quinta-feira, 23 de maio de 2019

Presidente da Fundação Renova é denunciado no MPF por comércio ilegal de madeira na Amazônia

Antes de comandar a Renova, Roberto Waack
fez carreira em organizações ligadas à sustentabilidade
 (Foto: Will Shutter / Câmara dos Deputados / Divulgação)
Por Daniel Camargos da página do Repórter Brasil
Roberto Waack, diretor-presidente da Fundação Renova, criada em 2016 para reparar os danos ambientais e sociais provocados pelo rompimento da barragem de Mariana (MG), é um dos denunciados pelo Ministério Público Federal do Amazonas por participação em um esquema fraudulento de comércio ilegal de madeira na Amazônia. 

Além de comandar a Fundação Renova, Waack foi um dos fundadores da empresa Amata – acusada após ser flagrada pela Operação Arquimedes, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, falsificando documentos para burlar a fiscalização e exportar madeira extraída de área irregular. Waack foi sócio da Amata até setembro de 2013, quando o esquema ilegal já ocorria, segundo denúncia do procurador Leonardo de Faria Galiano. Waack seguiu no conselho administrativo até junho de 2016.

A Amata foi um dos alvos da Operação Arquimedes, que fez a maior apreensão de madeira ilegal na história da Amazônia quando, na primeira fase da operação, em 2017, fiscais do Ibama apreenderam 458 contêineres pertencentes a 63 empresas. Se as toras apreendidas fossem alinhadas, cobririam a distância de 1,5 mil quilômetros, equivalente ao percurso entre Goiânia e Florianópolis.

Desse total, 140 contêineres estavam destinados à exportação para Europa, Ásia e América do Norte. Parte da madeira, o equivalente a cinco contêineres, seria exportada pela Amata e vendida como se houvesse sido retirada de áreas de manejo florestal sustentável. Era, porém, uma fraude, segundo o Ministério Público, pois a Amata falsificava documentos sobre a origem das toras, o que foi possível constatar após a apreensão de documentos na segunda fase da operação, realizada em abril deste ano. 

A Amata tinha autorização do Serviço Florestal Brasileiro para comercializar madeira extraída da Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, mas extrapolou a área em 3 mil hectares, segundo a denúncia do Ministério Público.   

ação civil públicatramita na 7ª Vara Federal do Amazonas e aguarda decisão sobre liminar que pede à Amata o ressarcimento dos danos materiais ao meio ambiente, estimados em R$ 47,3 milhões. Além disso, pede o pagamento de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 10 milhões. Para o procurador Galiano, Waack e os outros quatro denunciados ligados à Amata são responsáveis solidários pelo dano e devem pagar caso a empresa não pague. 

“Todos, pelas posições ocupadas no quadro social empresarial, estariam no comando da Amata durante as fraudes, ditando seus rumos”, afirma o procurador na ação. O MPF, segundo o procurador, aguarda o término das investigações da Polícia Federal para avaliar se ajuizará ações cíveis, criminais e administrativas.

O advogado Lucas Moraes, um dos responsáveis pela defesa de Roberto Waack, diz em nota que a ação não especifica quais foram os atos praticados por ele e nem justifica a identificação dele como um dos administradores da Amata. Destaca ainda que Waack deixou a presidência da entidade em agosto de 2013 e que renunciou ao cargo de conselheiro em junho de 2016, antes do início da investigação. “Há plena convicção de que todas as suas atividades foram regulares e serão assim julgadas”, afirma o advogado, em nota enviada à Repórter Brasil

Em nota, a Amata afirma que é um “equívoco” a empresa estar entrar as companhias investigadas. “Seguimos na certeza de que esse equívoco será esclarecido ao longo da apuração dos fatos”. A nota diz ainda que a empresa: “Segue os mais rigorosos padrões de produção e governança certificados por organizações internacionais independentes. Nascemos para demonstrar que é possível conciliar desenvolvimento econômico e manter a floresta em pé”. Leia aqui a nota na íntegra.

Esquentando a madeira

A essência da fraude estava em burlar o Documento de Origem Florestal (DOF). O documento deve acompanhar a madeira desde origem até o destino. Porém, o Ibama analisou as guias do documento e constatou que a Amata emitiu DOF’s de madeira nativa proveniente de duas áreas distintas e que as regiões indicadas como exploradas eram pastagens, ou seja, sem árvores para serem cortadas. 

A Operação Arquimedes foi iniciada após alerta da Receita Federal e do Ibama, em 2017, que verificou aumento incomum do trânsito de madeira pelo Porto Chibatão, em Manaus. A segunda fase foi realizada em abril deste ano e cumpriu 29 mandados de prisão e 109 mandados de busca e apreensão. 
Além das empresas que burlavam os documentos para “esquentar” a madeira, a operação apura se houve corrupção nos órgãos públicos responsáveis pelo controle e fiscalização.

A ação do MPF também pede à Justiça autorização para compartilhar as informações com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, com o objetivo de evitar a compra de madeira de áreas protegidas. 

A Fundação Renova foi criada em março de 2016 após acordo entre a Samarco, responsável pela barragem que rompeu, suas proprietárias (Vale e BHP Billiton) e os ministérios públicos e defensorias de âmbito federal e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. A lama de rejeitos da barragem matou 19 pessoas, destruiu comunidades, devastou o meio ambiente ao longo de 670 quilômetros na bacia do rio Doce e atingiu o Oceano Atlântico. Procurada, a Renova não quis se manifestar. 

Antes de comandar a Fundação Renova, o biólogo Waack fez carreira em organizações ligadas à sustentabilidade chegando a presidir o conselho diretor da WWF Brasil e integrar conselhos de entidades como Global Reporting Initiative (GRI), Instituto Ethos, Fundo Brasileiro para Biodiversidade e da Forest Stewardship Council (FSC). Já a Amata foi fundada por Waack e mais dois sócios, em 2005, sendo a primeira empresa a conseguir uma concessão florestal pública no Brasil, modalidade em que o governo concede a empresas e comunidades o direito de manejar florestas públicas para extrair madeira e, em contrapartida, os concessionários pagam ao governo o valor acordado na licitação das áreas.
FONTE: REPÓRTER BR

domingo, 19 de maio de 2019

Papa Francisco entrega sua cruz peitoral à comunidade de Brumadinho

O Papa Francisco entregou sua Cruz peitoral, para a comunidade de Brumadinho, através de seu enviado o Monsenhor Bruno Marie Duffè, que esteve em visita àquele município, atingido pelo crime da Vale. A entrega ocorreu no dia18 de maio, durante atividades do Sábado da Compaixão e da Solidariedade:  Visita e Celebração da Esperança em Brumadinho (Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira e Igreja Matriz de Brumadinho).

Essa cruz irá passar por cada família das comunidades de Brumadinho e após ficará esposta no memorial que será construído pela Arquidiocese.

O monsenhor Duffé, Secretário do Vaticano para Desenvolvimento Integral esteve em Brumadinho, reafirmou o compromisso do Vaticano em permanecer no apoio às comunidades que defendem seus territórios frente à mineração, ao transmitir  a mensagem de solidariedade do Papa Francisco aos familiares das vítimas do rompimento da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho. Fez, também, severas críticas ao liberalismo que tem o dinheiro como prioridade, deixando as pessoas e a natureza em segundo plano, o que resulta em ocorrências como as dos crime em Mariana e Brumadinho. Afirmou ainda que as populações não podem viver em um clima de insegurança e de irresponsabilidade, como nos casos de eminência de rompimento de barragens, na região metropolitana de Belo Horizonte. Citou explicitamente, o já anunciado colapso de talude da cava da mina de Congo Soco,  município de Barão de Cocais, que poderá resultar no rompimento da barragem Sul Superior daquela mina.

Durante a visita à comunidade de Córrego do Feijão, Monsenhor Duffé ouviu testemunhos de fiéis que perderam familiares e seus meios de vida em consequência do rompimento da barragem. Emocionado,  partilhou: “consigo imaginar a dor do povo de Brumadinho e trago, a pedido do Papa, uma mensagem de esperança. Crendo que, no Córrego do Feijão, está o coração da Igreja e da humanidade”. O Monsenhor convidou o povo de Brumadinho a se tornar “profeta que anuncia um tempo novo, que consola e lutam por um mundo mais justo, combatendo a ganância”.

Vale tentou impedir que representante do Papa chegue até a lama.

Na comunidade do Córrego do Feijão Vale bloqueou a procissão, com o representante do Papa, impedindo a chegada junto à lama. Um momento forte que revelou um Estado capturado pela empresa, uma organização criminosa, que controla a cena do crime e o território. Triste realidade, onde a lama que desceu sem pedir licença, matando pessoas, destruindo meios de vida e a natureza.

Na comunidade do Parque da Cachoeira, a Vale tentou novamente bloquear a procissão e impedir o representante do Papa, chegar na lama. Contudo, a comunidade, o representante do Papa, padres, religiosos e religiosas, no, em não pararam diante da barreira, e chegaram até a lama. A Vale, com seus funcionários, não conseguiu impedir que se abençoasse a lama, Campo Santo de tantas vidas. Momento importante que afirmou que o território é do povo que nele habita e da natureza que é vida. Monsenhor Duffé abençoou essa grande sepultura de vidas humanas, fruto da ganância das corporações minerarias. O povo rezou pela vida, por suas lutas e dignidade. Ficou demostrado que nada segura o povo, o amor de Deus e a vontade de mudar a realidade.

Duffé afirmou: “É muito importante começar pensando na proteção da vida, porque não é possível pensar no futuro, não é possível desenvolver um novo paradigma, um novo modelo, disse o Papa Francisco. E não é possível que a lei seja a lei do dinheiro e só do dinheiro”.
Presente durante a visita o Dom Sebastião, bispo de Caxias no Maranhão, presidente do GT de MIneração da CNBB.

Representante do Papa participou de Seminário na PUC

Monsenhor Duffé esteve na PUC Minas, em Belo Horizonte no dia 17 de maio, quando participou do Seminário: A Mineração e o Cuidado com a Casa Comum.  O evento debateu a missão da Igreja Católica na defesa da Casa Comum e seu necessário posicionamento frente ao modelo econômico extrativista.

Dom Walmor, recém eleito presidente da CNBB, viajou de Honduras, onde participava da Assembleia Geral do Conselho Episcopal Latino Americano para presidir o evento. O Arcebispo destacou a relevância da iniciativa e sua sintonia com Carta Encíclica do papa Francisco, Laudato Si, que trata do desafio de cuidar da casa comum: “Esse Seminário tem altíssima relevância, pela importância do tema, pelos desafios que nós enfrentamos com o meio ambiente, a exigência do cuidado com a Casa Comum. Tem grande importância porque entrelaça corações e mentes na mesma direção – o coração da Arquidiocese de Belo Horizonte e o coração do Papa Francisco- por meio da presença do monsenhor Bruno-Marie Duffé, do Pontifício Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral -, com os muitos grupos religiosos e segmentos  da sociedade. Somos todos nós, juntos, nos dando as mãos  e nossos corações, para fazermos um novo caminho, que é tão necessário, se quisermos um desenvolvimento integral , se desejarmos um desenvolvimento sustentável”.
O Arcebispo, anunciou ainda que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pretende criar uma Comissão Episcopal para tratar de assuntos referentes ao meio ambiente e desenvolvimento, em especial a mineração, com foco no diálogo da Igreja com setores da sociedade, com o Poder Legislativo e outras instâncias.   A notícia foi recebida em grande otimismo por todos os presentes, e em particular,  pelo atual presidente do Grupo Trabalho de Mineração da CNBB, dom Sebastião Lima Duarte, que destacou a sensibilidade de dom Walmor no tratamento dessa questão.

O bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte e reitor da PUC Minas, dom Joaquim Mol , falou sobre a Missão da Igreja -novos caminhos frente à mineração, em Minas Gerais e no Brasil. O Bispo ressaltou que evangelizar é o anúncio e o testemunho da mensagem central de Jesus, o Reino de Deus, que Ele anunciou, que é dom e precisa ser sinalizado pelas nossas práticas de vida: “Evangelizar é anunciar o Reino que deve penetrar todas as realidades humanas, sociais, ambientais, políticas e culturais com os valores que Jesus anunciou. E Evangelizar em um mundo de mineração, significa evangelizar em um mundo de extrema agressão humana e ambiental”. O bispo lembrou que, assim como em Minas Gerais, essa realidade é secular e comum a muitos outros estados do País. Dom Mol cobrou, ainda,  a responsabilização dos gestores que permitem a ocorrência de tragédias como a de Mariana e a de Brumadinho.


Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, que integra o  Grupo de Trabalho da CNBB sobre  Mineração  fez uma exposição a respeito do tema “O cenário da mineração em Minas Gerais e no Brasil: Rede Igrejas e Mineração”. A articuladora social da Arquidiocese de Belo Horizonte, e moradora de Brumadinho , Marina Oliveira, apresentou  sua vivência  nas múltiplas realidades sociais, em Brumadinho. O Promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais André Sperling falou sobre as estratégias utilizadas pelas mineradoras para dividir as Comunidades. As Políticas Públicas em defesa dos territórios e das comunidades foi o tema da exposição da defensora pública Caroline Morishita , da Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais.
Um momento de comoção e fé marcou o Seminário, quando um grupo de índios da etnia Pataxó, fez uma oração em sua língua de origem – da família maxakali, tronco macro-jê. Hoje, eles estão com a vida na aldeia comprometida,  em razão da poluição das águas do rio Paraopeba,  atingidas pelos dos rejeitos de minério da barragem da Vale .


A visita terminou com a celebração da eucaristia e a mémoria dos mortos.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Mensagem da CNBB ao povo brasileiro: 57ª Assembleia Geral

MENSAGEM DA CNBB AO POVO BRASILEIRO
“Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5)
Suplicando a assistência do Espírito Santo, na comunhão e na unidade, nós, Bispos do Brasil, reunidos na 57ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, no Santuário Nacional, em Aparecida-SP, de 1 a 10 de maio de 2019, dirigimos nossa mensagem ao povo brasileiro, tomados pela ternura de pastores que amam e cuidam do rebanho. Desejamos que as alegrias pascais, vividas tão intensamente neste tempo, renovem, no coração e na mente de todos, a fé em Jesus Cristo Crucificado-Ressuscitado, razão de nossa esperança e certeza de nossa vitória sobre tudo que nos aflige.
“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20)
Enche-nos de esperançosa alegria constatar o esforço de nossas comunidades e inúmeras pessoas de boa vontade em testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo, comprometidas com a vivência do amor, a prática da justiça e o serviço aos que mais necessitam. São incontáveis os sinais do Reino de Deus entre nós a partir da ação solidária e fraterna, muitas vezes anônima, dos que consomem sua vida na transformação da sociedade e na construção da civilização do amor. Por essa razão, a esperança e a alegria, frutos da ressurreição de Cristo, hão de ser a identidade de todos os cristãos. Afinal, quando deixamos que o Senhor nos tire de nossa comodidade e mude a nossa vida, podemos cumprir o que ordena São Paulo: ‘Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!’ (Fl 4,4) (cf. Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, 122).
“No mundo tereis aflições, mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33).
Longe de nos alienar, a alegria e a esperança pascais abrem nossos olhos para enxergarmos, com o olhar do Ressuscitado, os sinais de morte que ameaçam os filhos e filhas de Deus, especialmente, os mais vulneráveis. Estas situações são um apelo a que não nos conformemos com este mundo, mas o transformemos (cf. Rm 12,2), empenhando nossas forças na superação do que se opõe ao Reino de justiça e de paz inaugurado por Jesus.
A crise ética, política, econômica e cultural tem se aprofundado cada vez mais no Brasil. A opção por um liberalismo exacerbado e perverso, que desidrata o Estado quase ao ponto de eliminá-lo, ignorando as políticas sociais de vital importância para a maioria da população, favorece o aumento das desigualdades e a concentração de renda em níveis intoleráveis, tornando os ricos mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres, conforme já lembrava o Papa João Paulo II na Conferência de Puebla (1979). Nesse contexto e inspirados na Campanha da Fraternidade deste ano, urge reafirmar a necessidade de políticas públicas que assegurem a participação, a cidadania e o bem comum. Cuidado especial merece a educação, gravemente ameaçada com corte de verbas, retirada de disciplinas necessárias à formação humana e desconsideração da importância das pesquisas.
A corrupção, classificada pelo Papa Francisco como um “câncer social” profundamente radicada em inúmeras estruturas do país, é uma das causas da pobreza e da exclusão social na medida em que desvia recursos que poderiam se destinar ao investimento na educação, na saúde e na assistência social, caminho de superação da atual crise. A eficácia do combate à corrupção passa também por uma mudança de mentalidade que leve a pessoa compreender que seu valor não está no ter, mas no ser e que sua vida se mede não por sua capacidade de consumir, mas de partilhar.
O crescente desemprego, outra chaga social, ao ultrapassar o patamar de 13 milhões de brasileiros, somados aos 28 milhões de subutilizados, segundo dados do IBGE, mostra que as medidas tomadas para combatê-lo, até agora, foram ineficazes. Além disto, é necessário preservar os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. O desenvolvimento que se busca tem, no trabalho digno, um caminho seguro desde que se respeite a primazia da pessoa sobre o mercado e do trabalho sobre o capital, como ensina a Doutrina Social da Igreja. Assim, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 203).
A violência também atinge níveis insuportáveis. Aos nossos ouvidos de pastores chega o choro das mães que enterram seus filhos jovens assassinados, das famílias que perdem seus entes queridos e de todas as vítimas de um sistema que instrumentaliza e desumaniza as pessoas, dominadas pela indiferença. O feminicídio, o submundo das prisões e a criminalização daqueles que defendem os direitos humanos reclamam vigorosas ações em favor da vida e da dignidade humana. O verdadeiro discípulo de Jesus terá sempre no amor, no diálogo e na reconciliação a via eficaz para responder à violência e à falta de segurança, inspirado no mandamento “Não matarás” e não em projetos que flexibilizem a posse e o porte de armas.
Precisamos ser uma nação de irmãos e irmãs, eliminando qualquer tipo de discriminação, preconceito e ódio. Somos responsáveis uns pelos outros. Assim, quando os povos originários não são respeitados em seus direitos e costumes, neles o Cristo é desrespeitado: “Todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25,45). É grave a ameaça aos direitos dos povos indígenas assegurados na Constituição de 1988. O poder político e econômico não pode se sobrepor a esses direitos sob o risco de violação da Constituição.
A mercantilização das terras indígenas e quilombolas nasce do desejo desenfreado de quem ambiciona acumular riquezas. Nesse contexto, tanto as atividades mineradoras e madeireiras quanto o agronegócio precisam rever seus conceitos de progresso, crescimento e desenvolvimento. Uma economia que coloca o lucro acima da pessoa, que produz exclusão e desigualdade social, é uma economia que mata, como nos alerta o Papa Francisco (EG 53). São emblemático exemplo disso os crimes ocorridos em Mariana e Brumadinho com o rompimento das barragens de rejeitos de minérios.
As necessárias reformas política, tributária e da previdência só se legitimam se feitas em vista do bem comum e com participação popular de forma a atender, em primeiro lugar, os pobres, “juízes da vida democrática de uma nação” (Exigências éticas da ordem democrática, CNBB – n. 72). Nenhuma reforma será eticamente aceitável se lesar os mais pobres. Daí a importância de se constituírem em autênticas sentinelas do povo as Igrejas, os movimentos sociais, as organizações populares e demais instituições e grupos comprometidos com a defesa dos direitos humanos e do Estado Democrático de Direito. Instâncias que possibilitam o exercício da democracia participativa como os Conselhos paritários devem ser incentivadas e valorizadas e não extintas como estabelece o decreto 9.759/2019.
“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33)
O Brasil que queremos emergirá do comprometimento de todos os brasileiros com os valores que têm o Evangelho como fonte da vida, da justiça e do amor. Queremos uma sociedade cujo desenvolvimento promova a democracia, preze conjuntamente a liberdade e a igualdade, respeite as diferenças, incentive a participação dos jovens, valorize os idosos, ame e sirva os pobres e excluídos, acolha os migrantes, promova e defenda a vida em todas as suas formas e expressões, incluído o respeito à natureza, na perspectiva de uma ecologia humana e integral.
As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que aprovamos nesta 57ª Assembleia da CNBB, e o Sínodo para a Pan-Amazônia, a se realizar em Roma, em outubro deste ano, ajudem no compromisso que todos temos com a construção de uma sociedade desenvolvida, justa e fraterna. Lembramos que “o desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade – caritas in veritate -, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas nos é dado” (Bento XVI, Caritas in veritate, 79). O caminho é longo e exigente, contudo, não nos esqueçamos de que “Deus nos dá a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior” (Bento XVI, Caritas in veritate, 78).
A Virgem Maria, mãe do Ressuscitado, nos alcance a perseverança no caminho do amor, da justiça e da paz.
Aparecida-SP,  7 de maio de 2019.
Fonte: CNBB

terça-feira, 7 de maio de 2019

Mensagem do Presidente Eleito da CNBB

Mensagem do Presidente Eleito da CNBB Dom Walmor – Arcebispo de Belo Horizonte-MG

“Deus tudo conduz…”

Trata-se de grande responsabilidade, pois muitos são os desafios. Precisamos trabalhar unidos para que a Igreja seja, cada vez mais, missionária, ´em saída´, conforme nos pede o Papa Francisco, inspirado no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para isso, nosso olhar deve permanecer voltado para os mais pobres, fortalecendo nossas ações no exercício da caridade, do amor, na busca da justiça, imprescindível para a construção da paz, tão necessária na atualidade. Cultivemos sempre um coração sensível às dores dos excluídos, das pessoas esquecidas, conscientes de que Jesus nasceu e cresceu entre os mais sofridos.
Peço a Deus que me abençoe na presidência da CNBB, inspirando-me na construção de um trabalho exemplar, à semelhança do que fizeram os irmãos bispos que me precederam, em profunda comunhão com o nosso amado Papa Francisco. Estarei sereno e buscando fazer o melhor, guiado pela luz da fé, nosso tesouro imperecível, entusiasmado e alegre em poder servir, sempre mais.
Compreendo que exercer a presidência é ser o primeiro a colocar-se a serviço, com serenidade, e com o apoio de todos os irmãos bispos, sempre confiante em Deus, pois conquistamos a paz ao fazer a vontade Dele.
Conto com a ajuda e as orações de todos para exercer essa missão.
Suplico as bênçãos de Deus para todo o Brasil.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Presidente Eleito da CNBB

domingo, 5 de maio de 2019

Pope Francis receives photos of all people killed by Vale Mining Company crime in Brumadinho, Brazil


Pope Francis received on May 3 from the hands of Dari Pereira survivor of the crime committed by the mining company Vale, in Brumadinho and Brother Rodrigo Péret of the Churches and Mining Network and Mining Working Group of the CNBB, photos with the names of the 270 people killed, in this crime, in Brazil. The Pope, deeply moved, blessed the photos and expressed his solidarity with the families who lost their loved ones and all those affected. Then the Pope took the photos, in a gesture of affection, respect, and solidarity.

On May 18, a representative of the Pope, Monsignor Duffé, will be visiting Brumadinho and getting to know the reality and the struggle of those affected.

During the audience, the Pope stated that: “The precarious condition of our common home has been the result largely of a fallacious economic model that has been followed for too long. It is a voracious model, profit-oriented, shortsighted, and based on the misconception of unlimited economic growth. Although we frequently see its disastrous impacts on the natural world and in the lives of people, we are still resistant to change. “Economic powers continue to justify the current global system where priority tends to be given to […] the pursuit of financial gain, which fail to take the context into account, let alone the effects on human dignity and the natural environment” (Laudato Si 56).

Continuing to quote his Encyclical Laudato Si (LS), the Pope said in his speech: “We are aware that “by itself the market cannot guarantee integral human development and social inclusion” (LS, 109) and that “environmental protection cannot be assured solely on the basis of financial calculations of costs and benefits” (LS, 190). We need a paradigm shift in all our economic activities, including mining. Pope Francis drew attention to the Synod of the Amazon, saying: “it is essential to show special care for indigenous communities and their cultural traditions. They are not merely one minority among others, but should be the principal dialogue partners, especially when large projects affecting their land are proposed” (LS, 146). He urged everyone to respect the fundamental human rights and voice of the people of these beautiful but fragile communities. And in communion with the bishops of Latin America he denounced that extractivism is “an unbridled tendency of the economic system to convert the goods of nature into capital. The action of ‘extracting’ the greatest amount of materials in the shortest possible time, converting them into raw materials and inputs that industry will use, that will then be transformed into products and services that others will market, society will consume and then nature itself will receive in the form of polluting waste - that is the consumerist loop that is being generated at ever greater speed and ever greater risk.” The Pope ended his speech asking us not to lose sight of “what is at stake is our own dignity. Leaving an inhabitable planet to future generations is, first and foremost, up to us. The issue is one which dramatically affects us, for it has to do with the ultimate meaning of our earthly sojourn.” (LS 160)

This hearing took place in the context of the meeting of the Dicastery for the Promotion of Integral Human Development with communities affected by mining and mining in Rome. 

Read in full the pope's speech:



Dear brothers and sisters,

I extend my warm welcome to all of you and I thank Cardinal Turkson for his introduction. I thank you all for having come to the Vatican to engage in this dialogue on the theme of “Mining for the Common Good”.

In my Encyclical Letter Laudato Si’, concerned about the worrying of the Planet, I underlined how important it is “to enter into dialogue with all people about our common home” (n. 3). We need a dialogue that responds effectively to the “cry of the Earth and the cry of the poor” (ibid., 49). I am particularly appreciative that in your meeting, representatives of communities affected by mining activities and leaders of mining companies have come together around the same table. It is laudable; and it is an essential step on the way forward. We should encourage this dialogue to continue and become the norm, rather than the exception. I congratulate you for embarking on the path of mutual dialogue in the spirit of honesty, courage and fraternity.

The precarious condition of our common home has been the result largely of a fallacious economic model that has been followed for too long. It is a voracious model, profit-oriented, shortsighted, and based on the misconception of unlimited economic growth. Although we frequently see its disastrous impacts on the natural world and in the lives of people, we are still resistant to change. “Economic powers continue to justify the current global system where priority tends to be given to […] the pursuit of financial gain, which fail to take the context into account, let alone the effects on human dignity and the natural environment” (ibid., 56).

We are aware that “by itself the market cannot guarantee integral human development and social inclusion” (ibid., 109) and that “environmental protection cannot be assured solely on the basis of financial calculations of costs and benefits” (ibid., 190). We need a paradigm shift in all our economic activities, including mining.

In this context, the title for your meeting, “Mining for the Common Good” is very appropriate. What does it concretely imply? Please allow me to articulate a few reflections in this regard which could assist you in your dialogue.

First of all, mining, like all economic activities, should be at the service of the entire human community. As Pope Paul VI wrote: “God intended the Earth and everything in it for the use of all human beings and peoples. … created goods should flow fairly to all”.[1] It is an essential pillar of the Church’s social teaching. In this perspective, the involvement of local communities is important in every phase of mining projects. “A consensus should always be reached between the different stakeholders, who can offer a varie­ty of approaches, solutions and alternatives. The local population should have a special place at the table; they are concerned about their own fu­ture and that of their children, and can consider goals transcending immediate economic interest.” (Laudato Si’, 183).

In the light of the upcoming Synod on the Amazon, I would like to stress that “it is essential to show special care for indigenous communities and their cultural traditions. They are not merely one minority among others, but should be the principal dialogue partners, especially when large projects affecting their land are proposed” (ibid., 146). These vulnerable communities have a lot to teach us. “For them, land is not a commodity but rather a gift from God and from their ancestors who rest there, a sacred space with which they need to interact if they are to maintain their identity and values … Nevertheless, in various parts of the world, pressure is being put on them to abandon their homelands to make room for […] mining projects which are undertaken without regard for the degradation of nature and culture.” (ibid.). I urge everyone to respect the fundamental human rights and voice of the persons in these beautiful yet fragile communities.

Secondly, mining should be at the service of the human person and not vice versa. As Pope Benedict wrote: “In development programs, the principle of the centrality of the human person, as the subject primarily responsible for development, must be preserved.”[2] Each and every person is precious before God’s eyes and his or her fundamental human rights are sacred and inalienable, irrespective of one’s social or economic status. Attention for the safety and wellbeing of the people involved in mining operations as well as the respect for fundamental human rights of the members of local communities and those who champion their causes are indeed non-negotiable principles. Mere corporate social responsibility is not sufficient. We need to ensure that mining activities lead to the integral human development of each and every person and of the entire community.

Thirdly, we need to encourage the implementation of a circular economy, all the more in the sphere of mining activities. I find the observation that my brother bishops of Latin America made in their recent pastoral letter regarding extractive activities very pertinent. They wrote: “By ‘extractivism’ we understand an unbridled tendency of the economic system to convert the goods of nature into capital. The action of ‘extracting’ the greatest amount of materials in the shortest possible time, converting them into raw materials and inputs that industry will use, that will then be transformed into products and services that others will market, society will consume and then nature itself will receive in the form of polluting waste - that is the consumerist loop that is being generated at ever greater speed and ever greater risk.”[3]

We need to denounce and move away from this throwaway culture. “Our industrial system, at the end of its cycle of production and consumption, has not developed the capacity to absorb and reuse waste and by-products. We have not yet managed to adopt a circular model of production capable of preserving resources for present and future generations, while limiting as much as possible the use of non-renewable resources, moderating their consumption, maximizing their efficient use, reusing and recycling them.” (Laudato Si’, 22) The promotion of a circular economy and the “reduce, reuse, recycle” approach are also very much in consonance with the Sustainable Consumption and Production Patterns promoted by the 12th Sustainable Development Goal of the United Nations. Moreover, religious traditions have always presented temperance as a key component of responsible and ethical life style. Moderation is also vital to save our common home. “Blessed are the meek, for they shall inherit the earth” (Mt 5:5).

My dear brothers and sisters, our efforts and struggles to safeguard our common home are truly an ecumenical journey, challenging us to think and act as members of one common home (oecumene). I am particularly pleased that your meeting has brought together representatives of Churches and faith communities from around the world. I also thank the leaders of the mining industry for having joined this conversation. We need to act together to heal and rebuild our common home. All of us are called to “cooperate as instruments of God for the care of creation, each according to his or her own culture, experience, involvements and talents” (LS 14).

It is my sincere hope that your meeting be truly a moment of discernment that may lead to concrete action. I pray, as my brother bishops from Latin America wrote, that you may “analyze, interpret and discern what are appropriate or inappropriate extractive activities in the territories; then, propose, plan, and act to transform our own way of life, to influence the mining and energy policies of states and governments, and in the policies and strategies of companies dedicated to extractivism, all for the purpose of achieving the common good and a genuine human development that is integral and sustainable.”[4]

Your meeting is so important as you are dealing with questions that concern the future of our common home and the future of our children and the future generations. “We need to see that what is at stake is our own dignity. Leaving an inhabitable planet to future generations is, first and foremost, up to us. The issue is one which dramatically affects us, for it has to do with the ultimate meaning of our earthly sojourn.” (LS 160) May you never lose sight of this larger picture!

With great affection, I bless you, your families and your communities. Please pray for me too. Thank you.
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[1] Encyclical Letter Populorum Progressio, n. 22.

[2] Encyclical Letter Caritas in Veritate, n. 47.

[3] CELAM, Missionary Disciples: Custodians of Our Common Home, 11.

[4] CELAM, Missionary Disciples: Custodians of Our Common Home, 12.

[00765-EN.02] [Original text: Italian]