e da espiritualidade franciscana.

Boff: teologia com raízes na terra e olhos no céu

Leonardo Boff, hoje professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é autor de inúmeras obras de referência mundial, como "Grito da Terra, Grito dos Pobres" — uma síntese poderosa de ética, ecologia e espiritualidade — e "Jesus Cristo Libertador", marco fundador da teologia da libertação. Com sua linguagem acessível e profunda, Boff denuncia as estruturas de dominação e propõe um novo pacto de convivência entre os seres humanos, a Terra e o Divino.

Inspirado pela mística de Francisco de Assis, Boff resgata a fraternidade universal não como um ideal romântico, mas como um chamado urgente à ação ética, política e espiritual. Sua obra aponta para a necessária superação do paradigma tecnocrático e consumista, propondo em seu lugar uma cultura do cuidado, da simplicidade e da reverência à vida.

A Casa Comum como horizonte franciscano

O prêmio da OFM a Leonardo Boff não é apenas uma homenagem pessoal — é o reconhecimento de uma trajetória que ecoa o espírito de Francisco: a escuta dos pobres, o amor pelas criaturas, a crítica profética ao poder que destrói e o anúncio de um novo modo de habitar o mundo.

Neste tempo sinodal e de grave emergência ecológica, a voz de Boff segue sendo um farol para a Igreja, para os movimentos sociais e para todos que buscam integrar espiritualidade, justiça e compromisso ecológico.

Ao reconhecer Leonardo Boff, a Ordem dos Frades Menores reafirma o chamado de São Francisco: "Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas!" — e nos convida, mais uma vez, a sermos guardiões da vida e da Casa Comum.

sábado, 3 de outubro de 2020

Carta-Denúncia dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco



Nós, bispos católicos da Bacia Hidrográfica do São Francisco, neste dia de São Francisco de Assis e do rio que recebeu seu nome há 519 anos, nos sentimos, mais uma vez, compelidos a nos pronunciar sobre a situação em que se encontram o Rio e seu Povo. A promessa de vida trazida por Jesus não nos permite calar.

Ao final de 2017 publicamos a “Carta da Lapa”, alertando para a necessidade de medidas de revitalização da Bacia Hidrográfica. Desde então, não só estas medidas não foram tomadas e nem se anunciam - e são cada vez mais urgentes, como a situação tem piorado e promete piorar ainda mais. Pelo menos três novas ameaças identificamos:

1) A Usina Hidrelétrica - UHE Formoso. Esta nova usina está para ser construída na calha do rio, a 12 km a montante de Pirapora - MG, e alagar uma área de mais 32 mil hectares, em seis municípios, causando impactos ambientais e sociais desastrosos, que vão além do local e não estão sendo levados em conta. Os empreendedores e os governos federal e estadual aceleram o licenciamento da obra, em desrespeito às populações afetadas, entre as quais centenas de comunidades tradicionais ribeirinhas.

2) Uma Usina Nuclear. Está para ser implantada às margens do reservatório da Barragem de Itaparica, a Usina Nuclear de Itacuruba - PE. Anunciada há tempos, sinais recentes de sua concretização inquietam ainda mais as comunidades locais, já sofridas com as consequências da barragem que os expulsou da beira do Rio em 1987/88. As águas do Rio utilizadas para o resfriamento das caldeiras da usina ficarão contaminadas por radiação e elevadas a altíssimas temperaturas. Além do grande desequilíbrio a causar nos ecossistemas da região e a jusante do Rio, os riscos tenebrosos de um desastre nuclear afetarão uma região ainda maior.

3) Instrução Normativa no 67. Preocupa-nos ainda esta Instrução Normativa de 3 de agosto de 2020, da Secretaria de Coordenação e Governança do Patrimônio da União e da Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados / Ministério da Economia, que trata da demarcação de terrenos marginais, por meio da determinação da posição da Linha Média das Enchentes Ordinárias - LMEO e da Linha Limite dos Terrenos Marginais - LLTM” dos “lagos, rios e quaisquer correntes de água” federais. Chegam até nós apelos angustiados de comunidades tradicionais ribeirinhas do São Francisco, temerosas de que venham a perder para empreendedores privados as porções principais de seus territórios e o acesso ao Rio.

A produção de energia já compromete 70% da vazão do Rio São Francisco e é uma das principais causas de sua degradação. Não suportará estas novas agressões. É de se questionar o aumento incessante da demanda de energia elétrica e de novos territórios para produção, por um modelo de vida e civilização que está levando o planeta, nossa Casa Comum, à exaustão. As mudanças climáticas e as pandemias, cada vez mais intensas e rigorosas, que atingem sobretudo os mais pobres, estão aí a comprovar o fracasso do apregoado “desenvolvimento sustentável” ou de um pretenso “capitalismo verde”. Ao invés de serem manipuladas para o continuísmo do sistema, estão a exigir uma mudança radical dos rumos da humanidade, nos modos de produzir e consumir, em direção à “ecologia integral” que advogam, sensatamente, o Papa Francisco na “Laudato Si’” e o recente Sínodo da Amazônia.

A promessa de vida abundante anunciada por Jesus é nosso desafio e compromisso permanentes. Obriga-nos a esta denúncia e apelo. Às autoridades responsáveis em todos os níveis, pedimos encarecidamente que revejam suas decisões e medidas a cerca destes projetos, em vista do bem comum e da prioridade aos mais pobres, ao meio- ambiente, à vida, para além das pressões de interesses privados minoritários, agravantes da crise ecológica que a todos e tudo ameaça. À sociedade organizada, às pessoas de boa-vontade, sugerimos que tomem conhecimento destas situações e a defesa do bem maior, em apoio às comunidades afetadas, pressionando as autoridades. Às comunidades afetadas dizemos: fiquem firmes, defendam seus direitos e contem com nosso apoio!

Bacia do Rio São Francisco, 04 de outubro de 2020.

Dom João Justino de Medeiros Silva Arcebispo Metropolitano de Montes Claros MG Dom João Santos Cardoso Bispo Diocesano de Bom Jesus da Lapa - BA

Presidente do Regional NE 3 da CNBB.
Dom Frei Carlos Alberto Breis Pereira, OFM Bispo Diocesano de Juazeiro BA,

Vice-Presidente do Regional NE 3 da CNBB. Dom Vitor Agnaldo de Menezes Bispo Diocesano de Propriá SE,

Secretário do Regional NE 3 da CNBB. Dom Roberto José da Silva Bispo Diocesano de Janaúba MG

Dom José Moreira da Silva Bispo Diocesano de Januária MG Dom Tommaso Cascianelli, CP Bispo Diocesano de Irecê BA Dom Gabriele Marchesi Bispo Diocesano de Floresta PE
Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM Bispo Diocesano de Barra - BA

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Nota de Adesão da Família Franciscana à Carta dos Bispos Católicos ao Povo de Deus

Nota de Adesão da Família Franciscana à Carta dos Bispos Católicos ao Povo de Deus

Brasília, 27 de julho de 2020.
“Quem amaldiçoa um pobre prejudica a Cristo, cuja nobre imagem ele veste, a imagem daquele que se fez pobre por nós neste mundo” (1Cel 76). 
São Francisco de Assis
A Conferência da Família Franciscana do Brasil - CFFB e o Serviço Interfranciscano de Justiça Paz e Ecologia - SINFRAJUPE, entendendo a gravidade da situação política em que vivemos, agradecem e acolhem a CARTA AO POVO de DEUS, assinada por mais de 150 Bispos, se posicionando contra o governo de Jair Bolsonaro. Comungamos com a dimensão profundamente cristã dessa mensagem e nos somamos ao seu apelo profético. É de participar de “um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com ‘terra, teto e trabalho’, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos.”
De forma lúcida, os Bispos dizem que: “Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises.” [...] “O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma ‘economia que mata’ (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”. 
Os Bispos em sua função pastoral, nos lembram que “Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.”
No espírito de Francisco e Clara de Assis, nós franciscanos e franciscanas, reafirmamos o compromisso pela busca de uma vida que promova e defenda a justiça, os direitos humanos e nossa Casa Comum, o planeta. Convidamos a todas as pessoas, no espírito da convocação da carta dos Bispos, a nos unirmos na construção da Justiça, da Paz e da Integridade da Criação.

                   Ir. Cleusa Aparecida Neves, CFA
                                  Presidente
                 Conferência da Família Franciscana
                              do Brasil – CFFB
                               SINFRAJUPE

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Franciscanos/as em Defesa da Vida Contra o Genocídio dos Povos Indígenas

NOTA DE REPÚDIO DO SERVIÇO INTERFRANCISCANO DE JUSTIÇA, PAZ E ECOLOGIA AOS VETOS PRESIDENCIAIS AO PL 1142/2020.

O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE, na defesa da vida e da dignidade humana, vem a público manifestar seu repúdio às contínuas políticas genocidas do governo Bolsonaro. Ao vetar dezesseis importantes dispositivos, do Projeto de Lei  nº 1142/2020, aprovado quase por unanimidade na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, que dispõem sobre medidas de proteção social para prevenção do contágio e da disseminação da Covid-19 nos territórios indígenas, e estabelece medidas de apoio às comunidades quilombolas, aos pescadores artesanais e aos demais povos e comunidades tradicionais, o governo demonstra seu projeto..
Uma vez mais, os povos indígenas e comunidades tradicionais são violentadas e o presidente Jair Bolsonaro afronta os direitos constitucionais, atentando contra o que reza o artigo 3º, inciso IV: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, de raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Reafirma o preconceito e o ódio em relação aos povos indígenas, quilombolas e populações tradicionais.
Os vetos do presidente negam direitos fundamentais, como o de acesso à água potável, bem universal da humanidade; o acesso a leitos de UTI; produtos de higiene; distribuição de alimentos, o da comunicação e informação, e outras medidas fundamentais que garantiriam aos povos indígenas  a viabilização de um plano emergencial para o enfrentamento à Covid-19. Negam, também, o suporte às comunidades quilombolas, aos pescadores artesanais e aos demais povos e comunidades tradicionais.
Os vetos do governo Bolsonaro explicitam e reafirmam o seu desprezo pela proteção dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. Entre os povos indígenas, são mais de doze mil indígenas infectados pela Covid-19, mais de quatrocentos óbitos, e cento e vinte dois povos indígenas afetados.
Repudiamos os argumentos falaciosos usados pelo governo para os vetos, de falta de orçamento para viabilizar as medidas emergenciais. Uma vez que o Congresso Nacional aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 10/2020 conhecida como “Orçamento de Guerra”, que autoriza os gastos necessários para combater a crise gerada pela pandemia da Covid-19.
Por fim, repudiamos todas as medidas e ações do governo, em detrimento da Constituição Federal e dos Acordos Internacionais, que expõe ainda mais os territórios dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. Estas ficam à mercê das invasões de madeireiros, garimpeiros, grileiros e a acelerados desmatamentos em terras indígenas e Unidades de Conservação. Todas estas iniciativas visam liberar terras para grupos econômicos, legitimando a ação do crime organizado, que se sentem amparados pelo Estado Brasileiro.
O SINFRAJUPE reitera seu apoio incondicional aos povos indígenas e às populações tradicionais do Brasil, no seu direito à vida, à terra e às políticas públicas. A “vida está acima da economia”!
São Paulo, 10 de julho de 2020

Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia - SINFRAJUPE
da
Conferência da Família Franciscana do Brasil

terça-feira, 19 de maio de 2020

Webinar: Levantando as nossas vozes pela Terra e os Mais Vulneráveis

Por ocasião do 5º aniversário da Encíclica Laudato Si ', CIDSE, Franciscans International, Iglesias y Mineria e GCCM estão convocando o webinar


LEVANTANDO AS NOSSAS VOZES PELA TERRA E OS MAIS VULNERÁVEIS 
Quarta feira 20 de maio às 12:00 


Este Webinar é uma das atividades da semana 2020 de Laudato Si (veja aqui para mais informações). Para participar registre-se aqui:


Intercâmbio na defesa de políticas que possam mudar o sistema em que vivemos, causando danos às pessoas e ao planeta. Inspirado pelas mensagens de Laudato Si ', como indivíduos, comunidades e organizações podem contribuir para uma profunda conversão ecológica? Das reflexões pessoais às experiências concretas, um formato interativo que oferece a oportunidade de debater a mudança política que queremos ver para realmente ouvir o clamor da terra e o clamor dos pobres.

Palestrantes:

Mons. Pirmin Spiegel, Misereor, Alemanha
Alberto Acosta, ex-presidente da Assembléia Constituinte do Equador, Equador
Anja Appel, KOO, Áustria
Padre Dario Bossi, Iglesias e Minería, Brasil
Josianne Gauthier, CIDSE
Moderadora: Moema de Miranda, Iglesias e Minería, Brasil

Interpretação em inglês, espanhol e português estará disponível.


segunda-feira, 20 de abril de 2020

Franciscanos e Franciscanas em Defesa da Democracia

O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia, em nota, conclama os irmãos e irmãs em nossas comunidades, paróquias, bairros, cidades e territórios, para que permaneçam alertas e se unam na defesa da Democracia.

Leia a Nota

EM DEFESA DA DEMOCRACIA

O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE repudia as reiteradas atitudes do Presidente Jair Bolsonaro, que coloca em risco o estado de direito, bem como a saúde da população. No domingo dia 19 de abril, dia do Índio, em manifestação pública, o presidente atentou uma vez mais de forma criminosa contra a democracia brasileira. Em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, Bolsonaro discursou para seus seguidores, que aglomerados pediam o fechamento do Congresso Brasileiro, do Supremo Tribunal Federal e o retorno do “Ato Institucional número 5“ (em 1968, durante a ditadura militar, profundou o estado de exceção, fechando  o Congresso Nacional).

Enquanto os manifestantes pediam intervenção militar, Bolsonaro, de forma clara os apoiava, dizendo: "Não queremos negociar nada".

Desconsiderando a crise que enfrentamos devido ao COVID19, o presidente coloca em risco as instituições democráticas ameaça direitos fundamentais da população à vida e à saúde. Ele incentiva o fim do isolamento social e o retorno da população às suas atividades, desrespeitando a orientação das autoridades nacionais de saúde, governos estaduais e municipais,  e Organização Mundial da Saúde.

Como já reconheceu a Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil e um conjunto de entidades democráticas, no documento Pacto pela Vida e pelo Brasil, vivemos “uma grave crise – sanitária, econômica, social e política – exigindo de todos (..) a busca de soluções conjuntas para o bem comum, particularmente dos mais pobres e vulneráveis. O momento que estamos enfrentando clama pela união de toda a sociedade brasileira (...) O desafio é imenso: a humanidade está sendo colocada à prova. A vida humana está em risco.

Bolsonaro cruzou a linha do tolerável em um regime democrático. Não podemos continuar lidando como se suas atitudes  fossem apenas piadas de mau gosto. Ele avança na direção de um golpe na democracia, aprofundando sua necropolítica Avança em sua agenda contra os direitos humanos e ambientais, em um projeto político econômico de terra arrasada e ultra neoliberal.

No espírito de Justiça, Paz e no cuidado pela vida e pelo planeta conclamamos a família franciscana, para estar atenta aos desdobramentos da situação. Neste momento de distanciamento social e de crescimento exponencial de contaminação e mortes causadas pela pandemia, vamos usar todos os nossos meios, a partir de nossas casas e conventos, nos comunicando com os irmãos e irmãs em nossas comunidades, paróquias, bairros, cidades e territórios, para que permaneçam alertas e se unam na defesa da Democracia.

Paz e Todo Bem!
São Paulo, 20 de abril de 2020

Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia
Conferência da Família Franciscana do Brasil

sábado, 18 de abril de 2020

Em tempos de Pandemia, Ousar a Esperança - Laudato Si

Esperançar é a atitude a se tomar neste tempo de pandemia, escreve a antropóloga Moema Miranda, em artigo sob a ótica da Encíclica Laudato Si. Ela escreve que a pandemia do novo coronavirus é  "parte de um processo mais amplo, vinculado a atitude de grupos humanos em relação a outros humanos e ao planeta, ... intensificando os riscos de “caos sistêmico” ou o que os ambientalistas têm chamado de “tempestade perfeita”. Portanto o momento exige  "disputar o futuro, ampliar a solidariedade e ousar imaginar um mundo que não seja governado pela máquina de Manon, o “deus dinheiro”.

Moema* é assessora da Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração da CNBB e da Rede Eclesial Pan-Amazônica/REPAM-Brasil. O artigo foi publicado pelo Conselho Nacional do Laicato do Brasil, 15-04-2020

Eis o artigo.


Em Tempos de Pandemia Ousar a Esperança: 
Crise Socioambiental na ótica de Laudato Si


Estamos assistindo ao nascimento de um novo mundo. Nos primeiros anos do século XXI, esta poderia ter sido uma boa nova. Quando movimentos e organizações altermundialistas criaram o Fórum Social Mundial, em 2001, afirmaram: “outro mundo é possível”. Era, sem dúvida, um lema apocalíptico essencialmente utópico. Anunciava a confiança de que o fim do mundo dominado pela lógica ecocida do Mercado, subordinado às políticas neoliberais e a serviço do enriquecimento de poucos, poderia abrir o futuro para um mundo de mais justiça e equidade. “Um novo céu e uma nova terra” (Ap 20,1), como tinham sido anunciados e desejados por João, em Patnos, quase dois milênios antes.

Mas agora, a pandemia do novo coronavírus SARS-CoV2 (COVID-19), a primeira do século XXI, revela e anuncia a possibilidade de que o futuro pós-pandêmico seja, como disse recentemente o Papa Francisco, “trágico e doloroso”. Nestes tempos tão inéditos e traumatizantes, comemoramos 5 anos da publicação da Encíclica Laudato Si, um dos documentos mais importantes do pontificado de Francisco, com impactos para além da Igreja. Muitos dos aspectos socioambientais que a pandemia revela foram analisados em profundidade naquele documento profético. Da mesma forma, uma ótica, uma leitura do que está e estava em jogo nas grandes disputas planetárias foi elaborada com clareza. Finalmente, e mais importante, ao falar da Encíclica, muitas vezes, o Papa disse: “não deixem que nos roubem a esperança”. Isto é, não deixemos de acreditar e lutar para que surja um mundo melhor.

O futuro ainda não está decidido! Nós estamos, agora, em plena disputa. Somos parte dela! As forças de destruição detêm um poder imenso. As desigualdades brutais fazem com que seja uma guerra extremamente desleal e injusta. Por isto, com a coragem das mulheres aos pés da Cruz, temos que olhar com profundidade para os desafios e os riscos e ousar negar a ordem do capital. Com a gentileza e a coragem dos que caminham na noite escura, desobedecer ao poder da morte. Neste pequeno artigo, escrito em tempos de pandemia, com muita humildade, gostaria de compartilhar algumas propostas e perspectivas inspiradas na releitura desta Encíclica de Louvor ao Deus da Vida. Parto da seguinte questão: como atuar para que as expectativas apocalípticas, a “revolução cultural” (LS§114) de que nos falava a Laudato Si, venham a se tornar fonte de “vida e vida em abundância” (Jo 10,10) nos tempos pós-pandêmicos?

I. olhar...

Embora muitas pessoas e governos tenham sido surpreendidos pela rápida e letal expansão da contaminação por Covid 19, epidemiologistas alertavam para esta possibilidade há algumas décadas. Não foram ouvidos. Sua mensagem caiu na rede dos negacionistas, tão fortalecida nas últimas décadas, quando a “verdade” parece ter perdido o sentido de realidade. Aconteceu o mesmo com os abundantes e conclusivos Relatórios que indicam o aquecimento global, com efeitos irreversíveis: foram ignorados, desqualificados e/ou desdenhados por governos e por organismos multilaterais, cada vez mais despudoradamente dominados pelos interesses das grandes fortunas. Como agora sabemos, este pequeno vírus se alastra entre os humanos, partindo de outros animais e tornando-se uma pandemia em conseqüência da devastação ambiental e da extinção em massa de outras espécies animais que ocorre na Terra desde meados do século XX. Um planeta no qual uma pequena minoria de humanos, com base na “tecnociência” (LS §107), no poder bélico e em uma “concepção mágica do Mercado” (LS§190) busca incansavelmente o “desenvolvimento e progresso” entendidos como acúmulo ilimitado de bens. Uma forma de produção, acumulação, concentração e desperdício que caracterizam o que o Papa Francisco, define como uma “economia que mata” (http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/544477-qesta-economia-mataq-afirma-papa-francisco).

Assim, explica um escritor especializado em temas epidemiológicos: 

“Estas são doenças zoonóticas, ou seja, que passam de animais não humanos para os humanos. Elas são novas para humanos. Esta é uma das razões pelas quais geralmente são tão devastadoras para nós. Qual é a razão inicial para isso? Trata-se de um evento que chamamos de transbordamento [spillover]: quando o vírus passa de um animal para o seu primeiro hospedeiro humano. Isso acontece em áreas com grande degradação ambiental. Ambientes ricos em diversidade biológica, com muitos tipos de plantas, animais, fungos, bactérias, são também lugares que abrigam muitos vírus. Eles vivem ali, sem serem notados, ao longo dos milhões de anos sem causar qualquer doença, até que de repente passam para os humanos. E quando há degradação ambiental, significa que estamos interferindo naquele ecossistema. Estamos cortando árvores, construindo assentamentos, abrindo garimpos. (...)  Então há todos os tipos de perturbação na vida selvagem, na biodiversidade, que afinal contém uma grande variedade de vírus. Quando realizamos estes tipos de interferências, estamos convidando vírus para que se tornem nossos vírus, para que eles pulem para dentro de nós. Para nós, é uma situação miserável, é uma pandemia, é a morte. Mas para eles é sucesso! E acontece por conta da perturbação ambiental, a degradação ambiental de lugares que naturalmente abrigam muitos e muitos vírus.” (citado https://leonardoboff.org/2020/04/03/alerta-de-um-especialista-em-virus-e-nossa-relacao-para-com-a-natureza-david-quammen/)

Os vírus, portanto, não são inimigos de ninguém. Todas as metáforas de guerra que têm sido empregadas por governos e autoridades públicas são desastrosas e dificultam nossa compreensão da dinâmica complexa que a realidade do Coronavirus nos revela. Nós não estamos “sendo atacados por um inimigo invisível.” Estamos vivendo há décadas em desequilíbrio com as outras espécies que co-habitam o planeta; estamos devastando ecossistemas; emitindo uma quantidade imensa de gases de efeitos estufa; aquecendo a atmosfera e os oceanos; perfurando as entranhas da terra para extrair minérios e óleos; enchendo de venenos e agrotóxicos todos os biomas; desmatando em proporções inauditas; devastando a Amazônia de tal forma que o risco de destruição da floresta é eminente, com conseqüências para todo o planeta. Tudo isto, ainda mais intensamente no século XXI, mesmo depois de todos os xamãs, os povos indígenas, as comunidades tradicionais, os cientistas e o Papa terem dado alertas, avisos e denunciado que estamos devastando as condições para a vida no planeta. Todos estes são efeitos ao mesmo tempo sociais e “naturais” das ações de grupos humanos, poderosos, sobre o Planeta Terra. Não há vingança de Deus, não há intencionalidade perversa do vírus. Existem conseqüências sistêmicas de atos e de escolhas conscientes e racionais. Por isto, a Laudato Si é clara ao afirmar que não vivemos duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas “uma complexa crise socioambiental”. (§139)

A pandemia, portanto, ao ser parte de um processo mais amplo, vinculado a atitude de grupos humanos em relação a outros humanos e ao planeta, acontece em uma teia densa e complexa de relações socioambientais, intensificando os riscos de “caos sistêmico” ou o que os ambientalistas têm chamado de “tempestade perfeita”. A intrínseca articulação de processos que víamos como distintos e separados, ou seja, a conexão entre a História Humana e a vida do planeta, o Sistema Terra, é uma das ideias centrais da Encíclica: “tudo está intimamente interligado”. A Terra não é um cenário inerte, dócil e disponível para ser explorada, subordinada, dominada, comprada e vendida. Não! A Terra, “mãe e irmã”,  é matriz da Vida e é Vida. Organismo vivo e vivente. Embora tenhamos nos “esquecido”, é urgente relembrar que “nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos.” (LS §2).

Por isto, na Praça São Pedro vazia, o Papa indagou com profundidade: “como podemos estar saudáveis em um planeta doente?” (http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2020/documents/papa-francesco_20200327_omelia-epidemia.html). É vital, portanto, que superemos a visão clássica da Modernidade, o “mito da dignidade exclusiva da natureza humana” (Levi Strauss. Antropologia Estrutural dois. São Paulo: Cosac Naify.2013:53).  Na Encíclica, o Papa com coragem reconhece a responsabilidade cristã para o fomento deste mito, ao sustentar um “antropocentrismo despótico” (LS§68, entre outros), baseado em “dualismos combalidos” (LS§98). Mas afirma a urgência de novas hermenêuticas, que nos ajudem a reconstruir os laços da “estupenda comunhão universal. O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres.” (LS§190)

Como parte constitutiva desta “complexa crise”, uma doença que se espalha globalmente evidencia a brutalidade das desigualdades estruturais, ampliadas nas últimas décadas. A situação é tão séria que um Editorial do Financial Times, jornal britânico insuspeito de vínculos com as forças populares, reconheceu em 3 de abril:

“Os isolamentos econômicos estão impondo o maior custo àqueles que já se encontram em pior situação. Durante a noite, perderam-se milhões de empregos e de meios de subsistência nos setores da hotelaria, do lazer e correlatos, enquanto os trabalhadores intelectuais mais bem pagos enfrentam freqüentemente apenas o incômodo de trabalhar a partir de casa. Pior ainda, os trabalhadores com baixos salários que ainda podem trabalhar estão freqüentemente arriscando a vida - como prestadores de cuidados e trabalhadores de apoio à saúde, mas também como empilhadores de prateleiras, motoristas de entregas e faxineiros.” (https://www.ft.com/content/7eff769a-74dd-11ea-95fe-fcd274e920ca)

As conseqüências deste período de “quarentena” da economia capitalista, no entanto, não afetarão apenas os mais pobres, embora eles sejam vítimas sacrificais. A nova ordem econômica certamente será marcada por uma disputa bélica brutal por hegemonia e pelos chamados “recursos naturais” entre China e Estada Unidos. Os alinhamentos dos governos de extrema direita da América Latina aos interesses americanos, do qual o Brasil é o exemplo mais dramático e extremo, indicam o aumento dos riscos de guerra e militarização no pós-pandemia. Olhemos com atenção para o que acontece a nossos vizinhos venezuelanos.

Portanto, o fracasso do neoliberalismo – evidente neste momento – pode engendrar um tipo ainda mais letal de capitalismo. E assim será se deixarmos por conta dos donos do mundo o cuidado do futuro. Como nos alerta o Papa: “será realista esperar que quem está obcecado com a maximização dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que deixará às próximas gerações?” (LS§190)

II. Esperançar...

Mas, com todas estas notícias péssimas – que ainda poderiam ser multiplicadas - como não desanimar? Acho que o fator que nos inspira a fortalecer a teimosa resistência dos pequenos e a rebeldia apocalíptica milenar é que parou/desacelerou a ação/destruição do “moinho satânico” da produção/circulação da economia mundo, a “economia de Mercado”, ao menos por um pequeno momento. Uma efêmera quarentena. Mas parou. Desacelerou. Isto sim era inimaginável!  E o inimaginável aconteceu: fábricas fecharam, estradas ficaram vazias, as emissões de gases de efeito estufa diminuíram, governos de direita falam de programas de renda mínima e da importância da saúde pública.

Não acho que uma crise da dimensão que atravessamos nesta noite escura, com milhares de mortos, possa ser entendida como “oportunidade”. Não acho que temos direito à inocência. Mas temos que disputar o futuro, ampliar a solidariedade e ousar imaginar um mundo que não seja governado pela máquina de Manon, o “deus dinheiro”. E temos que sonhar já, imaginar agora, nesta breve quarentena em que o inimaginável aconteceu. Se é verdade, por um lado, que os governos travam uma luta egoísta por respiradores e máscaras, revelando a face mais cruel da humanidade, por outro vemos infinitas iniciativas espontâneas de solidariedade em todas as cidades afetadas pela pandemia, pessoas que arriscam a vida para ajudar, apoiar, socorrer. Foi assim sempre, em todos os desastres e catástrofes. Eles liberam uma tremenda energia solidária, aquele sentido humano de pertença, empatia, compaixão e amizade que séculos de capitalismo não foram capazes de dizimar, por mais que o individualismo seja cultuado, imposto, ensinado. Resta ali, a brasa incandescente do amor que, muito rapidamente pode ser apagada.  Mas é dela que temos que nos valer para imaginar e disputar outros futuros possíveis. Mundos não distópicos.

Assim, acho que podemos caminhar, peregrinos, inspirados pela Laudato Sí, em algumas veredas que se combinam:

1.   Ampliar nossa leitura crítica da realidade que vivemos. Aprofundar e complexificar nosso olhar. Na Encíclica o Papa dá exemplo de imensa capacidade de diálogo, que reaproxima ciência e fé; saber popular e saber erudito; prosa e poesia. Precisamos construir uma compreensão complexa e socioambiental em cada um dos nossos lugares. Com nos diz a Encíclica: “é necessário recorrer (...) às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade. Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria.” (LS§63). O mal é terrível e, em geral, temos a tentação de desviar o olhar. De deixar de lado. De pensar que somos fracos e pequenos e não podemos nada fazer. Mas precisamos da coragem das mulheres no Calvário para olhar e olhar bem fundo.

2. Fortalecer e ampliar todas as comunidades eclesiais de base, todos os grupos de solidariedade, de vizinhança, de proximidade. Eles serão essenciais não apenas durante a pandemia para ajudar a cuidar dos doentes, alimentar os que têm fome, socorrer as mulheres e crianças vítimas de violência doméstica e acompanhar os solitários, para rezar com e pelos que não tem quem reze por e com eles. Os grupos de solidariedade serão fundamentais na situação de empobrecimento e desemprego que virá já, já. Ninguém deveria ficar sozinho agora! Em casa sim, sempre que possível. Abandonado, não! A Encíclica nos fala da relevância das relações de proximidade, uma vez que a construção de alternativas ao mundo dominado pelo “interesses do Mercado”, “requer constantemente o protagonismo dos atores sociais locais a partir da sua própria cultura.” (LS§144)

3.    Tanto quanto possível acompanhar as políticas públicas, as disputas entre os governos, as ações do presidente, dos governadores: denunciar, bater panela, exercer e inventar novas formas de vigilância cidadã. Mesmo sendo difícil, não podemos deixar as esferas públicas apenas para os psicopatas e perversos. Prestar atenção e denunciar o que acontece nos espaços mais vulneráveis à ação predatória do Estado: os desmatamentos, a ação das mineradoras e dos garimpeiros. Afirma a Encíclica, reconhecendo esta dificuldade e urgência: “A grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum à longo prazo. O poder político tem muita dificuldade em assumir este dever num projeto de nação.” (LS§178)

4.   O que menos temos feito e que é essencial agora - já que sabemos que não existe mais o normal que deixamos antes da pandemia - é imaginar outro mundo, melhor! Um mundo que queremos construir. Viveremos – querendo ou não – um “novo normal”. Com riscos socioambientais crescentes. Uma Terra mais afetada, mais quente, mais hostil e mais militarizada. Mas o futuro está em disputa. Ainda! A Encíclica, ao se dispor a ouvir de perto o “clamor da Terra e dos pobres”, estimula uma imaginação e uma espiritualidade abertas ao sopro do Espírito, em seu sentido mais encarnado e comprometido. Como disse o Papa recentemente, “Deus ama o mundo mais do que qualquer um de nós”! A inspiração e a confiança neste Amor que inunda a Criação, que está presente em todas as criaturas, que liga humanos e não humanos, é a força gentil e frágil que pode nos salvar. Salvar não da ira de Deus, mas, “sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo” (LS§79)! “O universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre.” (LS§233). Esta é uma sabedoria e uma espiritualidade profunda e antiguíssima, muitas vezes soterrada em nossas Igrejas. Santos, santas e místicos de todas as religiões cantaram este amor a toda a Criação. Dom Helder nos lembrava, “nós vivemos em Deus”! A espiritualidade dos povos ancestrais, dos indígenas e dos afrodescendentes tem tanto, tanto a nos ensinar! Os livros apocalípticos, já no Antigo Testamento, nos inspiram a imaginar e a construir a comunhão entre humanos e não-humanos, o Reino de Deus: um mundo de paz. “Que a terra bendiga ao Senhor” (Dn 3, 74), que todos os seres criados, céus, montanhas, rios, orvalho, chuva, sereno e todos nós, de “corações puros e humildes” (Dn 3,87), bendigamos em uníssono ao Senhor. E que vivamos em harmonia!

Há alguns dias um filósofo francês propôs um “exercício” que pode estimular nossa rebeldia. Deixo aqui como proposta para nós!

“Aproveitemos a suspensão forçada da maior parte das atividades para fazer um inventário daquelas que gostaríamos que não fossem retomadas e daquelas que, pelo contrário, gostaríamos que fossem ampliadas. Responda às seguintes perguntas, primeiro individualmente e depois coletivamente:

1ª pergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria de que não fossem retomadas?
2ª pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial / supérflua / perigosa / sem sentido e de que forma o seu desaparecimento / suspensão / substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis / pertinentes. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 1).
3ª pergunta: Que medidas você sugere para facilitar a transição para outras atividades daqueles trabalhadores /empregados / agentes / empresários que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?
4ª pergunta: Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem ampliadas / retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?
5ª pergunta: Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna outras atividades que você prefere mais fáceis / harmoniosas / pertinentes e ajuda a combater aquelas que você considera desfavoráveis. (Faça um parágrafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).
6ª pergunta: Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores / empregados / agentes / empresários a adquirir as capacidades / meios / receitas / instrumentos para retomar / desenvolver / criar esta atividade?”(Bruno Latour, http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/downloads/P-202-AOC-03-20-PORTUGAIS_2.pdf)

Ousemos, com gentileza e amor, sonhar e disputar com o poder do capital o futuro pós-padêmico! Nós não estamos sós. “Ele Ressuscitou! E vai à vossa frente.” (Mc16, 6-7)

*Moema Miranda é Antropóloga pelo Programa de Pós Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional / UFRJ (PPGAS/UFRJ) é assessora da Comissão Especial para a Ecologia Integrale Mineração da CNBB da CNBB, e da da Rede Eclesial Pan-Amazônica/REPAM-Brasil; secretária exevutiva da Rede Latinoamericana de Igrejas e Mineraçãç pertence a Ordem Francisca Secularç membro da equipe executiva do Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia/SINFRAJUPE. Participou, como auditora, do Sinodo da Amazônia.
Fonte: CNLB