segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Para além de toda conversa fiada e diálogos


O Alternative Mining Indaba 2026 está acontecendo na Cidade do Cabo, África do Sul, e é um encontro comunitário de três dias que busca romper com as narrativas dominantes sobre a mineração e colocar no centro as vozes e as experiências das comunidades atingidas em toda a África.

 

Frei Rodrigo Péret foi painelista no debate “Para além de toda conversa fiada e diálogos”, um espaço de denúncia, reflexão crítica e afirmação de alternativas frente ao extrativismo e às falsas soluções promovidas pelo setor mineral.

 

A seguir, a fala de Frei Rodrigo.

 

“Para além de toda conversa fiada e diálogos”


A partir da experiência da Rede Igrejas e Mineração, ficou claro que as estratégias mais eficazes para responsabilizar mineradoras e governos partem da perspectiva das comunidades atingidas. O primeiro passo é compreender qual é, hoje, o papel do setor minerário e como ele opera. Outro passo fundamental é reconhecer os processos que nascem nas próprias comunidades para transformar essa realidade.


Precisamos repensar o chamado “futuro verde” promovido por governos e corporações. Por trás da linguagem da transição existem profundas desigualdades e formas renovadas de exploração. Muitas soluções da transição verde são falsas porque não mudam o sistema que causou a crise climática. Por isso, é necessário falar de uma transformação sistêmica pós-extrativista.


A transição verde é apresentada como resposta às mudanças climáticas, mas esconde uma corrida global por minerais críticos. A mineração é tratada como inevitável, impulsionando a extração massiva de minérios críticos e terras raras. Essa corrida intensifica a destruição ambiental, a militarização e novas formas de colonialismo, especialmente no Sul Global, onde territórios indígenas e ecossistemas tornam-se zonas de sacrifício para sustentar o consumo no Norte Global.


O que muitas vezes se oculta é que a transição energética é inseparável das transições digital e militar. As três dependem da expansão da mineração. Esses “minerais críticos” não são apenas minerais da energia que querem chamar de limpa; são também minerais da guerra, essenciais para drones, mísseis, satélites, sistemas de vigilância, inteligência artificial e infraestrutura militar. Sob a linguagem da sustentabilidade e da segurança, avança uma nova fase do capitalismo extrativista, que atualiza lógicas coloniais e militarizadas, em vez de superá-las.


A expansão dos orçamentos militares nos Estados Unidos, na União Europeia, na China e na Rússia para garantir minerais estratégicos revela que essa transição também é uma agenda geopolítica e de guerra. A chamada “mineração sustentável” não resolve os danos socioambientais; apenas repagina o extrativismo. O capitalismo verde promete soluções tecnológicas em um planeta finito, governado por uma lógica econômica de crescimento infinito.

Juntas, as transições energética, digital e militar estão consolidando um novo complexo industrial–militar–mineral. A mineração torna-se a espinha dorsal dos sistemas energéticos, das economias digitais e da guerra. A tecnologia não reduz a extração, ela a acelera. Quando a transição é guiada pelo mercado, o poder corporativo é preservado, as leis ambientais são enfraquecidas e novas fronteiras de exploração se abrem, deslocando comunidades. Isso é colonialismo energético. Precisamos perguntar: transição para quem e a que custo?


O problema central é o modelo extrativista, que trata a natureza como um recurso infinito e produz desigualdade, caos climático e violência. Não haverá solução real sem desmontar esse modelo. O que precisamos é de uma transformação civilizatória que confronte o poder corporativo e o neocolonialismo, garanta o direito dos povos indígenas, dos trabalhadores e das comunidades de dizer não, por meio do consentimento livre, prévio e informado, e avance na justiça ecológica.


Aqui, o multilateralismo de base popular torna-se essencial. Enquanto o multilateralismo oficial é cada vez mais capturado por interesses corporativos e geopolíticos, comunidades constroem um multilateralismo de baixo para cima, enraizado nos territórios, nos movimentos sociais e nos povos atingidos, e não nos Estados ou corporações. Nas lutas por Territórios Livres de Mineração, comunidades da América Latina e de outras regiões articulam solidariedade internacional, compartilham estratégias e afirmam modos alternativos de vida, desenvolvimento e relação com a natureza.


Esses processos de base mostram que os territórios não são apenas espaços de conflito, mas também de resistência, criatividade, espiritualidade e imaginação política. Alternativas pós-extrativistas já existem e precisam ser fortalecidas: economias da suficiência, e não do excesso; desenvolvimento centrado nas comunidades; agroecologia e soberania alimentar; moradia cooperativa, trabalho digno e acesso universal à saúde e à educação; modos de produção circulares e sustentadores da vida. Central nessa visão é o reconhecimento dos Direitos da Natureza como fundamento de uma vida democrática e sustentável.


Em todo o Sul Global, movimentos por Territórios Livres de Mineração afirmam princípios-chave: justiça ambiental, defesa da biodiversidade, autonomia e participação, transformações reais com reparação e responsabilização, e o direito de dizer não a projetos que ameaçam a vida. Somente uma transformação pós-extrativista pode impedir que a transição atual continue sendo um projeto de morte. Um futuro justo exige ir além das falsas soluções e construir uma transformação social, ecológica e humana.


Para os atores e grupos de fé, este momento exige clareza profética e coragem moral. Os bens da Terra são bens comuns, não mercadorias. Reconhecer a natureza como sujeito de direitos fundamenta uma ética do cuidado, da reciprocidade e da regeneração, e desafia o mito de que o bem-estar pode ser construído sobre crescimento infinito, sofrimento ou destruição. As Igrejas são chamadas não à neutralidade, mas a caminhar ao lado das comunidades atingidas amplificando suas vozes e tecendo redes de solidariedade internacional e de base popular que desafiem a falência moral das “soluções” militarizadas e extrativistas.


Obrigado.

 

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