domingo, 20 de outubro de 2019

Pacto das Catacumbas pela Casa Comum - Sínodo da Amazônia

A Igreja renova, no mesmo lugar e com o mesmo espírito, o forte compromisso assinado em 16 de novembro de 1965, poucos dias antes do encerramento do Concílio Vaticano II. Foi o dia em que 42 padres conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas de Domitilla para pedir a Deus a graça de "ser fiel ao espírito de Jesus" no serviço aos pobres. Foi assinado o documento "Pacto por uma Igreja serva e pobre": o compromisso assumido foi o de colocar os pobres no centro da pastoral. O texto, também conhecido como "Pacto das Catacumbas", teve a adesão de mais de 500 padres conciliares.
Passos do Concilio e novos caminhos
Depois de 54 anos, a herança dos Padres conciliares foi assumida por um grupo de participantes no Sínodo dos Bispos para a região pan-amazônica, focalizado no tema: "Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral". O espírito daquele dia vivido em 1965 nas Catacumbas de Domitilla foi renovado. Na manhã deste domingo, na presença de dezenas de pessoas – entre os quais mais de 40 padres sinodais -, o cardeal Claudio Hummes, relator-geral do Sínodo para a Amazônia, presidiu a Santa Missa no mesmo lugar, o maior e mais antigo cemitério subterrâneo de Roma. E foi precisamente nas Catacumbas de Domitilla, estabelecendo uma forte ligação com o documento assinado em 1965, que foi assinado um documento intitulado "Pacto das Catacumbas pela Casa Comum". A novidade é que não foram somente os padres sinodais a assinar o documento, mas todos os participantes – sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos – afirmando a sua adesão ao Pacto em prol da Casa Comum. Presentes também representantes da Igreja Anglicana e da Assembleia de Deus.

Cardeal Hummes: É preciso crer fortemente na oração

Durante a missa o cardeal Hummes no início da sua homilia falou desse "momento comovente e significativo". Depois de recordar que a Santa Missa é uma memória sacramental, mémoria de Jesus Cristo e que as Catacumbas eram cemitérios antigos dos romanos e dos primeiros cristãos que enterravam seus mártires, afirmou que todos os presentes se encontravam numa terra santa, “essa que nós pisamos aqui é verdadeiramente terra santa”.
O cardel Hummes continuou afirmando que as Catacumbas nos recordam os primeiros tempos da Igreja, da comunidade de discípulos e discípulas de Jesus em Roma. “Tempos difíceis, de perseguição, mas também de muita persistência, de muita fé, de muito testemunho. Por isso muitos morreram, por causa de seu testemunho. Tudo isso nos deve dar força, nos deve inspirar, pedindo para que Deus nos fortaleça, como ele fortalecia os cristãos daquela época”.
A Igreja sempre vai se reformando através dos tempos – sublinhou -; ela deve sempre voltar às suas raízes que estão aqui e em Jerusalém, para se inspirar em qualquer tipo de reforma. Também as reformas que o Papa Francisco quer fazer e está fazendo, - disse o pururado -, devem se inspirar e se inspiram,  certamente, nos tempos primitivos da Igreja. O Papa sempre diz isso, que é preciso purificar a Igreja das coisas que são meramente culturais de uma época que já passou, são coisas históricas, para de novo redescobrir aquilo que é o grande fulcro da mensagem de Jesus e encarná-lo no nosso tempo, na nossa cultura, nas nossas aspitações, na nossa maneira de vivermos a fé.
Depois de recordar que as leituras do dia falam principalmente da oração, da pregação da Palavra sem medo, “com profunda fé, devemos nós mesmos nos deixar invadir por essa Palavra e proclamar essa Palavra à qual aderimos”. É preciso crer fortemente na oração, afirmou. “Que essa missão continue, principalmente lá na Amazônia, e leve pouco a pouco a Igreja a se desenvolver nestas regiões. Neste Sínodo pedimos novos caminhos, melhores condições para podermos realizar a nossa missão, a missão de proclamar a Palavra”.
Insistir, disse dom Cláudio, de modo oportuno ou inoportuno, porque às vezes devemos falar de modo inoportuno. Para aqueles que se opõem ao Reino de Deus, o que mais se opõe ao reino de Deus é o dinnheiro e o desejo de acumular riqueza, às custas dos outros, às custas da natureza. “Todas as grandes maldades do mundo são por causa do dinheiro; é a corrupção, é o roubo, guerras, conflitos, são mentiras. Tudo para juntar dinheiro, para ganhar dinheiro às custas de qualquer coisa. O dinheiro é o grande inimigo de Jesus, pois você não pode servir a Deus e ao dinheiro”.
A Igreja deve ser sempre orante – voltou a dizer o cardeal Hummes - , em certas épocas mais do que em outras. Nós aqui devemos acreditar na oração por esse Sínodo, na força da oração. “Não somente estar aqui para discutirmos, debatermos e depois chegarmos a uma grande comunhão ao redor do texto final, mas rezar, pedir a Deus luzes, pedir a Deus adesão à sua inspiração, ao seu Espirito. Escutar o Espírito, escutar os nossos povos da Amazônia, escutar os gritos da terra. Termos essa abertura. A oração nos prepara para isso. Deus atende as orações”.
Dom Cláudio pergunta, recordando o texto do Evangelho sobre o juíz iníquo, sobre a realidade dos pobres: será que Deus vai fazê-los esperar, será que Deus vai fazer esperar os pobres e sofridos? Deus irá fazer esperar os nossos indígenas? Não, diz Jesus, Deus não os fará esperar. Na oração devemos ter essa certeza de que Deus não os fará esperar: “eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa”. Jesus nos dá essa convicção. Devemos ter essa convicção. Mas somos nós que devemos acolher, preparar o povo para acolher aquilo que Deus prepara, que é o seu caminho, que é o seu Reino.
"Eu tenho certeza que esse Pacto das Catacumbas - afirmou o cardeal -,  é algo que nos vai ajudar muito para estarmos unidos neste trabalho todo".
Concluiu recordando que ele estava usando a estola que pertenceu a Dom Hélder Câmara. “Uma relíquia, que eu me sinto muito emocionado de estar usando. Dom Hélder nos dá esse grande exemplo, nos lembra do Vaticano II e toda obra que o Vaticano II fez. Nós sabemos que esse Sínodo é produto do Vaticano II, ele é o fruto do Vaticano II, é um levar a efeito o Vaticano II. Isso é muito importante a gente ver essa referência, essa relação que tem: são os frutos, são as formas como o Vaticano II já nos indicava. Certamente temos também as nossas assembleias latino-americanas e outras também, mas é o Vaticano II que está ai. E ai temos a figura de Dom Hélder no Vaticano II recordando sempre que a Igreja não pode se esquecer dos pobres.
Dom Cláudio concluiu recordando uma entrevista recente do superior dos lefrevianos que dizia para aqueles que eram contra o Sínodo: “vocês não podem ser contra o Sínodo, o que é isso. Como é que vocês são contra o Sínodo, porque o Sínodo é um fruto legítimo do Vaticano II. Nós não. Nós somos contra porque éramos contra o Vaticano II, mas vocês não podem ser contra”. Devemos dar graças a Deus por esse fruto belo do Vatino II, conclui dom Cláudio.
FONTE: VATICAN NEWS

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Carta Aberta da Rede Igrejas e Mineração - Minas Gerais

Nós, agentes de pastoral, participantes do Curso de Formação da Rede Igrejas e Mineração – Minas Gerais, reunidos de 15 a 18 de outubro de 2019, refletimos sobre a situação das comunidades atingidas pelo setor minerário e seus impactos sobre a Casa Comum. Em comunhão com o Sínodo da Amazônia nos inspira, a partir da Ecologia Integral, a lançar um olhar sócio-ecológico e teológico sobre a realidade dos territórios.
Muito nos espantou a agressividade das empresas, alicerçadas nos Governos, para controlar os territórios de vida, transformando-os em lucro e morte. São claros os sinais de que o atual modelo minerário está em profunda crise. Os exemplos dos crimes em Mariana e Brumadinho mostram isso. Mas além dos rompimentos de barragens, a mineração viola os direitos das comunidades, contamina e destrói águas e causa vários outros impactos que inviabilizam a vida e as possibilidades de alternativas econômicas nos territórios.
A cobiça das empresas não cessa. Não recua. Essas não reconhecem a catástrofe vivida pela sociedade.  Insistem em  avançar com este modelo. Está em curso um plano articulado entre empresas minerárias e os Governos Estadual e Federal, visando a liberação de diversas licenças ambientais (como da VALE/SAMARCO em Mariana), inclusive em áreas de extrema vulnerabilidade social e de escassez de água. Vimos, de forma bastante clara, que o setor minerário aprofunda uma economia neocolonial-extrativista degradadora, o que significa a intensificação de crimes e tragédias socioambientais. Como exemplo, citamos o abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte que está por um fio; o projeto de mineroduto da Chinesa SAM, na região semiárida, no Norte de Minas e Jequitinhonha. Essas são tragédias anunciadas.  
Muito nos alegraram os sinais vindos das comunidades, as quais resistem, enfrentando as mineradoras. A vida pulsa nos territórios de resistência, de defesa da vida, do bem comum e do bem-viver, que apontam um novo e necessário caminho.
Reforçamos nosso compromisso com a defesa da vida e com o enfrentamento dos problemas vivenciados pelas comunidades atingidas e ameaçadas. Colocamo-nos como missionários de uma “Igreja em Saída”, assumindo-nos como guardiões e guardiãs da Casa Comum, em com
unhão com a Encíclica Laudato Si’ e com o Sínodo da Amazônia.
João Monlevade, 18 de outubro de 2019.
CÁRITAS MG – CPT – CIMI – CPP - GT ECOLOGIA INTEGRAL E MINERAÇÃO DO REGIONAL LESTE II

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Nota de Solidariedade da CPT ao Povo do Equador

Comissão Pastoral da Terra (CPT) vem a público manifestar sua solidariedade às nações indígenas do Equador por sua coragem e determinação no enfrentamento aos desmandos e políticas governamentais perversas que submetem nossos povos aos piores conflitos possíveis. Tal dramática situação e a heróica resistência do povo equatoriano apelam à nossa sensibilidade pastoral e nos incitam a uma atitude de fé, esperança e solidariedade, confiantes no Senhor da História, que se põe nela junto dos pobres.
Acompanhamos há décadas diversas situações de traições políticas de dirigentes no Equador e o consequente peso sobre a população e os seus direitos corajosamente conquistados, como também a organização desses povos, representados pela Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE).
É triste sentir, nas diversas imagens que correm o mundo, a violência e o autoritarismo com que o governo tem tratado os povos indígenas, assim como a perda de direitos sociais e garantias do mundo do trabalho. Lenín Moreno foi eleito com um programa e governa com as propostas do rival banqueiro derrotado nas urnas e sob o comando do Fundo Monetário Internacional (FMI). A submissão ao capital tem tornado governos meros despachantes dos seus interesses, em detrimento da vida e direitos de suas populações.
A situação atual de pressão e violação de todos os direitos humanos, encabeçada por diversos governos, como por exemplo no Brasil e no Equador, em função da submissão às políticas neoliberais, tem significado, concretamente, perseguições e mortes aos povos tradicionais, além da diminuição significativa dos espaços democráticos. A esses povos sobra somente o direito de protestar, mobilizar e arriscar suas vidas no enfrentamento às polícias ou, ainda, às milícias armadas. No caso do Equador, a submissão ao FMI, com o corte dos subsídios do petróleo, Decreto 883, ameaçava gerar uma crise que afetaria brutalmente a vida de toda a população. Foi uma vitória parcial, mas contundente, que após 12 dias de luta, o povo organizado sob a coordenação da CONAIE saiu ganhador desta queda de braço com um governo que se porta fiel às políticas do Fundo Monetário Internacional.
Repudiamos toda ação violenta do governo equatoriano e o autoritarismo que tem tratado o problema. Manifestamos nossa solidariedade a todas as organizações políticas e sociais que perfilaram lado a lado com a CONAIE, que, imediatamente, após a derrogação do Decreto 883, retrocedendo o fim dos subsídios a derivados fundamentais de gasolina, passaram a ser alvos de acusações absurdas e perseguições injustificadas. Assim queremos oferecer todo o nosso apoio às organizações populares e indígenas do Equador, que têm se colocado na primeira linha dessa luta pela vida e pelos direitos.
Avante Povos Originários! Avante irmãs e irmãos latino-americanos! Em frente heróico povo equatoriano! Até a Vitória, sempre, companheiros e companheiras!!!
Coordenação Executiva Nacional da CPT
Goiânia (GO), Brasil, 17 de outubro de 2019.

domingo, 6 de outubro de 2019

A Igreja deve evitar "novos colonialismos: Papa Francisco, missa de abertura do Sínodo para a Amazônia


Abriu-se hoje a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica, de 6 a 27 de outubro, no Vaticano, em Roma. Como preparação, foram realizadas 57 assembleias, 21 fóruns nacionais, 17 fóruns temáticos e 179 rodas de conversa. No Brasil, foram realizadas 182 atividades. Como fruto desta escuta, a secretaria-executiva do Sínodo elaborou o Instrumentum Laboris (Instrumento de Trabalho) do Sínodo Amazônico, material a ser estudado pelos bispos como preparação ao evento.

Na missa abertura celebrada na manhã deste domingo (06/10) na Basílica de São Pedro, reafirmo a intenção da Igreja de caminhar juntos com os povos da Amazônia:  “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”. Disse ainda, que a Igreja deve evitar "novos colonialismos":  "Quando pessoas e culturas são devoradas sem amor e respeito - enfatizou o Papa Francisco - não é o fogo de Deus, mas o fogo do mundo. No entanto, quantas vezes o presente de Deus não foi oferecido, mas imposto, quantas vezes houve colonização ao invés de evangelização! Deus nos preserva da ganância dos novos colonialismos ". "O fogo causado por interesses destruidores, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho", acrescentou o papa. "O fogo de Deus é o calor que atrai e reúne a unidade. É nutrido por compartilhar. , não com ganhos. O fogo devorador, por outro lado, acende quando queremos levar adiante apenas nossas próprias idéias, formar nosso próprio grupo, queimar a diversidade para aprovar tudo e todos ", concluiu Francesco.


“Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”, disse o Papa Francisco na missa de abertura da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, celebrada na manhã deste domingo (06/10) na Basílica de São Pedro

Vatican News - Raimundo de Lima - Cidade do Vaticano
“Reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazônia, para que não se apague o fogo da missão.”

Foi o que disse o Papa Francisco na missa celebrada na manhã deste domingo (06/10) na Basílica de São Pedro, na abertura da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, evento eclesial que se realizará no Vaticano até o dia 27 deste mês, com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
No início da celebração, a longa procissão de entrada com os 185 padres sinodais, 58 do Brasil. Na assembleia, também representantes de comunidades indígenas. A Eucaristia foi concelebrada com os treze novos cardeais, criados no Consistório presidido pelo Santo Padre no sábado à tarde.
Fazer Sínodo, caminhar juntos
Dirigindo-se aos padres sinodais, bispos provenientes não só da região Pan-Amazônica, mas também de outras regiões, Francisco, referindo-se à segunda carta de São Paulo a Timóteo proposta nesta liturgia do XXVII Domingo do Tempo Comum, ressaltou que o apóstolo Paulo, o maior missionário da história da Igreja, ajuda-nos a ‘fazer Sínodo’, a ‘caminhar juntos’; e que “parece dirigido a nós, Pastores ao serviço do povo de Deus, aquilo que escreve a Timóteo”, observou.

Recebemos um dom, para sermos dom, disse o Pontífice, acrescentando:
“Um dom não se compra, não se troca nem se vende: recebe-se e dá-se de prenda. Se nos apropriarmos dele, se nos colocarmos a nós no centro e não deixarmos no centro o dom, passamos de Pastores a funcionários: fazemos do dom uma função, e desaparece a gratuidade; assim acabamos por nos servir a nós mesmos, servindo-nos da Igreja.”
A nossa vida, dom recebido, é para servir, continuou. “Colocamos toda a nossa alegria em servir, porque fomos servidos por Deus: fez-Se nosso servo. Queridos irmãos, sintamo-nos chamados aqui para servir, colocando no centro o dom de Deus”, exortou Francisco.

Dom que recebemos é amor ardente a Deus e aos irmãos
Para sermos fiéis a este chamado, à nossa missão, enfatizou, “São Paulo lembra-nos que o dom deve ser reaceso. O verbo usado é fascinante: reacender é, literalmente, ‘dar vida a uma fogueira’”, explicou o Papa. “O dom que recebemos é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos. O fogo não se alimenta sozinho; morre se não for mantido vivo, apaga-se se a cinza o cobrir.”

Passar da pastoral de manutenção a uma pastoral missionária
Em seguida, o Pontífice fez uma premente exortação aos Pastores a serviço do povo de Deus:
“A Igreja não pode de modo algum limitar-se a uma pastoral de “manutenção” para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial. Jesus veio trazer à terra, não a brisa da tarde, mas o fogo. O fogo que reacende o dom é o Espírito Santo, doador dos dons.”

Deus nos preserve da ganância de novos colonialismos
O fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome). É fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora. “Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo. Contudo quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos.”
“O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.”
Francisco exortou a reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade, acrescentando que o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja.
Irmãos amazônicos aguardam consolação do Evangelho

Convidando a olhar juntos para Jesus Crucificado, para o seu coração aberto por nós, o Santo Padre concluiu com mais uma exortação: “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Declaração do Seminário Internacional de Justiça, Paz, Integridade da Criação e Mineração - Roma


Os impactos da mineração desafiam a Vida Religiosa Consagrada. Em nossas congregações e Ordens Religiosas essas realidades estão cada vez mais presentes e urgentes, no trabalho de Justiça, Paz e Integridade da Criação - JPIC. Nos últimos 10 anos, os promotores de JPIC das congregações se envolveram cada vez mais em questões de justiça ambiental e, mais especificamente nos desafios impostos pela mineração e  economia extrativista. 

Considerando o contexto mais específico da Igreja foi realizado de 25 a 27 de setembro, em Roma, um Seminário Internacional de JPIC e Mineração. Com os seguintes objetivos: (1) Analisar e entender a realidade da mineração e diferentes lutas, resistências e alternativas, a fim de identificar áreas de interesse, preocupação e colaboração mútuas. (2) Refletir a questão da mineração sob a perspectiva de Laudato Si e Eco-teologia. (3) Fortalecer o trabalho do JPIC na mineração, levando em consideração as alianças e redes de lutas locais, vinculadas nos níveis regional, nacional e internacional. Segue a declaração final do Seminário: 
Setembro 25-27, 2019 
Casa La Salle, Roma

Nós, participantes do Seminário de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) e Mineração, representando 36 organizações católicas e congregações religiosas diferentes de cerca de 14 países, nos reunimos em Roma de 25 a 27 de setembro de 2019. Como pessoas comprometidas com JPIC , nos reunimos em resposta à crise em curso referente ao impacto das atividades de mineração no meio ambiente, nos direitos humanos e no papel das organizações da igreja. No espírito e à luz do Sínodo da Amazônia, que está criando novos caminhos para a Igreja, somos gratos e inspirados pelas bênçãos e frutos da criação: a terra que nos dá comida, os rios e mares que nutrem a terra e tudo que sustenta a própria vida. Celebramos a interconexão e a sacralidade da criação, reconhecendo que os bens da Terra são finitos e alguns deles não são renováveis.
Ouvimos o clamor da terra e o clamor dos pobres e estamos profundamente tristes com as experiências reais das comunidades de base, ao testemunharmos a contínua destruição de nossa casa comum. Essa destruição, também descrita por Laudato Si, causa grande sofrimento. Por sua vez, exige uma resposta profética em nome das comunidades e da natureza atingidas pelo modelo de desenvolvimento extrativo.
O atual modelo de extrativismo é devastador e destrói nossa casa comum. Devora os bens finitos da terra, cria ciclos de violência e injustiça, expulsa as pessoas de seus lares, meios de subsistência e culturas e promove uma cultura materialista e descartável.
Como animadores e rede de justiça, paz e integridade da criação, vemos e reconhecemos os seguintes problemas-chave relacionados à mineração e extrativismo que precisam ser abordados:
1.    desequilíbrio de poder que afeta as próprias pessoas que enfrentam as ameaças e riscos da mineração e de outros projetos extrativos;
2.   impunidade, corrupção e outros situações que são impostos às comunidades, afetando sua capacidade de dizer não a projetos destrutivos de mineração e de exercer seu direito à autodeterminação;
3.    desrespeito aos direitos humanos, desprezo pela dignidade humana e atos contínuos de violência;
4.   maus-tratos à natureza considerada como simples coisa a ser usada para a satisfação da humanidade.
Quando a criação de Deus é desrespeitada, ficamos angustiados e indignados. E então nos voltamos para o Papa Francisco e somos guiados por suas palavras em Laudato Si
sempre se deve recordar que «a proteção ambiental não pode ser assegurada somente com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente». Mais uma vez repito que convém evitar uma concepção mágica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indivíduos. … Além disso, quando se fala de biodiversidade, no máximo pensa-se nela como um reservatório de recursos económicos que poderia ser explorado, mas não se considera seriamente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres. [LS190]
Segundo o que discutimos e refletimos durante este Seminário de JPIC e Mineração, percebemos que JPIC tem um papel singular a desempenhar,  de garantir e implementar a Laudato Si de maneira eficaz e significativa e cumprir nossa missão de acompanhar o povo de Deus e proteger nossa casa comum.
Precisamos responder com ações e, portanto, comprometemo-nos:
1.    à conversão ecológica integral contínua, resultando em escolhas pessoais e coletivas responsáveis que nos levam a um estilo de vida que honra a criação;
2.   a ser Igreja ativa para com as vítimas, onde, a partir de nossa espiritualidade, difundamos o Evangelho e o Ensinamento Social da Igreja, em particular Laudato Si. Com um papel profético de informar, conscientizar e mobilizar comunidades para a ação, vivemos em solidariedade com os povos atingidos. Queremos que sejam amplificadas as vozes dos pobres contra a mineração destrutiva e outras formas de extrativismo; não as substituiremos. Sempre respeitaremos os direitos das pessoas à autodeterminação. Apreciamos e reconhecemos a diversidade de espiritualidades das comunidades indígenas e somos companheiros respeitosos das comunidades. Sabendo que a violência pode ser dirigida contra nós e às comunidades que servimos, buscamos e promovemos ações de resistências não-violentas.
3.    a construir pontes e facilitar conexões entre congregações e dentro de cada uma delas, entre atores dentro e fora da Igreja e, em particular, entre a vida religiosa e as comunidades populares, assim como promover iniciativas ecumênicas, inter-religiosas e diálogo intercultural. Trabalhamos dentro das estruturas da Igreja e com a sua liderança, para que possa ser informada das realidades da mineração e advogar pelos direitos das vítimas e comunidades atingidas. Participamos juntos de plataformas de partilha de recursos e conhecimentos, para sustentar a interação, comunicação e solidariedade. Ao criar e nutrir condições para o diálogo e a negociação entre os atores envolvidos nas questões de mineração, praticaremos uma opção preferencial pelos pobres e trabalharemos no desenvolvimento de suas capacidades visando um significativo desenvolvimento.
4.   a compartilhar nossas vozes e a engajarmo-nos no trabalho contínuo de defesa de direitos, que inclua uma contundente proteção dos defensores de direitos humanos, ambientais e de terra, responsabilizando os governos em seu dever de terminar com a impunidade das empresas por abuso aos direitos humanos e garantindo às vitimas acesso à justiça. Esse trabalho de defesa de direitos inclua iniciativas das Nações Unidas, tais como: o Instrumento  Juridicamente Vinculante para Empresas Transnacionais e Direitos HumanosPrincípios Orientadores sobre Empresas e Direitos HumanosObjetivos de Desenvolvimento Sustentável, etc.
5.    a contribuir e a complementar o trabalho de organizações religiosas, movimentos sociais e sociedade civil com relação à Agenda de Ação do Fórum Social Temático sobre Mineração e Economia Extrativa criando sinergia e crescimento recíproco.
6.   a ampliar e aprofundar nossa compreensão de questões temáticas relacionadas à mineração e extrativismo, incluindo: i) o direito a “dizer não”; ii) alternativas como comércio justo, economia solidária e desenvolvimento integral local iii) transições justas; iii) mineração artesanal e tradicional; e iv) reflexão sobre direitos da natureza;
Confiantes no Espírito de Deus, unimos nossas reflexões, esforços e orações com aqueles de toda a Igreja neste momento de graça e neste momento tão importante, a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica.
Que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança. [LS 244]

Muito obrigado e pelas bênçãos de Deus,
Os 36 participantes do Seminário de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) e Mineração,
Sheila Kinsey, FCJM, Co-Secretária Executiva, JPIC
Fr. Rodrigo Péret, OFM, Igrejas e Mineração          


Para mais informações, entre em contato com Fr. Rodrigo Péret, OFM em rodrigoperet.afes@gmail.com ou Ir. Sheila Kinsey, FCJM em skinsey.fcjm@gmail.com.   

domingo, 1 de setembro de 2019

"Teia da Vida" é o tema do Tempo da Criação de 2019


De 1º de setembro a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis, cristãos em todo o mundo celebram o Tempo da Criação. Se trata de um mês de oração e de ação ecumênica.

Neste "Tempo", eventos específicos serão realizados para as diferentes comunidades, entre os quais se assinalam a Igreja Ortodoxa, Igreja Católica, Comunhão Anglicana, a Federação Luterana Mundial, o Conselho Mundial de Igrejas e a Aliança Evangélica Mundial. 

O tema de 2019 é: “A Teia da Vida”: a biodiversidade como bênção de Deus. A perda de espécies, de fato, está se acelerando: um relatório recente das Nações Unidas estima que o estilo de vida atual ameaça extinguir um milhão de espécies. O site ecumênico http://seasonofcreation.org/pt/home-pt/ oferece subsídios e idéias para os cristãos participarem da celebração.

Apelo do Papa pela Amazônia: acabar com os incêndios o mais rápido possível

Em uma carta, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral convida os bispos católicos a aderirem à iniciativa ecumênica. O documento, que tem a data de 23 de maio, Dia Mundial da Biodiversidade, foi distribuído por ocasião do quarto aniversário da Carta Encíclica do Papa Francisco Laudato si’, para encorajar os pastores a celebrarem este tempo, estendendo às comunidades católicas o convite do Dicastério vaticano, ao qual se uniram o Movimento Católico Mundial pelo Clima e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam). Este encorajamento torna-se ainda mais significativo em vista da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-amazônica, de 6 a 27 de outubro, sobre o tema: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Tempo de viver a Teia da Vida - "Levante a Voz pela Amazônia"

Teia de Vida é o tema do Tempo da Criação 2019. Trata-se de pensar de forma integral, porque, como papa Francisco,  várias vezes menciona em sua Encíclica Laudato Si “tudo está conectado”. E se tudo está conectado, então é fundamental pensar na forma integrada como os seres vivos se relacionam entre si e com o meio ambiente. Não existem duas crises, uma social e outra ambiental. Mas uma só crise sócio-ambiental. Por isso a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu, no último 23 de agosto, nota sobre a situação em que classifica de “absurdos incêndios” e outras criminosas depredações em curso na Amazônia. Estas atitudes, segundo o documento, requerem posicionamentos adequados. “É urgente que os governos dos países amazônicos, especialmente o Brasil, adotem medidas sérias para salvar uma região determinante no equilíbrio ecológico do planeta – a Amazônia. Não é hora de desvarios e descalabros em juízos e falas”, diz a nota. Preserva a Teia da Vida é missão fundamental, em momento tão crítico.

Há uma alternativa à pura lógica do lucro
“A questão ecológica revela que o mundo é um só, que os problemas são globais e comuns. Para enfrentar os perigos é, portanto, necessária uma mobilização multilateral, uma convergência, uma colaboração, uma cooperação”. É o que escreve o patriarca de Constantinopla Bartolomeu na sua mensagem para o Dia de Oração pela Salvaguarda da Criação. “É inconcebível – lê-se no texto -, que a humanidade esteja consciente da gravidade do problema e que continue a comportar-se como se não a conhecesse. Embora nas últimas décadas o principal modelo de desenvolvimento econômico, no contexto da globalização sob a bandeira do fetichismo dos índices econômicos e da maximização do lucro, tenha exacerbado os problemas ecológicos e sociais, continua a dominar amplamente a opinião de que “não há alternativa” e que o não se conformar ao severo determinismo da economia levará a situações sociais e econômicas incontroláveis. Desta forma, se ignoram e se desacreditam as formas alternativas de desenvolvimento e a força da solidariedade social e da justiça”.

A voz da família humana
Esta celebração teve início sob os auspícios da Igreja Ortodoxa e desde então tem sido acolhida por católicos, anglicanos, luteranos, evangélicos e outros membros da família cristã em todo o mundo. O site ecumênico SeasonOfCreation.org oferece subsídios e idéias para os cristãos participarem da celebração. Os eventos variam de encontros de adoração e oração à coleta de lixo, e pedidos de mudança política para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius. Outras iniciativas previstas são: em Quezon City, Filipinas, o cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, presidirá uma missa, depois da qual serão plantadas árvores trazidas de áreas indígenas para a cidade; em Altamira, voluntários da Amazônia brasileira organizarão um projeto florestal em um assentamento urbano; em Lukasa, Zâmbia, a Liga das Mulheres Católicas apresentará uma discussão sobre o meio ambiente na paróquia de São José Mukasa.
Mudando de rumo: o futuro é hoje
“Só agindo em conjunto, à luz da nossa Igreja e do Espírito Santo, poderemos avançar”, disse Tomás Insua, diretor executivo do Movimento Católico Mundial pelo Clima. “Nos últimos meses, incêndios violentos destruíram florestas na Amazônia, ondas de calor fizeram soar sinais de alarme em toda a Europa e os glaciares estão derretendo a um ritmo inimaginável, aumentando o nível do mar. Todos estes problemas partilham uma solução importante: devemos empreender a “conversão ecológica” requerida por São João Paulo II, que o Papa Francisco expandiu para Laudato Si.
FONTE: CNBB