terça-feira, 11 de julho de 2017

Projetos da Anglo ameaçam de extinção povoados inteiros, em MG


Reportagem de Ana Paula Pedrosa e Queila Ariadne, do Jornal O TEMPO, sobre conflitos sociais e impactos ambientais gerados pelo Projeto Minas Rio, da mineradora Anglo American, na região de Conceição do Mato Dentro (MG).

CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO. A água de várias nascentes já sumiu. Alguns povoados, como Mumbuca e Ferrugem, desapareceram para dar lugar a projetos da Anglo American, em Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas. Outras comunidades, como São Sebastião do Bonsucesso, conhecida como Sapo, Água Quente e Passa Sete, ainda estão lá, mas parecem invisíveis. Elas não são consideradas pela mineradora áreas diretamente atingidas, no entanto a primeira está aos pés da serra para onde a mina será expandida. As outras duas, aos pés da barragem de rejeitos.

Pelo Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) do projeto Minas-Rio, a Anglo reconhece apenas duas comunidades. Segundo a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro, os impactos do empreendimento atingem 11 povoados. “O certo era retirar essas comunidades, para segurança dos moradores”, afirma o professor Mauro Lúcio da Silva, morador do Sapo.

Deixar a terra onde nasceu não é o desejo da maioria dos moradores. Entretanto, com a poeira, o barulho e o movimento pesado de máquinas que estão por vir com a expansão da mina na serra do Sapo, a alternativa passa a ser uma esperança. “Não queríamos sair, é impossível manter nossa qualidade de vida”, afirmam os irmãos Vanderley e João Simões Rosa, moradores do Sapo.

A fazenda deles está a cerca de 200 metros de onde a empresa vai construir um dique de contenção, perto da área de expansão da mina. “Hoje, nossa casa já foi toda trincada por causa de explosões e detonações. Imagina o que essa nova etapa vai trazer”, questiona João.

A família, que costumava pegar água em uma nascente próxima, hoje precisa pedir não só licença à Anglo, mas a chave da porteira colocada pela empresa no acesso a outra nascente. “A que tinha na nossa terra secou, com a descida de sedimentos. Hoje, encanamos dessa outra, só que ela fica em propriedade da Anglo. Quando entope, temos que agendar hora para um funcionário vir abrir a porteira”, lamenta Vanderley Simões.

Por meio de nota, a Anglo American explica que essas comunidades não são diretamente atingidas, mas sim vizinhos imediatos da Área Diretamente Afetada (ADA), que é o nome dado a quem vive exatamente no local onde serão instaladas as obras do “Step 3”. Portanto, Sapo, Cabeceira do Turco, Água Quente e Passa Sete estão enquadradas na Área de Influência Direta (AID).

Em relação aos diretamente afetados, a empresa afirma que já concluiu todas as negociações. Já sobre esses “vizinhos”, a Anglo criou um comitê de convivência para discutir com os moradores as medidas que garantirão a qualidade de vida na região.

A coordenadora do comitê, Sandra Celestina Stemler, avalia que, com tantos impactos, o destino do Sapo é acabar. “Água, já não temos mais a nossa, pura. A estação é abastecida por caminhão-pipa”, afirma. Ela explica que o comitê está realizando um cadastro fundiário para levantar interessados em vender as propriedades e negociar valores.
Para a primeira fase do projeto Minas-Rio, algumas comunidades tiveram que ser totalmente removidas, para segurança dos moradores. Mas agora, para o chamado “Step 3”, a Anglo American afirma que as atividades “não irão remover nenhuma comunidade e destaca que as negociações fundiárias em pontos específicos e o reassentamento das famílias que residiam nos locais já foram realizados”.
Obra: aumento da cava da mina, instalação de diques de contenção, alteamento da barragem de rejeitos, expansão da pilha de estéril, instalação do platô de apoio operacional. Previsão de terminar em 4 anos. O investimento é de R$ 1 bilhão.

Empregos: 800 vagas na implantação e cem na operação.

Capacidade da mina: 26,5 milhões de toneladas/ano.

Licenciamento: No dia 20 de julho haverá a audiência pública com a comunidade, pré-requisito para iniciar o processo de licenciamento. 

FONTE: Jornal O TEMPO

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Conflitos de mineração levam 11 a programas de proteção, em Minas Gerias

Reportagem de Ana Paula Pedrosa e Queila Ariadne, do Jornal O TEMPO, sobre conflitos provocados por mineradoras em MG.

No Estado que leva a mineração no nome, 11 pessoas, moradoras de cinco cidades de regiões diferentes, estão incluídas em programas de proteção da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania depois de terem sido ameaçadas em decorrência de suas atuações em conflitos territoriais, sociais e ambientais envolvendo comunidades e mineradoras.
“Não posso dizer que são as mineradoras que ameaçam, mas o pano de fundo é a mineração. Elas (as mineradoras) colocam as pessoas umas contra as outras”, disse a coordenadora do Programa Estadual de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, Maria Emília da Silva, em entrevista concedida ao fim de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em maio. A inclusão deles nos programas de proteção foi solicitada, na maioria dos casos, pelos Ministérios Públicos Federal (MPF) ou de Minas Gerais (MPE), ou pela Comissão de Direitos Humanos da ALMG.
A reportagem de O TEMPO conseguiu localizar nove e conversar com oito das 11 pessoas ameaçadas – uma delas não quis dar entrevista por medo de represálias, mas indicou um representante. As formas de intimidação relatadas vão desde pessoas rondando as casas de madrugada até sabotagem de veículo, passando por bilhetes ameaçadores, ligações de funerárias oferecendo seus serviços e invasão de casa paroquial por uma pessoa armada.
A prioridade do programa de proteção é manter o defensor em sua localidade, para que ele possa continuar seu trabalho. Para isso, é articulada uma rede com órgãos responsáveis, para encaminhar as denúncias e agilizar a tomada de providências. Quando preciso, são adotadas medidas de segurança nas residências, como a instalação de câmeras e cercas elétricas.
Em último caso, quando o risco é muito grande, as pessoas são retiradas de sua cidade e passam a viver escondidas, para proteger sua vida. Entre os 11 mineiros, um se mudou de cidade e dois saíram do Estado. Todos continuam sendo monitorados pelo programa de proteção.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da ALMG, deputado Cristiano Silveira (PT), diz que não é possível afirmar que as ameaças partem das empresas “porque ninguém vai com o crachá da mineradora”, mas afirma que elas criam nas cidades um clima favorável a intimidações. “Elas usam formas perversas para jogar as pessoas umas contra as outras. Quando não conseguem convencer a comunidade de maneira coletiva, vão até as pessoas individualmente e criam um clima de hostilidade”, diz o deputado.
As ameaças podem vir, por exemplo, de pessoas que esperam a liberação dos projetos para fazer negócio com a mineradora, como vender suas terras, e veem quem se opõe ao projeto como um obstáculo.
Em Belisário, pequeno distrito de Muriaé, na Zona da Mata mineira, um religioso colocou sua vida em risco por defender uma serra e suas nascentes. O frei Gilberto Teixeira diz que a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) pretende ampliar a extração de bauxita na região, o que poderia ameaçar as nascentes do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro – a bauxita é um mineral que absorve a água e libera aos poucos para o solo, abastecendo os lençóis freáticos. Sem ela, a água escoa e não chega ao subsolo.
Por isso, o frei é contrário ao projeto. E, por liderar a resistência local, ele acabou sendo ameaçado de morte em fevereiro deste ano por um homem que chegou de moto e armado à sua casa, em plena luz do dia, mas ainda não foi identificado nem detido.
“Eu estava chegando na casa paroquial, por volta das 11h, quando uma pessoa armada me empurrou para dentro e me ameaçou de morte. Ele disse que era um aviso, porque eu estava falando muito de mineração”, conta. Ele foi incluído no programa de proteção em março e, desde então, não anda sozinho, e câmeras e outros equipamentos de segurança foram instalados em sua casa. “Qualquer movimento diferente já me deixa assustado”, diz.
Ele afirma, porém, que a ameaça trouxe mais visibilidade à resistência à mineração no local, e acredita que conseguirá proteger os cursos d’água. “A água vale mais do que a bauxita”, afirma. Por meio de nota, a CBA diz que se solidariza com o frei Gilberto e repudia o envolvimento do nome da companhia no caso.
A empresa afirma também que não tem processo de licenciamento ambiental para expansão das atividades em andamento no local.
FONTE: Jornal O TEMPO

domingo, 9 de julho de 2017

Frei Sergio Görgen Lança livro "Trincheiras da resistência camponesa sob o pacto de poder do agronegócio"

O autor é referencial na história dos movimentos sociais do campo, com especial aproximação ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Frei Sergio Antônio Görgen, para além de uma vida que se divide entre a espiritualidade da vida religiosa e o front de luta social, é uma voz respeitada e que, através de textos opinativos publicados nos mais diversos meios de comunicação ao longo dos anos, traz uma narrativa em primeira pessoa do tempo histórico que caracteriza a contemporaneidade no Brasil e América Latina. “Trincheiras da resistência camponesa sob o pacto de poder do agronegócio” foi apresentado pelo autor no lançamento coletivo de obras realizado durante a 13a Feira Latino Americana de Economia Solidária e a 24a Feira Internacional do Cooperativismo, em Santa Maria (RS).
“Este livro contempla um relato construído no calor dos acontecimentos em que narra e analisa a resistência e a persistência da agricultura camponesa e do campesinato, como sujeito histórico, na sociedade brasileira do século XXI”, analisa o autor na apresentação do livro. “Não há como pensar o futuro da nação brasileira – se a queremos justa e igualitária – sem a participação dos camponeses e camponesas, seus movimentos sociais e seus projetos de vida e de sociedade”, complementa. A luta de classes está representada ao longo da obra, caracterizada desde o título, simbolizada nas trincheiras em que os camponeses, como classe, lutaram e resistiram à classe capitalista, representada pelas teias do agronegócio.
Como não poderia deixar de ser, o alimento saudável e a defesa da produção livre do veneno e de outros aditivos químicos nocivos à vida humana e à natureza está em destaque na obra. A agricultura camponesa e a agroecologia estão no cerne da formação de um novo modelo social, pauta pela qual Frei Sergio não hesita em dedicar a vida e dividir a atenção ao longo de mais de 35 anos de militância social. A nova fase do capitalismo na agricultura, implantada no Brasil a partir da virada do século, está esmiuçada na obra, recuperando as mais variadas formas de resistência e enfrentamento dos coletivos sociais em defesa dos territórios camponeses e também indígenas.
O livro recupera textos dos últimos 16 anos em uma publicação que facilmente pode ser interpretada como testemunho crítico e histórico, onde as bandeiras de luta se mantém, mas os objetivos específicos foram se transformando. Publicado pela editora do Instituto Cultural Padre Josino, o livro está à venda pelo preço simbólico de R$ 30,00 e pode ser solicitado pelos telefones (51) 32814820 ou (51) 32288107. Em breve também estará disponível na loja online do Instituto através do site www.padrejosimo.com.br
FONTE: MPA

terça-feira, 4 de julho de 2017

Para FEAM, 14 barragens de rejeitos são instáveis em MG

Em Minas Gerais há 14 barragens de contenção de rejeitos e de resíduos que não têm garantia de estabilidade. As informações constam das declarações de estabilidade de barragem cadastradas pelos responsáveis de empreendimentos industriais e minerários que possuem tais reservatórios. Os dados, do inventário do ano passado, foram divulgados nesta segunda-feira pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), que destaca ainda que a auditoria não foi conclusiva quanto à estabilidade de outros 23 reservatórios.
A declaração deve ser feita anualmente e está determinada nas Deliberações Normativas do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) 87/2005 e 124/2008. Em 2016, foram cadastradas 737 barragens, das quais, em 724 foram declaradas a condição de estabilidade. Dessas, 94,9% das barragens (687) possuem estabilidade garantida pelo auditor. 



O Inventário de Barragens 2016 tem recebido especial atenção do governo e órgãos ambientais do estado, tendo em vista o desastre de novembro de 2015, em que a barragem do Fundão, pertencente à mineradora Samarco, em Mariana, na Região Central, rompeu e despejou toneladas de rejeito de minério. Em consequência, 19 pessoas morreram, centenas ficaram feridas, o subdistrito de Bento Rodrigues foi devastado pela lama, outras localidades foram parcialmente atingidas e a Bacia do Rio Doce foi poluída pelo rejeito, com prejuízos ambientais até a foz do rio, no litoral do Espírito Santo.

Com o objetivo de trabalhar de uma forma mais integrada e com uma visão mais abrangente entre diferentes instituições, foram realizadas vistorias que envolveram equipes da Feam, da Secretaria de Estado de Meio ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), por meio das Subsecretarias de Fiscalização Ambiental (Sufis) e de Regularização Ambiental (Suram), Defesa Civil de Minas Gerais (Cedec) e Polícia Militar do Meio Ambiente. “Nessas ações, cada órgão pôde contribuir nas fiscalizações em campo de acordo com sua competência”, disse o diretor de Gestão de Resíduos da Feam, Renato Brandão.

As fiscalizações tiveram como foco as estruturas que não vinham apresentando as declarações de condição de estabilidade na periodicidade correta, além de estruturas com alto potencial de dano ambiental ou as que não apresentaram condição de estabilidade garantida ou sem conclusão pelo auditor. Os fiscais verificaram, também, as estruturas em que o auditor apontou falta de dados ou documentos técnicos, denúncias recebidas pela Feam e demandas em ações Civis do Ministério Público Federal (MPF). A campanha de vistorias em 2016 resultou num total de 309 diferentes estruturas checadas, até novembro de 2016, gerando 94 autos de fiscalização.

O Programa de Gestão de Barragens de Rejeitos e Resíduos é desenvolvido pela Feam desde 2002 com o objetivo de reduzir o potencial de danos ambientais em decorrência de acidentes nessas estruturas. Em 2008, teve início o Banco de Declarações Ambientais (BDA). 

Com base nas informações declaradas, é elaborado o Inventário Estadual de Barragens de Minas Gerais, com objetivo de apresentar os principais dados do cadastro de barragens, as diretrizes e ações realizadas pela Feam, apontando também a evolução dos resultados obtidos no gerenciamento desde a sua implantação.
FONTE: JORNAL ESTADO DE MINAS

domingo, 25 de junho de 2017

Líder Quilombola é assassinada e enterrada na mata, em Moju (PA)

Um crime bárbaro assusta moradores do município do Moju, região nordeste paraense. Uma líder quilombola de 69 anos foi morta e enterrada com o corpo apresentando sinais de violência sexual.
Segundo informações da família, Maria Trindade da Silva Costa desapareceu na sexta-feira (23), quando voltava de bicicleta para a casa após fazer os rotineiros trabalhos de assistência a outros moradores da comunidade Santana, onde morava, na localidade Jambu-Açu.
"Foi crueldade, uma barbárie. Violência pura e gratuita. Ela não merecia um fim com tanta violência. Estava com as roupas rasgadas, lutou até as últimas forças", disse Jane Malcher, sobrinha da vítima.
A sobrinha de Maria relatou ainda que o desaparecimento foi reclamado por volta
das18h da sexta entre os familiares e somente às 22h do sábado (24) que o corpo foi encontrado enterrado na área de matagal.
"Nós queremos Justiça. Ela era uma mulher de Deus. Saiu na sexta e durante o sábado não a encontramos. Aqui é uma comunidade tipo balneário, passam várias pessoas que não são daqui", completou Jane afirmando que a tia não tinha inimigos.
POLÍCIA
De acordo com a Polícia Civil, as investigações estão sendo feitas por policiais de Abaetetuba e Moju.
"As suspeitas são de homicídio, não se sabe se houve violência sexual. A perícia vai informar isso", informou a PC reiterando que a área onde o corpo foi encontrado fica cerca de duas horas e meia do centro do Moju.
IML
Por volta das 13h deste domingo, peritos do Centro de Perícia Científica (CPC) Renato Chaves foram até o local onde fizeram a remoção do corpo que foi conduzido para o Instituto Médico Legal (IML) de Abaetetuba.
O velório e sepultamento serão realizados na comunidade Santana.
FONTE: DIÁRIO DO PARÁ

E o exército dos EUA chegará à Amazônia?


Raul Zibechi*
Pela primeira vez na história, tropas dos Estados Unidos participam de um exercício militar no coração da Amazônia. Trata-se do AmazonLog, que acontecerá entre 6 e 13 de novembro no município brasileiro de Tabatinga, situado na margem esquerda do rio Solimões, na tríplice fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia. Os exercícios militares não têm precedentes na América Latina. A proposta tem como referência a operação da OTAN realizada na Hungria em 2015, que empenhou 1.700 militares numa simulação de apoio logístico. Os objetivos são controle da imigração ilegal, assistência humanitária em grandes eventos, operações de paz em regiões remotas, ações contra o tráfico de drogas e os chamados “delitos ambientais”.

“O lugar escolhido foi Tabatinga porque queremos mostrar ao mundo as dificuldades da nossa Amazônia”, disse o general do Exército do Brasil, Guilherme Cals Theophilo. O que ele não disse foi que mostrarão também os segredos mais bem guardados da região considerada pulmão do planeta, a mais rica em água e biodiversidade. Acrescentou que este é o momento para ensinar como as florestas tropicais são úteis para um “debate científico e tecnológico” relacionado à paz e à guerra.

Foram convidadas as forças armadas da Colômbia, Argentina, Bolívia, Peru, Equador, Chile, Uruguai, Estados Unidos, Panamá e Canadá. Foram também convidados o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), pertencente à Unasul, assim como a Junta Interamericana de Defesa, que orbita em torno do Pentágono.

A realização desses exercícios supõe três mudanças importantes, duas das quais afetam diretamente o Brasil e a terceira diz respeito a toda a região.
A primeira é que o Brasil era, até agora, muito cuidadoso na proteção da Amazônia. Diz uma mensagem que circula entre militares: “convidar as Forças Armadas dos EUA para fazer exercícios conjuntos com nossas Forças Armadas, na Amazônia, é como um crime de lesa pátria. Ensinar ao inimigo como combatemos na selva amazônica é alta traição”, divulgou o jornal Zero Hora.

Nelson Düring, diretor de uma página militar, ressalta que os exercícios são “um retrocesso que confunde a inserção brasileira nos assuntos internacionais”. O especialista em questões militares recorda que “até aqui não eram aceitos militares estrangeiros no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS). Agora já temos norte-americanos, europeus e até chineses”. Conclui em sintonia com as vozes críticas: “o Brasil deve preservar seus segredos”. Os setores nacionalistas das Forças Armadas temem que a base multinacional temporária que se estabelecerá em Tabatinga possa converter-se em permanente, como aconteceu na Hungria em 2015.

Em segundo lugar, o AmazonLog 2017 reflete uma inflexão nas relações militares entre Washington e Brasília. Um acordo militar foi firmado entre os dois países em 1952, assinado pelos presidentes Harry Truman e Getúlio Vargas, para a troca de armamentos por minerais estratégicos, como o urânio. Era um momento de fortes pressões dos EUA para impedir que o Brasil desenvolvesse sua própria tecnologia nuclear.

Em 11 de março de 1977, o presidente militar Ernesto Geisel denunciou o tratado, uma vez que o governo Jimmy Carter interferiu nos assuntos internos com o argumento de defender os direitos humanos. Em 1989 essa distância aumentou. João Roberto Martins Filho, ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, afirmou que “desde o fim da guerra fria o Brasil separou-se dos EUA, que de aliado estratégico passou de repente a atuar como superpotência única. Isso provocou uma reação de hiperdefesa da Amazônia”.

Com a chegada de Donald Trump e de Michel Temer à presidência dos EUA e do Brasil, as relações estão mudando. Os exercícios conjuntos de novembro são apenas a parte mais visível da aproximação na área de defesa. Em março, o chefe do Comando Sul, Clarence K. K. Chinn, foi condecorado em Brasília com a Medalha do Mérito Militar e visitou as instalações do Comando Militar da Amazônia, onde serão realizados os exercícios do AmazonLog.

A Embraer, principal empresa brasileira de defesa, firmou em abril um acordo com a estadunidense Rockwell Collins na área aeroespacial, e o Comando de Engenharia, Desenvolvimento e Pesquisa do Exército dos EUA abriu um escritório em São Paulo para aprofundar as relações de pesquisa e inovação em tecnologias de defesa. No dia 3 de abril o ministério da Defesa do Brasil anunciou que está desenvolvendo um “projeto de defesa” conjunto com os EUA, conforme informação da CNN.

Finalmente, registra-se um retrocesso no processo de integração regional. No marco da Unasul, espaço sul-americano em que os EUA não participam, foi criado em 2008 o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) com o objetivo de consolidar uma zona de paz sul-americana, construir uma visão comum em matéria de defesa e articular posições regionais em fóruns multilaterais.

O CDS apontava para a autonomia regional em matéria de defesa. Consolidava a ruptura com o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), de 1947, que refletia a dominação dos EUA sobre o continente. O TIAR deslegitimou-se durante a guerra das Malvinas (1982), já que os EUA apoiaram a Inglaterra. Com os anos, vários países saíram do TIAR: Peru, México, Bolívia, Cuba, Venezuela, Nicarágua e Equador.

Agora o novo governo do Brasil convida para os exercícios do AmazonLog tanto o CDS como a Junta Interamericana de Defesa, que pertence à OEA. Desse modo, legitimam-se os espaços em que o Pentágono participa e diluem-se os espaços próprios da região sul-americana. Um jogo nada sutil em momentos críticos, nos quais a região precisa estabelecer distância de Washington e afirmar sua identidade.


*Raul Zibechi é jornalista e cientista político uruguaio.
Traduzido por Inês Castilho, do Outras Palavras.

Raul Zibechi é jornalista e cientista político uruguaio.
Traduzido por Inês Castilho, do Outras Palavras.

Raul Zibechi é jornalista e cientista político uruguaio.
Traduzido por Inês Castilho, do Outras Palavras.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Cade considera "complexa" aquisição da Vale Fertilizantes pela norte americana Mosaic

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) declarou que a aquisição da unidade fertilizantes da mineradora Vale pela norte-americana The Mosaic Company "complexa" exigirá a realização de diligências. Essas diligências são necessárias, segundo o Cade para “melhor analisar a dinâmica concorrencial do mercado e as condições de rivalidade nos mercados afetados pela operação”. A decisão está publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta quinta-feira, 22.

Em dezembro de 2016, a Vale anunciou um acordo para a venda da Vale Fertilizantes para a Mosaic, por um valor total de US$ 2,5 bilhões. Esse negócio inclui todos os ativos de fosfatados localizados no Brasil, exceto os baseados em Cubatão. Também inclui a participação da Vale em Bayóvar, no Peru; os ativos de potássio localizados no Brasil, incluindo o projeto de Carnalita; e o projeto de potássio no Canadá (Kronau). Depois da conclusão da venda a Mosaic se transformará em líder de produção e distribuição de fertilizantes no Brasil, um dos mercados agrícolas mais promissores do mundo.

The Mosaic Company

A Mosaic Company é o principal produtor e comerciante mundial de fosfatos concentrados e potássio.

De acordo com seu site Mosaic a rocha fosfática é minerada na Flórida Central, e o potássio é estraído de quatro minas na América do Norte. Os produtos são processados em nutrientes de culturas e, em seguida, são enviados por via ferroviária, barcaça e embarcação oceânica para os clientes nos principais centros agrícolas do mundo.

Histórico de impactos ambientais

Em 2015, Mosaic concordou em pagar quase 2 bilhões de dólares  para liquidar um processo federal sobre resíduos perigosos e para limpar operações em seis locais na Flórida e em dois na Louisiana.

Foto aérea do recente sumidouro na Flórida
embaixo de uma lagoa de águas residuais.
(Crédito: Fotografia de Jim Damaske / AP)
Em agosto de 2016,  foram drenandos aproximadamente 215 milhões de galões de água radioativa e contaminada no aqüífero da Flórida, depois que um sumidouro se abriu sob uma lagoa de retenção, da Mosaic, em Mulberry, na Florida.


O site da Forbes, na matéria sobre esse impacto ambiental de 2016, relata que “...Incrivelmente, esta é a 3ª maior desastre ambiental de operações de mosaico e segundo devido a buracos. Em 1994, um sumidouro formado sob uma das lagoas de águas residuais da Mosaic, despejando água tóxica no chão. O outro grande desastre ocorreu em 2004, quando o furacão Frances fez com que 65 milhões de galões de águas residuais fluíssem para a água perto de Tampa Bay. A empresa recentemente liquidou um processo federal da EPA e concordou em pagar US $ 2 bilhões em danos, custos de limpeza e atualizações para infra-estrutura.