sexta-feira, 30 de maio de 2025

Leonardo Boff recebe prêmio da Ordem Franciscana por Ecologia Integral

 

Leonardo Boff e Frei Massimo Fussarelli Ministro Geral dos Franciscanos

No dia 30 de maio de 2025, a Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma, foi palco de um momento histórico e profundamente simbólico para toda a Família Franciscana: o teólogo brasileiro Leonardo Boff foi homenageado pela Ordem dos Frades Menores (OFM), franciscanos, por sua contribuição excepcional à causa da ecologia integral. Ele recebeu esse premio das mãos do Ministro Geral dos OFM, o Frei Massimo Fussarelli.

Esse reconhecimento, concedido em ocasião solene, destaca-se não apenas pela sua relevância simbólica, mas também pela autoridade espiritual e profética que carrega. Em tempos de múltiplas crises – climática, social, espiritual e civilizatória – a figura de Boff emerge como um dos grandes porta-vozes da esperança ativa, da fé encarnada e da justiça cósmica.

Homenagem na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma,

Um reconhecimento franciscano

A homenagem integra uma celebração ampla e significativa: os 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, e os 10 anos da Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. Em honra a esses dois marcos, a Ordem dos Frades Menores decidiu reconhecer, com distinção especial, cinco pessoas e organizações em todo o mundo que se destacam por seu compromisso concreto com a ecologia integral.

Entre os homenageados estão:

  • Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, figura de referência no diálogo inter-religioso e na defesa da Criação;

  • A REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica), símbolo de resistência e esperança nos territórios ameaçados da Amazônia;

  • O Movimento Laudato Si’, expressão global da conversão ecológica e da mobilização profética;

  • E, com profunda reverência, Leonardo Boff, cuja vida e obra têm iluminado o caminho da ecoteologia, da libertação e da espiritualidade franciscana.

Boff: teologia com raízes na terra e olhos no céu

Leonardo Boff, hoje professor emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é autor de inúmeras obras de referência mundial, como "Grito da Terra, Grito dos Pobres" — uma síntese poderosa de ética, ecologia e espiritualidade — e "Jesus Cristo Libertador", marco fundador da teologia da libertação. Com sua linguagem acessível e profunda, Boff denuncia as estruturas de dominação e propõe um novo pacto de convivência entre os seres humanos, a Terra e o Divino.

Inspirado pela mística de Francisco de Assis, Boff resgata a fraternidade universal não como um ideal romântico, mas como um chamado urgente à ação ética, política e espiritual. Sua obra aponta para a necessária superação do paradigma tecnocrático e consumista, propondo em seu lugar uma cultura do cuidado, da simplicidade e da reverência à vida.

A Casa Comum como horizonte franciscano

O prêmio da OFM a Leonardo Boff não é apenas uma homenagem pessoal — é o reconhecimento de uma trajetória que ecoa o espírito de Francisco: a escuta dos pobres, o amor pelas criaturas, a crítica profética ao poder que destrói e o anúncio de um novo modo de habitar o mundo.

Neste tempo sinodal e de grave emergência ecológica, a voz de Boff segue sendo um farol para a Igreja, para os movimentos sociais e para todos que buscam integrar espiritualidade, justiça e compromisso ecológico.

Ao reconhecer Leonardo Boff, a Ordem dos Frades Menores reafirma o chamado de São Francisco: "Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas!" — e nos convida, mais uma vez, a sermos guardiões da vida e da Casa Comum.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Família Franciscana denuncia retrocesso ambiental com o PL da Devastação

 


O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia (Sinfrajupe) publica nota de repúdio à aprovação do  PL da Devastação (PL 2.159/2021), pelo Senado Federal, que enfraquece o licenciamento ambiental e abre caminho para a devastação dos biomas e a violação dos direitos dos povos indígenas e tradicionais.

Inspirado por São Francisco de Assis e pela Laudato Si’, o Sinfrajupe denuncia esse retrocesso como uma grave ameaça à vida e à Casa Comum.

Leia a nota na íntegra e una-se à luta por justiça socioambiental.


NOTA DE REPÚDIO

Contra o PL 2.159/2021 — Pela Vida e pela Casa Comum

O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia (Sinfrajupe) une-se a tantas vozes proféticas da sociedade civil, das pastorais sociais, dos povos indígenas e comunidades tradicionais para repudiar com veemência a aprovação do Projeto de Lei 2.159/2021 pelo Senado Federal. Este PL, que retorna agora à Câmara dos Deputados, representa um grave ataque à legislação ambiental brasileira, ao desmontar o processo de licenciamento e abrir caminho para o avanço desenfreado de empreendimentos predatórios.

Inspirados pelo exemplo de São Francisco de Assis, que chamou todas as criaturas de “irmãs” e viveu em profunda comunhão com a natureza, não podemos aceitar que o lucro e os interesses privados se sobreponham à dignidade da vida, à proteção dos biomas e aos direitos dos povos que há séculos cuidam da terra. O PL 2.159/2021 institucionaliza a flexibilização das normas ambientais, isenta grandes empreendimentos de obrigações básicas e ignora os impactos sobre territórios indígenas e quilombolas ainda não regularizados.

Trata-se, na prática, de uma “lei da devastação” que, em vez de proteger a Casa Comum, legaliza sua destruição. Dispensa de licenciamento para atividades agropecuárias, auto licenciamento irresponsável e restrição à participação social são apenas alguns dos retrocessos que escancaram a aposta em uma necropolítica que ameaça o futuro comum.

Não basta celebrar São Francisco ou a Laudato Si’ com palavras: é preciso encarnar sua mensagem com coragem. Conclamamos os fiéis, as comunidades franciscanas, as organizações socioambientais e todos os que defendem a vida a se manifestarem contra este projeto destrutivo.

Ao celebrarmos os 800 anos do Cântico das Criaturas, escrito por São Francisco, e os 10 anos da Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, reafirmamos o nosso compromisso com a justiça socioambiental, com os direitos dos povos e com a integridade da criação: Não há justiça social sem justiça ambiental. Não ao avanço de políticas que mercantilizam os territórios e seus bens.  

Digamos não à destruição legalizada! Sim à vida, sim à paz e sim ao cuidado com a Casa Comum!

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2025.

SINFRAJUPE

domingo, 18 de maio de 2025

Leão XIV: unidade, missão e crítica à economia que explora e marginaliza

 

Foto: Vatican News

Papa Leão XIV,  faz um chamado à unidade, missão, amor e critica economia que explora os recursos da terra e marginaliza os mais pobres 


Na sua primeira homilia como Bispo de Roma, no V Domingo da Páscoa, o Papa Leão XIV nos oferece uma profunda meditação sobre o ministério petrino e a missão da Igreja no mundo atual. Diante de uma Praça de São Pedro emocionada pela memória recente da morte do Papa Francisco, ele nos convida a contemplar Cristo como a pedra angular sobre a qual se edifica uma Igreja que caminha unida, servidora e missionária.

Mais do que palavras protocolares, suas palavras são uma profissão de fé no amor de Deus que não falha, mesmo diante das quedas e das sombras do nosso tempo. Leão XIV nos lembra que amar como Jesus amou – com entrega e sem reservas – é a única forma autêntica de exercer autoridade na Igreja, e que o sucessor de Pedro não está acima dos irmãos, mas caminha com eles, como servo da fé e da alegria de todos.

Entre os grandes eixos da homilia, destacam-se:

  • A urgência de construir uma Igreja unida, fermento de comunhão e fraternidade para um mundo ferido por ódios, preconceitos, violência e exclusão.
  • O reconhecimento de que o paradigma econômico atual, ao explorar os recursos da Terra e marginalizar os mais pobres, é contrário ao Evangelho e desafia a missão da Igreja.
  • O apelo para que cada batizado se reconheça como “pedra viva” na edificação de uma comunidade enraizada no amor de Deus.
  • O compromisso ecumênico, inter-religioso e social como dimensão constitutiva da missão e do testemunho cristão hoje.
  • A afirmação de que esta é a hora do amor, e não do fechamento, da superioridade ou da indiferença.

Com palavras simples e inspiradas, o Papa nos convida a acolher a Palavra de Cristo, fonte de consolação e luz, e a nos tornarmos uma Igreja aberta ao mundo, sensível aos sinais dos tempos, próxima dos pobres, e sempre pronta a amar “com algo mais”.

A seguir, leia na íntegra a homilia que marca o início do seu ministério e aponta o horizonte de esperança, unidade e conversão para toda a Igreja:

HOMILIA DO PAPA LEÃO XIV

Praça de São Pedro - V Domingo de Páscoa, 18 de maio de 2025

Queridos irmãos Cardeais,

Irmãos no episcopado e no sacerdócio,
distintas Autoridades e Membros do Corpo Diplomático,
Saudações aos peregrinos que vieram para o Jubileu da Irmandade!
Irmãos e irmãs,

no início do ministério que me foi confiado, saúdo-vos a todos com o coração cheio de gratidão. Escreveu Santo Agostinho: «Fizeste-nos para Vós, [Senhor,] e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós» (Confissões, 1,1.1).

Nos últimos dias, vivemos tempos particularmente intensos. A morte do Papa Francisco encheu os nossos corações de tristeza e, naquelas horas difíceis, sentimo-nos como as multidões que o Evangelho diz serem «como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36). No entanto, precisamente no dia de Páscoa, recebemos a sua última bênção e, à luz da ressurreição, enfrentámos este momento na certeza de que o Senhor nunca abandona o seu povo, mas congrega-o quando se dispersa e guarda-o «como o pastor ao seu rebanho» (Jr 31, 10).

Neste espírito de fé, o Colégio Cardinalício reuniu-se para o Conclave. Chegando com histórias diferentes e a partir de caminhos diversos, colocámos nas mãos de Deus o desejo de eleger o novo sucessor de Pedro, o Bispo de Roma, um pastor capaz de guardar o rico património da fé cristã e, ao mesmo tempo, de olhar para longe, para ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje. Acompanhados pela vossa oração, sentimos a ação do Espírito Santo, que soube harmonizar os diferentes instrumentos musicais e fez vibrar as cordas do nosso coração numa única melodia.

Fui escolhido sem qualquer mérito e, com temor e tremor, venho até vós como um irmão que deseja fazer-se servo da vossa fé e da vossa alegria, percorrendo convosco o caminho do amor de Deus, que nos quer a todos unidos numa única família.

Amor e unidade: estas são as duas dimensões da missão que Jesus confiou a Pedro.

É o que nos narra o trecho do Evangelho, que nos leva ao lago de Tiberíades, o mesmo onde Jesus iniciou a missão recebida do Pai: “pescar” a humanidade para salvá-la das águas do mal e da morte. Passando pela margem daquele lago, chamou Pedro e os outros primeiros discípulos para serem como Ele, “pescadores de homens”, e agora, após a ressurreição, cabe-lhes precisamente a eles levar em frente esta missão, lançar sempre e novamente a rede imergindo nas águas do mundo a esperança do Evangelho, e navegar no mar da vida para que todos se possam reencontrar no abraço de Deus.

Como pode Pedro levar adiante essa tarefa? O Evangelho diz-nos que isso só é possível porque ele experimentou na própria vida o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo na hora do fracasso e da negação. Por isso, quando Jesus se dirige a Pedro, o Evangelho usa o verbo grego agapao, que se refere ao amor que Deus tem por nós, à sua entrega sem reservas nem cálculos, diferente do usado na resposta de Pedro, que descreve o amor de amizade que cultivamos entre nós.

Quando Jesus pergunta a Pedro – «Simão, filho de João, tu amas-me?» (Jo 21, 16) – refere-se ao amor do Pai. É como se Jesus lhe dissesse: só se conheceste e experimentaste este amor de Deus, que nunca falha, poderás apascentar as minhas ovelhas; só no amor de Deus Pai poderás amar os teus irmãos com «algo mais», isto é, oferecendo a vida por eles.

A Pedro, portanto, é confiada a tarefa de «amar mais» e dar a sua vida pelo rebanho. O ministério de Pedro é marcado precisamente por este amor oblativo, porque a Igreja de Roma preside na caridade e a sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo. Não se trata nunca de capturar os outros com a prepotência, com a propaganda religiosa ou com os meios do poder, mas trata-se sempre e apenas de amar como fez Jesus.

Ele é – afirma o próprio apóstolo Pedro – «a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular» (Act 4, 11). E se a pedra é Cristo, Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros, tornando-se dominador das pessoas que lhe foram confiadas (cf. 1 Pe 5, 3); pelo contrário, é-lhe pedido que sirva a fé dos irmãos, caminhando com eles: todos nós, com efeito, somos «pedras vivas» (1 Pe 2, 5), chamados pelo nosso Batismo a construir o edifício de Deus na comunhão fraterna, na harmonia do Espírito, na convivência das diversidades. Como afirma Santo Agostinho: «A Igreja é constituída por todos aqueles que mantêm a concórdia com os irmãos e que amam o próximo» (Sermão 359, 9).

Irmãos e irmãs, gostaria que fosse este o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado.

No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, a violência, os preconceitos, o medo do diferente, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres. E nós queremos ser, dentro desta massa, um pequeno fermento de unidade, comunhão e fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: Olhai para Cristo! Aproximai-vos d’Ele! Acolhei a sua Palavra que ilumina e consola! Escutai a sua proposta de amor para vos tornardes a sua única família. No único Cristo somos um. E este é o caminho a percorrer juntos – entre nós, mas também com as Igrejas cristãs irmãs, com aqueles que percorrem outros caminhos religiosos, com quem cultiva a inquietação da busca de Deus, com todas as mulheres e todos os homens de boa vontade – para construirmos um mundo novo onde reine a paz.

Este é o espírito missionário que nos deve animar, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo.

Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho e, com o meu predecessor Leão XIII, podemos hoje perguntar-nos: «Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?» (Carta enc. Rerum novarum, 14)

Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade, uma Igreja missionária, que abre os braços ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa inquietar pela história e que se torna fermento de concórdia para a humanidade.

Juntos, como único povo, todos irmãos, caminhemos ao encontro de Deus e amemo-nos uns aos outros.

FONTE: vatican.vat

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Francisco, um Evangelho vivo

Na manhã desta segunda-feira, 21 de abril, o mundo se despediu de uma das vozes mais humanas e proféticas do nosso tempo. O Papa Francisco, aos 88 anos, partiu para a Casa do Pai, encerrando um pontificado que ficará gravado na história não apenas da Igreja Católica, mas da humanidade.

Francisco foi o Papa da proximidade, da escuta e da compaixão. Sua vida inteira foi dedicada ao serviço de Deus e da Igreja, mas com os pés no chão e o coração junto ao povo. Em seus doze anos como Bispo de Roma, fez questão de lembrar a todos que o Evangelho não se vive apenas nos altares, mas principalmente nas ruas, nas periferias, nas prisões, nos lixões, nos campos e nas favelas.

Com os Olhos da Compaixão, Um Papa ao Lado das Vítimas

Entre tantos gestos que marcaram o seu ministério, um dos mais tocantes para nós, no Brasil, foi sua solidariedade com as vítimas do crime-desastre da Vale, em Brumadinho (MG), em 2019. Ao receber, das mãos de Dari Pereira – sobrevivente do rompimento da barragem – e do irmão franciscano Rodrigo Péret, fotos com os nomes dos 270 mortos naquela tragédia crime, o Papa se comoveu profundamente. Abençoou as imagens, manifestou solidariedade às famílias e a todos os atingidos. Mais do que palavras, acolheu os rostos da dor com um gesto de carinho, respeito e justiça.

Dias depois, enviou um representante à comunidade de Brumadinho: Monsenhor

Duffé. E com ele, enviou também sua cruz peitoral – símbolo da presença espiritual e do compromisso do Papa com os que sofrem. O gesto foi entregue durante o "Sábado da Compaixão e da Solidariedade", nas regiões mais afetadas pelo crime. Um sinal claro: o Papa estava ao lado das vítimas, não dos poderosos.

Primeiro em Gestos, Profeta em Ações

Francisco também foi o primeiro em muitas coisas. O primeiro Papa jesuíta. O primeiro latino-americano. O primeiro a escolher o nome Francisco, inspirado no santo de Assis, patrono dos pobres e da ecologia. Foi o primeiro a morar fora do Palácio Apostólico, a visitar lugares nunca antes alcançados por um pontífice, como o Iraque. Foi o primeiro a assinar uma Declaração de Fraternidade com um líder islâmico e o primeiro a dar cargos importantes na Cúria a mulheres e leigos. Enfrentou com coragem os escândalos de abuso sexual, aboliu o segredo pontifício nesses casos e reformou o Catecismo, declarando inadmissível a pena de morte.

Papa Francisco sempre ressaltou que todos somos irmãos e irmãs, e que a fraternidade e a amizade social são caminhos essenciais para restaurar a dignidade de cada ser humano. Com seu espírito acolhedor e olhar misericordioso, ele deixou uma marca profunda ao propor respostas pastorais sensíveis e ousadas para desafios complexos da vida moderna. Estendeu sua escuta e cuidado aos idosos, aos que vivem na solidão, aos desempregados, migrantes, pessoas da comunidade LGBT, divorciados e tantos outros frequentemente esquecidos ou marginalizados pela sociedade e até mesmo pela própria Igreja.

Denunciou a ganância corporativa, a destruição da natureza, as guerras “em pedaços” que ensanguentam continentes. Mas foi no gesto, mais do que nas palavras, que sua humanidade se revelou com mais força.

Francisco foi o Papa que devolveu à Igreja seu rosto mais humano. Com suas "Sextas-feiras da Misericórdia", visitou presídios, hospitais, centros de acolhimento. Ligava de surpresa para pessoas doentes, pobres, solitárias. Encontrava-se com movimentos populares e dizia: "Terra, Teto e Trabalho são direitos sagrados!". Denunciou com firmeza a economia da exclusão e a cultura do descarte, clamando por uma globalização da esperança.

“Colocar a economia a serviço do povo, construir a paz e defender a Mãe Terra” – esse era o chamado que deixava às nações, aos movimentos e aos fiéis de todos os credos. Com a encíclica Laudato Si’, fez da ecologia integral uma bandeira espiritual e ética, reforçando que o cuidado da casa comum é uma exigência de fé e de justiça.

Partiu o Pastor, Ficam as Pegadas

Sua morte deixa um vazio imenso. Mas seu legado permanece. Francisco não foi apenas o líder da Igreja Católica; foi um profeta dos nossos tempos, uma consciência para o mundo. Sua voz, muitas vezes solitária, denunciou guerras, clamou pelos migrantes, defendeu os pobres, protegeu a natureza e nos lembrou que, no fundo, somos todos irmãos.

Descanse em paz, querido Papa Francisco. A sua vida foi um Evangelho vivo. E as sementes que lançou – com gestos, palavras e escolhas – continuarão florescendo nos corações e nas lutas do povo.

Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade - AFES

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Igreja exige punição e solidariza-se com vítimas deslizamento de rejeitos de mineração em MG

 






Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2024.

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados" (Mt 5,6).

Nota de repúdio e solidariedade
Perante o deslizamento de pilha de rejeitos da mina Turmalina em Conceição do Pará

A Comissão Episcopal para Ecologia Integral e Mineração (CEREM) em seu compromisso com a defesa da vida, após tomar conhecimento do trágico acidente ocorrido no Município de Conceição do Pará/MG, no dia 07 de dezembro de 2024, devido ao deslizamento de parte de uma pilha de rejeitos da Mina Turmalina, de propriedade da empresa canadense Jaguar Mining, acarretando enormes prejuízos e danos a diversas famílias do local e ao meio ambiente, sente-se no dever de emitir esta nota manifestando solidariedade às Vítimas e repúdio perante a empresa autora destes graves atos.

Apesar de haver divergências nas informações advindas da imprensa e dos órgãos de controle quanto à gravidade do dano ambiental e ao número de pessoas atingidas, e de haver, por parte de algumas lideranças locais, ao que nos parece, uma tentativa de minimizar os impactos do acidente, não resta dúvidas de que os danos causados às famílias e à natureza são, por si, de elevada gravidade.

Posto isso, a Comissão Episcopal para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Regional Leste-2, manifesta:

- sua indignação com o, agora revelado, descaso com que o material rejeitado da extração de ouro na Mina Turmalina, em Conceição Pará/MG, vem sendo depositado no local, com alteração na paisagem e risco de deslizamento, como de fato aconteceu;
- sua solidariedade às famílias atingidas e toda a comunidade local;
- sua reivindicação de que esse acidente seja tratado pelos órgãos de controle como “crime ambiental” e que a empresa e os responsáveis sejam devidamente processados e recebam as punições previstas em lei;
- que os danos ambientais sejam quantificados e haja recomposição do ambiente natural onde houve dano e compensações ambientais nos termos da legislação ambiental vigente;
- que as famílias sejam devidamente assistidas, indenizadas e compensadas de forma célere e justa pelos prejuísos que tiveram e ainda venham a ter;
- que sejam tomadas, imediatamente, as medidas necessárias para que acidentes como esse não se repitam;
- que haja transparência na divulgação dos trabalhos por parte da empresa.


Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, ofm. 
Coordenador da CEREM       

Dom Francisco Cota de Oliveira 
Bispo de Ste Lagoas MG 
Presidente da CEREM




terça-feira, 19 de novembro de 2024

Repúdio à Absolvição da Samarco, Vale, BHP pelo crime em Mariana




Belo Horizonte, 18 de novembro de 2024.

Ai dos que transformam o direito em veneno e atiram a justiça por terra.” (Amós 5,7).


Absolvição da Samarco, Vale, BHP Billiton, responsáveis pelo desastre-crime de Mariana, é um desrespeito para com a justiça e a dignidade humana das vítimas.

Nota de repúdio

É com sentimento de profunda indignação que publicamos esta nota de repúdio perante a decisão de absolvição da Samarco, Vale, BHP Billiton e mais de 22 pessoas indiciadas no processo criminal sobre o rompimento da barragem de Fundão, ocorrido no ano 2015 em Mariana/MG, que matou 19 pessoas e um feto, contaminou toda a Bacia do Rio Doce e os litorais nos estados do Espírito Santo e da Bahia.

A Comissão Episcopal para Ecologia Integral e Mineração repudia a decisão proferida pela juíza Patrícia Alencar Teixeira de Carvalho, do Tribunal Regional Federal da 6ª Região. Tal decisão, absolve as empresas comprovadamente criminosas, considerando que estas tinham pleno conhecimento dos riscos, permitiram que o desastre ocorresse e ainda contrataram um laudo ambiental falso. O argumento utilizado para absolvição, “ausência de provas suficientes para estabelecer responsabilidade criminal”, contraria os fatos e representa um grave retrocesso na busca por justiça.

Não temos dúvidas que decisões como esta são uma mola propulsora para que outros crimes se repitam, como foi o caso de Brumadinho e outros que ainda poderão vir.

Queremos também manifestar nossa solidariedade às pessoas atingidas pelo maior crime ambiental da história do Brasil. Neste momento de tanta dor, que marca os 09 anos deste crime, elas foram novamente violentadas, agora pelas instâncias da Justiça, a quem caberia defendê-las em seus direitos, enquanto vítimas deste crime brutal.

Esta violência, decorrente da absolvição dos autores do escandaloso crime das empresas mineradoras em Mariana, reafirma a arquitetura da impunidade que tem caracterizado as decisões da Justiça brasileira frente aos crimes socioambientais. Em seu desenrolar, esta injustiça para com as vítimas do desastre-crime de Mariana prevaleceu no decorrer de toda tramitação do processo, acentuando-se na repactuação que as excluiu da decisão final, apesar de serem as principais envolvidas e interessadas, favorecendo governos e empresas em detrimento de seus direitos. Com este desfecho as vítimas são afrontadas pela Decisão Judicial que absolveu as empresas criminosas e seus dirigentes.

Resulta evidente, com esta Decisão Judicial, que os únicos verdadeiramente punidos por esse crime são os atingidos e atingidas, que perderam seus entes queridos, sua história, seu modo de vida, suas fontes de renda e, até hoje, não receberam a devida reparação. Este é um grave atentado à justiça e à dignidade humana das vítimas.

A Comissão Episcopal para Ecologia Integral e Mineração continuará firme na fé, denunciando as injustiças cometidas neste crime, tanto da parte de seus autores como dos Órgãos de Justiça, e comprometida na luta por uma reparação integral que garanta, por uma questão de justiça e de humanidade, a indenização, a condenação penal dos responsáveis e a não repetição de crimes como este.


Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM

Coordenador da CEREM


Dom Francisco Cota de Oliveira

Bispo Diocesano de Sete Lagoas

Presidente da CEREM




quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Painel - Impactos Não-Econômicos das Mudanças Climáticas COP29

 

O Pavilhão da Fé na COP29, um espaço que apresenta mais de 40 sessões que oferece diversas perspectivas religiosas e éticas sobre como aprimorar os esforços de ação climática sediou no dia 13 de novembro, um painel com foco em abordar os impactos não econômicos causados pelas mudanças climáticas, como a perda do património cultural, da identidade e do conhecimento indígena. Enfatizando uma abordagem baseada nos direitos humanos, a discussão também destacará a importância de apoiar as comunidades vulneráveis ​​na captura de toda a extensão destas perdas não quantificáveis.

Esse painel foi organizado pela Federação Luterana Mundial, Brahma Kumaris, Dominicanos, Franciscanos Internacionais, Conselho Mundial de Igrejas, Igreja Evangélica Luterana na América e a . Conferência de Igrejas de Toda a África. Como painelistas participaram o Frei Rodrigo Péret - Franciscans International, Candice Dagilan - Estudante do Mirian Coollege, Filipinas e Ramon Pichs - Vice Presidente do IPCC, e como moderadora Elena Cedillo - Lutheran World Federation.

Segue o texto da apresentação do Frei Rodrigo.

Para Além da Perda Material: Explorando Impactos Não-Econômicos das Mudanças Climáticas através de Perspectivas Baseadas na Fé
Frei Rodrigo Péret, ofm

Como franciscanos, baseamo-nos no Ensino Social Católico, particularmente na encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco, para abordar a crise climática. Emitida antes do Acordo de Paris de 2015, Laudato Si’ enfatiza nosso dever moral de cuidar da nossa casa comum e defende a Ecologia Integral, destacando a interconexão entre questões ambientais, econômicas e sociais, e chamando para ações concretas em sustentabilidade ambiental e justiça social.

Portanto, "Laudato Si'" também nos orienta a abordar as Perdas e Danos Não-Econômicos (NELD -sigla em Inglês) causados pelas mudanças climáticas, enfatizando o valor intrínseco de toda a criação e a profunda conexão entre o bem-estar humano e ambiental.

As NELD causadas pela crise climática impactam profundamente os vínculos sagrados que compartilhamos com o mundo natural e nosso dever ético de protegê-lo. Cada espécie possui valor intrínseco e desempenha um papel vital na teia da vida. À medida que a biodiversidade diminui, a riqueza da criação se reduz, desequilibrando o ecossistema e afetando comunidades indígenas cujas identidades estão estreitamente ligadas ao seu entorno. A mudança climática perturba o patrimônio cultural, o conhecimento tradicional e as práticas espirituais, deixando muitas comunidades desconectadas de seus territórios sagrados.

Os impactos psicológicos são profundos; à medida que os espaços naturais familiares se degradam, as pessoas experimentam ansiedade e tristeza, ressaltando nossa interconexão com o planeta. Para aqueles que enfrentam deslocamento, como as comunidades insulares ameaçadas pela elevação do nível do mar, as perdas são mais tangíveis e imediatas, rompendo laços com terras ancestrais e desafiando o direito a um lar estável. As mudanças climáticas também ameaçam locais sagrados, centrais para muitas crenças, apagando conexões com locais de importância espiritual.

Esses impactos apontam para um desafio ético mais amplo. As tradições religiosas nos convocam a cuidar da criação e a defender a justiça para as futuras gerações. A exploração ambiental de hoje compromete sua capacidade de viver em harmonia com a natureza, tornando a mudança climática uma questão moral profunda. Reconhecer essas perdas não-econômicas nos instiga a responder com compaixão e respeito pelo valor intrínseco da vida, pela sacralidade da natureza e por nossa responsabilidade compartilhada com as futuras gerações.

A cada ano, defensores de direitos humanos (direitos fundiários) e ambientais são assassinados por ousarem resistir à exploração ambiental ao redor do mundo. A Global Witness documentou que 196 defensores foram assassinados em 2023 por exercerem seu direito de proteger suas terras e o meio ambiente. O número real é provavelmente maior. Isso eleva o total de assassinatos para mais de 2.000 em todo o mundo desde que a Global Witness começou a relatar esses dados em 2012. Hoje, a Global Witness estima um total de 2.106 assassinatos.

Além desses impactos imediatos, as mudanças climáticas levantam questões mais profundas sobre nossas responsabilidades éticas e morais como guardiões do planeta. Muitas tradições religiosas e culturais convocam a humanidade a cuidar da criação, instando-nos a proteger a Terra para as futuras gerações. A exploração e destruição dos ecossistemas por ganhos econômicos de curto prazo não é apenas uma questão ambiental, mas uma falha moral, que compromete a saúde do planeta para aqueles que virão depois de nós. Essa injustiça intergeracional compromete a capacidade das futuras gerações de atenderem suas necessidades, praticarem suas tradições e viverem em harmonia com a natureza.

A encíclica clama por um diálogo inclusivo, especialmente envolvendo comunidades indígenas e vulneráveis, guardiãs de conhecimentos ecológicos e culturais essenciais. Essa abordagem inclusiva promove respostas holísticas e culturalmente sensíveis que apoiam a resiliência e identidade das comunidades. Laudato Si’ defende uma estrutura ética compassiva nas negociações climáticas, enfatizando solidariedade e justiça. Valorizar as dimensões espirituais e culturais inspira estratégias que abordam todo o escopo de perdas e danos.

Na COP29, espera-se que as discussões sobre uma nova meta de financiamento climático abordem como o Fundo de Perdas e Danos pode apoiar aqueles impactados pelas mudanças climáticas, definindo e abordando as NELD de maneira eficaz. Os países mais responsáveis pelas emissões devem assumir uma maior responsabilidade para ajudar os mais afetados.

Nossa defesa se alinha com outras organizações baseadas na fé, sensibilizando sobre as NELD na ONU. Com laços estreitos com comunidades afetadas, grupos baseados na fé desempenham um papel único ao destacar como o financiamento insuficiente afeta vidas. Através de esforços em coalizão, contribuímos para uma compreensão mais profunda das perdas não-econômicas induzidas pelo clima.

Para concluir meu discurso, gostaria de destacar uma questão relacionada e de igual importância ao nosso tema. Como franciscanos, acompanhando os processos da COP e a realidade das comunidades em situação de vulnerabilidade que atendemos, alertamos contra as “falsas soluções” promovidas como ação climática, mas que, em última análise, agravam a crise. Essas soluções mascaram a imposição de grandes sacrifícios e impactos em regiões do mundo que menos contribuíram para a mudança climática, mas que detêm bens comuns vitais, que são explorados nessas chamadas “soluções verdes”. Sem mudanças estruturais, a tecnologia sozinha não pode resolver a crise climática e levará a ainda maiores perdas e danos.

Nos opomos à ideologia da "economia verde" por transformar a natureza e a biodiversidade em mercadorias através de sistemas como o comércio de carbono, que monetizam a conservação ambiental. No Sul Global, os esquemas de comércio de emissões de gases de efeito estufa, vinculados aos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo da ONU, focam em florestas e mercados de carbono, criando novos tipos de propriedade ao transformar o CO₂ sequestrado em ativos financeiros negociáveis.

A economia verde atribui valor econômico a processos naturais, como a fotossíntese, como “serviços ecossistêmicos”, vendo-os como estoques de capital avaliados pela renda futura que geram. A avaliação econômica frequentemente depende dos preços de mercado, enfatizando a acumulação de capital em detrimento de considerações sociais ou ecológicas. Através de iniciativas como mercados de carbono e REDD, grandes áreas florestais são vinculadas a créditos de carbono, transformando a preservação ambiental em ativos financeiros. Esse processo introduz camadas complexas de propriedade sobre a posse tradicional da terra, desafiando visões culturais que valorizam a natureza de forma intrínseca. Iniciativas semelhantes, como a “agricultura inteligente para o clima”, vinculam o armazenamento de carbono no solo aos mercados de compensação de carbono, sobrecarregando agricultores pobres em países em desenvolvimento.

A ideologia da “economia verde” propõe também à chamada “transição energética” ou melhor, à falsa narrativa de “energia limpa”, pois tecnologias como painéis solares e turbinas eólicas exigem mineração intensiva, que prejudica comunidades locais e ecossistemas, principalmente no Sul Global. Essas tecnologias demandam extração e processamento intensivos e extensivos de minerais. A mineração leva, em todos os lugares do mundo, a consequências sociais e ambientais adversas, desde violência e práticas insustentáveis até violações de direitos humanos e degradação ambiental. Essa transição energética alimenta conflitos territoriais e exacerba padrões históricos de desigualdade, à medida que minerais críticos são extraídos principalmente do Sul Global para beneficiar o Norte Global. Uma transição que perpetua padrões de exploração colonial, beneficiando o Norte Global enquanto sobrecarrega regiões vulneráveis. A demanda por minerais vitais para energia limpa está aumentando, com muitos depósitos localizados em terras indígenas, escalando conflitos e degradação ambiental.

Uma resposta real exige uma transformação estrutural, não apenas uma transição, mas uma transformação em direção a estilos de vida que garantam justiça ambiental e climática para as futuras gerações. Comunidades baseadas na fé, inspiradas pelo chamado do Papa Francisco para uma “sobriedade feliz” em Laudato Si’, devem assumir uma posição profética contra as falsas soluções e defender uma verdadeira mudança sistêmica para superar o modelo insustentável que nos levou a essa crise.

Em vez de ver o planeta como um recurso, devemos considerá-lo uma fonte de vida.