sexta-feira, 19 de julho de 2019

Franciscanos e mais 70 católicos presos, nos Estados Unidos, por defender imigrantes

Cerca de 70 pessoas, que carregavam fotos de crianças imigrantes que morreram enquanto estavam sob custódia em centros de detenção norte-americanos, foram presas na quinta-feira, 18 de junho, enquanto protestavam no Capitólio, em Washington, contra a política de imigração do governo de Donald Trump.

A Rede Franciscana de Ação, um grupo católico em defesa dos direitos humanos, convocou a manifestação nos escritórios do Senado Russell*, parte do complexo do Capitólio, para protestar contra as condições desses centros, porque, acusam, que ele constituem uma violação aos direitos humanos.



Cerca de 200 padres, frades, freiras e outras pessoas no chão de mármore do prédio  do senado Russell.

“Nosso país nasceu na escuridão do que agora chamamos pecado original. E agora, uns
Foto: Mackenzie Harrys/Faith in Public Life
200 anos mais tarde, pensamos que havíamos começado a superar esses pecados. No entanto, nestes dias, Donald Trump está nos arrastando de volta àqueles tempos malignos, com uma combinação de medos irracionais, ódio de pessoas que não são dele e de pura crueldade. O que é quase tão maligno, é que os chamados cristãos apoiam e aplaudem e possibilitam essa descida para uma nova era de trevas na América. Estamos falando sobre as evidências disso, nessas ações hoje. Estamos particularmente citando a desumanidade que ocorre, mesmo enquanto falamos, nas nossas fronteiras do sul. É por isso que pedimos aos nossos milhões de irmãs e irmãos católicos, particularmente nossos bispos, que participem da luta pela alma da América”, declarou o frei Joe Nangle, de Justiça, Paz e Integridade da Criação da Província Franciscana  do Santíssimo Nome, preso na manifestação no Dia Católico de Ação pelas Crianças Imigrantes.

Foto: Mackenzie Harrys/Faith in Public Life
"As imagens de crianças em condições deploráveis e insalubres, sem acesso a chuveiros por semanas, incomunicáveis e dormindo em pisos de concreto sem cobertores, nos forçaram a ficar em solidariedade e dizer 'não em nosso nome'", discursou a irmã Áine O. Connor, uma das manifestantes presas.


Entre os presos, há vários padres, frades freiras e leigos que denunciaram as condições desumanas em que as crianças migrantes estão sendo detidas.

FONTE: Paz y Bien, Franciscans Action Network
*O prédio de escritórios do Senado Russell é o mais antigo dos edifícios de escritórios do Senado dos Estados Unidos.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Motorista avança sobre manifestação do MST, mata sem terra e deixa feridos

Da página do MST
Na manhã desta quinta-feira (18), as famílias Sem Terra do acampamento Marielle Vive!, localizado em Valinhos, no interior de São Paulo, realizavam uma manifestação com entrega de alimentos pelo fornecimento de água no acampamento, quando no no quilômetro 7 da Estrada do Jequitibá, foram surpreendidas por um homem que com uma caminhonete em alta velocidade atropelou dezenas de manifestantes, entres eles, Luiz Ferreira da Costa, de 73 anos, que não resistiu aos ferimentos e morreu antes de chegar à Unidade de Pronto Atendimento (UPA).
O assassino estava armado e ameaçou os manifestantes que tentaram perseguir o veículo. O MST ainda apura o número e o estado dos feridos, entre eles o jornalista Carlos Filipe da rádio Noroeste e do Coletivo Socializando Saberes

As famílias exigem a punição imediata a este assassino, que age sob o clima de terror contra os movimentos populares, incentivado por autoridades que estão no governo brasileiro.
Cerca de mil famílias vivem no Acampamento Marielle Vive, que foi ocupado em 14 de abril de 2018 – um mês após a execução da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro – e é localizado na Fazenda Eldorado Empreendimentos Ltda. 
FONTE: MST

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Franciscanos propõem trabalho nas áreas climática, sócio ambiental e migração, em nível global


O encontro de planejamento bienal do Conselho Internacional de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) da Ordem dos Frades Menores  (CIJPIC) aconteceu de 3 a 10 de junho de 2019, na Custódia da Terra Santa, em Jerusalém. Organizado pelo Escritório da JPIC, dos Franciscanos em Roma,  o econtro tratou de temas como as mudanças climáticas, a proteção dos direitos humanos e na atenção especial aos problemas e violações reais existentes nos 119 países onde a Ordem dos Frades Menores (franciscanos) está presente e funciona. “Esta reunião”, disse o frei Jaime Campos, Diretor do Escritório Geral da JPIC, “nos permite avaliar o trabalho que foi feito e planejar, com nossas discussões, futuros trabalhos com atenção constante ao conteúdo da Encíclica Laudato Si’ .  

O encontro que contou com a participação de representantes das diversas Conferências dos Frades Menores. Vindo da Austrália, Brasil, Chile, Colômbia, Coréia,  Eslovênia, EUA, Filipinas, França, Itália, México, Polônia e Reino Unido,  chegou a uma conclusão com a preparação de um documento final, que trata de questões relacionas à crise climática, crise sócioambiental, crise migraória, sempre com propostas concretas e partindo da Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, numa perspectiva de converção ecológica. Segue do Documento.

Declaração de Jerusalém

O Conselho Internacional de Justiça, Paz e Integridade da Criação da Ordem se reuniu em Jerusalém de 3 a 9 de Junho 2019. Seus membro avaliaram o trabalho realizado nos últimos três anos e traçaram o caminho a seguir em nosso esforço para promover JPIC para o próximo triénio, com a presença dos coordenadores de JPIC das Conferencias sua liderança determinada para preparar o caminho e implementar de forma eficaz, as decisões tomada na reunião deste ano. Distintos desafios e estímulos.

Distintos desafios e estímulos chegaram até nós do Conselho Plenário da Ordem de 2018 "Queremos sonhar e ao mesmo tempo ser profetas de esperança, capazes de anunciar o Evangelho para a construção de Reino, denunciando e combatendo as situações concretas de injustiça e violência do mundo atual. Esta atitude nos fará dar muitos frutos como pessoas consagrada nos ..."(CPO 2018 177).

"Laudato si'": Conversão ecológica integral

Inspirados pela encíclica papal "Laudato Si” acreditamos firmemente que “ a sobriedade no estilo de vida e a sensibilidade pela solidariedade ecológica e social são expressões próprias do  carisma franciscano, consciente de que o nosso compromisso com a ecologia é parte da conversão integral que nos torna irmãos e irmãs de todas as criaturas. Cada Fraternidade em seu projeto de vida e missão, desenvolver um programa ecológico que promova estilos e opções concretas de vida que expressem respeito e cuidado para criação" (Cf. CPO /18 114-116)

Os desafios colocados pelo documento do CPO 2018 e pela Encíclica "Laudato Si", nos levam a propor o seguinte:
  • Renovar a nossa presença profética no mundo de hoje, através de um processo radical de conversão ecológica individual e comunitária.
  • Adotar a metodologia da não-violência ativa e da paz justa.
  • Estar abertos a uma maior colaboração “ad intra” e “ad extra” na Igreja.
  • Comprometer-se com a iniciativa  Catholic Nonviolence Initiave de Pax Christi International.
  • Integrar e celebrar ativamente "Laudato si" na liturgia.
  • Promover o estudo da Encíclica através dos “Círculos de animação e dos retiros “Lautado Si” do MovimentoCatólico Global pelo Clima.
  • Fazer memória dos mártires do meio ambiente.
  • Recolher e criar recursos (homiléticos, catequéticos, práticos...) e compartilhá-los.
  • Melhorar a comunicação usando as redes sociais e serviços multimídia disponíveis
Crise climática

Nós, membros do CIJPIC, estamos profundamente preocupados com os desastres que ocorrem em todo o mundo e seu impacto negativo sobre os pobres e vulneráveis; e reconhecemos que a intervenção humana indiscriminada está destruindo o sistema climático do nosso planeta. Somos testemunhas da crise climática e constatamos que nos resta pouco tempo para que a humanidade mude sua trajetória e evite as piores consequências desta catástrofe climática mundial para o genro humano e o resto dos seres vivos na terra. Não podemos ficar indiferentes à voz dos jovens que exigem justice climática.

É por isso que propomos:
  • Promover e celebrar o "Tempo de o Criação", através da liturgia e atividades solidárias .de o liturgia e atividades solidariedade.
  • Colaborar com o Movimento Católico Mundial pelo Clima.
  • Não fazer investimentos em indústrias de combustíveis fósseis e investir em energias renovável.
  • Participar dos movimentos que trabalham pela justiça climática.
  • Aumentar nossa tomada de consciência e aprofundar na compreensão  esta problemática.
  • Recolher experiências de boas práticas e compartilhá-las.
  • Promover alternativas à cultura consumista (consumo responsável, decrescimento, consumir produtos locais, Km 0, etc.).
  • Trabalhar pela transformação social com a sociedade civil, autoridades governamentais e empreendedores sociais.
  • Promover um projeto de plantio ecológico de árvores
Crise socioambiental

Também estamos conscientes das muitas devastações no meio ambiente e na humanidade devido a várias práticas extrativistas, como a mineração e o fracking, ou a agricultura de monocultivos, etc. "Muitas vezes as técnicas de mineração, os despejos e a perda de poder de pessoas, a contaminação dos solos e da água, a  corrupção e a prepotência das multinacionais de mineração, com sua distribuição injusta das riquezas que obtêm, nos impele a questionar seu verdadeiro valor." (Declaração de Verona). Cremos que os franciscanos estamos chamados à ação solidária com as comunidades atingidas na Amazônia e em outros lugares. Pelo que reconhecemos e promovemos "um tipo diferente de economia: uma economia que é inclusiva e não exclusiva, humana e não desumanizante, que cuida do meio ambiente e não o espolie” (convite do Papa Francisco ao evento “Economia de Francisco” 2019). Concretamente nos esforçaremos para reduzir e reparar os danos sociais, ambientais e econômicos, que se produzem em nossa casa comum.

E por isso propomos:
  • Recusar-se a fazer parte da cultura consumista de nossa sociedade
  • Apoiar e solidarizar-se com as vítimas de extrativismo.
  • Juntar-se à campanha "Direito de dizer não".
  • Desenvolver estratégias de "boicote" a determinados produtos.
  • Não fazer investimentos em empresas que atacam os direitos humanos e ambientais  e investirem projetos sustentáveis e éticos.
  • Continuar colaborando com Franciscans International e com o Fórum Social sobre o   Extrativismo.
  • Incentivar as Entidades da Ordem a trabalhar com as ONGs de seu entorno nesse âmbito.
  •  Envolver as escolas de administração propondo modelos econômicos alternativos ao atual, que apoiem a Responsabilidade Social Corporativa, a conversão ecológica e a justiça climática.
Crise migratória

Vemos a migração como um fenômeno global causado por múltiplos fatores, entre eles a violência, a desigualdade social, a crise política e climática. Seu alcance cada vez maior em todo o mundo desafia nossa "Visão franciscana da vida que encontra seus fundamentos na revelação bíblica, que nos faz entender que um é nosso Pai e que somos todos irmãos e irmãs, e que estamos unidos por vínculos invisíveis, formando uma só família universal com todos os seres do universo. Por tanto nós podemos permanecer indiferentes ante à grave crise da mobilidade humana, e não podemos ser indiferentes à situação de nossos irmãos e irmãs imigrantes"(Cf. CPO / 18, 122 - 123).

Por isso propomos:
  • Criar uma cultura humanista de hospitalidade; aceitando, acolhendo e cuidando dos imigrantes como irmãos e irmãs nossas.
  • Abrir nossa casas e conventos para receber, escutar e dialogar com os imigrantes.
  • Celebrar a Jornada Mundial pelos Refugiados eImigrantes, e a Oração contra o Tráfico de Pessoas.
  • Ajudar e colaborar com os Centros de Imigrantes existentes.
  • Promover "experiências no terreno", para os frades em formação inicial e permanente, nos Centros de Atendimento aos Imigrante.
  • Organizar "campos de trabalho e conscientização" para jovens e frades.
  • Promover campanhas para superar preconceitos contra imigrantes.
  • Participar da Rede Franciscana para os Imigrantes na América.
  • Divulgar ferramentas legais e recursos para migrantes.
Apesar da contínua violência e conflito na região fomos testemunhas e constatamos o trabalho e obras realizadas pelos nossos irmãos da Custódia da Terra Santa pela a paz e os direitos humanos. Também nos demos conta de que nós como Franciscanos, temos que "trabalhar para ser instrumentos de paz e reconciliação, permanecer presentes em lugares de guerra e violência e não abandonar os que sofrem” . (cf. CPO / 18, 168). Com profunda preocupação pela crise política e pelas inacreditáveis violações de direitos humanos em alguns países, expressamos nossa solidariedade com os oprimidos, os menores, os esquecidos e os últimos.

O Conselho Internacional de JPIC leu e discerniu os sinais dos tempos como um chamado, enquanto franciscanos, para responder às crises globais através de uma conversão ecológica integral radical; que inclui as dimensões espirituais, sociais, econômicas e políticas. Como fraternidade contemplativa em missão, nos comprometemos à ação através da contemplação e da oração, do compromisso de solidário com os pobres e a Terra; pedindo a todos os frades da Ordem que aprofundemos nossa vocação e conversão no século XXI.







segunda-feira, 17 de junho de 2019

Lançado o Documento de Trabalho do Sínodo da Amazônia

Da página do IHU, reportagem é de Luis Miguel Modino. 

Um fruto de um longo percurso, isso poderia definir o Instrumentum Laboris do Sínodo para a Amazônia que esta segunda-feira, 17 de junho, foi apresentado no Vaticano. Nele, como indicado na conclusão do documento, “tem se escutado a voz da Amazôniaà luz da fé (Parte I) e tem se tentado responder ao clamor do povo e do território amazônico por uma ecologia integral (Parte II) e pelos novos caminhos para uma Igreja profética na Amazônia (III Parte)".
A partir deste momento, a Igreja, especialmente os Padres Sinodais, são desafiados "a dar uma nova resposta às diferentes situações e a buscar novos caminhos que possibilitem um kairós para a Igreja e para o mundo". Temos um pouco menos de quatro meses para o início da assembleia sinodal, que se reunirá no Vaticano de 6 a 27 de outubro. Neste momento, cabe aos Padres sinodais, especialmente os bispos das jurisdições eclesiásticas da Pan Amazônia, sempre chamados a conhecer a realidade local e a vida das pessoas que lhes são confiadas, a sentir o cheiro das ovelhas, para ver até onde o documento recolhe as necessidades de sua Igreja local. 
Mapa da região Pan-Amazônica (Foto: nome do fotógrafo)
Não podemos esquecer que este documento, que segue o método da Igreja latino-americana, ver/escutar, julgar, agir, ainda é um instrumento a serviço de um processo mais amplo, que dará passos sucessivos nos próximos meses. Nesta perspectiva, devemos entender que, no Instrumentum Laboris, não encontraremos todos e cada um dos anseios pessoais. Como disse algumas semanas atrás Dom Mário Antônio da SilvaBispo de Roraima e vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, "que o Sínodo possa vir ao encontro, não de expectativas, mas de necessidades das comunidades da Amazônia", algo que também pode ser dito sobre o Instrumento de Trabalho. 
Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho – RO, e membro do Conselho Presinodal, afirma que o Instrumentum Laboris, “vai nos dando algumas possibilidades para também nos prepararmos com nossos grupos de sacerdotes, religiosos, religiosas, catequistas, ministros, e o Povo de Deus em geral, para algumas perspectivas”. Ele reconhece que “evidentemente que o documento, ele vai nos provocar para passos possíveis de concretiza-los logo com a conclusão do Sínodo, outros passos que vamos fazer processos e coisas que serão um horizonte para onde nós queremos caminhar como Igreja, Povo de Deus, como Igreja Pan-Amazônica”. 
Segundo o arcebispo de Porto Velho, “evidentemente que o Sínodo não vai atrás de curiosidades, mas tenta responder coisas concretas que nós precisamos enfrentar aqui na nossa região”. Desde sua condição de presidente do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, ele diz que “o Sínodo, desde a sua convocação, o Papa nos interpela por uma relação diferenciada com os povos indígenas, com os povos originários”. É por isso que “nós temos que nos perguntar que passos nós estamos dando em nossas Igrejas para que verdadeiramente, os primeiros habitantes destas terras, sejam ouvidos, respeitados e acompanhados na sua luta por dignidade, por justiça e, sobretudo, respeito a suas culturas, a suas espiritualidades, a seus ritos, a suas línguas. Há o direito deles ser indígenas em sua integridade”, afirma Dom Roque. 
Dom Rafael Cob, também membro do Conselho Presinodal, e bispo do Vicariato Apostólico de PuyoEquador, destaca no documento quatro eixos estruturais: escutadiálogoinculturação e profecia, em torno do eixo central, que é o rosto amazônico e mergulhado na ecologia integral. O bispo de Puyo destaca no Instrumentum Laboris o pano de fundo da Evangelii Gaudium, que nos chama a uma conversão pastoral, da Laudato Sí, que nos convida a uma conversão ecológica, e da Episcopalis Conmunio, fazendo uma Igreja samaritana com seus desafios e esperanças. 
Cada uma das partes é dividida em capítulos, quatro na primeira, que apresenta "a realidade do território e de seus povos", nove na segunda, que inclui "a problemática ecológica e pastoral", e oito na terceira parte, que aborda "a problemática eclesiológica e pastoral". Na segunda e terceira partes, ao final de cada um dos capítulos, são oferecidas sugestões, todas colhidas da escuta do território e do povo de Deus, chamadas a influenciar não só a vida da Igreja, mas também a própria sociedade amazônica, tendo sempre como atitude fundamental a defesa profética da Amazônia e de seus povos. 
Amazônia Brasileira (Foto: Márcio Ferreira | Agência Pará)
Instrumentum Laboris tem como ponto de partida a necessidade da Igreja ser ouvinte, que escute, algo que "não é fácil", mas que deve gerar "uma resposta concreta e reconciliadora", que a Amazônia implora. Não nos esqueçamos de que esta é uma "realidade contrastante" que é "cheia de vida e sabedoria", mas que sofre as consequências do "desmatamento e destruição extrativa que exige uma conversão ecológica integral". Tudo isto deve levar a um "encontro com as culturas que inspiram os novos caminhos, desafios e esperanças de uma Igreja que quer ser samaritana e profética através de uma conversão pastoral". 
A vida é a base do Sínodo para a Amazônia, que nesta região é identificada com a água. Uma vida em abundância, expressa no "bem viver", mas que "está ameaçada pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos", que exige uma defesa e um cuidado, que "se opõe à cultura do descarte, da mentira, da exploração e da opressão". Não se pode esquecer que "na Amazônia, a vida está inserida, ligada e integrada ao território", onde tudo está interligado e se descobre "a obra-prima da criação do Deus da Vida". 
Sínodo é um tempo de graça, de inculturação e interculturalidade, de desafios sérios e urgentes, mas também de esperança. Ao mesmo tempo, esse evento eclesial quer gerar espaços de diálogo "que nos ajudem a sair do caminho da autodestruição da atual crise socioambiental". Um diálogo que seja um ponto de partida para a missão e que tenha como interlocutores os povos amazônicos, que provoque uma dinâmica de aprendizado e resistência.
O clamor da Terra é o clamor dos pobres, que são os que sofrem as consequências da destruição extrativista. Um clamor que vem dos povos da Amazônia, que não são reconhecidos seus territórios e são afetados pelos projetos de "desenvolvimento" e a poluição, que exige urgentemente uma ecologia integral que paralise a destruição da Amazônia, algo que afeta especialmente os povos em isolamento voluntário. 
Na Amazônia, o fenômeno global da migração também está muito presente, o que "tem contribuído para a desestabilização social nas comunidades amazônicas". Isso fez com que a população amazônica se reunisse nas cidades, onde vive entre 70 e 80%, o que requer cuidados eclesiais, também das famílias e comunidades, cada vez mais vulneráveis. Em muitos casos, esse é o resultado da corrupção que está presente na região, "a que existe fora da lei e a que se protege numa legislação que trai o bem comum", a tal ponto que "grandes empresas e os governos organizaram sistemas de corrupção". Tudo isso afeta a "saúde integral" dos povos, “que supõe uma harmonia com o que a Mãe Terra nos oferece", fonte da medicina tradicional. São conhecimentos que devem ser abordados por uma educação integral, que gera um encontro e aborda um maior conhecimento sobre o que é a ecologia integral, para a qual é necessária uma conversão ecológica. 
A terceira parte do documento de trabalho aborda os desafios e as esperanças de uma Igreja profética na Amazônia, chamada a ter um rosto amazônico e missionário, "que saiba discernir e assumir sem medo as diversas manifestações culturais dos povos", uma Igreja participativa, acolhedora, criativa e harmoniosa, com rosto amazônico e indígena, que reconhece as "sementes do Verbo" e busca "um enriquecimento mútuo das culturas em diálogo". Que se expressa em uma liturgia inculturada, que assume no ritual litúrgico e sacramental "os ritos, símbolos e estilos celebrativos das culturas indígenas", tornando possível para os sacramentos serem "fonte de vida e remédio acessível a todos (cf. EG 47), especialmente os pobres (cf. EG 200)". 
Para isso, ele sugere que "em vez de deixar as comunidades sem a Eucaristia, sejam alterados os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la". O documento, sem questionar o celibato a qualquer momento, argumenta que "para as áreas mais remotas da região, estude-se a possibilidade de ordenação sacerdotal de pessoas idosas, preferencialmente indígenas, respeitados e aceitos por sua comunidade, mesmo que já tenham família constituída e estável, a fim de garantir os sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã". Ao mesmo tempo, é necessário" identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, tendo em conta o papel central que desempenham hoje na Igreja Amazônica", aspectos que realmente abrem a possibilidade de encontrar novos caminhos para a Igreja. 
Ao abordar a questão da organização das comunidades, o documento questiona que "seria oportuno reconsiderar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder do governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial, administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem", elemento decisivo que permite superar o clericalismo como instrumento de poder. Por isso, apela a "promover vocações autóctones de varões e mulheres" buscando "indígenas que preguem aos indígenas a partir de um profundo conhecimento de sua cultura e sua língua, capaz de comunicar a mensagem do evangelho com a força e a eficácia de quem tem seu bagagem cultural". Ao mesmo tempo, ele insiste em passar de uma "Igreja que visita" para uma "Igreja que permanece". 
Os últimos capítulos abordam o tema da evangelização nas cidades, procurando incluir nela os indígenas urbanos, fomentando o diálogo ecumênico e inter-religioso. Como em qualquer outro lugar, o papel da mídia na Amazônia é fundamental. Portanto, "é importante que o empoderamento da mídia atinja os mesmos nativos", criando uma ressonância que ajuda "a conversão ecológica da Igreja e do planeta", que "a realidade amazônica supere a Amazônia e tenha repercussão planetária", a amazonizar o mundo e a Igreja. O Sínodo pode ajudar a aumentar o papel profético da Igreja, que gera uma promoção humana integral. Por essa razão, é proposta uma Igreja em saída, na escuta, que se coloca a serviço daqueles que questionam o poder, mesmo que isso leve seus membros a arriscarem suas vidas, ao martírio. 
Não nos esqueçamos de que o que deve mover o Sínodo para a Amazônia é ser "uma expressão concreta da sinodalidade de uma Igreja em saída, para que a vida plena que Jesus veio trazer ao mundo (cf. Jo 10, 10) chegue a todos, especialmente aos pobres". Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lembrar o que já disse o Documento Preparatório, onde ele insistiu que "as reflexões do Sínodo Especial superam o âmbito estritamente eclesial amazônico, por serem relevantes para a Igreja universal e para o futuro de todo o planeta". Estamos diante de um evento universal, que muitos consideram decisivo no futuro da Igreja e da humanidade. 
Como afirma Dom Roque Paloschi, “vamos pedir que o Espírito Santo nos conduza e que a nossa Igreja viva a alegria de buscar esses novos caminhos e que nós possamos, no final desse Sínodo, concluir como os seguidores e seguidoras de Jesus naquele concilio de Jerusalém, o Espírito Santo e nós decidimos. Que seja o Espírito Santo que conduza e que nossas respostas e nossos empenhos sejam verdadeiramente voltados para responder aos desafios da evangelização desta porção do Povo de Deus”.
FONTE: IHU