
Sala de Imprensa da Santa Sé em Roma, 20 de março de 2026. Fotos: Jaime C. Patias
No dia 20 de março, na Sala de Imprensa da Santa Sé, no Vaticano, foram lançada oficialmente a Plataforma para o Desinvestimento na Indústria da Mineração, com a campanha “Desinvestimento na indústria mineira. Coerência ética para o cuidado da Casa Comum”, uma iniciativa liderada pela Rede Igrejas e Mineração com o apoio de mais de 40 instituições ao redor do mundo.
O evento reuniu importantes lideranças eclesiais, representantes de comunidades afetadas pela mineração e especialistas em ecologia integral, marcando um passo significativo no compromisso da Igreja com a justiça socioambiental. bem como com a transformação dos modelos econômicos que impactam a vida e os territórios.
Um lançamento com forte significado político e espiritual
Entre os participantes estiveram o Cardeal Fabio Baggio, do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral; o Cardeal Álvaro Ramazzini, reconhecido por sua defesa dos povos indígenas; Dom Vicente Ferreira, bispo brasileiro e assessor da Rede Igrejas e Mineração; além de lideranças como Yolanda Flores, do povo Aymara no Peru, e o padre Dario Bossi, coordenador da rede.
O lançamento no Vaticano não é apenas simbólico: ele expressa o reconhecimento institucional, no coração da Igreja Católica, da urgência de enfrentar os impactos da mineração e de repensar o papel das finanças globais nesse modelo.
Como destacou o Cardeal Baggio, a iniciativa nasce de uma convicção moral profunda diante de uma pergunta central do nosso tempo: que mundo queremos deixar para as próximas gerações? Essa questão se concretiza nas realidades vividas por comunidades afetadas pela mineração — territórios feridos, águas contaminadas e povos deslocados.
O que é a Plataforma de Desinvestimento?
A Plataforma de Desinvestimento na Indústria Minerária propõe uma ação prática: retirar recursos aplicados em empresas mineradoras envolvidas em impactos socioambientais e canalizá-los para alternativas que promovam sustentabilidade, justiça e cuidado com a vida.
Mais do que uma escolha técnica, trata-se de uma decisão ética e espiritual, em sintonia com a Doutrina Social da Igreja e inspirada pela encíclica Laudato Si'. A proposta convida dioceses, congregações, instituições de fé e organizações sociais a reavaliar o destino de seus recursos e a assumir práticas coerentes com a defesa da vida.
A iniciativa também se conecta a processos recentes da Igreja, como o Sínodo para a Amazônia e o documento Mensuram Bonam, que orienta investimentos éticos e responsáveis.
Por que desinvestir da mineração?
A mineração ocupa hoje uma posição estratégica na economia global, especialmente no contexto da chamada “transição energética”. No entanto, como foi destacado no evento, esse setor está frequentemente associado a violações de direitos humanos, degradação ambiental e conflis nos territórios.
O Cardeal Ramazzini trouxe um testemunho contundente da experiência na Guatemala, onde a exploração de ouro por empresas transnacionais deixou comunidades empobrecidas, apesar das promessas de desenvolvimento. Seu relato evidencia uma contradição central: o que é legal nem sempre é justo.
Já Dom Vicente Ferreira alertou para os riscos das falsas soluções do chamado “capitalismo verde”, que, sob o discurso da sustentabilidade, aprofundam práticas extrativistas e reforçam dinâmicas neocoloniais, especialmente nos territórios do Sul Global ricos em minerais estratégicos.
Nesse contexto, a mineração aparece não apenas como uma atividade econômica, e sim como um dos pilares de um sistema que prioriza o lucro acima da vida.
O papel das finanças e a urgência da coerência ética
Um dos pontos centrais do lançamento foi a relação da mineração com o sistema financeiro. Grandes empresas mineradoras são sustentadas por bancos, fundos de investimento e mercados globais, o que torna difícil transformar o modelo apenas por meio de regulação.
Por isso, a desinversão surge como uma estratégia concreta e já utilizada em outras lutas históricas, como contra o apartheid, os combustíveis fósseis e a indústria armamentista.
A irmã Maamalifar Poreku destacou que as decisões financeiras não são neutras: uma vez que investir se trata de uma escolha moral. Quando instituições de fé financiam setores que destroem a vida, há uma contradição entre os valores e práticas.
A plataforma, portanto, busca promover essa coerência, articulando fé, ética e economia.
Uma iniciativa global, enraizada nos territórios
A Rede Igrejas e Mineração, que lidera a iniciativa, atua em 12 países da América Latina, acompanhando comunidades impactadas e fortalecendo suas lutas. Desde sua criação, em 2013, a rede tem denunciado a violência associada ao extrativismo e construído alternativas baseadas na justiça, na solidariedade e na ecologia integral.
A nova plataforma amplia esse trabalho ao conectar territórios afetados no Sul Global com instituições e atores no Norte Global, criando uma rede internacional de responsabilidade e ação.
Um chamado à ação
O lançamento da Plataforma de Desinvestimento na Mineração representa um marco importante na construção de uma economia mais justa e sustentável. Ele afirma que enfrentar a crise ecológica não é apenas uma questão técnica, mas uma decisão ética, política e espiritual.
Ao convidar instituições a retirarem seus investimentos da mineração, a campanha aponta para uma mudança de paradigma: colocar o dinheiro a serviço da vida, dos povos e da Casa Comum.
Mais do que uma proposta financeira, trata-se de um chamado à conversão pessoal, institucional e global.
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