segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Nota da Rede Diálogo dos Povos sobre missão no Zimbábue e prisão da delegação

Declaração do Diálogo dos Povos sobre a visita de intercâmbio e solidariedade ao Zimbábue e a prisão da delegação naquele país.

8-12 November 2017


O Diálogo dos Povos informa com alegria que todos os 22 delegados que haviam sido presos e multados sob acusação de invadir áreas proibidas no Zimbábue, já estão salvos e em liberdade.

Nesta manhã de 13 de novembro todos os estrangeiros que integravam a delegação do Diálogo dos Povos deixaram o Zimbábue.

A delegação do Diálogo dos Povos foi organizada com representantes da África do Sul, Suazilândia, Zâmbia, Quênia, Uganda, Zimbábue e Brasil.

A delegação estava no Zimbábue para uma visita de intercâmbio e solidariedade, buscando compreender a situação da mineração artesanal, bem como para participar do  9o. aniversário do Massacre da Mina de Diamantes de  Marange, próximo a cidade de Mutare.

Felizes com a libertação de nossos companheiros e companheiras seguimos, no entanto, extremamente preocupados com a situação de nossos parceiros no Zimbábue, que diariamente enfrentam a repressão e o assédio experimentados durante esta visita. Estamos, também, atentos e preocupados com as implicações que a atenção internacional despertada pela prisão da delegação do Diálogo dos Povos possa causar aos nossos parceiros locais.

Em um cenário internacional de intensos e agudos conflitos em torno da mineração, o propósito da visita era compreender melhor o papel desempenhado pela mineração artesanal e avaliar as possibilidades de que esta seja uma alternativa viável frente à pilhagem e brutalidade da atuação das multinacionais em nossos países. Além disto, nossa visita visava desenvolver reflexões em conjunto e compartilhar ideias e perspectivas sobre as formas de organização da mineração artesanal e seu possível papel positivo em termos de utilização dos recursos nacionais. Escolhemos o Zimbábue para esta visita e para a organização deste debate, exatamente porque aí mais de um milhão de pessoas estão diretamente envolvidas na mineração artesanal.

Evidentemente a visita de intercâmbio foi severamente perturbada pela intervenção arbitrária do governo e da polícia do Zimbábue.

Como Diálogo dos Povos organizaremos uma reunião urgente para definir próximos passos e identificar formas de arrecadar os recursos necessários para cobrir os custos de ressarcimento às organizações locais que se solidarizaram conosco, bem como para o pagamento dos honorários advocatícios e das despesas extras acarretadas pelas viagens de emergência necessárias para salvaguardar todos os participantes.

Como Diálogo dos Povos queremos expressar toda nossa gratidão e reconhecimento pelo incrível trabalho de solidariedade e compromisso expressos por inúmeras pessoas e organizações diante da situação de aprisionamento de nossos companheiros e companheiras. Agradecemos aos colegas e companheiros do Centro de Recursos Naturais e Governança (Centre for Natural Resource Governance) e à Unidade de Serviço de Aconselhamento (Counselling Service Unit); ao Dr. Passmore Nyakureba e a sua equipe de advogados;  aos Advogados de Direitos Humanos do Zimbábue (Zimbabwe Lawyers for Human Rights); à  CIDSE; ao DKA; ao secretariado da AMECEA; à Campanha TNC; à Embaixada Brasileira; à Nunciatura Apostólica do Vaticano, em Harare; ao bispo Mons. Paul Horam; à Conferência dos Bispos do Brasil; à Ordem dos Frades Menores; à JPIC dos Fransciscanos; à Franciscans International; ao Frei Amaral Bernardo e à Custodia de Santa Clara, em Moçambique.

Em conclusão:

A situação política no Zimbabue permanece extremamente tensa e seguimos preocupados com o bem estar e segurança de nosso parceiros do Centro de Recursos Naturais e Governança (Centre for Natural Resource Governance), que resistem de forma valente e corajosa á pilhagem dos recursos naturais e despossessão a que estão submetidas as comunidades pobres pelo setor extrativo.

People’s Dialogue Secretariat
Mercia Andrews,


South Africa.

domingo, 5 de novembro de 2017

O Crime, A Impunidade: Samarco (Vale e BHP Billinton)

Em 5 de novembro de 2015, 34 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro, proveniente da barragem de Fundão,em Mariana (MG), jorraram do complexo de mineração operado pela Samarco e percorreram 55 km do rio Gualaxo do Norte e outros 22 km do rio do Carmo até desaguarem no rio Doce. No total, a lama percorreu 663 km até encontrar o mar, no município de Regência (ES). 

O crime

Em 9 de junho de 2016 a Polícia Federal concluiu o inquérito sobre o rompimento da barragem de Fundão em Mariana. O inquérito apontou uma série de causas para o rompimento da barragem. Para a PF a Samarco assumiu o risco e privilegiou o lucro em detrimento da segurança. A PF conseguiu apreender documentos que comprovam conversas entre área técnica e a direção da mineradora, comunicando sobre problemas. A barragem apresentava problemas desde sua construção, com utilização de material de baixa qualidade. Depois, modificações sem projeto, problemas de drenagem, problemas com recuo da ombreira esquerda do eixo da barragem, em que se invadiu uma área que não era firme o suficiente.  Houve, entre 2012 - 2015  redução do orçamento na área de geotécnica -- que seria responsável pelo controle da barragem.  Houve ainda alteamento muito acima do recomendado e  inoperância de instrumentos de monitoramento..A PF apurou também que a barragem de Fundão estava sem responsável técnico desde 2012.

A continuidade do Crime

Em 18 de novembro de 2016, a Samarco, suas controladoras Vale e BHP Billinton e a VogBR, mais 22 pessoas dessas empresas, foram indiciadas, se tornaram rés em um processo criminal.

Dois anos depois do crime ao longo dos rios temos a contaminação das águas, problemas de saúde (física e mental), moradias destruídas, perda de fontes de trabalho e renda e a dispersão dos laços comunitários, que se constituem  em  alguns de tantos problemas ainda existentes. 

As cerca de 300 famílias desalojadas pela lama que se alastrou com o rompimento da barragem do Fundão, da mineradora Samarco, vivem agora na área urbana da Mariana, apartadas umas das outras, e enfrentam a hostilidade de muitos moradores da cidade (que ganharam novos vizinhos de uma hora para outra) e seus próprios demônios. A cena mais marcante é o distrito de Bento Rodrigues: uma localidade fantasma, com escombros e lama. Dos 20 mortos, 14 eram trabalhadores e 5, moradores locais e um aborto forçado.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

CNBB manifesta "apreensão e indignação" com o momento politico e pede "reação do povo"

Por meio de nota, divulgada nesta quinta-feira, 26, em coletiva de imprensa na sede provisória da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília (DF), a presidência da CNBB manifestou mais uma vez sua apreensão e indignação com a grave realidade político-social vivida pelo país, que afeta tanto a população quanto as instituições brasileiras. No texto, a entidade repudia a falta de ética que se instalou nas instituições públicas, empresas, grupos sociais e na atuação de inúmeros políticos que “traindo a missão para a qual foram eleitos, jogam a atividade política no descrédito”.
A Conferência criticou também a apatia e o desinteresse pela política, que cresce cada dia mais no meio da população brasileira, inclusive nos movimentos sociais. Apesar de tudo, a entidade diz que é preciso vencer a tentação do desânimo, pois só uma reação do povo, consciente e organizado, no exercício de sua cidadania é capaz de purificar a política e a esperança dos cidadãos que “parecem não mais acreditar na força transformadora e renovadora do voto”.
Confira, abaixo, a nota na íntegra:
“Aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito do oprimido” (Is 1,17)
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, através de seu Conselho Permanente, reunido em Brasília de 24 a 26 de outubro de 2017, manifesta, mais uma vez, sua apreensão e indignação com a grave realidade político-social vivida pelo País, afetando tanto a população quanto as instituições brasileiras.
Repudiamos a falta de ética, que há décadas, se instalou e continua instalada em instituições públicas, empresas, grupos sociais e na atuação de inúmeros políticos que, traindo a missão para a qual foram eleitos, jogam a atividade política no descrédito. A barganha na liberação de emendas parlamentares pelo Governo é uma afronta aos brasileiros. A retirada de indispensáveis recursos da saúde, da educação, dos programas sociais consolidados, do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), do Programa de Cisternas no Nordeste, aprofunda o drama da pobreza de milhões de pessoas. O divórcio entre o mundo político e a sociedade brasileira é grave.
A apatia, o desencanto e o desinteresse pela política, que vemos crescer dia a dia no meio da população brasileira, inclusive nos movimentos sociais, têm sua raiz mais profunda em práticas políticas que comprometem a busca do bem comum, privilegiando interesses particulares. Tais práticas ferem a política e a esperança dos cidadãos que parecem não mais acreditar na força transformadora e renovadora do voto. É grave tirar a esperança de um povo. Urge ficar atentos, pois, situações como esta abrem espaço para salvadores da pátria, radicalismos e fundamentalismos que aumentam a crise e o sofrimento, especialmente dos mais pobres, além de ameaçar a democracia no País.
Apesar de tudo, é preciso vencer a tentação do desânimo. Só uma reação do povo, consciente e organizado, no exercício de sua cidadania, é capaz de purificar a política, banindo de seu meio aqueles que seguem o caminho da corrupção e do desprezo pelo bem comum. Incentivamos a população a ser protagonista das mudanças de que o Brasil precisa, manifestando-se, de forma pacífica, sempre que seus direitos e conquistas forem ameaçados.
Chamados a “esperar contra toda esperança” (Rm 4,18) e certos de que Deus não nos abandona, contamos com a atuação dos políticos que honram seu mandato, buscando o bem comum.
Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, anime e encoraje seus filhos e filhas no compromisso de construir um País justo, solidário e fraterno.
Brasília, 26 de outubro de 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Denunciada a Samarco na Assembleia dos Investidores da BHP, em Londres.

Thiago Alves do MAB e Frei Rodrigo Péret da rede Igrejas e Mineração cobram da BHP Billinton sua responsabilidade no crime da SAMARCO em Mariana. Na Assembléia dos Investidores a BHP Billinton, uma das proprietárias da SAMARCO juntamente com a Vale, foi denunciiado o descaso dessa empresa em relação à situação dos atingidos pelo desastre criminoso da barragem de Fundão em Mariana. Até o presente momento nada de concreto foi realizado para remediar os impactos sofridos pelas famílias e populações atingidas, bem como para recuperar a bacia do rio Doce. Nessa ocasião foi entregue uma carta denuncia sobre a situação, após quase 2 anos do crime. Leia a carta a baixo:

Carta para os investidores da BHP Billiton plc (BHP)
Quinta-feira 19 Outubro 2017
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) é uma organização social brasileira que tem 26 anos de história. Está organizado em todas as regiões do Brasil, precisamente em 19 estados. Atua levando informação e organizando atingidos e atingidas por barragens.
O MAB atua na bacia do rio Doce há 25 anos. Aqui, denunciamos o rompimento da Barragem de Fundão, de propriedade da Samarco Mineração S.A, controlada pela Vale Mineração S.A e pela BHP Billiton, ocorrido em 5 de novembro de 2015. Foram 622 km de cursos d’gua contaminados por rejeitos de mineração entre a cidade de Mariana, Minas Gerais, até à foz do rio Doce em Regência, distrito de Linhares, Espírito Santo. Foi o maior crime da mineração global com cerca de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos despejados na natureza.
Conjuntamente com a rede internacional Igrejas e Mineração e com apoio da London Mining Network, trazemos a indignação das famílias dos 19 mortos pelo crime, da mãe que teve seu filho morto em seu ventre devido a força da lama e dos outros que perderam a vida após rompimento por causa de doenças, do abandono e da tristeza.
Denunciamos a Fundação Renova, criada pela BHP Billiton e Vale Mineração S.A, que atua para não efetivar os direitos dos atingidos. A realidade mostra que ela é um instrumento para atrasar os processos de reparação e criar uma farsa chamada “Diálogo Social”, a multiplicação de reuniões que nada resolvem simulando uma suposta participação dos atingidos.

Diante deste cenário, os atingidos e atingidas, reivindicam que a BHP Billinton:

- Acelere os reassentamentos de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, Gesteira e demais comunidades atingidas em que este reassentamento seja necessário. A BHP sequer apresentou prazos para o início das obras enquanto mais de 350 famílias ainda estão sem casas dois anos após o rompimento.

- Anuncie o fim do Programa de Indenização Mediada (PIM) que trata das questões relacionadas aos danos morais e materiais, além dos problemas causados pela falta de abastecimento de água em grandes cidades ao longo da bacia do rio Doce. Este programa individualiza o processo, gera desconfianças entre as famílias, simula uma medição que não existe, coloca nas mãos das empresas o poder de decisão sobre prazos e valores e fere a autonomia dos atingidos que tem o direito de propor um modelo próprio com critérios e metodologias para alcançarem a justa reparação.

- Indenize os pescadores e garimpeiros artesanais em toda a bacia do rio Doce, incluindo as Comunidades Tradicionais, que ainda nada receberam de reparação, e de acordo com a legislação internacional,  atenda às reivindicações dos povos indígenas atingidos.

- Solucione definitivamente as questões do abastecimento e da qualidade da água em todas as comunidades e cidades da bacia do rio Doce.
Solucione definitivamente a questão da geração de emprego e renda em toda a região atingida em resposta a grave crise social gerada na população, sobretudo entre pescadores e marisqueiros das águas doce e salgada, além dos produtores rurais que dependem das águas hoje contaminadas.

- Efetivamente recupere a bacia do Rio Doce dos impactos sofridos, restaurando a fauna e a flora, a vida aquática marinha e dos rios. É urgente reestabelecer vida em todos os seus aspectos.

Dia a dia, fortaleceremos nossa organização e cresceremos nossa luta porque entendemos que este é o único caminho para alcançar efetivação de direitos e dignidade. Esperamos que esta Assembleia, reunida anualmente para comemorar seus lucros, não se esqueça de todos nós enlameados pelo rejeito e ultrajados pela morte e pelo abandono nas distantes terras brasileiras.


Águas para vida! Não para morte!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Papa Francisco convoca Sínodo para a região panamazônica

Ao término da Santa Missa com o rito de canonização dos Bem-aventurados André de Soveral e Ambrósio Francisco FerroMateus Moreira e 27 companheiros mártires; CristoforoAntonio e GiovanniFaustino Míguez e Angelo de Acri, celebrada no átrio da basílica vaticana, o Santo Padre Francisco guiou a oração do Ângelus com os fiéis e os peregrinos presentes na Praça de São Pedro.
O principal objetivo do Sínodo é, segundo o Papa, "identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de grande importância para o nosso planeta".
Na mensagem o Papa Francisco também recordou que  nesta terça-feira, "será o Dia da Rejeição da Miséria. A miséria não é uma fatalidade: ela tem causas que devem ser reconhecidas e removidas, para honrar a dignidade de tantos irmãos e irmãs".
Estas foram as palavras do papa na introdução da oração mariana.
A nota foi publicada por Santa Sé, 15-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Queridos irmãos e irmãs,
Ao término desta celebração, saúdo cordialmente a todos vocês, que, de vários países, vieram prestar homenagem aos novos santos. Um pensamento deferente vai particularmente às delegações oficiais do BrasilFrançaItáliaMéxicoOrdem de Malta e Espanha. Que o exemplo e a intercessão dessas luminosas testemunhas do Evangelho nos acompanhem no nosso caminho e nos ajudem a promover sempre relações fraternas e solidárias, pelo bem da Igreja e da sociedade.
Acolhendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, além da voz de diversos pastores e fiéis de outras partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região panamazônica, que será realizada em Roma no mês de outubro de 2019.
O principal objetivo dessa convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de grande importância para o nosso planeta.
Que os novos santos intercedam por esse evento eclesial, para que, no respeito à beleza da criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e, por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz.
Recordo também que, depois de amanhã [terça-feira], será o Dia da Rejeição da Miséria. A miséria não é uma fatalidade: ela tem causas que devem ser reconhecidas e removidas, para honrar a dignidade de tantos irmãos e irmãs, a exemplo dos santos.
E agora nos dirijamos em oração à Virgem Maria.
Angelus Domini…
FONTE: IHU

sábado, 14 de outubro de 2017

Arcebispo de Olinda e Recife recebeu grupo de babalorixás na sede da Cúria Metropolitana

Repudiar as manifestações de intolerância religiosa e  apoiar relações respeitosas entre grupos religiosos diferentes. Este foi o tom da reunião.
Da página da Arquidiocese
O arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido, recebeu na manhã desta terça-feira (10/10) um grupo de babalorixás na sede da Cúria Metropolitana, no bairro das Graças, no Recife. Acompanhados pelo diácono Carlos Lisboa, da Igreja Ortodoxa Síria de Antioquia, os babalorixás Pai Ivon T’Oyá Egun, Pai Edson T’Omolu e Pai Iguaracy T’Oxum expuseram ao arcebispo algumas situações de intolerância religiosa ocorridas nos últimos dias em Olinda.
“Participei no auditório da Cúria, em setembro, do Fórum da Diversidade Religiosa em Pernambuco, e encontrei aí um espaço para uma discussão amigável com o arcebispo, trazendo alguns representantes das casas de matriz africana e afro-brasileira que vêm sofrendo atos de intolerância religiosa”, explicou o diácono Carlos.
Pai Iguaracy contou a dom Fernando os momentos de terror vividos em seu terreiro, no bairro de Cidade Tabajara, em Olinda, durante homenagem ao orixá Oxum, em setembro.  “Quatro homens chegaram em motos e começaram a atirar em nossa casa, depois apontaram armas para as cabeças dos frequentadores, inclusive crianças e idosos, enquanto promoviam a destruição dos símbolos sagrados do terreiro”, contou o babalorixá. “Por não saber exatamente a religião dessas pessoas intolerantes, é preciso conversar com todas as lideranças, não para pedir ou exigir punições, mas para nos unirmos em prol da justiça e do respeito”, finalizou.
O arcebispo repudiou as manifestações de intolerância religiosa e externou seu apoio e concordância às relações respeitosas entre grupos religiosos diferentes. “O olhar cristão não compactua com atitudes de violência ou falta de respeito às pessoas”, comentou o arcebispo. “A mídia tem divulgado episódios como esse em todo o país, especialmente contra os cultos de matriz africana, e a Igreja Católica está atenta aos fatos, disposta e atuante no combate a essas manifestações”, completou.  
A disposição da Arquidiocese em promover o entendimento entre religiões diferentes gerou, há cinco anos, a Comissão Arquidiocesana de Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso, que participa e promove fóruns de discussão sobre o assunto. “A comissão arquidiocesana de Justiça e Paz também fará acompanhamento das questões envolvendo intolerância religiosa no território da Arquidiocese, que envolve 19 municípios, zelando com caridade e respeito por nossos irmãos”, disse dom Fernando.
Após a reunião, Pai Ivon expressou sua satisfação em participar da conversa. “Estava um pouco reticente, sem saber o que esperar, mas senti a solidariedade de dom Fernando em suas palavras”, comentou o babalorixá, que contou admirar as figuras de dom Helder Camara e do papa Francisco. “O mundo precisa de pessoas como eles”, concluiu.
FONTE: ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Desembargador criminaliza comunidade por defender seu território em MG

COMUNIDADE PESQUEIRA E VAZANTEIRA DE CANABRAVA, EM BURITIZEIRO/MG, É CRIMINALIZADA POR DESEMBARGADOR DO TJMG, POR ESTAR LUTANDO PARA PERMANECER NO SEU TERRITÓRIO - NO SEU LUGAR DE VIVER!

"Ai de vós, que ajuntais casa a casa, e que acrescentais campo a campo, até que não haja mais lugar para os pobres, e sejais os únicos proprietários da terra." - Isaías, 5

Denunciarmos e repudiamos a criminalização da luta por direitos da comunidade Tradicional Pesqueira e Vazanteira de Canabrava e do serviço pastoral de agentes do Conselho Pastoral dos Pescadores impetrada na decisão do desembargador Antônio Bispo da Vara Agrária de Minas Gerais, que neste 09/10, emitiu a seguinte decisão:

"...pena de multa diária de R$ 100.000,00 em caso de descumprimento da ordem; determinação para que o Oficial de Justiça, acompanhado da PolÃícia Militar, decrete a prisão em flagrante, pelo crime de desobediência, em caso de resistência; oficiar o Delegado Regional de Pirapora para instaurar Inquérito Policial em face de Edmar G. Silva[1], Bruno Cardoso[2], Letícia Ap. Rocha[3] (ou lideranças comunitárias e agentes de pastoral) e demais "invasores" (Agravo de Instrumento nº1.002416057311-9/001).

Vidas clamam no Norte de Minas pelo direito de estar no seu lugar de viver! A Comunidade Tradicional pesqueira e vazanteira de Canabrava, em Buritizeiro, MG, é composta por mais de 70 famí­lias habitantes e trabalhadoras de ilhas e terras firmes que margeiam o Rio São Francisco, há décadas. Sua ocupação é anterior à  intensificação dos processos de especulação agrícola e concentração fundiária promovidos por latifúndios e coronéis que subjugaram e expulsaram numerosas famí­lias tradicionais da região. É a partir das relações, materiais e simbólicas, estabelecidas com o espaço tradicionalmente ocupado, que a comunidade de Canabrava é caracterizada nas condições do decreto nº 6040/2007, dentro da categoria Povos e comunidades tradicionais:

Povos e Comunidades tradicionais podem ser entendidos como grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (Art. 3º do Decreto 6.040, de 7/2/07).

No entanto, estas famí­lias que viviam de modo sustentável, em área da União, vêm sofrendo violência cada vez mais intensa por fazendeiros do espólio de Breno Gonzaga Junior, que, com apoio judicial e policial, vem usando diversos mecanismos de intimidação e violência, inclusive, com ação de pistoleiros, forçando a comunidade a sair do único lugar de morar, plantar e pescar.

A comunidade sofreu um despejo no dia 18 de julho/17, com mandato de reintegração de posse já suspenso, 13 casas foram demolidas. No dia 20/07/17, ainda com mandato suspenso, os próprios fazendeiros, com jagunços, expulsaram o restante das famí­lias e incendiaram tudo o que restava. As famí­lias retornaram à área e foram novamente expulsas no dia 24 de agosto/17. Na última semana retomaram a área, angustiadas pelas tempestades sofridas na pequena ilha onde tem se refugiado e pelo medo das águas que estão subindo em tempo de chuva. E, novamente, estão sendo expulsas.

A constante luta da comunidade conquistou um processo na SPU[4], que já tem documentos suficientes que comprova que a área em conflito, em vias de regularização, não pertence aos fazendeiros. Um relatório técnico de um perito do MPF[5] atesta a tradicionalidade da comunidade naquele lugar.

Ainda assim, a comunidade está sendo criminalizada por estar lutando por um território que não pertence à  velha fazenda improdutiva dos proprietários em questão. E os agentes pastorais do CPP criminalizados por cumprirem sua missão de: no seguimento de Jesus Cristo assumir o amor ao próximo, na forma de solidariedade libertadora, que não nega o conflito, mas o vive evangelicamente, sem posturas neutras e agressivas(CNBB,2008) comprometidos com o Reino de Deus que passa também, pela justiça social.

As pastorais sociais, os movimentos sociais e demais entidades solidarizam-se com a comunidade Canabrava e o Conselho Pastoral dos Pescadores, nestes tempos tenebrosos de precariedade e parcialidade, por parte de representantes do judiciário em nosso paí­s, que criminaliza membros de pastorais sociais e movimentos sociais no intuito de paralisar a luta por direitos básicos como a reivindicação pela regularização do território tradicional da comunidade Canabrava, em face da manutenção dos interesses latifundiários. Nesta circunstância lembramos as palavras do profeta Isaías: "Ai daqueles que fazem leis injustas e dos escribas que redigem sentenças opressivas, para afastar os pobres dos tribunais e negar direitos aos fracos de meu povo; para fazer das viúvas sua presa e despojar os órfãos." ( Is 10,1-2)

Diante da gravidade da situação, solicitamos ao MPF e a SPU que use dos meios e instâncias que lhes competem, deslocando a competência do processo da Vara Agrária de MG para a Vara Agrária Federal, já. Que a AGU[6]/SPU se manifeste no processo em defesa da área federal para as populações tradicionais. Que seja efetivada com urgência a regularização da área em demanda pela comunidade tradicional de Canabrava. Que a paz tão sonhada, fruto da justiça social, se estabeleça frente aos clamores destas famílias oprimidas em sua dignidade humana.

Assinam,
Comissão Pastoral da Terra
Instituto DH
Irmãs da Divina Providencia - IDP
Brigadas Populares de Minas Gerais
Comissão Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais (MG) - CEPCT
Associação dos Apicultores do Vale do Jequitinhonha-AAPIVAJE
Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN)
Tania Pacheco - blog Combate Racismo Ambiental
Conselho Indigenista Missionário
Serviço Pastoral do Migrante
Escola Famí­lia Agrí­cola de Veredinha - EFAV
Movimento do Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST
Cáritas Brasileira
Caritas Arquidiocesana de Montes Claros
Conselho Nacional do Laicato do Brasil Leste II
Articulação São Francisco Vivo - ASFV
Movimento Nacional de Direitos Humanos
Associação do Agricultores Familiares Feirantes de Veredinha - AFAVE 
Mais informações
Irmã Neusa (Conselho Pastoral dos Pescadores - CPP) - (38) 99129-6021
Alexandre Gonçalves (Comissão Pastoral da Terra - CPT) - (38) 99736-7979

[1] Membro da Comunidade tradicional de Canabrava e integrante do Movimento Nacional dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil.
[2] Militante das Brigadas Populares e apoiador do CPP
[3] Religiosa da Congregação das irmãs da Divina Providencia, conselheira do CPP e agente da Comissão Pastoral da Terra-MG
[4] Superintendência do Patrimônio da União
[5] Ministerio Público Federal

[6] Advocacia Geral da União