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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Obrigado Lourival ... o adeus da CPT Triânglo Mineiro

 


No dia 11 de junho, faleceu Lourival Soares, histórico agente da CPT no Triângulo Mineiro, das CEBs, lutador do povo e referência na luta pela Reforma Agrária em Minas Gerais. Lourival era assentado de Reforma Agrária no PA Rio das Pedras, no município de Uberlândia, MG. Lorival foi protagonista da primeira ocupação de terras para fins de Reforma Agrária em Minas Gerais, quando em 1983, um grupo de famílias ocuparam uma área no município de Ituiutaba, naquele mesmo estado. Esta ocupação ficou conhecida com o nome Roça Comunitária, fruto da convivência nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), acompanhadas pelos Padres Oblatos de Maria, junto a CPT. 

Lorival dedicou sua vida à luta pela terra, pelos direitos dos trabalhadores e pela organização popular. Sempre ligado às CEBs e a uma vivência concreta da fé. Militante do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), deixou um legado de compromisso com a justiça social, a resistência e a construção de um mundo mais digno e solidário. Sua memória permanece viva nas comunidades e nas lutas que ajudou a fortalecer.

A seguir um tributo um homenagem de gratidão ao Lourival.

Obrigado Lourival,

Por sua espiritualidade vivida no dia a dia da história. Esta foi a vida do nosso irmão de fé e de lutas, Lourival. Quantas coisas aprendemos com seu testemunho. Mais do que tudo, Lourival, nos ensinou que a cruz e a ressurreição de Jesus são experimentadas palpavelmente no cotidiano da vida. A terra dominada, nas mãos de uns poucos, os latifúndios ... o povo sem o direito a terra, o acúmulo dos proprietários e a miséria que perambula pelos campos. Lourival nos mostrou que tudo isso são cruzes construídas através da história de modelos econômicos e políticos impostos, pelo chamado de desenvolvimento capitalista. Aprendemos com o Lourival, que ocupar a terra, resistir no chão, viver em comunidade como irmãos, irmãs e a natureza, são já aqui nesta vida sinais da ressurreição.

Lourival, te conheci pela primeira vez na Roça Comunitária em Ituiutaba, nos idos do início dos anos 1980. Que força, que testemunho, junto com companheiros e companheiras, vivendo o essencial do cristão, ter tudo em comum, dividir os bens com alegria.

Dai para frente te conheci também, nas beiras de tantas cercas rompidas pela força dos sem-terra; nos caminhos das Romarias da Terra cantando para os romeiros na carroceria do caminhão; nas vivencias dos círculos bíblicos das CEBs; nas longas e alegres rodas de prosas e conversas em acampamentos e assentamentos; na construção contínua do partido dos trabalhadores, da luta sindical e dos movimentos sociais. 

Lourival, da Pastoral da Terra, sempre vivendo tudo com coragem, otimismo lúcido e alegria fraterna, sem perder a ternura e a vivência amorosa com a própria família.

Lourival, agora você está no aconchego do colo de Deus, daquele que tudo criou. Lourival, além de tudo esse seu legado imenso, de você fica sua visão e a vivência de que o mundo é uma grande Roça de Deus. Você nos ensinou que o mundo é uma Grande Roça Comunitária, terra de Deus, terra de todos, de todas e de tudo da natureza. Mundo, Roça Comunitária onde se cultiva e cuida, com amor e carinho, justiça e paz. 

Obrigado, Lourival, irmão de fé e de luta, você está mais do que nunca vivo. Lourival, nosso irmão cristão.

Nossa eterna gratidão, 

Frei Rodrigo Péret


quarta-feira, 27 de maio de 2026

IA, Poder e Dignidade Humana: a Encíclica de Leão XIV

 

A Encíclica Magnifica Humanitas, lançada pelo Papa Leão XIV neste maio de 2026, apresenta uma profunda reflexão sobre os desafios éticos, sociais, tecnológicos e espirituais do mundo contemporâneo. Em continuidade com a tradição da Doutrina Social da Igreja, o documento procura responder às “coisas novas” do nosso tempo, especialmente diante da revolução digital, da inteligência artificial, das guerras, da crise ambiental e das desigualdades globais.

Mais do que um texto religioso, a Encíclica se apresenta como um forte chamado ético e humanitário diante do avanço acelerado das tecnologias digitais e da concentração de poder econômico, militar e tecnológico nas mãos de poucas corporações e potências globais.

A Doutrina Social da Igreja diante das “coisas novas”

Logo no início, o Papa recorda que a Doutrina Social da Igreja não é uma teoria abstrata ou desligada da realidade, mas uma sabedoria viva que dialoga com a história, as culturas, as ciências e os sofrimentos humanos. Assim como a Igreja respondeu aos desafios da Revolução Industrial no século XIX, hoje ela se vê chamada a refletir sobre as transformações produzidas pela inteligência artificial, pela digitalização da vida e pela automação da economia.

Leão XIV afirma que os princípios cristãos devem iluminar os desafios atuais, defendendo sempre a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a justiça social e a paz.

A dignidade humana acima da lógica da eficiência

Um dos eixos centrais da Encíclica é a defesa radical da dignidade humana diante do avanço do paradigma tecnocrático. O Papa reafirma que cada pessoa possui um valor infinito porque foi criada e amada por Deus. Esse valor não depende de produtividade, inteligência, desempenho econômico, riqueza ou utilidade social.

Nesse sentido, a Encíclica critica fortemente as ideologias contemporâneas que reduzem o ser humano à lógica da eficiência, da performance e da competição permanente. O documento alerta que existe hoje o risco de transformar as pessoas em simples dados, consumidores, perfis digitais ou recursos descartáveis dentro da economia tecnológica.

O Papa insiste que nenhum sistema econômico, político ou tecnológico pode estar acima da pessoa humana. A vida humana não pode ser medida apenas por produtividade, capacidade técnica ou desempenho algorítmico.

O verdadeiro problema não é tecnológico, mas humano

A Encíclica deixa claro que a Igreja não é contrária à ciência, ao progresso ou à inteligência artificial em si. O problema central não está simplesmente na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada e colocada a serviço de estruturas de poder, lucro e dominação.

Leão XIV retoma a crítica ao chamado “paradigma tecnocrático”, já presente na Laudato Si’. Segundo o Papa, cresce a mentalidade que acredita que todos os problemas humanos podem ser resolvidos apenas por soluções técnicas, algoritmos, automação e controle digital.

No entanto, a Encíclica recorda que nenhuma máquina é capaz de substituir plenamente a consciência moral, o discernimento ético, a compaixão, o amor, o perdão ou a responsabilidade humana. Algoritmos podem processar informações, mas não conhecem a dor, a misericórdia, a solidariedade ou o sentido profundo das relações humanas.

Por isso, entregar decisões fundamentais da vida social a sistemas automatizados representa um grave risco de desumanização.

A crítica ao poder das grandes corporações tecnológicas

Um dos aspectos mais fortes do documento é a denúncia da concentração de poder nas mãos das grandes plataformas digitais. A Encíclica afirma que poucas corporações passaram a controlar fluxos globais de informação, comunicação, dados e comportamento social.

O Papa denuncia:

  • o controle da informação por grandes empresas digitais; 
  • a manipulação de consciências por meio de algoritmos; 
  • a criação de bolhas ideológicas e polarizações sociais; 
  • a transformação da intimidade humana em mercadoria; 
  • o uso econômico das emoções, preferências e fragilidades das pessoas. 

A Encíclica alerta que a aparente liberdade digital muitas vezes esconde novas formas de dependência, vigilância e controle social. O ser humano corre o risco de tornar-se objeto de monitoramento permanente e manipulação invisível.

A inteligência artificial e o risco da desumanização

Ao abordar diretamente a inteligência artificial, Magnifica Humanitas apresenta uma das críticas mais contundentes já feitas pela Doutrina Social da Igreja sobre o tema.

O Papa alerta que a IA pode aprofundar desigualdades sociais, discriminações e exclusões quando utilizada sem critérios éticos. Sistemas automatizados alimentados por dados preconceituosos podem negar acesso ao trabalho, à saúde, ao crédito e a direitos básicos.

Além disso, Leão XIV denuncia a tendência de substituir relações humanas por interações técnicas e automatizadas. O documento afirma que a sociedade digital corre o risco de enfraquecer vínculos comunitários, reduzir a empatia e transformar a convivência humana em relações mediadas exclusivamente por plataformas e algoritmos.

A Encíclica também critica a cultura do descarte digital, marcada pelo cancelamento, pela violência virtual, pela exposição pública e pela desumanização das pessoas nas redes sociais.

“Desarmar” a inteligência artificial

Uma das expressões mais fortes da Encíclica é o chamado para “desarmar” a inteligência artificial. O Papa estabelece um paralelo com o debate histórico sobre o desarmamento nuclear e afirma que a IA não pode ser colocada a serviço da guerra, da destruição e do controle absoluto da vida humana.

Leão XIV manifesta profunda preocupação com:

  • armas autônomas; 
  • drones militares inteligentes; 
  • sistemas de combate guiados por IA; 
  • vigilância digital em massa; 
  • uso militar de algoritmos; 
  • tecnologias de controle populacional. 

Segundo o Papa, permitir que máquinas decidam sobre a vida e a morte representa uma ameaça gravíssima à ética e à dignidade humana. Nenhuma tecnologia pode substituir a responsabilidade moral humana.

Por isso, a Encíclica pede regulamentações internacionais, tratados globais e limites éticos claros para impedir que a inteligência artificial seja transformada em instrumento de guerra, opressão ou dominação geopolítica.

Trabalho humano, automação e justiça social

O documento também dedica forte atenção aos impactos da automação sobre o trabalho humano. O Papa reconhece que a tecnologia pode aliviar tarefas pesadas e contribuir para o bem comum, mas critica duramente sua utilização apenas para aumentar lucros e reduzir custos.

A Encíclica reafirma que o trabalho humano possui dignidade própria e não pode ser tratado como elemento descartável da economia. A automação não pode servir para excluir trabalhadores, ampliar desigualdades ou concentrar ainda mais riqueza e poder.

Leão XIV insiste que os sistemas tecnológicos devem ser orientados para proteger a vida humana, fortalecer comunidades e promover justiça social.

Ecologia Integral e fraternidade universal

Em continuidade com o Papa Francisco, Magnifica Humanitas retoma temas centrais da Laudato Si’ e da Fratelli Tutti. O documento reafirma a proposta da Ecologia Integral, lembrando que “o grito da Terra e o grito dos pobres” permanecem inseparáveis.

A crise ecológica, tecnológica e social possui raízes comuns em um modelo baseado na concentração de riqueza, na cultura do descarte e na lógica da dominação.

Ao mesmo tempo, a Encíclica insiste na necessidade de fortalecer a fraternidade universal, a cultura do encontro e o compromisso com “terra, teto e trabalho para todos”. Em um mundo marcado por guerras, exclusões digitais e desigualdades, o Papa recorda que a humanidade precisa reconstruir vínculos de solidariedade e cooperação entre os povos.

Cinco princípios para a governança ética da tecnologia

A Encíclica propõe princípios fundamentais para orientar o desenvolvimento tecnológico e a inteligência artificial:

  1. Bem Comum – a inovação deve servir ao desenvolvimento integral de todos, e não apenas ao lucro de poucos grupos econômicos. 
  2. Destinação Universal dos Bens – os avanços tecnológicos devem beneficiar toda a humanidade e não aprofundar exclusões digitais. 
  3. Subsidiariedade – as tecnologias devem fortalecer comunidades locais e não concentrar ainda mais poder global. 
  4. Solidariedade – a IA deve proteger os vulneráveis, combater desigualdades e fortalecer relações humanas. 
  5. Justiça Social – os sistemas digitais precisam de transparência, responsabilidade ética e controle democrático. 

Entre Babel e a fraternidade

A Encíclica conclui afirmando que a grande escolha do nosso tempo não é simplesmente aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas decidir qual projeto de humanidade queremos construir.

Leão XIV alerta para o risco de uma nova “Torre de Babel” digital, marcada pela soberba tecnológica, pela concentração de poder, pela vigilância permanente e pela desumanização. Em contrapartida, propõe uma civilização fundada no cuidado, na justiça, na fraternidade, na paz e na centralidade da pessoa humana.

Mais do que um documento sobre tecnologia, Magnifica Humanitas é um forte chamado espiritual, ético e político para recolocar a vida humana acima dos interesses econômicos, militares e tecnológicos. Em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, a Encíclica recorda que nenhum algoritmo possui mais valor do que a dignidade humana e que o verdadeiro progresso só existe quando está a serviço da vida, da paz e do bem comum.

Frei Rodrigo Péret, ofm


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Nota de Pesar do SINFRAJUPE, homenagem a Frei Sérgio

 

                                                            BrF| Crédito: Corbari

O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE divulgou, nesta terça-feira (3), uma Nota de Pesar pelo falecimento de Frei Sérgio Antônio Görgen (OFM), frade franciscano, um de seus fundadores e referência profética na Igreja comprometida com os pobres e o cuidado com a criação.

A nota destaca Frei Sérgio como profeta da Justiça, da Paz e do Cuidado com a Criação, cuja vida foi marcada pela fidelidade ao Evangelho, pela espiritualidade franciscana e pelo compromisso com os sem-terra, os pequenos agricultores e as lutas do povo.

Leia abaixo a  íntegra da Nota 

Nota de Pesar do SINFRAJUPE – Frei Sérgio Antônio Görgen, OFM

Com profundo pesar, mas sustentados pela fé no Deus da Vida, o Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE despede-se de Frei Sérgio Antônio Görgen, OFM, um de seus fundadores, irmão menor e profeta do nosso tempo. Sua vida foi testemunho coerente de uma espiritualidade franciscana viva, encarnada nas lutas do povo, especialmente dos sem terra, dos pequenos agricultores e das comunidades camponesas, às quais dedicou sua existência com coragem, ternura e radicalidade evangélica.

Frei Sérgio soube unir mística e ação, contemplação e compromisso político, inspirando-se nos passos de São Francisco e Santa Clara. Sua profecia se expressou na defesa intransigente da justiça social, da Reforma Agrária, da soberania alimentar e do cuidado com a Casa Comum, assumindo sempre o lado dos pobres e excluídos. Foi um homem do Evangelho vivido “com os pés no chão”, que fez da própria vida uma oferenda a serviço do Reino.

Agradecemos a Deus pelo dom da vida de Frei Sérgio, por sua palavra firme, seu gesto fraterno e sua fidelidade até o fim. Sua memória permanece viva nas sementes lançadas na terra, nas organizações populares que ajudou a construir e na esperança que segue animando as lutas do povo. Que a Irmã Morte o conduza ao abraço misericordioso do Criador, e que seu exemplo continue a nos inspirar na caminhada por Justiça, Paz e Ecologia.

Frei Sérgio Antônio Geörgen, OFM: presente na luta, presente na esperança, presente na vida que resiste.

Uberlândia, 3 de fevereiro de 2026.

Equipe Executiva do SINFRAJUPE

Frei José Francisco de Cássia dos Santos, OFM

Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM

Moema Miranda, OFS

Maria Zélia Castilho Rogedo, OFS

Lucas Lins, JUFRA



terça-feira, 19 de agosto de 2025

Quando a mineração decide o destino de uma cidade: o caso de Kiruna, Suécia

 

Foto: AFP

Na imagem acima, da AP, pessoas acompanham nesta terça-feira, 19 de novembro, o início da remoção de dois dias da igreja de madeira em Kiruna, na Suécia, motivada pela expansão da mineração.


Em pleno século XXI, no norte da Suécia, a cidade de Kiruna está sendo obrigada a se mudar por causa da expansão da maior mina subterrânea de ferro do mundo. Até a histórica igreja luterana, de Kiruna, construída em madeira, em 1912 e considerada uma das mais belas do país, está sendo transportada inteira para outro local. Esta remoção irá durar dois dias, 19 e 20 de agosto.


O “espetáculo” da mudança esconde uma dura realidade: milhares de moradores estão sendo deslocados e o povo Sami, indígena da região, vê sua vida ameaçada. Suas rotas de criação de renas estão sendo destruídas, colocando em risco uma cultura ancestral.


Enquanto isso, a mineradora estatal LKAB e o governo apresentam o projeto como parte da “transição verde” da Europa. Mas que transição é essa que sacrifica comunidades e povos inteiros?


O caso de Kiruna mostra como as mineradoras ainda decidem o destino dos territórios, colocando lucro acima da vida e da cultura.

Para compreender melhor essa remoção, traduzimos um artigo de Nishtha Badgmia, publicado pelo WION (World is One News) em fevereiro de 2023, que explica por que uma cidade está sendo deslocada na Suécia.

Explicado: Por que esta cidade na Suécia está sendo movida prédio por prédio

No norte da Suécia, a cerca de 200 km acima do Círculo Polar Ártico, uma cidade chamada Kiruna está testemunhando subsidência devido à maior mina de ferro do mundo. Entre vários edifícios, a cidade de 18.000 pessoas também abriga uma igreja de madeira de 600 toneladas, de cor terracota aconchegante e culturalmente significativa, projetada para se assemelhar a uma cabana do povo indígena Sami. O destino dessas estruturas e casas está entrelaçado com a empresa estatal LKAB, que é a maior mina de ferro do mundo e produz 80% do suprimento da União Europeia, segundo um relatório do Guardian.

O que acontecerá com a cidade?

Nos próximos anos, Kiruna está prestes a testemunhar um dos projetos de realocação mais radicais do mundo, já que a mina de ferro local ameaça engolir a cidade, de acordo com o Guardian, depois que rachaduras surgiram em hospitais e prédios escolares. Pelo menos 6.000 pessoas deverão se mudar da cidade que afunda e também enfrentarão um aumento gradual em seus aluguéis, ao longo de oito anos, até um teto de 25% a mais do que o valor antigo.

Igreja de Kiruna

Em 1912, a cidade recebeu o edifício de madeira de 600 toneladas sem símbolo religioso, descrito uma vez pela pastora Lena Tjärnberg como “a sala de estar da comunidade”. Nos próximos três anos, depois de mais de um século, o edifício mais bonito da Suécia será transferido. Segundo o relatório, a igreja de cor terracota, projetada para se assemelhar a uma cabana do povo indígena Sami, será realocada cerca de três quilômetros a leste da cidade antiga, próxima ao cemitério local.

Fundada em 1900, a mina em questão é administrada pela empresa estatal sueca LKAB, que também é a maior mina de ferro do mundo. No entanto, daqui para frente, a empresa espera estar na vanguarda da revolução industrial verde da Europa e impulsionar a autonomia em recursos naturais, segundo o Guardian. Em 2021, a empresa também começou a produzir ferro-esponja livre de combustíveis fósseis, substituindo o carvão por hidrogênio produzido a partir de eletricidade verde.

No mês passado, a empresa também anunciou que estava assentada sobre o maior depósito conhecido de elementos de terras raras na Europa, alguns dos quais são importantes para a produção de baterias de carros elétricos e turbinas eólicas. Subsequentemente, a vice-primeira-ministra da Suécia, também responsável pelo clima e pelos negócios, Ebba Busch, disse: “A Suécia é literalmente uma mina de ouro... A Europa precisa aprender a lição de não ser tão dependente de um único país para o gás, como fomos da Rússia.”

Falando a jornalistas de dentro da mina, Busch, na época, disse que essa descoberta de metais raros também dá à Europa a chance de ser menos dependente da China, que é a fonte de 86% do suprimento global, informou o Guardian.

Como isso afetará a comunidade local?

O tipo de transformação que Kiruna está passando levantou alarmes entre muitos, já que toda a cidade será realocada devido à atividade mineradora na região e ao risco que ela representa para os moradores, incluindo o povo Sami. Séculos antes de a LKAB iniciar suas operações na região, os Sami criavam renas por toda a terra ártica; no entanto, relatórios sugerem que seu modo de vida está sob ameaça.

Além disso, a mineração e as atividades humanas, que levaram consequentemente à fragmentação da terra, tornam a criação de renas cada vez mais difícil, enquanto a crise climática já ameaçava a principal fonte de alimento de inverno das renas, o líquen. O povo Sami também teme que qualquer interrupção dessa “atividade ancestral” comprometa seus direitos à terra, informou o Guardian.

Um porta-voz da LKAB, Anders Lindberg, disse que duas aldeias Sami já mudaram suas rotas de pastoreio desde que a mina foi aberta, enquanto a empresa se tornou melhor em ouvir as questões dos criadores de renas e está trabalhando para minimizar o impacto de seu trabalho. No entanto, segundo o relatório, outra aldeia Sami chamada Gabna pode ter que mudar suas rotas de pastoreio devido à descoberta dos novos elementos de terras raras.

Fonte: WION (World is One News)


segunda-feira, 28 de julho de 2025

O Tempo é Agora: Fé, Resistência e Justiça rumo à COP30

 

Plenária da Pré-COP (Foto Frei Pedro Neto)

A declaração final da Pré-COP Leste reúne o clamor e o compromisso profético de representantes dos Regionais Leste 1, 2  e 3  e do Sul 1 da CNBB diante da urgência climática e da injustiça socioambiental. Realizado em Belo Horizonte, o encontro reforça a centralidade da conversão ecológica, denuncia falsas soluções e convoca a Igreja a assumir uma postura ativa e coerente na defesa da vida e dos territórios. Esta é uma voz coletiva que aponta caminhos de esperança e justiça rumo à COP30 e à Cúpula dos Povos, em Belém do Pará.

DECLARAÇÃO FINAL - PRÉ-COP LESTE

Conversão ecológica, resistência às falsas soluções e compromisso com a justiça socioambiental 

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”. Mt5.6


Reunidos em Belo Horizonte, Minas Gerais, no Colégio Marista Dom Silvério, entre os dias 25 e 27 de julho de 2025, representantes dos Regionais Leste 1, Leste 2, Leste 3 e Sul 1 da CNBB, abrangendo os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, assumimos coletivamente o chamado à conversão ecológica, à resistência às falsas soluções climáticas e à construção de um compromisso profético em preparação à COP 30, que ocorrerá em novembro de 2025, em Belém do Pará.


Diante do colapso climático global, que atinge de forma mais dura os pobres e territórios vulnerabilizados, reconhecemos o fracasso das últimas Conferências do Clima em oferecer soluções concretas. O aquecimento global já ultrapassa 1,5°C, e os acordos internacionais, dominados por interesses econômicos, são insuficientes diante de uma crise sistêmica que ameaça toda a vida. Vivemos um mundo atravessado por múltiplas crises, com guerras e violências, cujo ápice se revela no genocídio em Gaza, expressão extrema de nossa crise civilizatória.


Em nossa região Sudeste do Brasil, o modelo econômico agrava a degradação dos biomas, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, manguezais e zonas costeiras, através do avanço urbano-industrial, da mineração, do agronegócio, da exploração do gás e do petróleo, do uso indiscriminado do agrotóxico e da especulação imobiliária. A contaminação das águas, a perda da biodiversidade, a expulsão de comunidades e a periferização tornam visível a injustiça ambiental e social.


A partir de duas mesas de painéis, uma sobre a Crise Climática e a Justiça Socioambiental e outra sobre a Ruptura com o Modelo Econômico Predatório e Falsas Soluções, nos organizamos em 5 grupos de trabalho para aprofundar cinco eixos da nossa Pré-COP: 1 - Soberania dos Povos, Direitos Territoriais e Justiça Socioambiental; 2 - Justiça Climática e Reparação Histórica; 3 - Ruptura com o Modelo Econômico Predatório, Não à Economia Verde; 4 - Descarbonização e Falsas Soluções; 5 - Centralidade da Vida, Dignidade Humana e Direitos da Terra.


Os grupos convergiram na compreensão de que a crise climática está profundamente ligada, ao sistema capitalista, à injustiça social, ao racismo ambiental e ao extrativismo predatório. Criticaram a chamada economia verde, a mercantilização da natureza e as falsas soluções tecnológicas. Propuseram, em contrapartida, uma ruptura com o modelo econômico vigente e a construção de uma nova economia baseada na justiça socioambiental, na agroecologia e nos saberes ancestrais. Reivindicaram a soberania alimentar e energética, bem como políticas públicas construídas a partir das comunidades e a responsabilização dos grandes poluidores. Destacaram também a necessidade de coerência institucional, incluindo uma atuação profética da Igreja, que deve assumir papel ativo, educativo e articulador nas lutas por direitos, territórios e dignidade.


Denunciaram as falsas soluções, como os mercados de carbono, os megaprojetos de energia e a expansão da mineração, que aprofundam desigualdades e ameaçam territórios sem enfrentar as causas estruturais da crise. A crise climática é inseparável da injustiça social, do racismo ambiental e do extrativismo. Seus impactos recaem sobre os povos indígenas, quilombolas, comunidades periféricas, camponesas, ribeirinhas e tradicionais. É urgente responsabilizar juridicamente os grandes emissores, corporações e governos, e exigir que os compromissos assumidos nas COPs tenham força legal e sanções reais.

 

Nós bispos, padres, diáconos, religiosos e religiosas, leigas e leigos, presentes nesta Pré-COP, reafirmamos, com esperança, a ecologia integral como eixo da nossa missão evangelizadora, tendo como referências centrais a encíclica Laudato Si’ e a exortação Laudate Deum. Anunciamos a conversão ecológica como caminho de fé e espiritualidade para um mundo novo. Caminho de irmandade universal entre toda criação, como nos convida Francisco de Assis, no Cântico das Criaturas. Propomo-nos a fortalecer as CEBs, as Pastorais Sociais e a Pastoral da Ecologia Integral, com a presença efetiva da Igreja nos territórios e na escuta e convivência ativa junto às populações vulnerabilizadas. A formação de lideranças religiosas e comunitárias deve ser prioridade, que leve ao comprometimento, articulando espiritualidade, saberes tradicionais, ciência e consciência política.

 

A Igreja deve se manter coerente entre seu discurso e sua prática, evitando recursos e alianças com empresas poluidoras e adotando medidas sustentáveis em suas estruturas. Reafirmamos sua missão profética diante do Estado e do mercado, com atuação firme nas políticas públicas, conselhos, conferências e demais espaços de participação popular, inclusive oferecendo suporte jurídico às lideranças. É compromisso urgente enfrentar o racismo ambiental e as desigualdades estruturais que atingem especialmente povos indígenas, quilombolas, comunidades periféricas e ribeirinhas.

 

Destacamos a proposta dos Regionais aqui presentes levarem essas diretrizes para a Assembleia dos Bispos, com o objetivo de tornar a Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração em uma comissão nacional permanente, e que se constitua em todos os regionais da CNBB.

 

Defendemos políticas públicas estruturantes, com participação social, que garantam moradia, água, saneamento e saúde às comunidades em risco socioambiental, assegurando também os direitos da natureza. É essencial atuar nos Planos de Saneamento, Diretores e de Mobilidade Urbana, promovendo justiça espacial e o direito à permanência nos territórios. Rejeitamos propostas como o “PL da devastação”, a lógica da “escala de trabalho 6x1”, e defendemos leis populares, como a “taxação das grandes fortunas”, bem como leis voltadas à justiça climática. Uma ação urgente passa pelo combate ao desmatamento, com foco na preservação dos biomas, e na contenção da urbanização predatória e dos grandes empreendimentos. A preservação das florestas é compromisso espiritual, territorial e ambiental, não financeiro, em diálogo com os povos que nelas vivem.

 

Em contraste ao modelo capitalista que devasta e aprofunda a crise climática, apontamos para a vida que prevalece apesar de tudo o que acontece.

 

Anunciamos os modos de vida e os saberes dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que representam formas sustentáveis e harmoniosas de habitar a terra, baseadas no cuidado com a natureza, na coletividade e no respeito aos ciclos da vida. Identificamos, ainda, sinais concretos de esperança presentes nos territórios. Alternativas comunitárias e coletivas, baseadas na economia do cuidado, na agroecologia, na agricultura familiar, na economia solidária, no decrescimento. Expressões para nós de uma Economia de Francisco e Clara. Essas comunidades cultivam uma relação de reciprocidade com os territórios, oferecendo caminhos concretos para a justiça socioambiental e a regeneração da vida. Comprometemo-nos com organizações populares e as iniciativas comunitárias autônomas, como cooperativas e redes de solidariedade.

 

No cenário internacional, exigimos compromissos vinculantes nas COPs, o cancelamento das dívidas externas e a responsabilização dos países historicamente poluidores.

 

Confiamos aos nossos Regionais da CNBB, sob as bênçãos de Deus, a continuidade dos trabalhos.


Que a COP 30, em Belém, seja um marco de escuta do grito da Terra e dos Pobres, de denúncia profética das estruturas de morte e de anúncio de novos caminhos para uma sociedade justa e com respeito à natureza. Saudamos, com esperança, a Cúpula dos Povos, onde movimentos e organizações sociais nacionais e internacionais se mobilizam por alternativas reais e por justiça climática. Que as vozes dos territórios sejam ouvidas e respeitadas nas negociações. O tempo é agora. A conversão ecológica é urgente. A justiça climática é inegociável.


             “Trabalhem por uma justiça ecológica, social e ambiental”Papa Leão XIV (Mensagem ao II Encontro Sinodal de Reitores de Universidades para o cuidado da Casa Comum realizado na Puc do Rio de Janeiro - maio de 2025).


Pela intercessão de Nossa Senhora da Abadia das águas sujas e de São Francisco de Assis 

De Belo Horizonte a Belém: seguimos em comunhão, esperança e luta. 

Belo Horizonte, 27-07-2025.