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quarta-feira, 27 de maio de 2026

IA, Poder e Dignidade Humana: a Encíclica de Leão XIV

 

A Encíclica Magnifica Humanitas, lançada pelo Papa Leão XIV neste maio de 2026, apresenta uma profunda reflexão sobre os desafios éticos, sociais, tecnológicos e espirituais do mundo contemporâneo. Em continuidade com a tradição da Doutrina Social da Igreja, o documento procura responder às “coisas novas” do nosso tempo, especialmente diante da revolução digital, da inteligência artificial, das guerras, da crise ambiental e das desigualdades globais.

Mais do que um texto religioso, a Encíclica se apresenta como um forte chamado ético e humanitário diante do avanço acelerado das tecnologias digitais e da concentração de poder econômico, militar e tecnológico nas mãos de poucas corporações e potências globais.

A Doutrina Social da Igreja diante das “coisas novas”

Logo no início, o Papa recorda que a Doutrina Social da Igreja não é uma teoria abstrata ou desligada da realidade, mas uma sabedoria viva que dialoga com a história, as culturas, as ciências e os sofrimentos humanos. Assim como a Igreja respondeu aos desafios da Revolução Industrial no século XIX, hoje ela se vê chamada a refletir sobre as transformações produzidas pela inteligência artificial, pela digitalização da vida e pela automação da economia.

Leão XIV afirma que os princípios cristãos devem iluminar os desafios atuais, defendendo sempre a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a justiça social e a paz.

A dignidade humana acima da lógica da eficiência

Um dos eixos centrais da Encíclica é a defesa radical da dignidade humana diante do avanço do paradigma tecnocrático. O Papa reafirma que cada pessoa possui um valor infinito porque foi criada e amada por Deus. Esse valor não depende de produtividade, inteligência, desempenho econômico, riqueza ou utilidade social.

Nesse sentido, a Encíclica critica fortemente as ideologias contemporâneas que reduzem o ser humano à lógica da eficiência, da performance e da competição permanente. O documento alerta que existe hoje o risco de transformar as pessoas em simples dados, consumidores, perfis digitais ou recursos descartáveis dentro da economia tecnológica.

O Papa insiste que nenhum sistema econômico, político ou tecnológico pode estar acima da pessoa humana. A vida humana não pode ser medida apenas por produtividade, capacidade técnica ou desempenho algorítmico.

O verdadeiro problema não é tecnológico, mas humano

A Encíclica deixa claro que a Igreja não é contrária à ciência, ao progresso ou à inteligência artificial em si. O problema central não está simplesmente na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada e colocada a serviço de estruturas de poder, lucro e dominação.

Leão XIV retoma a crítica ao chamado “paradigma tecnocrático”, já presente na Laudato Si’. Segundo o Papa, cresce a mentalidade que acredita que todos os problemas humanos podem ser resolvidos apenas por soluções técnicas, algoritmos, automação e controle digital.

No entanto, a Encíclica recorda que nenhuma máquina é capaz de substituir plenamente a consciência moral, o discernimento ético, a compaixão, o amor, o perdão ou a responsabilidade humana. Algoritmos podem processar informações, mas não conhecem a dor, a misericórdia, a solidariedade ou o sentido profundo das relações humanas.

Por isso, entregar decisões fundamentais da vida social a sistemas automatizados representa um grave risco de desumanização.

A crítica ao poder das grandes corporações tecnológicas

Um dos aspectos mais fortes do documento é a denúncia da concentração de poder nas mãos das grandes plataformas digitais. A Encíclica afirma que poucas corporações passaram a controlar fluxos globais de informação, comunicação, dados e comportamento social.

O Papa denuncia:

  • o controle da informação por grandes empresas digitais; 
  • a manipulação de consciências por meio de algoritmos; 
  • a criação de bolhas ideológicas e polarizações sociais; 
  • a transformação da intimidade humana em mercadoria; 
  • o uso econômico das emoções, preferências e fragilidades das pessoas. 

A Encíclica alerta que a aparente liberdade digital muitas vezes esconde novas formas de dependência, vigilância e controle social. O ser humano corre o risco de tornar-se objeto de monitoramento permanente e manipulação invisível.

A inteligência artificial e o risco da desumanização

Ao abordar diretamente a inteligência artificial, Magnifica Humanitas apresenta uma das críticas mais contundentes já feitas pela Doutrina Social da Igreja sobre o tema.

O Papa alerta que a IA pode aprofundar desigualdades sociais, discriminações e exclusões quando utilizada sem critérios éticos. Sistemas automatizados alimentados por dados preconceituosos podem negar acesso ao trabalho, à saúde, ao crédito e a direitos básicos.

Além disso, Leão XIV denuncia a tendência de substituir relações humanas por interações técnicas e automatizadas. O documento afirma que a sociedade digital corre o risco de enfraquecer vínculos comunitários, reduzir a empatia e transformar a convivência humana em relações mediadas exclusivamente por plataformas e algoritmos.

A Encíclica também critica a cultura do descarte digital, marcada pelo cancelamento, pela violência virtual, pela exposição pública e pela desumanização das pessoas nas redes sociais.

“Desarmar” a inteligência artificial

Uma das expressões mais fortes da Encíclica é o chamado para “desarmar” a inteligência artificial. O Papa estabelece um paralelo com o debate histórico sobre o desarmamento nuclear e afirma que a IA não pode ser colocada a serviço da guerra, da destruição e do controle absoluto da vida humana.

Leão XIV manifesta profunda preocupação com:

  • armas autônomas; 
  • drones militares inteligentes; 
  • sistemas de combate guiados por IA; 
  • vigilância digital em massa; 
  • uso militar de algoritmos; 
  • tecnologias de controle populacional. 

Segundo o Papa, permitir que máquinas decidam sobre a vida e a morte representa uma ameaça gravíssima à ética e à dignidade humana. Nenhuma tecnologia pode substituir a responsabilidade moral humana.

Por isso, a Encíclica pede regulamentações internacionais, tratados globais e limites éticos claros para impedir que a inteligência artificial seja transformada em instrumento de guerra, opressão ou dominação geopolítica.

Trabalho humano, automação e justiça social

O documento também dedica forte atenção aos impactos da automação sobre o trabalho humano. O Papa reconhece que a tecnologia pode aliviar tarefas pesadas e contribuir para o bem comum, mas critica duramente sua utilização apenas para aumentar lucros e reduzir custos.

A Encíclica reafirma que o trabalho humano possui dignidade própria e não pode ser tratado como elemento descartável da economia. A automação não pode servir para excluir trabalhadores, ampliar desigualdades ou concentrar ainda mais riqueza e poder.

Leão XIV insiste que os sistemas tecnológicos devem ser orientados para proteger a vida humana, fortalecer comunidades e promover justiça social.

Ecologia Integral e fraternidade universal

Em continuidade com o Papa Francisco, Magnifica Humanitas retoma temas centrais da Laudato Si’ e da Fratelli Tutti. O documento reafirma a proposta da Ecologia Integral, lembrando que “o grito da Terra e o grito dos pobres” permanecem inseparáveis.

A crise ecológica, tecnológica e social possui raízes comuns em um modelo baseado na concentração de riqueza, na cultura do descarte e na lógica da dominação.

Ao mesmo tempo, a Encíclica insiste na necessidade de fortalecer a fraternidade universal, a cultura do encontro e o compromisso com “terra, teto e trabalho para todos”. Em um mundo marcado por guerras, exclusões digitais e desigualdades, o Papa recorda que a humanidade precisa reconstruir vínculos de solidariedade e cooperação entre os povos.

Cinco princípios para a governança ética da tecnologia

A Encíclica propõe princípios fundamentais para orientar o desenvolvimento tecnológico e a inteligência artificial:

  1. Bem Comum – a inovação deve servir ao desenvolvimento integral de todos, e não apenas ao lucro de poucos grupos econômicos. 
  2. Destinação Universal dos Bens – os avanços tecnológicos devem beneficiar toda a humanidade e não aprofundar exclusões digitais. 
  3. Subsidiariedade – as tecnologias devem fortalecer comunidades locais e não concentrar ainda mais poder global. 
  4. Solidariedade – a IA deve proteger os vulneráveis, combater desigualdades e fortalecer relações humanas. 
  5. Justiça Social – os sistemas digitais precisam de transparência, responsabilidade ética e controle democrático. 

Entre Babel e a fraternidade

A Encíclica conclui afirmando que a grande escolha do nosso tempo não é simplesmente aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas decidir qual projeto de humanidade queremos construir.

Leão XIV alerta para o risco de uma nova “Torre de Babel” digital, marcada pela soberba tecnológica, pela concentração de poder, pela vigilância permanente e pela desumanização. Em contrapartida, propõe uma civilização fundada no cuidado, na justiça, na fraternidade, na paz e na centralidade da pessoa humana.

Mais do que um documento sobre tecnologia, Magnifica Humanitas é um forte chamado espiritual, ético e político para recolocar a vida humana acima dos interesses econômicos, militares e tecnológicos. Em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, a Encíclica recorda que nenhum algoritmo possui mais valor do que a dignidade humana e que o verdadeiro progresso só existe quando está a serviço da vida, da paz e do bem comum.

Frei Rodrigo Péret, ofm


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Quando a mineração decide o destino de uma cidade: o caso de Kiruna, Suécia

 

Foto: AFP

Na imagem acima, da AP, pessoas acompanham nesta terça-feira, 19 de novembro, o início da remoção de dois dias da igreja de madeira em Kiruna, na Suécia, motivada pela expansão da mineração.


Em pleno século XXI, no norte da Suécia, a cidade de Kiruna está sendo obrigada a se mudar por causa da expansão da maior mina subterrânea de ferro do mundo. Até a histórica igreja luterana, de Kiruna, construída em madeira, em 1912 e considerada uma das mais belas do país, está sendo transportada inteira para outro local. Esta remoção irá durar dois dias, 19 e 20 de agosto.


O “espetáculo” da mudança esconde uma dura realidade: milhares de moradores estão sendo deslocados e o povo Sami, indígena da região, vê sua vida ameaçada. Suas rotas de criação de renas estão sendo destruídas, colocando em risco uma cultura ancestral.


Enquanto isso, a mineradora estatal LKAB e o governo apresentam o projeto como parte da “transição verde” da Europa. Mas que transição é essa que sacrifica comunidades e povos inteiros?


O caso de Kiruna mostra como as mineradoras ainda decidem o destino dos territórios, colocando lucro acima da vida e da cultura.

Para compreender melhor essa remoção, traduzimos um artigo de Nishtha Badgmia, publicado pelo WION (World is One News) em fevereiro de 2023, que explica por que uma cidade está sendo deslocada na Suécia.

Explicado: Por que esta cidade na Suécia está sendo movida prédio por prédio

No norte da Suécia, a cerca de 200 km acima do Círculo Polar Ártico, uma cidade chamada Kiruna está testemunhando subsidência devido à maior mina de ferro do mundo. Entre vários edifícios, a cidade de 18.000 pessoas também abriga uma igreja de madeira de 600 toneladas, de cor terracota aconchegante e culturalmente significativa, projetada para se assemelhar a uma cabana do povo indígena Sami. O destino dessas estruturas e casas está entrelaçado com a empresa estatal LKAB, que é a maior mina de ferro do mundo e produz 80% do suprimento da União Europeia, segundo um relatório do Guardian.

O que acontecerá com a cidade?

Nos próximos anos, Kiruna está prestes a testemunhar um dos projetos de realocação mais radicais do mundo, já que a mina de ferro local ameaça engolir a cidade, de acordo com o Guardian, depois que rachaduras surgiram em hospitais e prédios escolares. Pelo menos 6.000 pessoas deverão se mudar da cidade que afunda e também enfrentarão um aumento gradual em seus aluguéis, ao longo de oito anos, até um teto de 25% a mais do que o valor antigo.

Igreja de Kiruna

Em 1912, a cidade recebeu o edifício de madeira de 600 toneladas sem símbolo religioso, descrito uma vez pela pastora Lena Tjärnberg como “a sala de estar da comunidade”. Nos próximos três anos, depois de mais de um século, o edifício mais bonito da Suécia será transferido. Segundo o relatório, a igreja de cor terracota, projetada para se assemelhar a uma cabana do povo indígena Sami, será realocada cerca de três quilômetros a leste da cidade antiga, próxima ao cemitério local.

Fundada em 1900, a mina em questão é administrada pela empresa estatal sueca LKAB, que também é a maior mina de ferro do mundo. No entanto, daqui para frente, a empresa espera estar na vanguarda da revolução industrial verde da Europa e impulsionar a autonomia em recursos naturais, segundo o Guardian. Em 2021, a empresa também começou a produzir ferro-esponja livre de combustíveis fósseis, substituindo o carvão por hidrogênio produzido a partir de eletricidade verde.

No mês passado, a empresa também anunciou que estava assentada sobre o maior depósito conhecido de elementos de terras raras na Europa, alguns dos quais são importantes para a produção de baterias de carros elétricos e turbinas eólicas. Subsequentemente, a vice-primeira-ministra da Suécia, também responsável pelo clima e pelos negócios, Ebba Busch, disse: “A Suécia é literalmente uma mina de ouro... A Europa precisa aprender a lição de não ser tão dependente de um único país para o gás, como fomos da Rússia.”

Falando a jornalistas de dentro da mina, Busch, na época, disse que essa descoberta de metais raros também dá à Europa a chance de ser menos dependente da China, que é a fonte de 86% do suprimento global, informou o Guardian.

Como isso afetará a comunidade local?

O tipo de transformação que Kiruna está passando levantou alarmes entre muitos, já que toda a cidade será realocada devido à atividade mineradora na região e ao risco que ela representa para os moradores, incluindo o povo Sami. Séculos antes de a LKAB iniciar suas operações na região, os Sami criavam renas por toda a terra ártica; no entanto, relatórios sugerem que seu modo de vida está sob ameaça.

Além disso, a mineração e as atividades humanas, que levaram consequentemente à fragmentação da terra, tornam a criação de renas cada vez mais difícil, enquanto a crise climática já ameaçava a principal fonte de alimento de inverno das renas, o líquen. O povo Sami também teme que qualquer interrupção dessa “atividade ancestral” comprometa seus direitos à terra, informou o Guardian.

Um porta-voz da LKAB, Anders Lindberg, disse que duas aldeias Sami já mudaram suas rotas de pastoreio desde que a mina foi aberta, enquanto a empresa se tornou melhor em ouvir as questões dos criadores de renas e está trabalhando para minimizar o impacto de seu trabalho. No entanto, segundo o relatório, outra aldeia Sami chamada Gabna pode ter que mudar suas rotas de pastoreio devido à descoberta dos novos elementos de terras raras.

Fonte: WION (World is One News)


segunda-feira, 28 de julho de 2025

O Tempo é Agora: Fé, Resistência e Justiça rumo à COP30

 

Plenária da Pré-COP (Foto Frei Pedro Neto)

A declaração final da Pré-COP Leste reúne o clamor e o compromisso profético de representantes dos Regionais Leste 1, 2  e 3  e do Sul 1 da CNBB diante da urgência climática e da injustiça socioambiental. Realizado em Belo Horizonte, o encontro reforça a centralidade da conversão ecológica, denuncia falsas soluções e convoca a Igreja a assumir uma postura ativa e coerente na defesa da vida e dos territórios. Esta é uma voz coletiva que aponta caminhos de esperança e justiça rumo à COP30 e à Cúpula dos Povos, em Belém do Pará.

DECLARAÇÃO FINAL - PRÉ-COP LESTE

Conversão ecológica, resistência às falsas soluções e compromisso com a justiça socioambiental 

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”. Mt5.6


Reunidos em Belo Horizonte, Minas Gerais, no Colégio Marista Dom Silvério, entre os dias 25 e 27 de julho de 2025, representantes dos Regionais Leste 1, Leste 2, Leste 3 e Sul 1 da CNBB, abrangendo os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, assumimos coletivamente o chamado à conversão ecológica, à resistência às falsas soluções climáticas e à construção de um compromisso profético em preparação à COP 30, que ocorrerá em novembro de 2025, em Belém do Pará.


Diante do colapso climático global, que atinge de forma mais dura os pobres e territórios vulnerabilizados, reconhecemos o fracasso das últimas Conferências do Clima em oferecer soluções concretas. O aquecimento global já ultrapassa 1,5°C, e os acordos internacionais, dominados por interesses econômicos, são insuficientes diante de uma crise sistêmica que ameaça toda a vida. Vivemos um mundo atravessado por múltiplas crises, com guerras e violências, cujo ápice se revela no genocídio em Gaza, expressão extrema de nossa crise civilizatória.


Em nossa região Sudeste do Brasil, o modelo econômico agrava a degradação dos biomas, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, manguezais e zonas costeiras, através do avanço urbano-industrial, da mineração, do agronegócio, da exploração do gás e do petróleo, do uso indiscriminado do agrotóxico e da especulação imobiliária. A contaminação das águas, a perda da biodiversidade, a expulsão de comunidades e a periferização tornam visível a injustiça ambiental e social.


A partir de duas mesas de painéis, uma sobre a Crise Climática e a Justiça Socioambiental e outra sobre a Ruptura com o Modelo Econômico Predatório e Falsas Soluções, nos organizamos em 5 grupos de trabalho para aprofundar cinco eixos da nossa Pré-COP: 1 - Soberania dos Povos, Direitos Territoriais e Justiça Socioambiental; 2 - Justiça Climática e Reparação Histórica; 3 - Ruptura com o Modelo Econômico Predatório, Não à Economia Verde; 4 - Descarbonização e Falsas Soluções; 5 - Centralidade da Vida, Dignidade Humana e Direitos da Terra.


Os grupos convergiram na compreensão de que a crise climática está profundamente ligada, ao sistema capitalista, à injustiça social, ao racismo ambiental e ao extrativismo predatório. Criticaram a chamada economia verde, a mercantilização da natureza e as falsas soluções tecnológicas. Propuseram, em contrapartida, uma ruptura com o modelo econômico vigente e a construção de uma nova economia baseada na justiça socioambiental, na agroecologia e nos saberes ancestrais. Reivindicaram a soberania alimentar e energética, bem como políticas públicas construídas a partir das comunidades e a responsabilização dos grandes poluidores. Destacaram também a necessidade de coerência institucional, incluindo uma atuação profética da Igreja, que deve assumir papel ativo, educativo e articulador nas lutas por direitos, territórios e dignidade.


Denunciaram as falsas soluções, como os mercados de carbono, os megaprojetos de energia e a expansão da mineração, que aprofundam desigualdades e ameaçam territórios sem enfrentar as causas estruturais da crise. A crise climática é inseparável da injustiça social, do racismo ambiental e do extrativismo. Seus impactos recaem sobre os povos indígenas, quilombolas, comunidades periféricas, camponesas, ribeirinhas e tradicionais. É urgente responsabilizar juridicamente os grandes emissores, corporações e governos, e exigir que os compromissos assumidos nas COPs tenham força legal e sanções reais.

 

Nós bispos, padres, diáconos, religiosos e religiosas, leigas e leigos, presentes nesta Pré-COP, reafirmamos, com esperança, a ecologia integral como eixo da nossa missão evangelizadora, tendo como referências centrais a encíclica Laudato Si’ e a exortação Laudate Deum. Anunciamos a conversão ecológica como caminho de fé e espiritualidade para um mundo novo. Caminho de irmandade universal entre toda criação, como nos convida Francisco de Assis, no Cântico das Criaturas. Propomo-nos a fortalecer as CEBs, as Pastorais Sociais e a Pastoral da Ecologia Integral, com a presença efetiva da Igreja nos territórios e na escuta e convivência ativa junto às populações vulnerabilizadas. A formação de lideranças religiosas e comunitárias deve ser prioridade, que leve ao comprometimento, articulando espiritualidade, saberes tradicionais, ciência e consciência política.

 

A Igreja deve se manter coerente entre seu discurso e sua prática, evitando recursos e alianças com empresas poluidoras e adotando medidas sustentáveis em suas estruturas. Reafirmamos sua missão profética diante do Estado e do mercado, com atuação firme nas políticas públicas, conselhos, conferências e demais espaços de participação popular, inclusive oferecendo suporte jurídico às lideranças. É compromisso urgente enfrentar o racismo ambiental e as desigualdades estruturais que atingem especialmente povos indígenas, quilombolas, comunidades periféricas e ribeirinhas.

 

Destacamos a proposta dos Regionais aqui presentes levarem essas diretrizes para a Assembleia dos Bispos, com o objetivo de tornar a Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração em uma comissão nacional permanente, e que se constitua em todos os regionais da CNBB.

 

Defendemos políticas públicas estruturantes, com participação social, que garantam moradia, água, saneamento e saúde às comunidades em risco socioambiental, assegurando também os direitos da natureza. É essencial atuar nos Planos de Saneamento, Diretores e de Mobilidade Urbana, promovendo justiça espacial e o direito à permanência nos territórios. Rejeitamos propostas como o “PL da devastação”, a lógica da “escala de trabalho 6x1”, e defendemos leis populares, como a “taxação das grandes fortunas”, bem como leis voltadas à justiça climática. Uma ação urgente passa pelo combate ao desmatamento, com foco na preservação dos biomas, e na contenção da urbanização predatória e dos grandes empreendimentos. A preservação das florestas é compromisso espiritual, territorial e ambiental, não financeiro, em diálogo com os povos que nelas vivem.

 

Em contraste ao modelo capitalista que devasta e aprofunda a crise climática, apontamos para a vida que prevalece apesar de tudo o que acontece.

 

Anunciamos os modos de vida e os saberes dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que representam formas sustentáveis e harmoniosas de habitar a terra, baseadas no cuidado com a natureza, na coletividade e no respeito aos ciclos da vida. Identificamos, ainda, sinais concretos de esperança presentes nos territórios. Alternativas comunitárias e coletivas, baseadas na economia do cuidado, na agroecologia, na agricultura familiar, na economia solidária, no decrescimento. Expressões para nós de uma Economia de Francisco e Clara. Essas comunidades cultivam uma relação de reciprocidade com os territórios, oferecendo caminhos concretos para a justiça socioambiental e a regeneração da vida. Comprometemo-nos com organizações populares e as iniciativas comunitárias autônomas, como cooperativas e redes de solidariedade.

 

No cenário internacional, exigimos compromissos vinculantes nas COPs, o cancelamento das dívidas externas e a responsabilização dos países historicamente poluidores.

 

Confiamos aos nossos Regionais da CNBB, sob as bênçãos de Deus, a continuidade dos trabalhos.


Que a COP 30, em Belém, seja um marco de escuta do grito da Terra e dos Pobres, de denúncia profética das estruturas de morte e de anúncio de novos caminhos para uma sociedade justa e com respeito à natureza. Saudamos, com esperança, a Cúpula dos Povos, onde movimentos e organizações sociais nacionais e internacionais se mobilizam por alternativas reais e por justiça climática. Que as vozes dos territórios sejam ouvidas e respeitadas nas negociações. O tempo é agora. A conversão ecológica é urgente. A justiça climática é inegociável.


             “Trabalhem por uma justiça ecológica, social e ambiental”. Papa Leão XIV (Mensagem ao II Encontro Sinodal de Reitores de Universidades para o cuidado da Casa Comum realizado na Puc do Rio de Janeiro - maio de 2025).


Pela intercessão de Nossa Senhora da Abadia das águas sujas e de São Francisco de Assis 

De Belo Horizonte a Belém: seguimos em comunhão, esperança e luta. 

Belo Horizonte, 27-07-2025.



sexta-feira, 30 de maio de 2025

Leonardo Boff recebe prêmio da Ordem Franciscana por Ecologia Integral

 

Leonardo Boff e Frei Massimo Fussarelli Ministro Geral dos Franciscanos

No dia 30 de maio de 2025, a Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, foi palco de um momento histórico e profundamente simbólico para toda a Família Franciscana: o teólogo brasileiro Leonardo Boff foi homenageado pela Ordem dos Frades Menores (OFM), franciscanos, por sua contribuição excepcional à causa da ecologia integral. Ele recebeu esse premio das mãos do Ministro Geral dos OFM, o Frei Massimo Fussarelli.

Esse reconhecimento, concedido em ocasião solene, destaca-se não apenas pela sua relevância simbólica, mas também pela autoridade espiritual e profética que carrega. Em tempos de múltiplas crises – climática, social, espiritual e civilizatória – a figura de Boff emerge como um dos grandes porta-vozes da esperança ativa, da fé encarnada e da justiça cósmica.

Homenagem na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma,

Um reconhecimento franciscano

A homenagem integra uma celebração ampla e significativa: os 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, e os 10 anos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. Em honra a esses dois marcos, a Ordem dos Frades Menores decidiu reconhecer, com distinção especial, cinco pessoas e organizações em todo o mundo que se destacam por seu compromisso concreto com a ecologia integral.

Entre os homenageados estão:

  • Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, figura de referência no diálogo inter-religioso e na defesa da Criação;

  • A REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica), símbolo de resistência e esperança nos territórios ameaçados da Amazônia;

  • O Movimento Laudato Si’, expressão global da conversão ecológica e da mobilização profética;

  • E, com profunda reverência, Leonardo Boff, cuja vida e obra têm iluminado o caminho da ecoteologia, da libertação e da espiritualidade franciscana.

Boff: teologia com raízes na terra e olhos no céu

Leonardo Boff, hoje professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é autor de inúmeras obras de referência mundial, como "Grito da Terra, Grito dos Pobres" — uma síntese poderosa de ética, ecologia e espiritualidade — e "Jesus Cristo Libertador", marco fundador da teologia da libertação. Com sua linguagem acessível e profunda, Boff denuncia as estruturas de dominação e propõe um novo pacto de convivência entre os seres humanos, a Terra e o Divino.

Inspirado pela mística de Francisco de Assis, Boff resgata a fraternidade universal não como um ideal romântico, mas como um chamado urgente à ação ética, política e espiritual. Sua obra aponta para a necessária superação do paradigma tecnocrático e consumista, propondo em seu lugar uma cultura do cuidado, da simplicidade e da reverência à vida.

A Casa Comum como horizonte franciscano

O prêmio da OFM a Leonardo Boff não é apenas uma homenagem pessoal — é o reconhecimento de uma trajetória que ecoa o espírito de Francisco: a escuta dos pobres, o amor pelas criaturas, a crítica profética ao poder que destrói e o anúncio de um novo modo de habitar o mundo.

Neste tempo sinodal e de grave emergência ecológica, a voz de Boff segue sendo um farol para a Igreja, para os movimentos sociais e para todos que buscam integrar espiritualidade, justiça e compromisso ecológico.

Ao reconhecer Leonardo Boff, a Ordem dos Frades Menores reafirma o chamado de São Francisco: "Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas!" — e nos convida, mais uma vez, a sermos guardiões da vida e da Casa Comum.

domingo, 18 de maio de 2025

Leão XIV: unidade, missão e crítica à economia que explora e marginaliza

 

Foto: Vatican News

Papa Leão XIV,  faz um chamado à unidade, missão, amor e critica economia que explora os recursos da terra e marginaliza os mais pobres 


Na sua primeira homilia como Bispo de Roma, no V Domingo da Páscoa, o Papa Leão XIV nos oferece uma profunda meditação sobre o ministério petrino e a missão da Igreja no mundo atual. Diante de uma Praça de São Pedro emocionada pela memória recente da morte do Papa Francisco, ele nos convida a contemplar Cristo como a pedra angular sobre a qual se edifica uma Igreja que caminha unida, servidora e missionária.

Mais do que palavras protocolares, suas palavras são uma profissão de fé no amor de Deus que não falha, mesmo diante das quedas e das sombras do nosso tempo. Leão XIV nos lembra que amar como Jesus amou – com entrega e sem reservas – é a única forma autêntica de exercer autoridade na Igreja, e que o sucessor de Pedro não está acima dos irmãos, mas caminha com eles, como servo da fé e da alegria de todos.

Entre os grandes eixos da homilia, destacam-se:

  • A urgência de construir uma Igreja unida, fermento de comunhão e fraternidade para um mundo ferido por ódios, preconceitos, violência e exclusão.
  • O reconhecimento de que o paradigma econômico atual, ao explorar os recursos da Terra e marginalizar os mais pobres, é contrário ao Evangelho e desafia a missão da Igreja.
  • O apelo para que cada batizado se reconheça como “pedra viva” na edificação de uma comunidade enraizada no amor de Deus.
  • O compromisso ecumênico, inter-religioso e social como dimensão constitutiva da missão e do testemunho cristão hoje.
  • A afirmação de que esta é a hora do amor, e não do fechamento, da superioridade ou da indiferença.

Com palavras simples e inspiradas, o Papa nos convida a acolher a Palavra de Cristo, fonte de consolação e luz, e a nos tornarmos uma Igreja aberta ao mundo, sensível aos sinais dos tempos, próxima dos pobres, e sempre pronta a amar “com algo mais”.

A seguir, leia na íntegra a homilia que marca o início do seu ministério e aponta o horizonte de esperança, unidade e conversão para toda a Igreja:

HOMILIA DO PAPA LEÃO XIV

Praça de São Pedro - V Domingo de Páscoa, 18 de maio de 2025

Queridos irmãos Cardeais,

Irmãos no episcopado e no sacerdócio,
distintas Autoridades e Membros do Corpo Diplomático,
Saudações aos peregrinos que vieram para o Jubileu da Irmandade!
Irmãos e irmãs,

no início do ministério que me foi confiado, saúdo-vos a todos com o coração cheio de gratidão. Escreveu Santo Agostinho: «Fizeste-nos para Vós, [Senhor,] e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós» (Confissões, 1,1.1).

Nos últimos dias, vivemos tempos particularmente intensos. A morte do Papa Francisco encheu os nossos corações de tristeza e, naquelas horas difíceis, sentimo-nos como as multidões que o Evangelho diz serem «como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36). No entanto, precisamente no dia de Páscoa, recebemos a sua última bênção e, à luz da ressurreição, enfrentámos este momento na certeza de que o Senhor nunca abandona o seu povo, mas congrega-o quando se dispersa e guarda-o «como o pastor ao seu rebanho» (Jr 31, 10).

Neste espírito de fé, o Colégio Cardinalício reuniu-se para o Conclave. Chegando com histórias diferentes e a partir de caminhos diversos, colocámos nas mãos de Deus o desejo de eleger o novo sucessor de Pedro, o Bispo de Roma, um pastor capaz de guardar o rico património da fé cristã e, ao mesmo tempo, de olhar para longe, para ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje. Acompanhados pela vossa oração, sentimos a ação do Espírito Santo, que soube harmonizar os diferentes instrumentos musicais e fez vibrar as cordas do nosso coração numa única melodia.

Fui escolhido sem qualquer mérito e, com temor e tremor, venho até vós como um irmão que deseja fazer-se servo da vossa fé e da vossa alegria, percorrendo convosco o caminho do amor de Deus, que nos quer a todos unidos numa única família.

Amor e unidade: estas são as duas dimensões da missão que Jesus confiou a Pedro.

É o que nos narra o trecho do Evangelho, que nos leva ao lago de Tiberíades, o mesmo onde Jesus iniciou a missão recebida do Pai: “pescar” a humanidade para salvá-la das águas do mal e da morte. Passando pela margem daquele lago, chamou Pedro e os outros primeiros discípulos para serem como Ele, “pescadores de homens”, e agora, após a ressurreição, cabe-lhes precisamente a eles levar em frente esta missão, lançar sempre e novamente a rede imergindo nas águas do mundo a esperança do Evangelho, e navegar no mar da vida para que todos se possam reencontrar no abraço de Deus.

Como pode Pedro levar adiante essa tarefa? O Evangelho diz-nos que isso só é possível porque ele experimentou na própria vida o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo na hora do fracasso e da negação. Por isso, quando Jesus se dirige a Pedro, o Evangelho usa o verbo grego agapao, que se refere ao amor que Deus tem por nós, à sua entrega sem reservas nem cálculos, diferente do usado na resposta de Pedro, que descreve o amor de amizade que cultivamos entre nós.

Quando Jesus pergunta a Pedro – «Simão, filho de João, tu amas-me?» (Jo 21, 16) – refere-se ao amor do Pai. É como se Jesus lhe dissesse: só se conheceste e experimentaste este amor de Deus, que nunca falha, poderás apascentar as minhas ovelhas; só no amor de Deus Pai poderás amar os teus irmãos com «algo mais», isto é, oferecendo a vida por eles.

A Pedro, portanto, é confiada a tarefa de «amar mais» e dar a sua vida pelo rebanho. O ministério de Pedro é marcado precisamente por este amor oblativo, porque a Igreja de Roma preside na caridade e a sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo. Não se trata nunca de capturar os outros com a prepotência, com a propaganda religiosa ou com os meios do poder, mas trata-se sempre e apenas de amar como fez Jesus.

Ele é – afirma o próprio apóstolo Pedro – «a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular» (Act 4, 11). E se a pedra é Cristo, Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros, tornando-se dominador das pessoas que lhe foram confiadas (cf. 1 Pe 5, 3); pelo contrário, é-lhe pedido que sirva a fé dos irmãos, caminhando com eles: todos nós, com efeito, somos «pedras vivas» (1 Pe 2, 5), chamados pelo nosso Batismo a construir o edifício de Deus na comunhão fraterna, na harmonia do Espírito, na convivência das diversidades. Como afirma Santo Agostinho: «A Igreja é constituída por todos aqueles que mantêm a concórdia com os irmãos e que amam o próximo» (Sermão 359, 9).

Irmãos e irmãs, gostaria que fosse este o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado.

No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, a violência, os preconceitos, o medo do diferente, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres. E nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: Olhai para Cristo! Aproximai-vos d’Ele! Acolhei a sua Palavra que ilumina e consola! Escutai a sua proposta de amor para vos tornardes a sua única família. No único Cristo somos um. E este é o caminho a percorrer juntos – entre nós, mas também com as Igrejas cristãs irmãs, com aqueles que percorrem outros caminhos religiosos, com quem cultiva a inquietação da busca de Deus, com todas as mulheres e todos os homens de boa vontade – para construirmos um mundo novo onde reine a paz.

Este é o espírito missionário que nos deve animar, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo.

Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho e, com o meu predecessor Leão XIII, podemos hoje perguntar-nos: «Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?» (Carta enc. Rerum novarum, 14)

Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade, uma Igreja missionária, que abre os braços ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa inquietar pela história e que se torna fermento de concórdia para a humanidade.

Juntos, como único povo, todos irmãos, caminhemos ao encontro de Deus e amemo-nos uns aos outros.

FONTE: vatican.vat