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sexta-feira, 2 de abril de 2021

O Crucifado se solidariza com as vítimas do Covid-19 - Leonardo Boff

Via Sacra - Fr. Tacisio Manta, OFM

Leonardo Boff*
Um manto de tristeza se estende sobre toda a humanidade  e não há lenços suficientes para enxugar tantas lágrimas por causa da vítimas do Covid-19. O vírus não poupa ninguém, pois, invisível, pode atacar os que não tomam os devidos cuidados. Ele pôs de joelhos as nações militaristas que se encheram de armas, capazes de exterminar toda a vida no planeta, inclusive a humana.Elas são absolutamente inúteis diante do pequeníssimo coronavírus. Alexandre, o Grande (356-323 A.C) formou um império que ia do Adriático ao rio Indo, morreu picado, provavelmente, por um mosquito que produz uma febre viral (a febre do Nilo ocidental). Quem aqui  é mais forte? O jovem conquistador de 23 anos ou o mosquito? Estamos morrendo por um vírus invisível, arrasando com toda a nossa arrogância, sem dizer que ele é consequência de nossa sistemática agressão à natureza (o antropoceno e o necroceno) que se defende com sua arma letal e imperceptível, o Covid-19 e uma gama de outros vírus.

Todos tememos e sofremos, assistindo, impotentes, à dizimação de milhares, já cerca de dois milhões de vítimas. No Brasil a situação é dramática, porque um governante ensandecido e negacionista, sem qualquer sentimento de empatia, tolera que morram já mais de 300 mil pessoas e cerca de 13 milhões sejam infectados.

Não poder despedir-se dos mortos queridos, nem dizer-lhe um último adeus, e sem poder viver o luto imprescindível causa uma dor silenciosa de romper corações. É a nossa via-sacra de estações sem fim, de lamentos e choros. Celebramos  a sexta-feira santa da morte na cruz do Filho do Homem no contexto desta paixão mundial e nacional.Quem nos consolará? Quem nos sustenta a esperança de que a vida ainda uma vez irá triunfar e que poderemos viver livres e sadios, desfrutando da alegria estarmos junto com nossos entes queridos, amigos, amigas  e próximos?

Há muitas lições que se podem tirar da crucificação de Jesus, resultado de um duplo processo, religioso e político, seguramente de sentido transcendental como redenção/libertação dos seres humanos. Esta talvez seja a mais profunda. Mas há outros sentidos, humanitários, que podem, na atual situação, nos fortalecer no nosso desamparo e nas horas pesarosas do isolamento social, este que nos rouba a alegria de encontrar os familiares e amigos e poder abraçá-los e beijá-los. Consola-nos pensar que, para os que conseguem crer, não estamos sós em nossa paixão. O Crucificado sofre junto e irá sofrer até o final dos tempos enquanto houver sofredores e desamparados.

São Paulo o expressou adequadamente, numa versão simplificada:”ele não fez caso de sua condição divina, apresentou-se como um simples homem, em solidariedade se fez servo e até não temeu morrer na cruz”(cf.Carta aos Filipenses 2,6-8). Não foi ingenuamente ao encontro da morte. Ao saber que seus opositores decidiram matá-lo, testemunha-o o evangelho de São João, escondeu-se na cidade de Efraim perto do deserto (11,54). Sabemos que Efraim era uma cidade-refúgio. Quem fosse perseguido e ameaçado por qualquer razão, na cidade de Efraim não podia ser pego e estava protegido.Para lá rumou Jesus com seus seguidores.

A Epístola aos Hebreus testemunha:”entre lágrimas suplicou Àquele que o podia salvar da morte”. Versões mais antigas dizem:”e não foi atendido; apesar de ser Filho de Deus, teve que aprender a  obedecer por meio do sofrimento”5,7-8).No monte das Oliveiras, no Getsêmani seu temor face à morte iminente o leva a suplicar:”Pai, afasta de mim este cálice; mas não se faça a minha mas a tua vontade”(Lucas 22,42).

O evangelista Lucas relata” cheio de angústia, o suor tornou-se como grossas gotas de sangue a escorrer por terra”(22,44). Jesus foi tomado mais do que pelo medo, mas pelo pavor a ponto de suar sangue, como é atestado em pessoas na iminência de seu enforcamento ou fuzilamento. Mas o paroxismo foi alcançado na cruz: sentindo-se abandonado pelos seguidores e absolutamente só enfrenta a maior tentação pela qual um ser humano pode passar: a tentação da desesperança. “Será que foi tudo em vão? Passei pelo mundo fazendo o bem e eis que me encontro crucificado”. Expressa seu desamparo gritando:“Deus, oh Deus, por que me abandonaste?”(Marcos 15,34). Finalmente, nu por dentro e por fora, entrega-se ao Mistério que se esconde mas  que conhece todos os nossos destinos. A última palavra de Jesus, não resignada mas livre, foi:”Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”(Lucas 23,46). São Marcos ainda lembra:”dando um imenso brado, Jesus expirou”(15,37).

Jesus se mostrou o protótipo do ser humano fiel a Deus e a causa de Deus no mundo, a predileção pelos pobres, o amor incondicional e a misericórdia ilimitada, causa essa levada até ao extremo, entregando livremente a própria vida. A recusa humana de sua pessoa e mensagem pode decretar sua crucificação, mas não pode definir o sentido que Jesus conferiu a esta vergonhosa condenação: ser solidário com todos os crucificados e sofredores do mundo.

A ressurreição após seu destino trágico veio mostrar de que lado estava Deus, ao lado dele e de sua vida e causa.Revela a justiça divina contra o justiciamento perpetrado pelo seus opositores.

Uma lição que podemos tirar da sexta-feira da paixão é seguramente  esta: nenhum sofredor e prostrado de dor precisa sentir-se só. O Crucificado, agora Ressuscitado e feito o Cristo cósmico, estará sempre junto, sofrendo com quem sofre, dando esperança a quem quase se desespera e mostrando que a página mais importante do livro da  vida vem escrita não pelo ódio e pela morte matada, mas pela vida, levada à sua plenificação pela ressurreição. Diz um discípulo tardio de São Paulo, Timóteo:” verdadeira é esta palavra: se padecermos unidos a Cristo, com ele também viveremos”(Segunda Carta,2,11). Eis nossa consolação.

*Leonardo Boff é teólogo e escreveu Paixão  de Cristo- paixão do mundo, Vozes 2012 e Via-sacra para quem quer viver, Vozes 2003.

Fonte: Leonardo Boff

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Vacinas, saúde para todos sob o domínio do mercado


"Já não se trata apenas de egoísmo nacional, de prioridade dada à “segurança nacional”, de sentimento de medo perante o perigo ou de ganância dos ricos. Trata-se de uma política deliberada de negar à maioria da população mundial um direito universal, em violação do contrato social entre os habitantes da Terra. Estamos enfrentando um domínio, duro, do mundo das finanças e um poder predatório dos poderosos", escreve Riccardo Petrella, cientista político e economista italiano com doutorado em ciências políticas e sociais da Universidade de Florença (Itália), em artigo publicado por Il Manifesto, 21-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis ou artigo.

Na segunda feira, 18 de janeiro, o Diretor-Geral da OMS declarou com força e coragem: "Ó mundo está diante de um catastrófico fracasso moral". Os ricos e poderosos Estados do mundo denunciaram as empresas farmacêuticas globais por não respeitarem os compromissos assumidos no passado em favor do acesso a todas as vacinas e tratamentos anti-Covid19, não deixando nada para trás, como proclamado em uníssono.

Os fatos são esmagadores. Pouco antes do plano de vacinação, os 15 países mais ricos do mundo (cerca de 14% da população mundial comprou de empresas privadas, estão posicionados na execução de patentes, 60% dos dois estimados têm disponíveis em 2021 para fornecer gado para suas próprias populações. , deixando 40% das doses para os restantes 86% da população mundial. Antecipando-se que apenas 30% da população mundial será vacinada até 2021. Adivinhe? 39 mil das duas primeiras vacas patenteadas (EUA) foram distribuídas em 49 países ricos, não o país mais pobre do mundo como dois foram ... 25! Em Israel, mais de 20% da população foi vacinada (mais de 2 mil pessoas), além de apenas uma pequena parte dois palestinos (principalmente prisioneiros!) .

Já não é apenas uma questão de egoísmo nacional, de prioridade dada à “segurança nacional”, de sentimento de resistência ou perigo do meio ou de ganho dos ricos. É uma política deliberada de negar à maioria da população mundial uma diretriz universal, violando o contrato social entre os habitantes da Terra. Estamos diante de uma dominação, dura, do mundo das finanças e um poder predatório de dois poderosos. Não é o caso de uma aliança "guerreira" entre os poderes públicos, dois estados em declínio e atrofiados, por um lado, e os poderes privados de poderosas oligarquias financeiras, industriais e militares globais, ou então. Só acho que não "desprezo" os cabelos mal velados de duas aliadas pelas vacas chinesas, russas e cubanas ...

A saúde para todos depende do rompimento desta aliança e da construção de uma aliança entre os cidadãos, entre todos os habitantes da Terra. E, simbolicamente, a aliança também foi invocada em seu discurso de Natal em 25 de dezembro pelo Papa Francisco, quando afirmou que "não podemos colocar tais 'leis' do mercado e como patentes acima diretas à vida, diretas ao amor." Afirmação de fundamental importância em nítido contraste com dois pilares centrais sobre ou que se afirma na concepção econômica de dois governantes, ou seja, "uma sociedade de mercado". Existem três objetivos concretos imediatos:

1. OS CIDADÃOS devem obrigar os estados em países mais ricos a permitir que qualquer país aplique o direito de licença obrigatória, ou seja, suspender patentes para vacinas e tratamentos com medicamentos, a fim de promover e preservar o direito à vida de todos os cidadãos. O conhecimento é um bem público comum da humanidade, o "patrimônio" de todos os habitantes da Terra. A suspensão das patentes deve levar à sua extinção a médio prazo.

2. OS CIDADÃOS DEVEM obter uma grande reorganização do financiamento da saúde de seus estados para que o dinheiro público não seja mais usado para pagar as empresas farmacêuticas pelo menos duas vezes (durante o projeto e o desenvolvimento, e novamente durante a produção e comercialização de medicamentos e vacinas) e, assim, alimentar seus lucros. Sem o dinheiro dos cidadãos, as multinacionais ocidentais não teriam desenvolvido as vacinas anti-Covid.19. O estado deve voltar a se tornar "res publica" a serviço do bem comum e não permanecer a serviço da saúde financeira dos interesses empresariais dos mais fortes.

3. OS CIDADÃOS devem exigir que os estados implementem um plano operativo global de vacinação emergencial (sob os auspícios e coordenação da OMS), desvinculado naturalmente das garras de grandes multinacionais e "grandes" estados. No campo do direito à vida, sim ao primado da OMS e da ONU sobre a OMC e o Banco Mundial. Essa primazia implica que sejam feitas mudanças importantes, por exemplo, no papel  Covax (Gavi, Cepi, Fundação Gates ....), típico instrumento da aliança autocrática entre os estados mais ricos e as multinacionais mais poderosas. Além disso, o papel do Conselho de Segurança deve ser repensado. Penso na necessidade urgente de criar um Conselho de Segurança dos cidadãos para os bens públicos globais (água, saúde, conhecimento, em especial).

*Ágora dos Habitantes da Terra

FONTE: IHU








terça-feira, 24 de novembro de 2020

“Não seremos salvos pelo moralismo, mas pela caridade”. Artigo do Papa Francisco

 


O jornal Corriere della Sera, 22-11-2020, publicou um texto até agora inédito, assinado pelo Papa Francisco, intitulado “Transformar o mundo”.

Trata-se de um texto contido no livro “Il cielo sulla terra: amare e servire per trasformare il mondo” [O céu na terra: amar e servir para transformar o mundo], publicado pela Libreria Editrice Vaticana, que estará nas livrarias italianas nesta quarta-feira, 24 de novembro.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ainda é possível crer na possibilidade de um mundo novo mais justo e fraterno? Podemos realmente esperar em uma transformação das sociedades em que vivemos, onde quem domina não seja a lei do mais forte e a arrogância do deus dinheiro, mas sim o respeito pela pessoa e uma lógica da gratuidade?

Imagino a expressão no rosto de muitos, diante dessas palavras, dessas “ingênuas” perguntas. Uma ligeira dobra dos lábios, curvados em um sorrisinho de cepticismo ou, na melhor das hipóteses, de comiseração que nos leva a viver na sociedade do desencanto.

Devemos, portanto, reconhecer que o mundo é imodificável, com as suas injustiças que “clamam por vingança perante Deus”? E a nós, homens da Igreja, resta apenas a tarefa de pregar a passiva resignação ou enunciar, com necessária repetitividade, princípios tão verdadeiros quanto abstratos? Nenhuma mente honesta pode negar a força transformadora do cristianismo no devir da história. Toda vez que a vida cristã se difundiu na sociedade de modo autêntico e livre, ela sempre deixou um traço de humanidade nova no mundo. Desde os primeiros séculos.

A maior novidade no plano social foi a consideração do valor de cada pessoa, sensibilidade que levava a não descartar como inúteis os indivíduos imperfeitos, a tratar com respeito os escravos até sentir como intolerável no tempo a própria instituição da escravidão, o sentimento de repulsa pela crueldade dos jogos dos gladiadores e o “espetáculo do sangue”, a resiliência implementada pelo monaquismo beneditino no tempo dos bárbaros diante do abandono dos campos e da perda de memória da cultura greco-latina, a sóbria beleza das igrejas românicas e o orante “assalto ao céu” das catedrais góticas, a severa rejeição da usura e o preceito moral da “justa mercê” para o operário inserido no catecismo. Um mundo novo, que nascia e ganhava forma, pouco a pouco, dentro de um mundo velho em decadência.

Um pensador francês dos anos 1930, Emmanuel Mounier, dizia que a importante influência do cristianismo na civilização europeia foi mais um “efeito colateral” do testemunho dos primeiros cristãos do que um plano predeterminado; mais a consequência gratuita de uma fé vivida simplesmente do que o resultado de um programa político-cultural elaborado teoricamente (...).

Naturalmente, essa observação também vale historicamente em termos negativos; vimos isto muitas vezes, infelizmente: o cristianismo perde o seu melhor quando acaba se corrompendo e se identificando com as lógicas e estruturas mundanas.

Deixemos a superfície para ir mais fundo; como descer ao coração de uma fonte para descobrir a origem daquela força misteriosa que, de modo imprevisível, empurra os jatos para todos os lados, modificando a paisagem e o território ao seu redor?

Podemos encontrar isso bem exemplificado na experiência do apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso, que o Senhor arrancou da sela no caminho de Damasco com o seu olhar poderoso e misericordioso (...).

Paulo não fez nada para encontrar Jesus, a iniciativa não foi dele. Nada que lhe merecesse aquele repentino olhar de amor que Deus dirigiu inesperadamente a um dos seus “inimigos políticos”. Nem mesmo as “boas obras feitas segundo a lei” – diz o Papa Bento XVI – podiam lhe valer a salvação. Uma gratuidade absoluta, à qual o antigo perseguidor não opôs resistência, pelo contrário, com liberdade, a acolheu até sentir esse acontecimento como a nota dominante da sua vida.

A caridade da qual Paulo se torna a apaixonada testemunha e que bem conhecemos através das suas cartas nada mais é do que o reflexo misterioso daquela misericórdia experimentada na sua vida.

As palavras cristãs no nosso tempo muitas vezes evaporam, perdem o seu significado. Amor, caridade... vocábulos que hoje evocam um sentimentalismo vago ou uma filantropia melancólica. Para entender o seu sentido cristão, devemos pensar precisamente na experiência vivida por Paulo, na transformação que ocorreu nele por iniciativa divina; não altera os traços fortes da sua personalidade, não faz com que ele se torne um fraco e irrealista sonhador, mas sim um homem de coração grande, por estar envolvido por um Amor maior.

O seu “Hino à caridade”, na primeira carta aos Coríntios, continua sendo o “manifesto” mais sugestivo da revolução que Cristo traz ao mundo. Verdadeiramente, um dos erros mais antigos e sempre recorrentes na história da Igreja é o pelagianismo, em última análise, um cristianismo sem graça, a fé reduzida a um moralismo, a um titânico e falimentar esforço da vontade.

Agostinho, com razão – tão ciente da ferida estrutural que cada alma carrega dentro de si –, se opôs com todas as suas forças ao erro de Pelágio. De fato, o cristianismo não transformou o mundo antigo com táticas mundanas ou voluntarismos éticos, mas unicamente com o poder do Espírito de Jesus ressuscitado.

Todo o rio de obras de caridade pequenas ou grandes, uma corrente de solidariedade que há 2.000 anos atravessa a história tem essa única fonte. A caridade nasce de uma comoção, de um estupor, de uma Graça. Desde o início, historicamente, a caridade dos cristãos se torna atenção às necessidades das pessoas mais frágeis, das viúvas, dos pobres, dos escravos, dos doentes, dos marginalizados... Compaixão, sofrer com quem sofre, partilha.

Também se torna denúncia das injustiças e compromisso para combatê-las o máximo possível. Porque cuidar de uma pessoa significa abraçar toda a sua condição e ajudá-la a se libertar daquilo que mais a oprime e nega os seus direitos. O primado da Graça não leva à passividade, pelo contrário, centuplica as energias e aumenta a sensibilidade para com as injustiças.

“Não deves crer que roubar significa apenas roubar o teu próximo dos seus bens; se vires o teu vizinho que sofre de fome, de sede, de necessidade, que não tem casa, roupas e sapatos, e não o ajudas, tu o roubas exatamente como quem rouba o dinheiro de uma bolsa ou do caixa. Tu tens o dever de ajudá-lo na necessidade. Pois os teus bens não são teus; tu és apenas o seu administrador, com a tarefa de distribuí-los a quem deles precisa” (Martinho Lutero, “Breviário”).

É um olhar novo que nasce da experiência feita em primeira pessoa da gratuidade do amor de Deus (...). Também é diferente o modo com que o cristão se compromete ao lado dos últimos, que hoje têm o rosto dos idosos solitários, dos trabalhadores precários ou ilegais, dos refugiados, dos deficientes. Esse compromisso não é o preenchimento de um vazio próprio, do qual talvez se tente escapar com um ativismo “entusiasta” que, em longo prazo, não é credível nem se sustenta no tempo.

Um abismo separa os profissionais do entusiasmo do compromisso que nasce da experiência de um dom recebido. Quando nos aproximamos com sinceridade das pessoas vulneráveis, com o desejo de ajudá-las, somos enviados de volta às nossas próprias vulnerabilidades. Todos nós as temos. E todos nós precisamos de cura, todos precisamos ser salvos. Razão pela qual a caridade sincera sempre leva à oração, à mendicância da Presença de Deus, a única que pode curar as feridas interiores nossas e alheias.

FONTE: IHU

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Epidemia revelou a alma do povo brasileiro

por Rudá Ricci*.

Uma das clarezas que estamos tendo com a pandemia é sobre o perfil de nossa gente, os traços da personalidade dos brasileiros. A pesquisa Datafolha indicando queda de apoio ao isolamento (de 52% para 44% ao longo de abril) nos diz muito.

Somos um povo ansioso, pouco afeto ao planejamento. Séculos de profunda desigualdade nos interditaram a possibilidade de planejarmos. De um lado, os mais pobres que não têm sobras para pensar no futuro. Restam o misticismo e a fé cega no futuro mágico.

Do outro lado, a porção nababesca do Brasil, que não precisa planejar porque tem um séquito à sua disposição e sempre um capetão a postos para fazer o jogo sujo. Afinal, para que pensar no país, se este território é todo seu?

E temos os "ascendentes". A ascensão social não é fato comum porque nossa mentalidade é estamental, vivemos em castas. Mas, há sempre aquela torcida para subirmos de casta. Neste caso, surge a torcida "ostentação". Gente que anda como siri, mas se apresenta como um "Beto Rockfeller". Parada para explicar para quem tem menos de 50 anos. Beto Rockfeller foi uma novela produzida pela Rede Tupi e exibida de 1968 até 1969, às 20 horas. Foi um tremendo sucesso. Beto era um vendedor de sapatos que inventa um avatar que se diz primo em terceiro grau dos Rockfeller. Agora eu sei o motivo de tanto sucesso desta novela da Tupi: Beto Rockefeller é o sonho dourado de tanta gente de classe média baixa ou pobre: poder viver a vida que nunca terá. Ao menos, alguns minutos de fartura.

Pois bem: somos ansiosos porque nunca conseguimos nos encarar no espelho. Preferimos olhar o futuro mágico. Esta necessidade de voltar "à normalidade" é a crença que todo esforço será recompensado. Mas, em casa, a sala e o banheiro mais ou menos acabam estampando o que sou.

Aliás, a tal "normalidade" nada mais é que um corredor, um local de passagem para o futuro mágico. Somos uma nação que foge para o futuro permanentemente. Ora, este é o ideário que está plantado nas favelas, segundo duas pesquisas já patrocinadas pela Central Única de Favelas. Os moradores de favela desconsideram qualquer governo e acham que qualquer melhora na sua vida se deve à Deus, à sua família (que sempre está ao seu lado) e ao seu próprio esforço. Fico imaginando o que significa a desgraça atual. Talvez, agora apareça o governo como algoz.

Então, ficamos nesta tentação da ostentação, o que nos leva à idolatria, outra marca dos brasileiros. A necessidade de ídolo é a de transferência da realização do sonho pessoal para alguém com poder que se torna íntimo na minha imaginação. A sua vitória é a minha. A sua morte é a minha. Uma encarnação. A idolatria chega a ser uma desforra: eu sou "próximo" (na imaginação) de tal ídolo e, portanto, minha opinião é correta. Daí a briga de vida ou morte entre aqueles que não ganham nada, mas defendem seus ídolos com sua alma. É a projeção de quem não confia em si mesmo.

Ora, se não confio em mim, melhor confiar no ídolo ou no futuro mágico. E, assim, vamos nos enterrando como nação. O andar de cima diz: "que morram muitos pobres para passar logo a epidemia". O andar de baixo afirma: "tenho corpo fechado e se não trabalhar, não ostento".

Exatamente quando chegamos a ultrapassar a China em número de mortes. Exatamente quando a morte chega nas periferias e no interior do país. Não interessa.

Afinal, somos bonitos por natureza. Que belê!

Rudá Guedes Ricci - Sociólogo, mestre em ciência política e doutor em ciências sociais pela Unicamp. Presidente do Instituto Cultiva. Da coordenação da Articulação Brasileira pela Economia de Francisco (ABEF) e do Pacto Educativo Global no Brasil. 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

ENTRE PRAGMATISMOS, DESEJOS E CATARSE

por Eduardo Paiva.

Não sei se por conta de um traço sonhador que tenho, não sei se por ser ansioso ou por outros traços que kinda desconheço em mim; tenho muita desconfiança de pragmatismos e discursos que querem se apresentar como sendo equilibrados, quase isentos. 

Vejo tentativas de sínteses (a meu ver muitas vezes um pouco pretensiosas) que carregam muito numa linha quase asséptica. É verdade que essa performance discursiva tem seu charme e também não deve ser desconsiderada. 

O que quero salientar aqui, não é o discursador, mais o discurso e sua pretensa eficácia para o termo do tema que se pretende tratar. Não se fala sem emoção e muito menos sem pretensão. Não se elabora uma ideia sem um objetivo e não se formula um objetivo sem um contexto e uma história. 

Mais ainda, não se é afetado por um tema desconsiderando aspectos emocionais, psicológicos, enfim, os afetos. Politicamente vivemos momentos de catarse, de raivas, de alegrias, de tristezas, de ódios e de paixões. A crise atual não será resolvida desconsiderando ou passando por cima dessas emoções e sentimentos. 

A meu ver uma das maneiras de colaborar com a superação disso tudo é transitar no meio disso tudo. Ao contrário da assepsia, penso que teríamos de embebermo-nos das emoções e dos afetos; ao mesmo tempo aprimoramos mais nossa capacidade de observação e elaboração interna e externa, no intuito de viver e não negar nossos afetos para ampliar nossa capacidade de vida. 

Para além dos disfarces e engodos pseudo civilizados. A civilização como compromisso afetivo e busca a efetiva, para compartilhar e construir relações proveitosas para todos os seres e ambientes. 

Eduardo Paiva 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Leonardo Boff reflete sobre seus 80 anos:

Revendo os dias passados, tenho a mente voltada para a eternidade

Na vespera de seu aniversário Leonardo Boff escreveu: 

Amanhã, dia 14 de dezembro, completarei 80 anos  de vida. Estou descendo a montanha da vida.
Primeiramente agradeço a Deus por ter chegado até aqui e por ter sobrevivido. De pequeno, com alguns meses, estava destinado a morrer. Naqueles interiores profundos de Santa Catarina, Concórdia, não havia ainda médicos. Todos, desolados, diziam:”coitadinho, vai morrer”. Minha mãe, desesperada, depois de fazer o pão familiar num forno de pedra, deixou que ficasse morno e sobre uma pá de madeira me colocou por bons minutos lá dentro. A partir deste experimento derradeiro, melhorei e estou aqui como sobrevivente.
Achei que nunca passaria da idade de meu pai que morreu de um enfarte fulminante aos 54 anos. Sobrevivi. Escrevi um balance aos 50. Depois achava não passaria da idade de minha mãe que também morreu  de enfarte com 64 anos. Sobrevivi. Fiz mais um balanço aos 60. Então, estava seguro de que não chegaria aos 70. Sobrevivi. Tive que escrever outro balanço aos 70. Por fim, pensei, convicto, de todas as maneiras, não chegarei aos 80. Sobrevivi. E tenho que escrever outro balanço.  Como sai desmoralizado nas minhas previsões, não penso mais em nada. Quando chegar a hora que só Ele sabe, irei alegremente ao encontro do Senhor.
Relendo os vários balanços, surpreendemente e sem intenção prévia, vejo que há constantes que perpassam todas as memórias. Tentarei fazer uma leitura de cego que apenas capta o que é relevante. Sempre fui movido por alguma paixão mais forte que me levava a falar e a escrever.
A primeira paixão foi pela Igreja renovada pelo Concílio Vaticano II. Escrevi minha tese doutoral em Munique: A Igreja como sacramento; Igreja: carisma e poder (que me levou ao silêncio obsequioso) e Eclesiogênese: as CEBs reinventam a Igreja.
A segunda paixão foi pelo Jesus histórico, sua gesta que o levou à cruz. Escrevi Jesus Cristo Libertador; Nossa ressurreição na morte; O evangelho do Cristo cósmico; Via Sacra da justiça.
A terceira paixão foi por São Francisco de Assis, o primeiro depois do Último (Jesus).Escrevi Francisco de Assis: ternura e vigor; São Francisco: saudades do Paraiso; Comentário à sua oração pela paz.
A quarta  paixão foi pelos pobres e oprimidos. Nasceu a teologia da libertação e escrevi  Teologia do cativeiro e da libertação; O caminhar da Igreja com os oprimidos; junto com meu irmão Frei Clodovis escrevemos Como fazer teologia da libertação.
A quinta paixão foi pela Mãe Terra super-explorada. Ecrevi A opção Terra: a solução para a Terra não cái do céu; O Tao da libertação: uma ecologia da transformação junto com Mark Hathaway; Como cuidar da Casa Comum.
A sexta paixão foi pela condição humana sapiente e demente. Escrevi O destino do homem e do mundo; A  Águia e a galinha: metáfora da condição humana; Despertar da águia : o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade; Saber cuidar; O cuidado necessário; Feminino –Masculino junto co Rose-Marie Muraro; O Ser humano como projeto infinito.
A sétima paixão foi pela vida do Espírito: Traduzi o principal da obra do místico Mestre Eckhart; retraduzi de forma atualizadora a Imitação de Cristo de 1441 acrescentando-lhe uma parte nova; O seguimento de Cristo; Experimentar Deus hoje; A SS.Trindade é a melhor comunidade; O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres; Espiritualidade: um caminho de transformação.
Publiquei cerca de cem livros. É trabalhoso, com apenas 25 sílabas, compor as palavras e depois com as palavras formular as frases e por fim com frases conceber o conteúdo pensado de um livro. Quando me perguntam: “o que faz na vida”? Respondo: “sou trabalhador como qualquer outro como um marcineiro ou um eletricista. Apenas que meus instrumentos são muito sutis: apenas 25 sílabas”.
“E o que vc pretende com tantas letras”? Respondo: “apenas pensar, em sintonia, as preocupações maiores dos seres humanos à luz de Deus; suscitar neles a confiança nas potencialidades escondidas em si para encontrarem soluções; procurar chegar ao coração das pessoas para que tenham compaixão pelo injusto sofrimento do mundo e da natureza, para que nunca desistam de sempre melhorar a realidade, começando por melhorar a si próprios. Independente de sua condição moral, devam sentir-se sempre na palma da mão de Deus-PaI-e-Mãe de infinita bondade e misericórida”.
“Valeu a pena tantos sacrifícios para escrever”? Respondo com o poeta Fernando Pessoa:”Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Esforecei-me para que não fosse pequena. Deixo a  Deus a última palavra. Agora no tramontar da vida, revejo os dias passados e tenho a mente voltada para a eternidade.
FONTE: LeonardoBoff

quinta-feira, 22 de março de 2018

Deserto do Saara participa do regime de chuvas da Amazônia

Pouco mais de 5,3 mil km e o Oceano Atlântico separam as cidades de Manaus (AM) e Nouakchott, a capital da Mauritânia, no deserto do Saara. Apesar da distância, o deserto do norte da África e a floresta amazônica têm uma relação mais estreita do que senso comum nos leva a acreditar.
A reportagem é de Evanildo da Silveira, publicada por BBC, 19-03-2018.
Nuvens de poeira e de vapor d'água
sobre o deserto do Saara (Foto: Nasa Earth Observatory)
Tão inesperado quanto esta ligação é o fato de ser o deserto que beneficia a mata, e não o contrário - sendo responsável pela maior parte das chuvas torrenciais que caem sobre a região, mantendo sua exuberância e biodiversidade. Além de enviar toneladas de nutrientes para sua vegetação, como o fósforo.
Os "núcleos de condensação", a parte da nuvem em que o vapor de água se condensa, são formados, entre outros elementos, por partículas em suspensão no ar - poeira, por exemplo. No caso da floresta amazônica, uma parcela desses aerossóis é proveniente do Saara.
"Este fenômeno de transporte ocorre principalmente na parte norte da Amazônia, mas já foi registrado também na área central da região, como, por exemplo, ao sul de Manaus", explica o físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP).
Ele é um dos integrantes de uma equipe de pesquisadores do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha que vem desenvolvendo, há uma década, um trabalho que levou à descoberta de que a poeira do deserto ajuda a formar nuvens sobre a Amazônia Central, onde se localiza Manaus, que são responsáveis por cerca de 80% das chuvas que caem na região.
Representação artística da camada de poeira na atmosfera
 da Terra (Foto: Nasa Goddard's Visualization Studio)
Mas como o deserto cria precipitações a milhares de quilômetros de distância?
Segundo Artaxo, o fenômeno ocorre todos os anos. Ele começa com as tempestades no Saara, que levantam toneladas de poeira e areia. Esse material é transportado de lá, por cima do Oceano Atlântico, até a floresta amazônica, numa distância mínima de pelo menos 5 mil km - entre a parte mais ocidental do deserto e Manaus. "Isso ocorre de fevereiro a maio, pois, nesta época, a chamada Zona de Convergência Intertropical (ITCZ, na sigla em inglês), fica ao sul de Manaus, favorecendo o transporte de massas de ar do hemisfério Norte para a Amazônia Central", explica Artaxo.
Ele diz que, para que haja chuva, são necessários três ingredientes básicos: vapor de água, condições termodinâmicas ideais e as partículas que servirão de meio para que o vapor possa se condensar. "Os grãos de poeira do Saara, que também podem ser chamados de aerossóis, operam como uma destas partículas em que o vapor de água se condensa", explica Artaxo, mencionando a hipótese mais aceita para a explicação do fenômeno.
"Ou seja, eles atuam como núcleos de condensação de gelo, fazendo com que gotas líquidas, ao atingirem altas altitudes e temperaturas menores que 10ºC negativos, congelem e formem gotas de gelo, que são eficientes no processo de formação de chuva na Amazônia."
Artaxo conta que as medidas da concentração de partículas do Saara foram feitas na Amazon Tall Tower Observatory (ATTO), ou Torre Alta de Observação da Amazônia, com 325 metros altura, o equivalente a um prédio de 80 andares. Erguida na reserva ambiental do Uatumã, no município de São Sebastião do Uatumã, a cerca de 180 km de Manaus, é a maior torre de monitoramento ambiental e atmosférico do mundo. O objetivo dela é coletar dados sobre a interação entre a vegetação e atmosfera.
Teste químico
Para testar sua hipótese, os pesquisadores realizaram experimentos em laboratório. Parte das partículas coletadas na torre ATTO foi injetada em uma câmara, na qual é possível simular a formação das nuvens convectivas - nuvens com grandes altitudes verticais, que podem chegar a 15 km da base ao topo, responsáveis chuvas torrenciais e rápidas.
Foto de satélite mostra a onda de poeira se deslocando
a partir da costa do norte da África (Foto: Nasa)
Segundo Artaxo, essa câmara reproduz as condições da atmosfera a até 18 km acima do solo, onde prevalecem as baixas pressões e temperaturas - de até 70ºC negativos. Na natureza, é num ambiente parecido que se formam as nuvens convectivas.
A certeza de que a poeira encontrada no local vem do Saara e não de um terreno próximo à torre é dada pela sua composição química, mais especificamente, pela presença e proporção de alguns elementos, como alumínio, manganês, ferro e silício. De acordo com Artaxo, a quantidade desses elementos nas partículas coletadas na Amazônia é igual a encontrada na poeira do Saara. "Além disso, há a correlação entre a presença desses aerossóis e o movimento das massas de ar", diz. "Isso prova que eles vieram mesmo do deserto africano."
Os cientistas ainda não têm 100% de certeza sobre o mecanismo pelo qual os aerossóis do Saara ajudam a formar as nuvens e, por consequência, as chuvas que caem torrencialmente na região. A hipótese mais provável é que o ferro, presente na poeira do deserto, pode funcionar como um suporte, sobre o qual o vapor d'água se condensa, formando núcleos de gelo, que depois se transformam em gotas de chuva.
Fertilizante natural
Não são apenas simples grãos de poeira, entretanto, que o Saara manda para a Amazônia.
Em 2015, a Nasa, a agência espacial americana, divulgou um estudo segundo o qual todos os anos o deserto envia, junto com o pó, 22 mil toneladas de fósforo, nutriente encontrado em fertilizantes comerciais e essencial para o crescimento da floresta. É quase a mesma quantidade que a mata produz, com a decomposição das árvores caídas e, em seguida, perde com as chuvas e inundações.
Segundo o levantamento da Nasa, todos os anos 182 milhões de toneladas de poeira - mais ou menos o equivalente a 690 mil de caminhões de areia - saem do Saara para as Américas do Sul e Central. Desse total, cerca de 28 milhões de toneladas - ou 105 mil caminhões - caem na Bacia Amazônica, e, junto com elas, o fósforo.
Mais de 5 mil km separam a borda do deserto
 da floresta amazônica (Foto: Reprodução/Google Maps)
A poeira mais rica em fósforo vem da depressão de Bodélé, no Chade, que é um antigo leito de lago, hoje seco.
Devido a sua geografia, o local é atingido por constantes e gigantescas tempestades, que levantam a areia, que depois é transportado para o outro lado do Oceano Atlântico. A descoberta é parte de uma pesquisa maior para compreender o papel da poeira e dos aerossóis no meio ambiente, no clima local e global.
Os pesquisadores da equipe da qual Artaxo faz parte estão agora empenhados em descobrir se o aquecimento global pode interferir no fenômeno do transporte de poeira do Saara para a Amazônia e, consequentemente, na formação e no volume de chuva na região da floresta brasileira.
"Um dos efeitos do aquecimento global é mudar a dinâmica da atmosfera, e o transporte em larga escala", diz. "Isso pode, sim, afetar o transporte de partículas do Saara para a Amazônia, pois toda a dinâmica atmosférica pode ser alterada". Mas são necessários mais estudos para saber como isso ocorrerá.
FONTE: BBC

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Carta aberta ao general Braga Netto, por Frei Betto


General, o Rio precisa de intervenção cívica, e não militar. O Estado fluminense e a prefeitura carioca estão acéfalos.
Em 10 anos de implantação das UPPs houve tempo suficiente para evitar que uma geração de crianças e jovens escapasse das garras do narcotráfico. Cometeu-se o equívoco de instalar postos policiais nas comunidades, e não escolas, cursos profissionalizantes, quadras de esportes, oficinas de dança, teatro, música e literatura.
O Exército brasileiro acumula uma história de fracassos. Promoveu um genocídio no Paraguai, e até hoje os arquivos da guerra no século XIX são mantidos secretos para não envergonharem a nossa história militar. Fez uma matança desnecessária em Canudos para evitar que os nordestinos se livrassem da tutela dos donos de engenhos.
Deixou-se manipular pela Casa Branca, em 1964, para derrubar o governo democraticamente eleito de Jango, e implantou uma ditadura que durou 21 anos.
Não permita, general, que haja novo fracasso. Não autorize seus soldados a se transformarem em assassinos fardados que, ao ingressar nas comunidades, primeiro atiram e depois interrogam.
Sua missão será tão inútil quanto a das UPPs se acreditar que a violência que assola o Rio é culpa apenas do narcotráfico, dos bandidos e das milícias.
As causas é que precisam ser urgentemente combatidas: a desigualdade social, o sucateamento da escola pública, o desemprego, a falência do sistema de saúde.
Não admita que seus soldados e oficiais sejam corrompidos, como ocorre a tantos policiais e autoridades que engordam a conta bancária ao fazer vista grossa para o crime organizado. De onde procedem as sofisticadas armas em mãos dos bandidos? Quem os mantém previamente informados das operações repressivas?
Os problemas não estão apenas nos morros. Estão sobretudo no asfalto, onde residem os que alimentam o narcotráfico, os políticos corruptos, os que permitem que o nosso sistema carcerário seja sede do comando do crime.
Salve a imagem do Exército, general. E convença os governantes do povo fluminense e carioca a renunciarem, para que sejam convocadas eleições antecipadas. A democracia é sempre a melhor alternativa!
Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros
FONTE: O GLOBO

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O sistema imunológico do Poder Judiciário (por Frei Sérgio Göergen)

(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

1A saúde do Corpo Judiciário do Estado Brasileiro está ameaçada por uma doença grave, altamente contaminante, sobre a qual, a auto-consciência do próprio corpo ainda é incipiente, porém, crescente.

A auto-consciência sobre a doença e seu estado em setores do Judiciário indicam que, se o vírus que contamina e adoece partes do corpo não for controlado logo, contaminará  inevitavelmente todo o corpo. O vírus originante da doença começa a ser identificado em suas causas e consequências e atende por vários nomes: desrespeito à Constituição e às Leis, parcialidade, militância partidária disfarçada ou ostensiva, utilização do Poder como instrumental de perseguição política, supressão de garantias constitucionais  sagradas como amplo direito de defesa e presunção de inocência e, por derradeiro, ufanismo público diante de um precário e momentâneo heroísmo midiático.

Este vírus vem crescendo no Corpo Judiciário e pode carcamê-lo como um todo caso seu sistema imunológico não seja acionado a tempo.

Com um sério agravante: o estado adoentado do corpo judiciário está sendo observado por setores cada vez maiores da população brasileira como se fosse um mega “big brother” coletivo. E que não se enganem nem se iludam. A Globo não será capaz de protegê-los porque os sistemas populares de comunicação se alastram dia a dia e a própria vênus platinada quando perceber o movimentos das ondas populares virando vagalhões não hesitará em jogar juízes queridinhos ao mar para salvar sua audiência e seus lucros.

O que está colocado neste quadrante da história é radical: se o Corpo Judiciário não se auto-proteger do vírus dilacerador de  suas entranhas, voltando a ocupar disciplinadamente seu espaço e seu lugar, sua Missão Constitucional, legítima e reconhecida, o povo brasileiro é que terá que encontrar meios de se proteger dele.  E aí será tarde para choros e ranger de dentes.

A vida é feita de símbolos. O Poder Judiciário é um corpo vivo coletivo. Dia 24 de janeiro é um símbolo importante. Não só a esperança do povo estará sendo julgada. O Judiciário também vai a Júri Popular. Caso resolvam acionar o sistema imunológico e interromper o alastre do vírus dilacerador do seu corpo, recuperarão o respeito da sociedade.


Quem tiver ouvidos, ouça.
FONTE: SUL21
(*) Frade Franciscano (Ordem dos Frades Menores), militante do Movimento dos Pequenos Agricultores e Autor do livro “Trincheiras da Resistência Camponesa”.