quarta-feira, 17 de junho de 2015

Franciscanos em Assis, conclamam: "fazer as pazes com a terra"

Assis (RV) – “Fazer as pazes com a terra e cuidar dela. Seguindo o exemplo de São Francisco, nos comprometemos em respeitar e tutelar a natureza, irmã que recebemos como dom para a vida presente e que somos chamados a entregar para nossos filhos”. Este é o apelo feito pelos frades da Basílica de São Francisco, antes da publicação da Encíclica sobre a ecologia integral, de Papa Francisco. “É a primeira vez na história que um Pontífice utiliza as palavras de São Francisco em um documento oficial. O título da Encíclica se inspira no Cântico das Criaturas, manifesto de uma nova visão do mundo e fonte da espiritualidade franciscana”, reitera o Frei Enzo Fortunato, Diretor da Sala de Imprensa do Sacro Convento de Assis. “O Cântico – diz ele – é um doce louvor a Deus, feito através de suas criaturas: o sol, a lua, o vento, a água, o fogo e a terra”. A Encíclica ‘Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum será apresentada quinta-feira, na Sala do Sínodo, no Vaticano.                                               FONTE: RADIO VATICANO

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Primeira Mesquita dedicada a Virgem Maria inaugurada na Síria

Damasco (RV) – Justamente em um dos países onde a liberdade religiosa está mais seriamente ameaçada, foi construído o primeiro lugar de culto do mundo islâmico dedicado a Virgem Maria. Trata-se da nova Mesquita Al-Sayyida Maryam, localizada na cidade costeira de Tartous, segundo porto da Síria, inaugurada no último sábado (6/6).


Al-Sayyida Maryam é um dos diversos nomes árabes da Mãe de Jesus, como recordou na cerimônia de inauguração o Ministro para os Bens religiosos e Culturais, Mohammad Abdel-Sattar al-Sayyed. Esta iniciativa – disse ele - é “um sinal da abertura daquele Islã afastado das desvios e  extremismos”. O Delegado do Patriarcado Maronita de Tartous e Lattakia, Antoine Dib, também presente na cerimônia, declarou-se “orgulhoso pela iniciativa”, desejando que o gesto possa representar uma esperança de paz para cada lugar do país.
A dedicação de uma mesquita a Nossa Senhora poderia parecer um anacronismo, mas não é. No Alcorão, de fato, existe uma autêntica veneração a Virgem Maria. Um dos maiores estudiosos católicos contemporâneos sobre este tema, o franciscano florentino Giulio Basetti-Sani (1912-2001), discípulo do orientalista Louis Massignon, dedicou a sua vida à difusão do conhecimento sobre a religião islâmica, sentida por ele como uma “fé irmã”. Um de seus conhecidos livros intitula-se “Maria e Jesus filho de Maria no Alcorão”. Após séculos de incompreensões e preconceitos, o religioso desenvolveu sua obra na esteira de São Francisco de Assis e de seu programa missionário voltado ao encontro com os muçulmanos.
A teologia muçulmana não concebe Deus como pessoa. Assim nos seus 99 nomes, falta a palavra “Pai”. Portanto, impensável também um “Filho de Deus”. A Virgem Maria, no entanto, é apresentada como “escolhida por Deus” e “eleita entre todas as mulheres da Criação” (Sura 3,42). Jesus não é filho de Deus, mas “filho de Maria” (‘Isa ibn Maryam’), lê-se nos versículos 34-36 da Sura 19, onde é narrado o acontecimento de uma virgem que, afastando-se da família, tem um filho (‘Masîh’, o ‘Ungido’, um dos nomes tradicionais de Jesus), ‘dom’ de Alá que ‘cria aquilo que quer’.
A este respeito, recorda-se que já há alguns anos no Líbano, o 25 de março (Festa da Anunciação para a Igreja Católica) foi proclamado, após longas tratativas conduzidas pelo Comitê islâmico-cristão, Festa Nacional.
O fundador do Instituto da Caridade, o beato Antonio Rosmini-Serbati (1797-1855), um dos maiores filósofos italianos do século XIX, foi autor da obra “As cinco chagas da Santa Igreja” (1832). Neste período pré-Concílio, quando os seguidores de Maomé eram colocados pela Igreja entre os “infiéis”, seguidores de uma “falsa religião”, Rosmini, apoiado pelo Cardeal Castruccio Castracane dos Antelminelli, publicou o texto “Sobre testemunhos dados pelo Alcorão a Virgem Maria”, desconsiderado na época, mas que no decorrer do tempo e ainda hoje desempenha um papel no diálogo inter-religioso a partir do reconhecimento comum da maternidade de Maria (sancionada pelo Concílio de Éfeso, em 431). 
FONTE: RÁDIO VATICANO (JE/Vatican Insider)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Louvado Sejas - "Sobre Cuidado da Casa Comum"

O texto da encíclica sobre a ecologia que o Papa Francisco está prestes a lançar exortar os cristãos a ter um comportamento consistente na defesa do planeta contra a exploração indiscriminada. A encíclica será apresentada quinta-feira, 18 de junho, na Sala de Imprensa da Santa Sé.  

Estarão presentes o cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, o Metropolita Ortodoxo Joannis Zizioulas representando o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla (sempre muito ativo sobre a questão da ecologia) e John Schellnhuber, fundador e diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático.

A presença de Zizioulas, um dos maiores teólogos vivos, é um sinal significativo de como a encíclica vai melhorar as palavras e idéias sobre o tema do Patriarca Bartolomeu I, personalidade sensível ao meio ambiente e estimado pelo Papa Francisco.

A encíclica será publicada em italiano, francês, Inglês, Alemão, Espanhol e Português.

domingo, 7 de junho de 2015

Novo Estlio de Vida - causas da crise ecológica

NOVO ESTILO DE VIDA
CAUSAS DA CRISE ECOLÓGICA


UM CURTO VÍDEO DE CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL FEITO PELOS FRADES FRANCISCANOS DO CHILE - JUSTIÇA, PAZ E INTEGRIDADE DA CRIAÇÃO E JUFRA
(narrado em espanhol mas de fácil compreensão)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Brasil participará do Grupo de Trabalho para um Tratado Internacional na ONU

O SINFRAJUPE (Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia) participou de encontro em Brasília, nos dias 20 e 21 de maio, para discutir a estratégia de atuação para a Primeira Reunião do Grupo Intergovernamental de Trabalho a ser realizada em julho em Genebra. Leia abaixo um artigo da Rede Brasileira pela integração dos Povos (REBRIP) com mais informações.

Direitos Humanos e Transnacionais; Brasil participará do Grupo de Trabalho para um Tratado Internacional na ONU

Entender a importância do Tratado é entender a importância do seu papel na sociedade enquanto cidadão dotado de direitos

Escrito por:Fernanda Ramone, assessora de comunicação da Rebrip


Mobilizadas contra as práticas que priorizam as exigências das transnacionais em detrimento ao valor da vida, organizações da  REBRIP, e outras entidades da sociedade civil se reuniram durante os dias 20 e 21 de maio em Brasília para discutir a estratégia de atuação para a Primeira Reunião do Grupo Intergovernamental de Trabalho a ser realizada em julho em Genebra.

O trabalho deste coletivo de entidades atua na construção de um espaço de reflexão e articulação sobre  fenômenos de concentração e internacionalização da economia brasileira e os impactos para o ambiente, as comunidades, camponeses, mulheres, trabalhadores/as, consumidores entre outros afetados. E juntos se mobilizam para conseguir um Tratado que obrigue as empresas em matéria de violação aos direitos humanos, ou seja,  a criação de códigos comuns a serem aplicados no nível internacional.

As violações realizadas pelas transnacionais envolvem casos análogos ao trabalho escravo, ambiente de trabalho que oferece risco de morte, de acidentes, de constrangimento moral ou físico, ou o desenvolvimento de doenças, casos de comunidades que enfrentam ameaças de contaminação, desalojamentos; desestabilização do meio ambiente pela operação das empresas, alterando até a cultura local e expondo populações em situações e de necessidades impostas em função da presença das corporações.

Para entender o debate é preciso contextualizar o cenário. Há mais de 40 anos são realizadas discussões sobre este tema na ONU (Organizações das Nações Unidas). Depois de muitas iniciativas falhas, em 2011 adotada-se uma resolução baseada no parecer de John Ruggie, representante especial do secretário da ONU, que estabeleceu os “Principios Reitores” baseados em três pilares principais: é dever do Estado proteger os direitos humanos; é responsabilidade das empresas respeitar os direitos humanos; da necessidade de reparação em caso de violações. Os Princípios representaram um avanço, mas não resolveram a necessidade de criar normas obrigatórias para as empresas, demanda central da sociedade civil.

A iniciativa de alguns países e a pressão continua da sociedade civil global, e fundamentalmente dos povos afetados, possibilitou que no mês de junho de 2014 em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovasse uma resolução para iniciar um processo oficial para um tratado internacional sobre direitos humanos e empresas. A votação foi apertada e polarizada entre países em desenvolvimento e aqueles desenvolvidos que sediam as grandes empresas. Nesse contexto, o Brasil decidiu se abster alegando o frágil argumento de que um tratado assinado somente por países em desenvolvimento não será cumprido nos países desenvolvidos.

A cobrança das organizações sociais, e a evidência de que o tema é sensível para muitos no Brasil fez com que o posicionamento do governo brasileiro passasse da posição de “neutralidade”  para a de  maior engajamento nas negociações.  O processo será feito a partir das contribuições da sociedade civil, de  órgãos do governo e da academia  para juntos construírem a posição brasileira para levar ao Grupo de Trabalho criado pela resolução para discutir o Tratado.

A sociedade civil defende a participação do Brasil e das organizações sociais brasileiras ativa no debate e acredita que a sua presença pode incentivar a vinda de outros países. Mais que isso, estas entidades atuam diretamente com as vítimas das agressões dos direitos humanos praticados pelas transnacionais e defendem estratégias imediatas e ações que evitem que novas fatalidades aconteçam. Se opondo a lógica de agir a posteriori em reposta às violações.

Na prática estas discussões buscam assegurar e proteger o direito dos cidadãos, assegurando condições dignas de trabalho, respeitando a cultura local, protegendo o ambiente do danos causados a partir do progresso gerado em função da instalação destas empresas nos territórios. Na prática somos todos  - nós, eu, você, sua comunidade - atingidos, de uma forma ou outra, neste processo. Entender a importância deste Tratado é entender a importância do seu papel na sociedade enquanto cidadão dotado de direitos.

* Entidades da sociedade civil e da academia que estiveram presentes no encontro:
DIEESE, UFBA, TNI, Campanha Global para desmantelar o Poder Corporativo, Justiça Global,   Terra de Direitos, REBRIP, Observatório Social, Amigos da Terra, Homa, Reporter Brasil, IBASE, FAOR, ABIA, Conectas, SINFRAJUPE, SOF/MMM, MAB, CONTRACS

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Avança a conquista dos sem teto em Uberlândia



O técnico do Ministério das Cidades, Antônio Vladimir Moura Lima, esteve fazendo uma visita técnica, no dia 28 de maio, na Ocupação Elisson Prieto, na região do Glória, em Uberlândia (MG). A área que pertence à Universidade Federal de Uberlândia (UFU) possui 62 hectares, e está ocupado pelo Movimento dos Sem Teto do Brasil, desde janeiro de 2012, e conta com 2300 famílias, pelo menos 15 mil pessoas moram na área. Um decreto da presidenta Dilma, para ser alienada e resolver a questão, desde a metade de 2014.


Os moradores se reuniram em assembléia, no local, e mesmo se tratando de uma tarde em um dia de trabalho, milhares de moradores deixaram seus serviços, para acompanhar o técnico do Ministério das Cidades. Nesse mesmo dia, na parte da manha, houve uma reunião na reitoria da UFU.

As famílias estão confiantes com uma solução rápida para a questão. Nesse caso, tanto a UFU, o governo federal e a prefeitura municipal de Uberlândia, estão de acordo e uma solução está prestes a ser concretizada.

Uma ação de reintegração de posse segue suspensa até o dia 27 de junho e a Justiça Federal espera a apresentação de uma proposta viável para a solução do impasse.

É bom lembrar que o direito de moradia, direito humano e garantido em nossa constituição, é das mais insistentes reivindicações dos movimentos urbanos, constituindo-se mesmo em principal reivindicação.

A Ocupação Elisson Prieto se soma com outras ocupações de terra urbana no município de
Uberlândia. No Brasil há uma crise urbana aguda em função do enorme deficit habitacional que ultrapassa 7 (sete) milhões de moradias. São o resultado da incapacidade das políticas públicas sociais de moradia em responder à uma demanda histórica. O Programa Minha Casa Minha Vida, mesmo sendo implementado não é capaz de acompanhar a demanda que resulta para realização desse direito.

Não existe uma política urbana que contenha os avanços do capital imobiliário e que seja capaz de fortalecer as políticas públicas de habitação de interesse social e de urbanização no país. Uberlândia não difere da realidade do avanço do capital especulativo urbano. Por isso, os sem teto em seus movimentos reagem à ideia da cidade como mercadoria. 

A reforma urbana de verdade deve ser construída a partir da iniciativa do povo de periferia organizado. As ocupações de terras improdutivas, constrói o espaço urbano e a luta pelo direito à cidade e pela efetividade dos mecanismos de controle urbano do capital, vai ganhando força,

terça-feira, 26 de maio de 2015

Mineração em Paracatu contamina cidade e expõe população ao arsênio

A lavra principal da mina de ouro se estende até perder de vista. / GUSTAVO BASSO
GIL ALESSI
Bruna Gomes Calda, de sete anos, costuma se refrescar no córrego Rico durante os dias quentes de Paracatu, noroeste de Minas Gerais. “Eu gosto de nadar no rio e pegar pedra no fundo”, diz a menina. O riacho, que corta a cidade ao meio, passa a um par de metros dos fundos de sua casa, no bairro Cidade Nova. Dezenas de residências, a maioria de famílias de baixa renda, foram construídas nas margens de terra do curso d’água, que também servem de área de lazer para Bruna: lá ela brinca, corre e ajuda a mãe, Queila, 28, a pendurar roupas no varal. Nenhuma das duas sabe, porém, que as águas do Rico e o solo do entorno estão altamente contaminadas com arsênio, um dos elementos químicos mais tóxicos da natureza.
A Prefeitura da cidade sabe dos riscos. Mas, segundo moradores, nada fez para alertar a população. “Ninguém nunca me disse nada sobre a possibilidade de contaminação”, diz Queila, que afirma desconhecer o que é arsênio. Em 2010 o Executivo municipal encomendou um estudo ao Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) do Governo Federal, com o objetivo de analisar os impactos que a mineração em larga escala provoca na saúde da população e no meio ambiente de Paracatu. Desde 1987 a cidade abriga a maior mina de ouro a céu aberto do mundo, que hoje é operada pela companhia canadense Kinross, que responde por 25% da produção nacional do minério. A companhia diz em seu site gerar "cerca de 1.300 empregos diretos e mais de 2.500 terceirizados" que totalizam "22% dos postos de trabalho formais do município", além de ser "a principal geradora de impostos" para a cidade. Em 2014 a companhia obteve receitas de 3,4 bilhões de dólares. A área total das instalações supera a de Paracatu, que tem 8.232 km² - em alguns pontos, a empresa é dona de tudo o que a vista alcança.
O arsênio, que é abundante nas rochas da região (leia abaixo), é liberado no ar e na água quando elas são explodidas para processamento nas instalações da empresa. Em dezembro de 2013 o relatório final do Cetem foi entregue à Prefeitura, e um resumo do documento foi tornado público e colocado na Internet. Nele foi destacado que “mais de 95% da população amostrada apresentou baixos teores de arsênio em urina”.
Sem informação sobre a contaminação dos rios, moradores usam a água. /GUSTAVO BASSO
Uma cópia da íntegra do estudo obtido pelo EL PAÍS com fontes que preferiram o anonimato – o Cetem se negou a fornecer o relatório – mostra um cenário mais preocupante do que fazem crer as 34 linhas do resumo apresentado. O solo ao redor do córrego Rico, onde Bruna costuma brincar, possui em alguns trechos uma concentração de arsênio cinquenta vezes maior do que a permitida pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente(Conama) para uso residencial. Sergio Ulhoa Dani, médico do departamento de Oncologia Médica do hospital da Universidade de Berna, na Suíça, afirma que as consequências do acúmulo da substância nos seres humanos são devastadoras: “Diversos tipos de câncer, diabetes, problemas na pressão arterial, alterações endocrinológicas e vários problemas respiratórios estão entre as doenças provocadas pelo arsênio no corpo”, afirma. Dani já  morou em Paracatu, e há anos acompanha os efeitos da mineração na saúde dos moradores - até hoje examina laudos e exames médicos da população local.
Segundo ele, alguém que entra no córrego se “expõe ao arsênio que está na água, já que a substância pode passar pela pele. Mas a mais perigosa forma de exposição é via oral - muito comum em se tratando de crianças - e respiratória". Dani, que analisou dezenas de amostras de sangue e urina de pacientes de Paracatu, afirma que a maioria delas possuem arsênio: “Não existe nível seguro dessa substância no corpo. Apenas a presença dela já indica contaminação”. De acordo com o médico, alguns pacientes saíram da cidade há décadas, mas continuam contaminados, já que o "arsênio é liberado no sangue por anos após a exposição, pois se acumula nos ossos.”
A Kinross afirma, em nota, que “a presença de arsênio em Paracatu se dá de forma natural”, e que os rios que estão contaminados “se tratam de cursos d’água que no passado, principalmente na década de 80, sofreram impactos gerados pelas atividades garimpeiras que têm ocorrido desde os anos 1700 na cidade”. Estas atividades, segundo a empresa, teriam sido “executadas sem nenhum acompanhamento técnico e causaram impactos não controlados à época”.
Em cinco das oito amostras coletadas pelo Cetem no entorno do rio Rico, a terra não poderia nem mesmo ser usada com finalidades industriais
A aposentada Maria Helena Gonçalves Nunes, 66, acabou de receber o resultado do seu exame de arsênio feito em um laboratório particular. “Estou muito triste. Estou com um índice muito alto [de arsênio] no corpo”, diz. Moradora de uma chácara localizada no pé da barragem de resíduos [local onde a mineradora despeja os dejetos químicos da atividade], ela diz que evitava tomar a água dos córregos que cortam a região, por medo de contaminação. “Quando eu ia da cidade para lá eu sempre levava água, para não ter que usar aquela. Mas às vezes não dava, e eu acabava cozinhando com o que tinha lá”, afirma. O exame de Maria apontou 14,2 ug/g da substância, quando o valor de referência é até 10ug/g.
“Tenho pressão alta, meu corpo dói e coça, meu couro cabeludo também e fico com um mal estar”, diz ela. Para Dani, os sintomas apresentados são condizentes com um quadro de arsenicose, que é a intoxicação aguda pela substância. A fazenda de Maria é cortada pelo rio Santo Antônio, cujo sedimento tem uma concentração de arsênio 189 vezes superior à permitida pela Conama, de acordo com o Cetem. A água do rio é imprópria para o consumo, e em alguns trechos o solo do entorno não poderia abrigar nem mesmo indústrias. Maria agora pensa em vender o terreno, que está com a família há mais de 40 anos: “Não dá para ficar, se eu me contaminar mais não sei o que vai acontecer comigo. Agora penso em vender minha terra, não tem mais jeito. Antes tinha água limpinha lá, hoje a nossa nascente é só lama”.
Em cinco das oito amostras coletadas pelo Cetem no entorno do rio Rico, a terra não poderia nem mesmo ser usada com finalidades industriais – que tolera concentrações maiores de arsênio. O sedimento do fundo do córrego – onde Bruna gosta de pegar seixos no leito – tem, em alguns trechos, uma concentração da substância 252 vezes maior do que o permitido pelo Conama: são 4297,2 miligramas do mineral por quilo, ante os 17 mg/kg permitidos pela legislação em vigor. E a água do rio é imprópria para o consumo humano em diversos pontos analisados – em um deles não poderia ser usada nem mesmo para irrigação ou consumo animal.
A barreira de rejeitos, construída sobre um quilombo. / GUSTAVO BASSO
Um dos trechos do estudo, publicado apenas em inglês na Internet, conclui que “o arsênio não oferece riscos [de doenças] não-carcinogênicas [diabetes, pressão alta, problemas respiratórios, etc] para adultos, mas as crianças estão em risco. Já os efeitos carcinogênicos [risco de câncer por contaminação], crianças e adultos correm risco”. Mais adiante, o relatório afirma que a principal via de contágio é pela “ingestão de água e inalação de partículas”. O EL PAÍS solicitou diversas vezes sem sucesso entrevistas com o prefeito Olavo Remígio Condé, do PSDB. Posteriormente a assessoria informou que a reportagem seria atendida pelos secretários da Saúde e do Meio-Ambiente de Paracatu, o que também não se concretizou.
Ativistas locais de direitos humanos e acadêmicos colocam, ainda, sob suspeita o estudo do Cetem e a divulgação parcial dos resultados, alegando que o Centro não teria isenção para investigar a poluição da Kinross, já que teria negócios com a empresa. Dados obtidos pelo EL PAÍS via Lei de Acesso à Informação apontam que a entidade recebeu mais de 500.000 reais em pagamentos da mineradora por serviços como consultorias e estudos.
Jorêncio Pereira dos Santos, 47, é outro morador que vive às margens do Rico. Sua principal atividade é a coleta de materiais recicláveis na cidade. Aposentado por invalidez após um acidente de trabalho na lavoura, ele depende de doações de alimentos para sobreviver. Sem acesso à água encanada, Santos se vê obrigado a utilizar a água de um dos braços do Rico para tomar banho e cozinhar. “Não tenho água nem luz aqui na minha casa. Se não fosse pela água do rio, eu não teria como fazer”, diz. Ele reclama da poeira e da poluição do ar, mas diz nunca ter ouvido falar do arsênio. Enquanto aponta para dois peixes pendurados em um varal na área externa da casa, ele garante: "Não foram pescados aqui. Se tivessem, eu não comeria".

Da rocha para a cidade

Santos exibe um pedaço de rocha com arsênio. / GUSTAVO BASSO
O geólogo Márcio José dos Santos, mestre em Planejamento e Gestão Ambiental pela Universidade Católica de Brasília, explica como ocorre a liberação do arsênio na mina de Paracatu. “Quando a rocha é explodida com dinamite na lavra[área principal da mineração] o arsênio, que antes estava preso e não oferecia risco para a saúde, é liberado no ar e reage com a água e outras substâncias do ar, tornando-se ativo e perigoso”, diz. Segundo ele, na cidade os ventos sopram do sentido nordeste para o sudeste, o que contribui para que esta poeira venenosa vá da mina para a cidade. Em outra etapa da mineração, os fragmentos de rocha são tratados com produtos químicos, o que libera mais arsênio. “Estes produtos são jogados na barragem de rejeitos, que é uma grande represa altamente tóxica onde todas as ‘sobras’ do processo são armazenadas”, afirma.
A mineradora informou que o durante o processamento do minério ele “é separado usando cianeto e vai para um recipiente próprio com medidas de múltipla proteção”, e que a empresa “segue rigorosos e modernos monitoramentos ambientais que atestam junto as agências reguladoras e órgãos ambientais a eficiência dos seus controles”. Quanto à poeira liberada, a companhia afirma aspergir as vias de acesso com água, para evitar que os grãos se espalhem no ar, e diz aplicar “polímeros, [e promover a] revegetação das áreas de entorno”.
A Kinross construiu duas barragens de rejeitos - restos de produtos químicos e rochas no processo de exploração - em Paracatu, que dominam grande parte do horizonte da cidade. A mais recente, construída em 2006, inundou o vale do Machadinho, que era lar da comunidade quilombola de mesmo nome. De acordo com o Ministério Público Federal, os descendentes de escravos forampressionados pela mineradora a venderem suas terras. Outro quilombo foi ‘comprado’ para que suas terras fossem usadas na construção da barreira no vale. Hoje os enormes ‘lagos’ tóxicos ocupam uma área de mais de 3.000 hectares, que comportam quase dois bilhões de toneladas de rejeitos. Santos acredita que, como as barragens ficam em uma área de fratura geológica, os resíduos tóxicos se infiltrem no lençol de água subterrâneo.
“Os rejeitos químicos da lama despejada lá reagem com a argila do fundo da barragem, aumentando ainda mais a fratura. Por isso os córregos situados abaixo da barragem estão contaminados”, explica o professor. O relatório do Cetem embasa a conclusão do geólogo: dos 11 rios da cidade analisados, seis apresentaram amostras de água e solo contaminadas com arsênio.
A companhia nega que haja vazamento da barragem e afirma que “controles e monitoramentos garantem a estabilidade da estrutura da barragem e a qualidade da água devolvida ao ambiente”. Na nota enviada à redação, a empresa afirma ainda que “as águas captadas nos barramentos da nossa barragem (...) passam por um sistema de tratamento antes de serem devolvidas aos córregos com qualidade e conformidade com os parâmetros legais”.

Funcionários em risco

Pela cidade é possível encontrar outdoors onde funcionários da Kinross aparecem sorridentes sob a hashtag orgulhodeserkinross. Um trecho do pequeno resumo executivo do relatório do Cetem, no entanto, afirma que “os empregados da mineradora de ouro (...) não participaram da pesquisa [que envolveu coleta de sangue e urina dos moradores], embora tenham sido convidados”. O estudo diz ainda que “as razões para a não participação deles [na pesquisa] são incertas”, mas que “pode-se afirmar que esse grupo é mais vulnerável à exposição ao arsênio do que a população em geral”.
A Kinross informou que “o escopo original do estudo Cetem não incluía os empregados da empresa”. Segundo a nota, a companhia “tem seu próprio programa de monitoramento como parte de seu programa ocupacional de saúde e segurança”, e que os resultados “mostram que todos empregados estão dentro de níveis aceitáveis de exposição”.
Trabalhadores da companhia que não quiseram se identificar disseram que a Kinross colhe sangue e urina dos funcionários a cada três meses. “Eles não informam os resultados, apenas dizem que está tudo bem”, diz um deles, que trabalha na lavra e diz aspirar “muita poeira que sai das rochas” diariamente. Quando perguntado por que não fazia um teste em outro lugar para detectar os níveis de arsênio em seu corpo, o funcionário diz apenas que tem “medo" do que pode descobrir.
A empresa negou que os resultados não sejam apresentados aos funcionários: “Os resultados dos exames realizados são apresentados e ficam disponíveis para nossos empregados e para as autoridades”.
FONTE: EL PAÍS