segunda-feira, 17 de junho de 2019

Lançado o Documento de Trabalho do Sínodo da Amazônia

Da página do IHU, reportagem é de Luis Miguel Modino. 

Um fruto de um longo percurso, isso poderia definir o Instrumentum Laboris do Sínodo para a Amazônia que esta segunda-feira, 17 de junho, foi apresentado no Vaticano. Nele, como indicado na conclusão do documento, “tem se escutado a voz da Amazôniaà luz da fé (Parte I) e tem se tentado responder ao clamor do povo e do território amazônico por uma ecologia integral (Parte II) e pelos novos caminhos para uma Igreja profética na Amazônia (III Parte)".
A partir deste momento, a Igreja, especialmente os Padres Sinodais, são desafiados "a dar uma nova resposta às diferentes situações e a buscar novos caminhos que possibilitem um kairós para a Igreja e para o mundo". Temos um pouco menos de quatro meses para o início da assembleia sinodal, que se reunirá no Vaticano de 6 a 27 de outubro. Neste momento, cabe aos Padres sinodais, especialmente os bispos das jurisdições eclesiásticas da Pan Amazônia, sempre chamados a conhecer a realidade local e a vida das pessoas que lhes são confiadas, a sentir o cheiro das ovelhas, para ver até onde o documento recolhe as necessidades de sua Igreja local. 
Mapa da região Pan-Amazônica (Foto: nome do fotógrafo)
Não podemos esquecer que este documento, que segue o método da Igreja latino-americana, ver/escutar, julgar, agir, ainda é um instrumento a serviço de um processo mais amplo, que dará passos sucessivos nos próximos meses. Nesta perspectiva, devemos entender que, no Instrumentum Laboris, não encontraremos todos e cada um dos anseios pessoais. Como disse algumas semanas atrás Dom Mário Antônio da SilvaBispo de Roraima e vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, "que o Sínodo possa vir ao encontro, não de expectativas, mas de necessidades das comunidades da Amazônia", algo que também pode ser dito sobre o Instrumento de Trabalho. 
Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho – RO, e membro do Conselho Presinodal, afirma que o Instrumentum Laboris, “vai nos dando algumas possibilidades para também nos prepararmos com nossos grupos de sacerdotes, religiosos, religiosas, catequistas, ministros, e o Povo de Deus em geral, para algumas perspectivas”. Ele reconhece que “evidentemente que o documento, ele vai nos provocar para passos possíveis de concretiza-los logo com a conclusão do Sínodo, outros passos que vamos fazer processos e coisas que serão um horizonte para onde nós queremos caminhar como Igreja, Povo de Deus, como Igreja Pan-Amazônica”. 
Segundo o arcebispo de Porto Velho, “evidentemente que o Sínodo não vai atrás de curiosidades, mas tenta responder coisas concretas que nós precisamos enfrentar aqui na nossa região”. Desde sua condição de presidente do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, ele diz que “o Sínodo, desde a sua convocação, o Papa nos interpela por uma relação diferenciada com os povos indígenas, com os povos originários”. É por isso que “nós temos que nos perguntar que passos nós estamos dando em nossas Igrejas para que verdadeiramente, os primeiros habitantes destas terras, sejam ouvidos, respeitados e acompanhados na sua luta por dignidade, por justiça e, sobretudo, respeito a suas culturas, a suas espiritualidades, a seus ritos, a suas línguas. Há o direito deles ser indígenas em sua integridade”, afirma Dom Roque. 
Dom Rafael Cob, também membro do Conselho Presinodal, e bispo do Vicariato Apostólico de PuyoEquador, destaca no documento quatro eixos estruturais: escutadiálogoinculturação e profecia, em torno do eixo central, que é o rosto amazônico e mergulhado na ecologia integral. O bispo de Puyo destaca no Instrumentum Laboris o pano de fundo da Evangelii Gaudium, que nos chama a uma conversão pastoral, da Laudato Sí, que nos convida a uma conversão ecológica, e da Episcopalis Conmunio, fazendo uma Igreja samaritana com seus desafios e esperanças. 
Cada uma das partes é dividida em capítulos, quatro na primeira, que apresenta "a realidade do território e de seus povos", nove na segunda, que inclui "a problemática ecológica e pastoral", e oito na terceira parte, que aborda "a problemática eclesiológica e pastoral". Na segunda e terceira partes, ao final de cada um dos capítulos, são oferecidas sugestões, todas colhidas da escuta do território e do povo de Deus, chamadas a influenciar não só a vida da Igreja, mas também a própria sociedade amazônica, tendo sempre como atitude fundamental a defesa profética da Amazônia e de seus povos. 
Amazônia Brasileira (Foto: Márcio Ferreira | Agência Pará)
Instrumentum Laboris tem como ponto de partida a necessidade da Igreja ser ouvinte, que escute, algo que "não é fácil", mas que deve gerar "uma resposta concreta e reconciliadora", que a Amazônia implora. Não nos esqueçamos de que esta é uma "realidade contrastante" que é "cheia de vida e sabedoria", mas que sofre as consequências do "desmatamento e destruição extrativa que exige uma conversão ecológica integral". Tudo isto deve levar a um "encontro com as culturas que inspiram os novos caminhos, desafios e esperanças de uma Igreja que quer ser samaritana e profética através de uma conversão pastoral". 
A vida é a base do Sínodo para a Amazônia, que nesta região é identificada com a água. Uma vida em abundância, expressa no "bem viver", mas que "está ameaçada pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos", que exige uma defesa e um cuidado, que "se opõe à cultura do descarte, da mentira, da exploração e da opressão". Não se pode esquecer que "na Amazônia, a vida está inserida, ligada e integrada ao território", onde tudo está interligado e se descobre "a obra-prima da criação do Deus da Vida". 
Sínodo é um tempo de graça, de inculturação e interculturalidade, de desafios sérios e urgentes, mas também de esperança. Ao mesmo tempo, esse evento eclesial quer gerar espaços de diálogo "que nos ajudem a sair do caminho da autodestruição da atual crise socioambiental". Um diálogo que seja um ponto de partida para a missão e que tenha como interlocutores os povos amazônicos, que provoque uma dinâmica de aprendizado e resistência.
O clamor da Terra é o clamor dos pobres, que são os que sofrem as consequências da destruição extrativista. Um clamor que vem dos povos da Amazônia, que não são reconhecidos seus territórios e são afetados pelos projetos de "desenvolvimento" e a poluição, que exige urgentemente uma ecologia integral que paralise a destruição da Amazônia, algo que afeta especialmente os povos em isolamento voluntário. 
Na Amazônia, o fenômeno global da migração também está muito presente, o que "tem contribuído para a desestabilização social nas comunidades amazônicas". Isso fez com que a população amazônica se reunisse nas cidades, onde vive entre 70 e 80%, o que requer cuidados eclesiais, também das famílias e comunidades, cada vez mais vulneráveis. Em muitos casos, esse é o resultado da corrupção que está presente na região, "a que existe fora da lei e a que se protege numa legislação que trai o bem comum", a tal ponto que "grandes empresas e os governos organizaram sistemas de corrupção". Tudo isso afeta a "saúde integral" dos povos, “que supõe uma harmonia com o que a Mãe Terra nos oferece", fonte da medicina tradicional. São conhecimentos que devem ser abordados por uma educação integral, que gera um encontro e aborda um maior conhecimento sobre o que é a ecologia integral, para a qual é necessária uma conversão ecológica. 
A terceira parte do documento de trabalho aborda os desafios e as esperanças de uma Igreja profética na Amazônia, chamada a ter um rosto amazônico e missionário, "que saiba discernir e assumir sem medo as diversas manifestações culturais dos povos", uma Igreja participativa, acolhedora, criativa e harmoniosa, com rosto amazônico e indígena, que reconhece as "sementes do Verbo" e busca "um enriquecimento mútuo das culturas em diálogo". Que se expressa em uma liturgia inculturada, que assume no ritual litúrgico e sacramental "os ritos, símbolos e estilos celebrativos das culturas indígenas", tornando possível para os sacramentos serem "fonte de vida e remédio acessível a todos (cf. EG 47), especialmente os pobres (cf. EG 200)". 
Para isso, ele sugere que "em vez de deixar as comunidades sem a Eucaristia, sejam alterados os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la". O documento, sem questionar o celibato a qualquer momento, argumenta que "para as áreas mais remotas da região, estude-se a possibilidade de ordenação sacerdotal de pessoas idosas, preferencialmente indígenas, respeitados e aceitos por sua comunidade, mesmo que já tenham família constituída e estável, a fim de garantir os sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã". Ao mesmo tempo, é necessário" identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, tendo em conta o papel central que desempenham hoje na Igreja Amazônica", aspectos que realmente abrem a possibilidade de encontrar novos caminhos para a Igreja. 
Ao abordar a questão da organização das comunidades, o documento questiona que "seria oportuno reconsiderar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder do governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial, administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem", elemento decisivo que permite superar o clericalismo como instrumento de poder. Por isso, apela a "promover vocações autóctones de varões e mulheres" buscando "indígenas que preguem aos indígenas a partir de um profundo conhecimento de sua cultura e sua língua, capaz de comunicar a mensagem do evangelho com a força e a eficácia de quem tem seu bagagem cultural". Ao mesmo tempo, ele insiste em passar de uma "Igreja que visita" para uma "Igreja que permanece". 
Os últimos capítulos abordam o tema da evangelização nas cidades, procurando incluir nela os indígenas urbanos, fomentando o diálogo ecumênico e inter-religioso. Como em qualquer outro lugar, o papel da mídia na Amazônia é fundamental. Portanto, "é importante que o empoderamento da mídia atinja os mesmos nativos", criando uma ressonância que ajuda "a conversão ecológica da Igreja e do planeta", que "a realidade amazônica supere a Amazônia e tenha repercussão planetária", a amazonizar o mundo e a Igreja. O Sínodo pode ajudar a aumentar o papel profético da Igreja, que gera uma promoção humana integral. Por essa razão, é proposta uma Igreja em saída, na escuta, que se coloca a serviço daqueles que questionam o poder, mesmo que isso leve seus membros a arriscarem suas vidas, ao martírio. 
Não nos esqueçamos de que o que deve mover o Sínodo para a Amazônia é ser "uma expressão concreta da sinodalidade de uma Igreja em saída, para que a vida plena que Jesus veio trazer ao mundo (cf. Jo 10, 10) chegue a todos, especialmente aos pobres". Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lembrar o que já disse o Documento Preparatório, onde ele insistiu que "as reflexões do Sínodo Especial superam o âmbito estritamente eclesial amazônico, por serem relevantes para a Igreja universal e para o futuro de todo o planeta". Estamos diante de um evento universal, que muitos consideram decisivo no futuro da Igreja e da humanidade. 
Como afirma Dom Roque Paloschi, “vamos pedir que o Espírito Santo nos conduza e que a nossa Igreja viva a alegria de buscar esses novos caminhos e que nós possamos, no final desse Sínodo, concluir como os seguidores e seguidoras de Jesus naquele concilio de Jerusalém, o Espírito Santo e nós decidimos. Que seja o Espírito Santo que conduza e que nossas respostas e nossos empenhos sejam verdadeiramente voltados para responder aos desafios da evangelização desta porção do Povo de Deus”.
FONTE: IHU

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Presidente da Fundação Renova é denunciado no MPF por comércio ilegal de madeira na Amazônia

Antes de comandar a Renova, Roberto Waack
fez carreira em organizações ligadas à sustentabilidade
 (Foto: Will Shutter / Câmara dos Deputados / Divulgação)
Por Daniel Camargos da página do Repórter Brasil
Roberto Waack, diretor-presidente da Fundação Renova, criada em 2016 para reparar os danos ambientais e sociais provocados pelo rompimento da barragem de Mariana (MG), é um dos denunciados pelo Ministério Público Federal do Amazonas por participação em um esquema fraudulento de comércio ilegal de madeira na Amazônia. 

Além de comandar a Fundação Renova, Waack foi um dos fundadores da empresa Amata – acusada após ser flagrada pela Operação Arquimedes, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, falsificando documentos para burlar a fiscalização e exportar madeira extraída de área irregular. Waack foi sócio da Amata até setembro de 2013, quando o esquema ilegal já ocorria, segundo denúncia do procurador Leonardo de Faria Galiano. Waack seguiu no conselho administrativo até junho de 2016.

A Amata foi um dos alvos da Operação Arquimedes, que fez a maior apreensão de madeira ilegal na história da Amazônia quando, na primeira fase da operação, em 2017, fiscais do Ibama apreenderam 458 contêineres pertencentes a 63 empresas. Se as toras apreendidas fossem alinhadas, cobririam a distância de 1,5 mil quilômetros, equivalente ao percurso entre Goiânia e Florianópolis.

Desse total, 140 contêineres estavam destinados à exportação para Europa, Ásia e América do Norte. Parte da madeira, o equivalente a cinco contêineres, seria exportada pela Amata e vendida como se houvesse sido retirada de áreas de manejo florestal sustentável. Era, porém, uma fraude, segundo o Ministério Público, pois a Amata falsificava documentos sobre a origem das toras, o que foi possível constatar após a apreensão de documentos na segunda fase da operação, realizada em abril deste ano. 

A Amata tinha autorização do Serviço Florestal Brasileiro para comercializar madeira extraída da Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, mas extrapolou a área em 3 mil hectares, segundo a denúncia do Ministério Público.   

ação civil públicatramita na 7ª Vara Federal do Amazonas e aguarda decisão sobre liminar que pede à Amata o ressarcimento dos danos materiais ao meio ambiente, estimados em R$ 47,3 milhões. Além disso, pede o pagamento de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 10 milhões. Para o procurador Galiano, Waack e os outros quatro denunciados ligados à Amata são responsáveis solidários pelo dano e devem pagar caso a empresa não pague. 

“Todos, pelas posições ocupadas no quadro social empresarial, estariam no comando da Amata durante as fraudes, ditando seus rumos”, afirma o procurador na ação. O MPF, segundo o procurador, aguarda o término das investigações da Polícia Federal para avaliar se ajuizará ações cíveis, criminais e administrativas.

O advogado Lucas Moraes, um dos responsáveis pela defesa de Roberto Waack, diz em nota que a ação não especifica quais foram os atos praticados por ele e nem justifica a identificação dele como um dos administradores da Amata. Destaca ainda que Waack deixou a presidência da entidade em agosto de 2013 e que renunciou ao cargo de conselheiro em junho de 2016, antes do início da investigação. “Há plena convicção de que todas as suas atividades foram regulares e serão assim julgadas”, afirma o advogado, em nota enviada à Repórter Brasil

Em nota, a Amata afirma que é um “equívoco” a empresa estar entrar as companhias investigadas. “Seguimos na certeza de que esse equívoco será esclarecido ao longo da apuração dos fatos”. A nota diz ainda que a empresa: “Segue os mais rigorosos padrões de produção e governança certificados por organizações internacionais independentes. Nascemos para demonstrar que é possível conciliar desenvolvimento econômico e manter a floresta em pé”. Leia aqui a nota na íntegra.

Esquentando a madeira

A essência da fraude estava em burlar o Documento de Origem Florestal (DOF). O documento deve acompanhar a madeira desde origem até o destino. Porém, o Ibama analisou as guias do documento e constatou que a Amata emitiu DOF’s de madeira nativa proveniente de duas áreas distintas e que as regiões indicadas como exploradas eram pastagens, ou seja, sem árvores para serem cortadas. 

A Operação Arquimedes foi iniciada após alerta da Receita Federal e do Ibama, em 2017, que verificou aumento incomum do trânsito de madeira pelo Porto Chibatão, em Manaus. A segunda fase foi realizada em abril deste ano e cumpriu 29 mandados de prisão e 109 mandados de busca e apreensão. 
Além das empresas que burlavam os documentos para “esquentar” a madeira, a operação apura se houve corrupção nos órgãos públicos responsáveis pelo controle e fiscalização.

A ação do MPF também pede à Justiça autorização para compartilhar as informações com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, com o objetivo de evitar a compra de madeira de áreas protegidas. 

A Fundação Renova foi criada em março de 2016 após acordo entre a Samarco, responsável pela barragem que rompeu, suas proprietárias (Vale e BHP Billiton) e os ministérios públicos e defensorias de âmbito federal e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. A lama de rejeitos da barragem matou 19 pessoas, destruiu comunidades, devastou o meio ambiente ao longo de 670 quilômetros na bacia do rio Doce e atingiu o Oceano Atlântico. Procurada, a Renova não quis se manifestar. 

Antes de comandar a Fundação Renova, o biólogo Waack fez carreira em organizações ligadas à sustentabilidade chegando a presidir o conselho diretor da WWF Brasil e integrar conselhos de entidades como Global Reporting Initiative (GRI), Instituto Ethos, Fundo Brasileiro para Biodiversidade e da Forest Stewardship Council (FSC). Já a Amata foi fundada por Waack e mais dois sócios, em 2005, sendo a primeira empresa a conseguir uma concessão florestal pública no Brasil, modalidade em que o governo concede a empresas e comunidades o direito de manejar florestas públicas para extrair madeira e, em contrapartida, os concessionários pagam ao governo o valor acordado na licitação das áreas.
FONTE: REPÓRTER BR

domingo, 19 de maio de 2019

Papa Francisco entrega sua cruz peitoral à comunidade de Brumadinho

O Papa Francisco entregou sua Cruz peitoral, para a comunidade de Brumadinho, através de seu enviado o Monsenhor Bruno Marie Duffè, que esteve em visita àquele município, atingido pelo crime da Vale. A entrega ocorreu no dia18 de maio, durante atividades do Sábado da Compaixão e da Solidariedade:  Visita e Celebração da Esperança em Brumadinho (Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira e Igreja Matriz de Brumadinho).

Essa cruz irá passar por cada família das comunidades de Brumadinho e após ficará esposta no memorial que será construído pela Arquidiocese.

O monsenhor Duffé, Secretário do Vaticano para Desenvolvimento Integral esteve em Brumadinho, reafirmou o compromisso do Vaticano em permanecer no apoio às comunidades que defendem seus territórios frente à mineração, ao transmitir  a mensagem de solidariedade do Papa Francisco aos familiares das vítimas do rompimento da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho. Fez, também, severas críticas ao liberalismo que tem o dinheiro como prioridade, deixando as pessoas e a natureza em segundo plano, o que resulta em ocorrências como as dos crime em Mariana e Brumadinho. Afirmou ainda que as populações não podem viver em um clima de insegurança e de irresponsabilidade, como nos casos de eminência de rompimento de barragens, na região metropolitana de Belo Horizonte. Citou explicitamente, o já anunciado colapso de talude da cava da mina de Congo Soco,  município de Barão de Cocais, que poderá resultar no rompimento da barragem Sul Superior daquela mina.

Durante a visita à comunidade de Córrego do Feijão, Monsenhor Duffé ouviu testemunhos de fiéis que perderam familiares e seus meios de vida em consequência do rompimento da barragem. Emocionado,  partilhou: “consigo imaginar a dor do povo de Brumadinho e trago, a pedido do Papa, uma mensagem de esperança. Crendo que, no Córrego do Feijão, está o coração da Igreja e da humanidade”. O Monsenhor convidou o povo de Brumadinho a se tornar “profeta que anuncia um tempo novo, que consola e lutam por um mundo mais justo, combatendo a ganância”.

Vale tentou impedir que representante do Papa chegue até a lama.

Na comunidade do Córrego do Feijão Vale bloqueou a procissão, com o representante do Papa, impedindo a chegada junto à lama. Um momento forte que revelou um Estado capturado pela empresa, uma organização criminosa, que controla a cena do crime e o território. Triste realidade, onde a lama que desceu sem pedir licença, matando pessoas, destruindo meios de vida e a natureza.

Na comunidade do Parque da Cachoeira, a Vale tentou novamente bloquear a procissão e impedir o representante do Papa, chegar na lama. Contudo, a comunidade, o representante do Papa, padres, religiosos e religiosas, no, em não pararam diante da barreira, e chegaram até a lama. A Vale, com seus funcionários, não conseguiu impedir que se abençoasse a lama, Campo Santo de tantas vidas. Momento importante que afirmou que o território é do povo que nele habita e da natureza que é vida. Monsenhor Duffé abençoou essa grande sepultura de vidas humanas, fruto da ganância das corporações minerarias. O povo rezou pela vida, por suas lutas e dignidade. Ficou demostrado que nada segura o povo, o amor de Deus e a vontade de mudar a realidade.

Duffé afirmou: “É muito importante começar pensando na proteção da vida, porque não é possível pensar no futuro, não é possível desenvolver um novo paradigma, um novo modelo, disse o Papa Francisco. E não é possível que a lei seja a lei do dinheiro e só do dinheiro”.
Presente durante a visita o Dom Sebastião, bispo de Caxias no Maranhão, presidente do GT de MIneração da CNBB.

Representante do Papa participou de Seminário na PUC

Monsenhor Duffé esteve na PUC Minas, em Belo Horizonte no dia 17 de maio, quando participou do Seminário: A Mineração e o Cuidado com a Casa Comum.  O evento debateu a missão da Igreja Católica na defesa da Casa Comum e seu necessário posicionamento frente ao modelo econômico extrativista.

Dom Walmor, recém eleito presidente da CNBB, viajou de Honduras, onde participava da Assembleia Geral do Conselho Episcopal Latino Americano para presidir o evento. O Arcebispo destacou a relevância da iniciativa e sua sintonia com Carta Encíclica do papa Francisco, Laudato Si, que trata do desafio de cuidar da casa comum: “Esse Seminário tem altíssima relevância, pela importância do tema, pelos desafios que nós enfrentamos com o meio ambiente, a exigência do cuidado com a Casa Comum. Tem grande importância porque entrelaça corações e mentes na mesma direção – o coração da Arquidiocese de Belo Horizonte e o coração do Papa Francisco- por meio da presença do monsenhor Bruno-Marie Duffé, do Pontifício Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral -, com os muitos grupos religiosos e segmentos  da sociedade. Somos todos nós, juntos, nos dando as mãos  e nossos corações, para fazermos um novo caminho, que é tão necessário, se quisermos um desenvolvimento integral , se desejarmos um desenvolvimento sustentável”.
O Arcebispo, anunciou ainda que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pretende criar uma Comissão Episcopal para tratar de assuntos referentes ao meio ambiente e desenvolvimento, em especial a mineração, com foco no diálogo da Igreja com setores da sociedade, com o Poder Legislativo e outras instâncias.   A notícia foi recebida em grande otimismo por todos os presentes, e em particular,  pelo atual presidente do Grupo Trabalho de Mineração da CNBB, dom Sebastião Lima Duarte, que destacou a sensibilidade de dom Walmor no tratamento dessa questão.

O bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte e reitor da PUC Minas, dom Joaquim Mol , falou sobre a Missão da Igreja -novos caminhos frente à mineração, em Minas Gerais e no Brasil. O Bispo ressaltou que evangelizar é o anúncio e o testemunho da mensagem central de Jesus, o Reino de Deus, que Ele anunciou, que é dom e precisa ser sinalizado pelas nossas práticas de vida: “Evangelizar é anunciar o Reino que deve penetrar todas as realidades humanas, sociais, ambientais, políticas e culturais com os valores que Jesus anunciou. E Evangelizar em um mundo de mineração, significa evangelizar em um mundo de extrema agressão humana e ambiental”. O bispo lembrou que, assim como em Minas Gerais, essa realidade é secular e comum a muitos outros estados do País. Dom Mol cobrou, ainda,  a responsabilização dos gestores que permitem a ocorrência de tragédias como a de Mariana e a de Brumadinho.


Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, que integra o  Grupo de Trabalho da CNBB sobre  Mineração  fez uma exposição a respeito do tema “O cenário da mineração em Minas Gerais e no Brasil: Rede Igrejas e Mineração”. A articuladora social da Arquidiocese de Belo Horizonte, e moradora de Brumadinho , Marina Oliveira, apresentou  sua vivência  nas múltiplas realidades sociais, em Brumadinho. O Promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais André Sperling falou sobre as estratégias utilizadas pelas mineradoras para dividir as Comunidades. As Políticas Públicas em defesa dos territórios e das comunidades foi o tema da exposição da defensora pública Caroline Morishita , da Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais.
Um momento de comoção e fé marcou o Seminário, quando um grupo de índios da etnia Pataxó, fez uma oração em sua língua de origem – da família maxakali, tronco macro-jê. Hoje, eles estão com a vida na aldeia comprometida,  em razão da poluição das águas do rio Paraopeba,  atingidas pelos dos rejeitos de minério da barragem da Vale .


A visita terminou com a celebração da eucaristia e a mémoria dos mortos.