quinta-feira, 13 de março de 2014

Há 50 anos, Jango defendia reformas em comício na Central do Brasil

Há exatamente 50 anos, um episódio que teve importância no golpe de 64 aconteceu no Brasil. No dia 13 de março de 1964, o então presidente João Goulart realizou comício na Central do Brasil, região central do Rio de Janeiro, para defender as reformas de base propostas por seu governo. Cerca de 200 mil pessoas acompanharam o discurso que foi encerrado com as seguintes palavras: "Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributárias, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação, pela justiça social e pelo progresso do Brasil".
A reportagem é de Leandro Melito, publicada por Agência Brasil - EBC, 12-03-2014. Foto: Arquivo Nacional / Correio da Manhã
À época, um grupo de sindicalistas comunistas e trabalhistas tomou a frente da organização do evento. Entre eles, estavam  o deputado Hércules Corrêa, que foi fundador e dirigente do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) ePaulo Mello Bastos, diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Transportes Marítimos, Fluviais e Aéreos. Bastos também era secretário político do CGT.
O Comício
O evento, que estava sendo anunciado pelo governo desde janeiro de 1964, reuniu cerca de 200 mil pessoas e foi transmitido ao vivo por rádio e TV para todo o país. Por volta das 14h daquele dia 13 de março, cerca de 5 mil pessoas já se concentravam para o comício do presidente João Goulart na Praça Cristiano Ottoni, Rio de Janeiro, nas imediações da Central do Brasil e do Ministério da Guerra.
Antes de seguir para o palanque, João Goulart assinou, no Palácio das Laranjeiras, o decreto da Supra (Superintendência de Reforma Agrária) - que autorizava a desapropriação de áreas ao longo das ferrovias, das rodovias, das zonas de irrigação e dos açudes – e o decreto que encampava as refinarias particulares de petróleo.
O comício teve início às 18h. Jango subiu ao palanque às 19h45 e começou seu discurso exatamente às 20h46 após a fala do então presidente da UNE, José Serra, do governador de Pernambuco na época, Miguel Arraes, e do deputado Leonel Brizola. Tendo ao seu lado direito a esposa Maria TherezaJango falou de improviso durante pouco mais de uma hora. Ele fazia algumas pausas no discurso para passar um lenço no rosto. Eram nesses momentos em que o ministro da Casa Civil, Darcy Ribeiro, aproveitava para sussurrar observações e orientações como, por exemplo, “fale mais devagar, presidente”.
Em seu discurso, Jango falou sobre a mensagem que seria encaminhada ao Congresso e explicou os decretos que havia assinado.
Confira trechos do discurso
Encampação das refinarias
Mas estaria faltando ao meu dever se não transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país.
Acabei de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de encampação de todas as refinarias particulares.
A partir de hoje, trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.
Procurei, trabalhadores, depois de estudos cuidadosos elaborados por órgãos técnicos, depois de estudos profundos, procurei ser fiel ao espírito da Lei n. 2.004, lei que foi inspirada nos ideais patrióticos e imortais de um brasileiro que também continua imortal em nossa alma e nosso espírito.
Decreto da Supra
O que se pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais e terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio especulativo, odioso e intolerável.
Não é justo que o benefício de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos interesses dos especuladores de terra, quese apoderaram das margens das estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de dinheiro do povo, não deve beneficiar os latifundiários, pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas sim o povo.
Não o podemos fazer, por enquanto, trabalhadores, como é de prática corrente em todos os países do mundo civilizado: pagar a desapropriação de terras abandonadas em títulos de dívida pública e a longo prazo. Reforma agrária com pagamento prévio do latifundio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso o decreto da Supra não é a reforma agrária.
Sem reforma constitucional, trabalhadores, não há reforma agrária. Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias honestas e bem-intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações estruturais profundas.
Mensagem ao Congresso
Na mensagem que enviei à consideração do Congresso Nacional, estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país a influir nos destinos gloriosos do Brasil. Nesta reforma, pugnamos pelo princípio democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser também elegível.
Também está consignada na mensagem ao Congresso a reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros. Pelos universitários, classe que sempre tem estado corajosamente na vanguarda de todos os movimentos populares nacionalistas.
Comício fazia parte de nova estratégia
Após tentar implementar sem sucesso as reformas por meio de um acordo entre o seu partido Partido Trabalhistra Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSD), de Juscelino Kubitschek - de quem foi vice-presidente –Jango decidiu se aliar às esquerdas em uma estratégia de mobilização popular que teria início com o comício da Central no dia 13. Três dias antes do comício, o PSD havia rompido formalmente com o governo.
A nova estratégia consistia na mobilização popular por meio de uma série de comícios que seriam realizados em diferentes regiões do país e que culminariam em uma greve geral no dia 1º de maio, como forma de pressionar o Congresso pela aprovação do projeto de reformas anunciado durante o comício e encaminhado formalmente ao Legislativo dois dias depois.
Para isso, Jango contava com as forças que apoiavam as reformas; o CGT, o PCB (Partido Comunista Brasileiro e a Frente de Mobilização Popular (FMP), formando a Frente Única de Mobilização.
FONTE: IHU

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sonegação de impostos em 2013 atingiu a soma de R$ 415 bilhões.


Estudo do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda (Sinprofaz) divulgado na semana passada revelou que a sonegação de impostos em 2013 atingiu a soma de R$ 415 bilhões. Ainda segundo a pesquisa, todos os tributos não pagos, inscritos na Dívida Ativa da União, ultrapassaram R$ 1 trilhão e 300 milhões. Com esta grana, o Brasil teria condições de enfrentar os graves problemas nas áreas da saúde, educação e mobilidade urbana, entre outros. Mas os empresários e os ricaços, os principais sonegadores, preferem criticar o “impostômetro” – até como forma de ocultar o criminoso “sonegômetro”. Eles sabem que nunca irão para o presídio da Papuda nem serão alvos da escandalização da mídia – até porque a Rede Globo ainda não mostrou o Darf do pagamento do seu calote.

A sonegação de R$ 415 bilhões somente no ano passado corresponde aproximadamente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas produzidas pelo país. O valor supera, com folga, os orçamentos federais de 2014 para as pastas da educação, saúde e desenvolvimento social – somados. Para uma simples comparação, o programa Bolsa Família investe R$ 24 bilhões ao ano para atender 14 milhões de famílias. O que foi sonegado somente em 2013 pelos ricaços equivale, portanto, a 17 anos deste programa do governo federal. Segundo Heráclio Mendes de Camargo Neto, presidente do Sinprofaz, os altos valores “são sonegados pelos muitos ricos e por pessoas jurídicas (empresas), com mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro e caixa dois”.

O estudo do sindicato poderia servir como base para enviar à cadeia centenas de sonegadores bilionários – alguns deles, provavelmente presentes no último ranking dos ricaços da Forbes. Ele também serve para alimentar o debate sobre a urgência da reforma tributária no Brasil. Como aponta o Sinprofaz, quem paga impostos no país é o trabalhador. Os ricaços sonegam e ainda são beneficiados por um sistema injusto, baseado em impostos regressivos e indiretos. Quem ganha mais, paga menos; e vice-versa. “Mesmo que você seja isento do Imposto de Renda, vai gastar cerca de 49% do salário em tributos, mas quase tudo no supermercado ou na farmácia", explica Camargo Neto à reportagem da Rede Brasil Atual.

Além disso, quanto mais o contribuinte tem a declarar, maiores são as chances de abater os valores. “Os mais ricos podem abater certos gastos no Imposto de Renda. Em saúde, por exemplo, se você tem um plano privado um pouco melhor, você pode declará-lo e vai ter abatimento no cálculo final do imposto. Esta é uma característica injusta do nosso sistema. Os mais pobres não conseguem ter esse favor”, completa o sindicalista. Já o trabalhador não tem como escapar da fúria do Leão. Quem tem salário a partir de R$ 2.400 é tributado automaticamente pelo Imposto de Renda Retido na Fonte. Apesar destas distorções, os empresários ainda tentam se apresentar como vítimas de uma carga tributária injusta. Sonegam e/ou pagam pouco e ainda se travestem de vítimas!

Em 2005, o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário e a Associação Comercial de São Paulo criaram o “impostômetro” e instalaram um painel eletrônico no Pátio do Colégio, no centro da capital paulista. Segundo a Rede Brasil Atual, na semana passada o placar registrava R$ 313 bilhões em impostos pagos. “Se nós conseguirmos cobrar essas grandes empresas e pessoas físicas muito ricas, o governo poderia desonerar a classe média e os mais pobres. Seria o mais justo. Se todos pagassem o que devem, nós poderíamos corrigir a tabela do Imposto de Renda e reduzir alíquotas sobre alimentos e produtos de primeira necessidade, que todo mundo usa”, conclui Camargo Neto, desmascarando os ricaços sonegadores – verdadeiros impostores!
FONTE: BLOG DO MIRO

segunda-feira, 10 de março de 2014

Racismo: Um crime que insiste em se repetir

A reportagem é de Felippe Aníbal e publicada pela Gazeta do Povo, 10-03-2014. Foto: Henry Milleo.
“Saia daqui, seu macaco preto”. As palavras ainda ecoam na mente do haitiano Stanley Joseph (foto), 27 anos, radicado em Curitiba. As ofensas racistas que recebeu levam às lágrimas o rapaz negro, franzino e educado. Foram gritadas pela dona de uma agência, onde ele procurava uma vaga de emprego. Antes fosse uma exceção, mas casos como os de Joseph beiram o corriqueiro. Juntam-se a outros, como o do volante Tinga, do Cruzeiro, entre uma infinidade de anônimos, expondo o preconceito que permanece impregnado na sociedade brasileira.
Para quem sente na pele – literalmente – as feridas abertas pelo racismo, o Brasil engatinha no combate à discriminação. Um projeto de lei (PL 6.418/05) que tramita na Câmara dos Deputados propõe o endurecimento contra quem cometer preconceito por cor, etnia, religião ou origem. Um dos principais itens da lei é que os crimes de injúria racial e apologia ao racismo – tipificados no Código Penal – passariam a ser considerados inafiançáveis e imprescritíveis.
Rigor
“Da forma como está hoje, há uma brecha. A pessoa [que cometeu racismo] contrata um bom advogado, que consegue que o crime seja enquadrado como injúria. Ela paga fiança e não acontece nada”, explica o senador Paulo Paim (PT), autor do projeto. “Acredito que a lei vai funcionar como um inibidor”, observa.
Militantes negros ressaltam, no entanto, que é preciso avançar para além do aperfeiçoamento dos mecanismos jurídicos. O advogado Antonio Leandro da Silva avalia que os “operadores do direito” não estão preparados para lidar com casos de racismo. “Nem mesmo inquéritos policiais são instaurados”, ilustra. Além disso, entende que a aplicação da legislação tem sido branda com quem comete a discriminação.
“Talvez nem precisemos de mais leis, mas de uma interpretação mais humanista, mais clara e objetiva no que diz respeito ao crime de racismo”, dz o advogado, que presta assessoria jurídica voluntária a movimentos negros do Paraná.
O presidente do Instituto Brasil e África, Saul Dorval da Silva, vê avanços tímidos e destaca a necessidade de políticas específicas voltadas aos negros, principalmente em educação e em saúde. “Quando reivindicamos cotas, é para tentar equilibrar a balança. É para evitar que o negro caia na marginalidade”, pontua. “Se essas diferenças e se os preconceitos não forem contidos, o Brasil vai virar uma África do Sul. Apartheid vai ser pouco”, finaliza.
“Sai daqui, seu preto macaco”, gritou a mulher
O haitiano Stanley Joseph caminhava pelas ruas do Centro de Curitiba, quando chegou a suas mãos o panfleto de uma agência de empregos. Acompanhado de um amigo, foi até a empresa, que lhes apresentou uma boa oferta: trabalhar como porteiro, por um salário de R$ 1,8 mil, além de benefícios. Para assumir a vaga, teriam que pagar R$ 390. Os dois chegaram a emprestar dinheiro de amigos, mas as vagas não existiam. Caíram no chamado “golpe do emprego”. Quando foram cobrar o dinheiro de volta, o preconceito veio com força.
“A dona da empresa ameaçou chamar a polícia e começou a gritar: ‘Sai daqui, preto macaco’, batendo o telefone na mesa. Eu saí de lá chorando. Foi muita humilhação e uma tristeza em minha vida”, conta, com os olhos rasos d’água.
Joseph registrou boletim de ocorrência no Centro Integrado de Atendimento ao Cidadão (Ciac) do Centro, mas diz que o caso nem sequer foi investigado. As acusações só não passaram em branco porque a Comissão de Direitos dos Migrantes da Ordem dos Advogados do Brasil e a Casa Latino-Americana (Casla) intercederam pelos haitianos. O Juizado Especial já condenou a empresa a pagar indenização de R$ 1 mil ao amigo de Joseph, em ressarcimento pelo “golpe”. O caso de Joseph ainda deve ser analisado. As apurações de racismo não teriam ido adiante.
“Eu queria justiça. Vim ao Brasil para trabalhar, não para ser bandido. Não para ter esse tratamento, por causa da minha cor”, lamenta. Apesar de falar cinco idiomas, Joseph permanece desempregado. Sonha juntar dinheiro para abrir uma lanchonete, trazer os pais para o Brasil e voltar a fazer trabalhos voluntários em hospitais infantis, como fazia no Haiti.
A ofensa que levou torcedor às lágrimas
Para cada caso de discriminação racial que se torna público, inúmeros outros permanecem ocultos, seja por vergonha da própria vítima ou porque a sociedade tende a fechar os olhos à dor alheia. Esta é a percepção de militantes do movimento negro. “Você já sente no olhar. O olhar diferente que as pessoas te dão já revela [o preconceito]”, diz Saul Dorval da Silva.
Ele assistia pela tevê à partida entre Cruzeiro e Real Garcilaso, do Peru, quando a torcida do time peruano começou a imitar um macaco cada vez que o volante Tinga pegava na bola. Impotente diante da situação vivida pelo atleta negro, Silva foi às lágrimas. “Eu chorei, porque sei o que é estar na pele e, em pleno século XXI, ser diminuído por ser preto. Me senti humilhado, como ele”, conta.
O advogado Antonio Leandro também já sentiu a sutileza com a qual o racismo se apresenta. Uma vez, quando foi atender um futuro cliente em domicílio, percebeu que a cor de sua pele causou espanto. “Quando abri a porta e a pessoa me viu, levou um susto. É como se ela não tivesse pensado na possibilidade de um negro ser advogado”, lembra. E acrescenta: “Mas não pense que Pelé e o Joaquim Barbosa não passaram por isso.”
Histórias cruzadas
Relembre outros casos de racismo no Brasil, em 2014, e seus desdobramentos:
Fevereiro
• O volante Tinga, do Cruzeiro, foi vítima de racismo, durante um jogo contra o Real Garcilaso, do Peru, pela Taça Libertadores da América. O cruzeirense entrou no segundo tempo e, cada vez que pegava na bola, a torcida do time peruano guinchava como um macaco.
• O Tribunal de Justiça de São Paulo decide, em caráter liminar, que a aposentada Davina Castelli, de 72 anos, responda em liberdade o julgamento de um recurso. Ela foi condenada a quatro anos de prisão por racismo, por, em 2012, ter ofendido três negros em um shopping, na Avenida Paulista, em São Paulo. Segundo os autos, ela teria chamado as vítimas de “imundos” e “favelados”, teria ressaltado que não gosta de negros e que a entrada deles em shoppings deveria ser proibida.
Março
• A Justiça de São Paulo determinou que a rede Walmart pague indenização de R$ 20 mil a um cliente, vítima de racismo. O caso ocorreu em 2009, em um supermercado de Carapicuíba, Grande São Paulo. Um jovem negro que havia comprado um litro de leite foi confundido com um ladrão e chamado de “negrinho” e “ladrão safado” por dois funcionários.
• O volante Arouca, do Santos, é chamado de “macaco” pelos torcedores do Mogi Mirim, interior de São Paulo. O árbitro Márcio Chagas da Silva também é chamado de “macaco” por torcedores e tem seu carro depredado em Bento Gonçalves (RS), depois da partida entre Esportivo e Veranópolis. Bananas foram colocadas no automóvel.
FONTE: GAZETA DO POVO

sábado, 8 de março de 2014

A radicalidade da luta das mulheres é do tamanho das nossas necessidades humanas


Todo ano no mês de março, as mulheres camponesas realizam uma série de atividades em todo o Brasil conhecida como Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra.

Neste ano de 2014, a jornada organizada pelas mulheres da Via Campesina traz o lema Mulheres Sem Terra na luta contra o capital e pela Reforma Agrária Popular.  

Ao relembrar o dia 8 de março, a Jornada de Luta das Mulheres Sem Terra 2014 tem como objetivo denunciar o capital estrangeiro na agricultura (controlado pelas empresas transnacionais) e chamar a atenção da sociedade para o modelo destrutivo do agronegócio, que ameaça tanto o meio ambiente quanto a soberania alimentar do país e a vida da população brasileira, afetando de forma direta a realidade das mulheres.  

Com o lema Mulheres Sem Terra na luta contra o capital e pela Reforma Agrária Popular, as mulheres do MST abrem a jornada de lutas do ano e também buscam denunciar o retrocesso das conquistas dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, em especial a Reforma Agrária.

FONTE: MST - VIA CAMPESINA

sexta-feira, 7 de março de 2014

Assentamentos gaúchos devem colher 21 mil toneladas de arroz agroecológico

05 03 arroz rsA terça-feira de Carnaval foi comemorada de uma forma diferente em vários assentamentos do Rio Grande do Sul. A data marcou o início da colheita de arroz agroecológico produzido em 15 assentamentos gaúchos. O tradicional evento de abertura ocorreu no assentamento Lagoa do Junco, em Tapes, e reuniu cerca de 10 mil pessoas.
Pela primeira vez, o ato foi realizado junto com a 37ª Romaria da Terra, que nesta edição trouxe o tema “Reforma Agrária, cooperação e agroecologia: cultivar vida saudável”. A Romaria é promovida todos os anos pela Comissão Pastoral da Terra e Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
De acordo com o representante da Cooperativa Central dos Assentamentos do RS (Coceargs) e do Grupo Gestor do Arroz, Emerson Giacomelli, a programação conjunta demonstra a integração do povo em torno de uma produção de alimentos livre de agrotóxicos e de transgênicos.
“Se hoje nós podemos fazer a abertura da colheita aqui no assentamento junto com a Romaria da Terra é porque um dia fomos romeiros em busca de uma vida melhor e mais saudável. Mostra a capacidade de nos agregarmos em torno de um projeto único, provando que a agroecologia é uma causa de todos”, afirmou Giacomelli.
Ele observou que a produção de arroz agroecológico nos assentamentos vem crescendo a cada ano, e a expectativa para 2014 é superar a média em produtividade e principalmente em qualidade.
A safra deve chegar a 21,3 mil toneladas de arroz cultivado sem agrotóxico. A área plantada é de 4.398 hectares, distribuídos em 12 municípios do Estado. Giacomelli espera ainda a manutenção do preço – que varia entre R$ 34 e R$ 35 a saca, 20% a mais que o valor do produto convencional –  para garantir renda aos assentados.
Destaque
A produção de arroz agroecológico, iniciada em 1999, vem se consolidando como uma das principais atividades nos assentamentos gaúchos. Hoje, 501 famílias estão envolvidas com o cultivo, que busca estabelecer relação de integração entre o ser humano, recursos naturais e equilíbrio bioquímico do ecossistema banhado.
O superintendente do Incra/RS, Roberto Ramos, salientou que desde o plantio à comercialização, o processo todo é desenvolvido por assentados. “É o nosso principal produto, porque abrange a produção das sementes orgânicas, o cultivo, a colheita, a agroindustrialização e a comercialização, etapas sempre vinculadas aos princípios da agroecologia e da produção de alimentos com qualidade”.
Ramos lembrou também dos esforços do Incra na prestação de assistência técnica adequada aos produtores de arroz e dos investimentos feitos pelo Instituto em unidades de beneficiamento e armazenagem (estas com capacidade para 292 mil sacas), além do apoio à comercialização por meio de programas federais, com o da Alimentação Escolar.
FONTE: INCRA

quarta-feira, 5 de março de 2014

Fraternidade e Trafico Humano - Campanha da Fraternidade 2014

Sob o tema “Fraternidade e Tráfico Humano” e lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1), a Campanha da Fraternidade de 2014 refletirá a crueldade criminosa do tráfico humano. Tráfico para exploração do trabalho, tráfico para exploração sexual; tráfico para extração de órgãos; tráfico de crianças e adolescentes.


Nunca houve tantos escravos na história da humanidade como hoje: são as vítimas contemporâneas do tráfico humano. A prática perversa de explorar alguém em condições degradantes, permanece nos modernos esquemas da economia global.

Na raiz do tráfico humano está a busca do lucro e a afirmação da ideia de que tudo pode ser transformado em mercadoria. O tráfico humano é um dos instrumentos para a expansão do capitalismo. Se trata do terceiro negócio mais rentável do mundo, só perdendo para o tráfico de drogas e o contrabando de armas. Movimenta entorno de 32 bilhões de dólares por ano.

No ano de 2000 foi assinado o Protocolo de Palermo, que definiu o tráfico humano como: “A expressão "tráfico de pessoas" significa o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tem autoridade sobre outra para fins de exploração, A exploração incluirá, no mínimo, a exploração da prostituição de  outrem ou outras formas de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares a escravatura, a servidão ou a remoção de órgãos.”

A luta contra o tráfico implica também na transformação do atual modelo de desenvolvimento, que coloca o lucro acima da pessoa, que tem o mercado como único valor, transformando tudo e todos em mercadoria.

O Papa Francisco em sua mensagem para a CF 2014 conclama: “Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! «A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência» (Discurso do Papa Francisco aos novos Embaixadores, 12 de dezembro de 2013).”

Nesta Quaresma, período litúrgico em que nos colocamos diante dos mistérios da salvação, a CF 2014 nos interpela: Se é “para a liberdade que Cristo nos libertou”(Gl  5,1) nós, não podemos ficar indiferentes.

O objetivo geral da Campanha da Fraternidade é o de “identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-las como violação da dignidade e da liberdade humanas, mobilizando cristãos e pessoas de boa vontade para erradicar este mal com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus.” (Texto Base da CF 2014)



sábado, 1 de março de 2014

Teologia da Libertação é saudada no Vaticano enquanto seu fundador recebe as boas-vindas

Foto: AP Foto/Domenico Stinellis
altO fundador da Teologia da Libertação, teologia católica inspirada na América Latina defensora dos pobres, recebeu as boas-vindas na terça-feira, no Vaticano, enquanto o movimento – uma vez criticado – continua se reabilitar sob oPapa Francisco.
A reportagem é de Nicole Winfield, publicada no jornal canadense The Gazette, 25-01-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Pe. Gustavo Gutierrez, do Peru, foi o palestrante surpresa na terça-feira durante o lançamento de um livro, encabeçado pelo presidente do escritório de ortodoxia do Vaticano, cardeal Gerhard L. Müller, junto de um dos principais assessores/conselheiros do papa, o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga e do porta-voz do Vaticano.
O então cardeal Joseph Ratzinger passou grande parte de seus anos dedicados à Congregação para a Doutrina da Fé, hoje liderada por Müller, lutando contra a Teologia da Libertação e disciplinando alguns de seus mais famosos defensores, ao sustentar que eles tinham interpretado erroneamente a preferência de Jesus pelos pobres como um pedido marxista para a rebelião armada.
Esta interpretação foi poderosamente atraente para muitos latino-americanos durante as décadas de 1960 e 1970 que foram criados como católicos, educados por professores sob a influência marxista e que estavam indignados com a desigualdade e com a repressão sangrenta ao redor.
Gutierrez e outros insistem que a verdadeira Teologia da Libertação sempre esteve perfeitamente em conformidade com a doutrina social da Igreja sobre os pobres, a qual o Papa Francisco abraça.
Francisco escreveu o prefácio do livro de Müller – “Pobre para os pobres: A missão da Igreja –, que contém dois capítulos escritos por Gutierrez.
Na terça-feira, Gutierrez, de 85 anos, recebeu uma salva de palmas quando o porta-voz do Vaticano fez notar sua presença e uma outra salva de palmas quando se aproximou do microfone para falar sobre a parábola do Bom Samaritano.
O ex-cardeal Jorge Mario Bergoglio teve uma relação complicada com a Teologia da Libertação, chocando-se com membros de esquerda de sua ordem jesuíta, a qual assumiu um papel politizado no enfrentamento à ditadura militar violenta da Argentina na década de 1970.
No entanto, o Papa Francisco abraça por completo o seu pedido à Igreja para se ter uma “opção preferencial pelos pobres”.
O jornal vaticano L’Osservatore Romano está fazendo uma espécie de campanha de reabilitação, dizendo que, com o primeiro papa latino-americano, a Teologia da Libertação não pode mais “permanecer na sombra à qual ele foi relegada por alguns anos, ao menos na Europa”.
FONTE: IHU