sexta-feira, 9 de março de 2012

Movimentos do campo querem que Dilma vete Código Florestal e pedem PAC ambiental

Luciana Lima
Repórter da Agência Brasil
 
Brasília - Além de pedirem à presidenta Dilma Rousseff que vete integralmente as alterações no Código Florestal que estão sendo discutidas no Câmara, os movimentos sociais ligados ao campo querem que o governo elabore um programa ambiental, nos moldes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), voltado à formação de infraestrutura.
Entre os trabalhadores rurais, a reivindicação, que faz parte da recém-deflagrada campanha "Veta, Dilma", já vem sendo chamada de PAC do Meio Ambiente.
Para Luiz Zarref, um dos coordenadores da Via Campesina, a política do governo deve incluir regularização fundiária, política florestal e de geração de renda por meio de manejo. "O governo precisa abrir um amplo programa. Como tem o PAC da infraestrutura e da educação, precisamos também do PAC para o Meio Ambiente que deve incluir regularização e política florestal diversificada e de geração de renda a partir da floresta", destacou Zarref.
Ele defende a manutenção da atual legislação ambiental. "Estamos trabalhando a campanha Veta, Dilma pedindo para que a presidenta não aprove as alterações feitas pelo Congresso. Para nós, camponeses, está claro que, do Congresso brasileiro, não sairá texto minimamente sustentável", enfatizou.
A segunda votação do novo Código Florestal na Câmara que aconteceria na terça-feira (6) acabou sendo adiada para a próxima semana em um clima de total falta de acordo. O relator da proposta, deputado Paulo Piau (PMDB-MG), pediu o adiamento da votação.
O texto do Código Florestal começou a tramitar no Congresso há mais de dez anos pela Câmara dos Deputados. Com relatoria do então deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), hoje ministro dos Esportes, o texto foi aprovado na Câmara em maio do ano passado e seguiu para o Senado, onde a matéria recebeu substitutivo do senador Jorge Viana (PT-AC).
Devido às alterações feitas pelo Senado, o texto precisou retornar à Câmara para uma nova votação dos itens alterados, antes de seguir para a sanção presidencial. Atualmente, a bancada ruralista se diz conformada com as alterações feitas pelo Senado, apesar de tê-las criticado. Já os ambientalistas não aceitam mudanças na atual legislação e consideram os dois textos como retrocesso.
Os movimentos sociais seguem na mesma linha. "Os movimentos denunciaram o tempo todo que o texto aprovado pelo Senado não é bom. Ele só transforma o 'manifesto ruralista' que o Aldo Rebelo aprovou na Câmara em um texto legal, com bases legais, porque o texto que foi aprovado na Câmara não tinha bases legais. Mas, mesmo assim, esse texto do Senado mantém a sua essência. Os próprios senadores falaram isso", argumentou Zarref.
Um ponto crucial da polêmica é o que prevê a conversão de multas por desmatamento em serviços de recuperação ambiental. "Trata-se de uma anistia e esse é um ponto central. Os latifundiários que devastaram beira de rio ou encostas vão continuar com essas áreas consolidadas, vão ter que recuperar uma pequena parcela. Há ainda a isenção de reserva legal para propriedade de até quatro módulos, que é uma questão importante, porque, no Brasil, onde os estabelecimentos rurais muitas vezes são compostos de vários imóveis de pequenos tamanhos", destacou.
Outra alteração criticada é a que aumenta as áreas destinadas a atividades como a carcinocultura (cultura de camarão) e a projetos turísticos em áreas de preservação litorâneas. O temor de que os manguezais sejam destruídos levou centenas de pessoas ontem (7) a protestarem em frente ao Congresso contra a aprovação do Código Florestal.
"Há ainda a destruição dos mangues porque abre a possibilidade de ampliar em mais 25% do território dos estados em carcinocultura em projetos de turismo na beira do mar. Enfim, há uma série de problemas no texto do Senado. O que está vindo para a Câmara não é um texto bom e os ruralistas ainda querem piorar esse texto, voltando com as medidas previstas no projeto relatado pelo então deputado Aldo Rebelo", criticou.
A ex-ministra de Meio Ambiente Marina Silva se engajou na campanha "Veta Dilma". "O veto é a principal ferramenta que a presidenta Dilma dispõe para manter a sua coerência", disse Marina, que relembrou o segundo turno da campanha presidencial em 2010.
"Foi ela que se comprometeu, de próprio punho, que vetaria qualquer projeto que significasse anistia, diminuição da proteção e aumento do desmatamento. O projeto do Senado assegura anistia para cerca de 40 milhões de hectares desmatados ilegalmente. A presidenta tem esse poder e, obviamente, o que a sociedade está fazendo é uma mobilização para dar respaldo político para que ela mantenha a sua coerência e, com certeza, ela vai precisar desse respaldo político porque foi colocada em uma situação difícil pela sua base", destacou.
Para Marina Silva, a presidenta precisa "tomar consciência do retrocesso ambiental que vem ocorrendo em seu governo". Do contrário, afirmou, o Brasil passará um "vexame" na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que ocorre no Rio de Janeiro em junho deste ano.
"A presidenta Dilma precisa tomar consciência do que está acontecendo, do que está sendo patrocinado pelo governo dela. Depois de o Brasil ter dado alguns passos que são relevantes, graças ao esforços de outros governos e da sociedade. O governo dela, além de ter paralisado qualquer avanço, está desconstruindo um esforço de mais de 20 anos", criticou.
Fonte: Agência Brasil

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres ocupam a sede do Incra em Minas Gerais no Dia Internacional da Mulher

Cerca de 500 mulheres da Via Campesina e da Marcha Mundial das Mulheres ocuparam hoje (08) pela manhã a sede do Incra em Minas Gerais. A ocupação faz parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas 2012 e dá continuidade à luta das mulheres em nível nacional, regional e local por uma sociedade justa e igualitária.    A ação tem como objetivo denunciar o capital estrangeiro na agricultura, através das empresas transnacionais, e quer chamar a atenção da sociedade para o modelo destrutivo do agronegócio para o meio ambiente. O agronegócio ameaça a soberania alimentar do país e a vida da população brasileira, afetando de forma direta a realidade das mulheres.    As mulheres cobram agilidade na Reforma Agrária, pois há seis anos nenhuma área é destinada a este fim em Minas Gerais. Atualmente, 3.700 famílias vivem em condições precárias em 50 áreas de acampamento no estado à espera da reforma agrária.     No município de Felisburgo, Vale do Jequitinhonha, cinco trabalhadores rurais Sem Terra foram assassinados há 8 anos. O fazendeiro Adriano Chafick, mandante do crime, continua em liberdade. As famílias estão ameaçadas de despejo, pois a justiça expediu mandado de reintegração de posse em dezembro de 2011. A área deveria ser desapropriada por crime de violência no campo e por crime ambiental, mas o Novo Código Florestal beneficia o fazendeiro.    Diante disso, as mulheres do campo e da cidade se manifestam contra o novo Código Florestal, que privilegia os setores ruralistas que apoiam a anistia para quem desmatou até julho de 2008. Denunciam o agronegócio e seu modelo de agricultura industrial, que transforma o Brasil no maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2009.    As manifestantes também reivindicam assistência técnica e crédito para as mulheres, implementação de cirandas infantis para as crianças de 0 a 6 anos e restaurantes comunitários nas áreas de reforma agrária.     Com a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas 2012, a Via Campesina e a Marcha Mundial das Mulheres querem combater todas as formas de opressão e violência que atingem, principalmente, as mulheres. Dados da “Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180”, mostram que das mulheres que denunciaram terem sofrido violência em 2008, 91% são da zona urbana e 4,7% da zona rural, o que evidencia as dificuldades de acesso das mulheres camponesas, inclusive para fazer a denúncia. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Camponeses lançam manifesto pela Reforma Agrária

Os movimentos sociais do campo lançaram um manifesto em defesa da Reforma Agrária, onde defendem a “construção e realização de um processo de luta unificada em defesa da Reforma Agrária, dos direitos territoriais e da produção de alimentos saudáveis”.
No manifesto, foi criticado também o modelo de produção de commodities agrícolas baseado em latifúndios, na expulsão das famílias do campo e nos agrotóxicos.
"O agronegócio representa um pacto de poder das classes sociais hegemônicas, com forte apoio do Estado Brasileiro, pautado na financeirização e na acumulação de capital, na mercantilização dos bens da natureza, gerando concentração e estrangeirização da terra, contaminação dos alimentos por agrotóxicos, destruição ambiental, exclusão e violência no campo, e a criminalização dos movimentos, lideranças e lutas sociais", afirmam no manifesto.
O documento é assinado pelo MST, Via Campesina, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetraf), entre outras entidades (veja a lista no final).
Abaixo, leia a versão integral do manifesto.
MANIFESTO DAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS DO CAMPO
As entidades APIB, CÁRITAS, CIMI, CPT, CONTAG, FETRAF, MAB, MCP, MMC, MPA e MST, presentes no Seminário Nacional de Organizações Sociais do Campo, realizado em Brasília, nos dias 27 e 28 de fevereiro de 2012, deliberaram pela construção e realização de um processo de luta unificada em defesa da Reforma Agrária, dos direitos territoriais e da produção de alimentos saudáveis.
Considerando:
1)    O aprofundamento do capitalismo dependente no meio rural, baseado na expansão do agronegócio, produz impactos negativos na vida dos povos do campo, das florestas e das águas, impedindo o cumprimento da função socioambiental da terra e a realização da reforma agrária, promovendo a exclusão e a violência, impactando negativamente também nas cidades, agravando a dependência externa e a degradação dos recursos naturais (primarização).
2)    O Brasil vive um processo de reprimarização da economia, baseada na produção e exportação de commodities agrícolas e não agrícolas (mineração), que é incapaz de financiar e promover um desenvolvimento sustentável e solidário e satisfazer as necessidades do povo brasileiro.
3)    O agronegócio representa um pacto de poder das classes sociais hegemônicas, com forte apoio do Estado Brasileiro, pautado na financeirização e na acumulação de capital, na mercantilização dos bens da natureza, gerando concentração e estrangeirização da terra, contaminação dos alimentos por agrotóxicos, destruição ambiental, exclusão e violência no campo, e a criminalização dos movimentos, lideranças e lutas sociais.
4)    A crise atual é sistêmica e planetária e, em situações de crise, o capital busca saídas clássicas que afetam ainda mais os trabalhadores e trabalhadoras com o aumento da exploração da força de trabalho (inclusive com trabalho escravo), super exploração e concentração dos bens e recursos naturais (reprimarização), flexibilização de direitos e investimento em tecnologia excludente e predatória.
5)    Na atual situação de crise, o Brasil, como um país rico em terra, água, bens naturais e biodiversidade, atrai o capital especulativo e agroexportador, acirrando os impactos negativos sobre os territórios e populações indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas. Externamente, o Brasil pode se tornar alavanca do projeto neocolonizador, expandindo este modelo para outros países, especialmente na América Latina e África.
6)    O pensamento neodesenvolvimentista centrado na produção e no lucro, defendido pela direita e por setores de esquerda, exclui e trata como empecilho povos indígenas, quilombolas e camponeses. A opção do governo brasileiro por um projeto neodesenvolvimentista, centrado em grandes projetos e na exportação de commodities, agrava a situação de exclusão e de violência. Consequentemente não atende as pautas estruturais e não coloca a reforma agrária no centro da agenda política, gerando forte insatisfação das organizações sociais do campo, apesar de pequenos avanços em questões periféricas.
Estas são as razões centrais que levaram as organizações sociais do campo a se unirem em um processo nacional de luta articulada. Mesmo reconhecendo a diversidade política, estas compreendem a importância da construção da unidade, feita sobre as bases da sabedoria, da maturidade e do respeito às diferenças, buscando conquistas concretas para os povos do campo, das florestas e das águas.
Neste sentido nós, organizações do campo, lutaremos por um desenvolvimento com sustentabilidade e focado na soberania alimentar e territorial, a partir de quatro eixos centrais:
a)    Reforma Agrária ampla e de qualidade, garantia dos direitos territoriais dos povos indígenas e quilombolas e comunidades tradicionais: terra como meio de vida e afirmação da identidade sociocultural dos povos, combate à estrangeirização das terras e estabelecimento do limite de propriedade da terra no Brasil.
b)    Desenvolvimento rural com distribuição de renda e riqueza e o fim das desigualdades;
c)    Produção e acesso a alimentos saudáveis e conservação ambiental, estabelecendo processos que assegurem a transição para agroecológica.
d)    Garantia e ampliação de direitos sociais e culturais que permitam a qualidade de vida, inclusive a sucessão rural e permanência da juventude no campo.
Este é um momento histórico, um espaço qualificado, com dirigentes das principais organizações do campo que esperam a adesão e o compromisso com este processo por outras entidades e movimentos sociais, setores do governo, parlamentares, personalidades e sociedade em geral, uma vez que a agenda que nos une é uma agenda de interesse de todos e todas.

Brasília, 28 de fevereiro de 2012.
APIB – Associação dos Povos Indígenas do Brasil   
CÁRITAS Brasileira
CIMI – Conselho Indigenista Missionário   
CPT – Comissão Pastoral da Terra
CONTAG – Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura   
FETRAF – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar
MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens    
MCP – Movimento Camponês Popular
MMC – Movimento de Mulheres Camponesas   
MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra   
Via Campesina Brasil

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quilombo dos Macacos em Salvador vive momentos de tesão e conflito

NOTA PÚBLICA DAS PASTORAIS SOCIAIS DE BAHIA E SERGIPE
Sobre a Situação do Quilombo Rio dos Macacos e Tororó
  
4 DE MARÇO DE 2012
  
Para Sr.Dr. Diogo Santana, representante da
Secretaria Geral da Presidência da República,
Para o representante da Marinha do Brasil,
Para o Sr. Governador do estado da Bahia,
Para a CNBB Nacional
Para a opinião pública
           
            Nós, representantes das Pastorais Sociais do Regional Nordeste III – Bahia e Sergipe, tomamos conhecimento do sofrimento e das ameaças que vem recebendo os quilombolas moradores do Quilombo Rio dos Macacos e Tororó, apesar das garantias expressadas na reunião que aconteceu no dia 27 de fevereiro de 2012, com a presença do representante da Secretaria Geral da Presidência da República. 
            Por meio desta, queremos expressar para as autoridades e para a opinião pública, nosso repúdio aos constantes atos de intimidação e agressão como os que ocorreram na noite deste último sábado, 3 de março, véspera da execução adiada da expulsão,  quando, tratores da Marinha do Brasil e policiais militares cercaram e ameaçaram a casa de alguns moradores do Quilombo, como os jornais publicaram e fontes fidedignas nos noticiaram nesta manhã de domingo, em que nós estávamos reunidos.      
             Expressamos nosso irrestrito apoio aos quilombolas quando exigem o direito à permanência em suas terras e estão alertados, não aceitando que, após vários prazos, tudo seja configurado para que eles aceitem uma chamada “retirada pacifica”. 
            O estado brasileiro, baiano e toda a sociedade, tem uma grande divida a pagar com estes moradores e o primeiro passo é deixá-los viver em paz em suas terras podendo cultivar e criar seus animais.           
            Aproveitamos esta oportunidade em que estamos aprofundando o sentido da 5ª Semana Social Brasileira, a ser realizado ao longo deste ano e do próximo,  para apelar à instancia nacional da CNBB Nacional,  para que, tomando conhecimento desta situação lamentável que nossos irmãos estão vivendo, possa contribuir junto às autoridades para que não seja levada a cabo mais uma injustiça gritante, com a expulsão das famílias de Rio dos Macacos e Tororó, um  território onde  eles vivem e labutam,  há mais de 100 anos.
 Salvador, BA, 4 de março de 2012
 (seguem as assinaturas de 25 coordenadores(as)
das Pastorais Sociais do regional Nordeste III – Bahia e Sergipe

Código Florestal deve anistiar 75% das multas milionárias

A aprovação do novo Código Florestal, prevista para esta semana, deve levar à suspensão de três em cada quatro multas acima de R$ 1 milhão impostas pelo Ibama por desmatamento ilegal.
A reportagem é de Lúcio Vaz João Carlos Magalhães e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 05-03-2012.]
A Folha obteve a lista sigilosa e atualizada das 150 maiores multas do tipo expedidas pelo órgão ambiental e separou as 139 que superam R$ 1 milhão. Dessas, 103 (ou pouco menos que 75%) serão suspensas se mantido na Câmara o texto do código aprovado no Senado. Depois, ele segue para a sanção da presidente Dilma Rousseff.
Pelo texto, serão perdoadas todas as multas aplicadas até 22 de julho de 2008, desde que seus responsáveis se cadastrem num programa de regularização ambiental. As punições aplicadas depois disso continuarão a valer.
Para conseguir o perdão, o produtor terá três alternativas: recompor a reserva legal (metade da área pode ser com espécies exóticas), permitir a regeneração natural ou comprar área de vegetação nativa de mesmo tamanho e bioma do terreno desmatado.
As multas milionárias que devem ser anistiadas somam R$ 492 milhões (60% do total das multas acima de R$ 1 milhão) e se referem à destruição de 333 mil hectares de vegetação -equivalente a duas cidades de São Paulo.
Quando contadas as multas de todos os valores, a anistia chega a R$ 8,4 bilhões.
A maioria das infrações milionárias foi aplicada pelo Ibama entre 2006 e 2008. Nenhuma foi paga até hoje.
Ao menos 48 desses produtores também respondem a processos judiciais por crimes contra o ambiente. A punição a esses crimes deverá ser extinta. Dez foram processados também por manter trabalhadores em condições análogas à de escravo.
A maior parte dos infratores é dona de fazendas e de empresas agropecuárias, mas há também ligados a madeireira, agroindústria, frigorifico, curtume, imobiliária e posto de gasolina.
Só os dez maiores desmatadores destruíram 98 mil hectares e receberam multas no valor de R$ 166 milhões.
O maior, Léo Andrade Gomes, do Pará, sofreu infrações que somam R$ 32,2 milhões. Derrubou 15 mil hectares de florestas, ou 150 km².
O ex-deputado federal Ernandes Amorim (PTB-RO) foi multado em R$ 2,4 milhões por danos ambientais numa área de 1.600 hectares.
A infração de maior valor da lista de 150, R$ 23,3 milhões, foi aplicada à agropecuária Santa Bárbara Xinguara, emSão Félix do Xingu (PA), que tem o empresário Daniel Dantas como acionista e investidor. Mas essa não poderá ser perdoada porque a autuação ocorreu em 2010.
Auditores do Ibama e procuradores federais avaliam que a anistia vai atrasar ainda mais os processos administrativos e judiciais, além de sinalizar a impunidade, estimulando novos crimes.
A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva afirma que o novo código "promove a anistia dos grandes desmatadores, reduz a proteção do meio ambiente e vai aumentar o desmatamento". "Quem desmatou mais será favorecido porque suas propriedades estão mais valorizadas."
O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Moreira Mendes (PPS-RO), defende o modelo de anistia proposto.
"Há 20 anos, não havia preocupação com o ambiente. Seguíamos a tradição dos nossos pais. Essa preocupação evoluiu muito. Mas temos que considerar a situação de fato e fazer a transição. O que está feito, está feito."
Quem desmata não é bandido, afirma produtor
A Folha tentou contato com os dez maiores desmatadores, mas a maioria estava incomunicável em suas fazendas. Não houve resposta aos recados deixados.
O produtor Mário Luiz Breda destruiu 8,3 mil hectares de floresta objeto de especial preservação, em janeiro de 2007, e recebeu três multas no valor de R$ 12,4 milhões.
Ele aguarda pela anistia e reclama do tratamento que a sua classe bem recebendo: "Não é porque a gente é desmatador que é bandido. Nós somos todos trabalhadores, mas viramos marginal da noite para o dia", diz.
Olivier Vieira recebeu multa de R$ 17,7 milhões por desmatar 3,5 mil hectares em São José do Xingu (MT), no Nordeste do Estado. Disse que não se lembrava: "Sou só um pequeno sócio nessa empresa. Não cuido dessa parte".
Décio Aquino Rosa desmatou 5,5 mil hectares em Cumaru do Norte (PA) e recebeu multas no total de R$ 15,1 milhões em 2007 e 2008. A União tenta recuperar R$ 19,9 milhões por via judicial. Na Justiça, disse que foi obrigado a desmatar porque a área estaria em "conflito agrário".
A Santa Bárbara afirma que houve equívoco do Ibama na aplicação das multas. "Algumas se referem a áreas que sequer são da empresa, outras dizem respeito a áreas que, devidamente autorizadas, passaram pelo processo de limpezas de pasto", diz nota da empresa.
Fonte: IHU

sábado, 3 de março de 2012

A solução é a “economia verde”?

Ivo Lesbaupin
A humanidade está hoje na direção da não-sustentabilidade, caminhando rapidamente para tornar a Terra inabitável.
O mundo está sofrendo um aquecimento global sem precedentes, que tem produzido a multiplicação de eventos climáticos extremos (fortes ondas de calor, invernos rigorosos, tempestades e inundações, incêndios cada vez mais frequentes, furacões e tsunamis), a extensão das áreas de seca no mundo, forte impulso na desertificação, perdas frequentes de colheitas, redução das áreas agricultáveis, e a secagem temporária ou permanente de inúmeros rios.
Está também derretendo fontes de água doce como as geleiras, os glaciares e as calotas polares, produzindo o aumento do nível dos mares. 
Estamos desmatando numa velocidade incrível por toda parte, o que faz prever o desaparecimento total das florestas em alguns países nos próximos anos[1].
Nossa água doce está sendo utilizada em uma quantidade muito acima de sua capacidade de reposição. Além disso, ela está sendo poluída pelo não-saneamento, pelos agrotóxicos, pelos produtos tóxicos das indústrias e da mineração. 
O processo de acidificação dos mares leva cientistas a prever que, possivelmente dentro de 30 a 40 anos, desaparecerão os peixes.
Recifes de corais inteiros já desapareceram ou estão em vias de desaparecer. 

Quais as causas destas mudanças climáticas tão dramáticas, destes desastres ambientais?
Em primeiro lugar, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera, numa proporção muito maior nos últimos duzentos anos – e sobretudo nos últimos trinta anos - do que nos setecentos mil anos anteriores. 
Esta emissão é produzida, em primeiro lugar, pela utilização de combustíveis fósseis – petróleo, gás, carvão. Ora, estes, especialmente o petróleo, têm sido a principal fonte de energia dos últimos cem anos. A “civilização do automóvel” tornou a emissão de gases um fenômeno exponencial e a poluição das cidades (e da atmosfera em geral) um fato habitual. 
O gás metano é o um dos principais produtores de efeito estufa. Ora, um dos produtores deste gás é o gado. A extraordinária multiplicação do número de cabeças de gado no mundo – não para atender as necessidades de alimentação - aumentou enormemente a produção de metano. 
Outro produtor de gás metano são os lagos artificiais das usinas hidrelétricas que inundam partes de florestas. A madeira submersa, no correr do tempo, apodrece e produz metano. 
Em segundo lugar, a destruição dos bens naturais é produzida por um modelo de desenvolvimento centrado na produção e no consumo cada vez maior de bens, o modelo produtivista-consumista. 
Como a obtenção de lucros é o principal objetivo dos produtores, interessa-lhes que todo cidadão seja consumidor e que seja consumidor insaciável, de modo a comprar cada vez mais produtos. Esta obsessão pela produção tem como consequência a utilização dos bens naturais renováveis numa velocidade maior do que a sua capacidade de reposição e dos bens não renováveis em direção à sua extinção – o que pode variar é o prazo em que estes bens vão desaparecer.
Além disso, a produção incessante de bens exige uma quantidade de energia sempre maior, tornando também crescente a necessidade de geração de energia. 
Sabe-se que os países desenvolvidos têm apenas 20% da população mundial mas utilizam 80% dos recursos naturais. A Terra é limitada, ela não comporta uma produção sem fim. Se o consumo dos habitantes da China se igualar ao consumo dos habitantes dos Estados Unidos, nem duas Terras serão suficientes. E a China, assim como a maioria dos países, almeja um nível de consumo semelhante.
O que tem levado a desmatar nesta velocidade alucinante? O que tem levado a consumir muito mais água doce do que sua capacidade de reposição? o que tem levado a poluir as águas numa proporção tão grande? 
O modelo econômico dominante não busca apenas atender às necessidades dos cidadãos: ele produz incessantemente uma enorme quantidade de bens e procura convencer, pela propaganda, que são absolutamente indispensáveis para a vida. Ele os produz não para durarem, mas para se tornarem rapidamente obsoletos e precisarem ser repostos[2]. Ele não os produz para poderem ser consertados, mas para serem, ao menor defeito, trocados por um novo. O modo como tais produtos são feitos impede que eles sejam consertados ou mesmo que sejam aperfeiçoados. Este modelo é baseado na descartabilidade dos produtos, com a consequente geração de um lixo cada vez maior e inaproveitado. 
Pois bem, estas são as principais causas dos nossos graves problemas ambientais.

O que o documento-base (“rascunho zero”) produzido pela ONU para a Rio+20 propõe como solução a estes problemas? 
A “economia verde”[3].
 A “economia verde” propõe a redução da utilização do petróleo, do gás e do carvão nos próximos anos? A “economia verde” propõe a progressiva mudança da matriz energética do mundo, para passarmos dos combustíveis fósseis às energias renováveis (solar, eólica, geotérmica, etc.)? 
Não.
Então, a “economia verde” não pretende atacar a principal causa do aquecimento global e, consequentemente, não pretende atacar a principal causa das dramáticas mudanças climáticas que a humanidade está sofrendo. 
A “economia verde” pretende superar o modelo produtivista-consumista, fonte da destruição acelerada dos nossos bens naturais e do aquecimento global? 
Não.
Ao contrário, o “rascunho zero” encoraja fortemente os negócios e a indústria – e, aí dentro, especialmente as grandes empresas - a mostrarem sua liderança na realização da “economia verde”. Não se pede mudança nesta forma de agir da indústria, das grandes empresas, do business as usual
O documento apóia os instrumentos de mercado para reduzir a destruição dos bens naturais. Acredita que a solução virá do aumento do comércio mundial, do livre comércio (sem barreiras) entre os países. Enfatiza a importância do Banco Mundial, do FMI (Fundo Monetário Internacional), da OMC (Organização Mundial do Comércio) para a implementação desta “economia verde”. 
Em suma, o documento pretende que se faça uma “economia verde” sem mexer no essencial da economia dominante, naquele essencial que a torna depredadora da natureza. Quer manter as mesmas instituições – FMI, OMC, BM - que lideraram o processo de neoliberalização das economias dos últimos trinta anos, período no qual, a depredação da natureza foi ainda maior que nos períodos anteriores, graças à “desregulação”, à redução ou anulação dos controles públicos sobre a atuação dos bancos e das empresas. 
A prioridade atribuída ao capital financeiro e seus lucros – e, por isso, ao controle da inflação e dos gastos públicos em políticas sociais – desvalorizou os seres humanos, desprestigiou os trabalhadores, gerou um desemprego massivo e estrutural por toda parte, enfraqueceu os direitos humanos. Hoje, os seres humanos são menos importantes que a dívida pública: para enfrentá-la, tudo é válido, mesmo a destruição das condições de vida digna para as pessoas (como está ocorrendo na Europa atual). Os governos não governam em primeiro lugar para os cidadãos, governam para pagar aos bancos, aos investidores (nacionais e internacionais). 
E a concorrência desenfreada entre as empresas levou a uma destruição mais acelerada dos bens naturais, ao aumento do aquecimento global. 
O que tem feito o “mercado” com relação aos bens naturais até agora? Na sua busca desregulada de lucro – que é o objetivo essencial do mercado -, as empresas exploram a natureza até o seu esgotamento. Esta é a razão pela qual as florestas estão desaparecendo, o petróleo continua sendo usado como principal fonte de energia, a água tem sido esgotada em inúmeras fontes por todo o globo terrestre. As condições de “comércio livre” têm favorecido a destruição da pequena agricultura de países emergentes pelos países desenvolvidos. 
Por que não se substituiu o investimento na produção de automóveis individuais pelo investimento na produção de meios de transporte coletivos (trens, metrôs e outros), muito mais eficientes, muito mais úteis para a população e menos poluentes? Porque as grandes empresas automobilísticas querem continuar a ter lucro e os governos as favorecem. A solução, portanto, não é o “mercado”, é o controle do “mercado”, é a submissão da lógica da busca do lucro individual à lógica da busca do bem público: os governos devem investir recursos públicos nos transportes coletivos, solução primeira para reduzir a utilização dos automóveis individuais, para reduzir o consumo dos recursos usados em sua fabricação, para a redução da utilização de combustíveis fósseis e da poluição atmosférica. 
Por que as florestas são desmatadas? Porque contêm madeira que tem muito valor no “mercado”. E porque devem ceder espaço para o agronegócio (o “mercado”). O que vai impedir o desmatamento? A exigência pública de que as florestas sejam preservadas. Não é o “mercado” que preserva a floresta, ao contrário, é sua afirmação como bem comum, bem de todos, do qual ninguém pode se apropriar privadamente. 
Para dar um exemplo de “precificação” dos bens naturais: o que aconteceu quando os serviços públicos de água em Cochabamba (Bolívia) foram privatizados (ou: passaram a ter “valor de mercado”) no ano 2000? O preço dos serviços de água foram quadruplicados - para dar lucro. Antes, era um serviço para a população: um serviço público não precisa de lucro, basta investir o necessário à sua realização. Já o serviço prestado por uma empresa privada, precisa de lucro para os seus proprietários e, eventualmente, para gastar menos (e ter mais lucro), a empresa pode deixar de fazer os investimentos necessários. A água só voltou ao valor anterior quando o serviço voltou a ser público, isto é, quando saiu do “mercado”. 
A solução para a grave crise ambiental que estamos vivendo não é, pois, a colocação de preço nos bens naturais e nos “serviços ambientais”. É a preservação dos bens e dos processos naturais como bens comuns, como bens de todos, de toda a humanidade. Nós não precisamos de uma “economia verde”: nós precisamos de uma outra economia, nós precisamos de um outro desenvolvimento.
_______________________
[1] Segundo Jared Diamond, no Haiti restam florestas em apenas 1% do território. A destruição de florestas pluviais acessíveis em terras baixas fora de parques nacionais já está virtualmente completa na Malásia peninsular e, na taxa atual, se completará em menos de uma década nas ilhas Salomão, Filipinas, Sumatra, Sulawesi (Diamond, Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro, Record, 2009).
[2] Como se explica que, mesmo dispondo de tecnologias e materiais mais aperfeiçoados, muitos bens produzidos hoje durem menos que produtos antigos – como é o caso de vários eletrodomésticos?
[3] O “rascunho zero” foi elaborado a partir de contribuições de países, grupos regionais, organizações internacionais e se baseou fortemente num amplo relatório feito pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) sobre a “economia verde” – de mais de 600 páginas (cf. www.unep.org/greeneconomy ).
Ivo Lesbaupin é secretário-executivo do Iser Assessoria e membro da diretoria executiva da Abong.
Fonte: ISER Assessoria.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vídeo mostra o que está por trás da reforma do Código Florestal

“De onde vem a força do agronegócio?” mostra, de maneira didática, quem ganha e quem perde na estruturação e financiamento do agronegócio brasileiro. O vídeo foi lançado na quarta-feira (29/2) durante café-da-manhã da Frente Parlamentar Ambientalista, na Câmara dos Deputados. 
Baseado em análise das pesquisadoras Regina Araujo, doutora em geografia pela universidade de São Paulo, e Paula Watson, também formada em geografia pela USP, o vídeo é a expressão gráfica da análise textual.
Texto e vídeo mostram que o Brasil é o segundo maior exportador individual de produtos agrícolas do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, ambos com a produção apoiada na monocultura “Nossas leis ambientais estão em construção desde a década de 1930, e até agora não provocaram nenhum impedimento ao espantoso crescimento do agronegócio”, lembram as pesquisadoras.
“Grandes agricultores querem fazer a sociedade crer que a produção agrícola brasileira, entre as potências agrícolas, fazem do agronegócio o porto- seguro da economia brasileira.  No entanto nosso modelo agrícola não é ambientalmente sustentável, não favorece a sociedade, a agricultura familiar e colocará  em risco grande parte da biodiversidade , risco que hoje é controlado pela legislação ambiental brasileira. Daí o interesse em alterar o Código Florestal e favorecer ainda mais o grande agricultor”, mostra a animação.
A disseminação do vídeo ao maior número de pessoas tornará possível a reflexão e maior compreensão sobre o que está em jogo na reforma do Código Florestal Brasileiro e porque essa reforma é tão prejudicial à sociedade como um todo.
A WWF pede:
Ajude a divulgar o vídeo por meio de blogs, link em seus perfis das redes sociais, ou mesmo conversando sobre o assunto em casa, no trabalho e com amigos.
Fonte: WWF