segunda-feira, 9 de abril de 2018

Nova Exortação Apostólica liga santidade à defesa da vida e ao amor pelos pobres

O Papa afirma a ideia de que a santidade esta associada à atenção a quem sofre. A exortação apostólica foi publicada hoje (9 de abril) e aborda o tema da santidade no mundo contemporâneo.  
                      
Alegrai-vos e Exultai (Gaudete et Exsultate) é o nome da exortação, sobre o "chamado à santidade no mundo contemporâneo" é um documento que em seus cinco capítulos e nos 177 parágrafos nos convida a ser santos hoje. Para ler a exortação clique aqui. O Papa diz que a santidade não é um chamado para poucos, mas é um caminho para todos, para viver na vida cotidiana. "O Senhor pede tudo, e o que ele oferece é a verdadeira vida, a felicidade... Ele quer que sejamos santos e ele não espera que sejamos contentes com uma existência medíocre, diluída e inconsistente" (n.1)


                                                  A nova exortação do Papa Francisco


Diante do mundo contemporâneo que apresenta tantos desafios à santidade, o papa inicia sua exortação falando sobre o espírito de alegria. Francisco dá indicações sobre como viver a santidade - um chamado que é para todos.

No documento o capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus, que indica que a base da salvação é a relação entre pessoas, e as Bem-aventuranças são a referências centrais para santidade. Assim no texto da exortação, Francisco, reafirma novamente, uma tônica de seu pontificado, de que a misericórdia  não é uma palavra abstrata.  

“Quando encontro uma pessoa a dormir ao relento, numa noite fria, posso sentir que este vulto seja um imprevisto que me detém, um delinquente ocioso, um obstáculo no meu caminho, um aguilhão molesto para a minha consciência, um problema que os políticos devem resolver e talvez até um monte de lixo que suja o espaço público. Ou então posso reagir a partir da fé e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu, uma criatura infinitamente amada pelo Pai, uma imagem de Deus, um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto é ser cristão! Ou poder-se-á porventura entender a santidade prescindindo deste reconhecimento vivo da dignidade de todo o ser humano?” (n. 99), adverte o papa, convidado os cristãos a viverem "uma saudável e permanente insatisfação” (n. 98).

Não há como separar essas exigências do Evangelho do seu “relacionamento pessoal com o Senhor, da união interior com Ele, da graça”, transformando o Cristianismo numa “espécie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante que, tão bem, viveram e manifestaram São Francisco de Assis, São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá e muitos outros” (n.100), bem como para o erro das pessoas que olham com suspeita para “o compromisso social dos outros”, considerando-o “superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista” (n.101).

“Poder-se-ia pensar que damos glória a Deus só com o culto e a oração, ou apenas observando algumas normas éticas (é verdade que o primado pertence à relação com Deus), mas esquecemos que o critério de avaliação da nossa vida é, antes de mais nada, o que fizemos pelos outros. A oração é preciosa, se alimenta uma doação diária de amor. O nosso culto agrada a Deus, quando levamos lá os propósitos de viver com generosidade e quando deixamos que o dom lá recebido se manifeste na dedicação aos irmãos” (n. 104)defende o Papa.

O Papa elogia o que chama de "gênio feminino" que se manifesta nos estilos femininos de santidade, indispensáveis ​​para refletir a santidade de Deus neste mundo". Francisco cita Hildegarda de Bingen, Brigida, Catarina de Siena, Teresa de Ávila e Teresa de Lisieux, Edith Stein, para enfatizar que "mesmo em períodos em que as mulheres estiveram mais excluídas, o Espírito Santo suscitou santas cujo encanto causou novos dinamismos espirituais e importantes reformas na Igreja". Mas a história da Igreja, sublinha o Papa, também inclui "muitas mulheres desconhecidas ou esquecidas que, cada uma à sua maneira, apoiaram e transformaram famílias e comunidades com o poder do seu testemunho" (n.12).

OS CINCO CAPÍTULOS

A exortação apostólica começa com a "Chamada à Santidade" tratada no primeiro capítulo, onde Papa Francis explica que os santos são os "que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus" (n.7), ele os chama de "santos ao pé da porta". "Gosto de ver a santidade no paciente povo de Deus", escreve o Papa: "Nos pais que cultivam seus filhos com tanto amor, em homens e mulheres que trabalham para levar pão para casa, nos doentes, nos religiosos idosos que eles continuam sorrindo. Nesta constância de avançar dia após dia vejo a santidade da Igreja militante".

"A santidade é o rosto mais belo da Igreja" (n. 9), diz Francisco, que com base em São João Paulo II recorda que "mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes o Espírito suscita sinais de sua presença", como evidenciado pelo testemunho da Igreja. mártires", tornar-se um "patrimônio comum de católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes". 

"Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque «esta é, na verdade, a vontade de Deus" (n. 19), escreve o Papa explicando que os santos não são apenas "aqueles que já beatificado e canonizado", mas o "povo" de Deus, ou seja, cada um de nós, que pode viver a santidade como um itinerário feito de "pequenos gestos" (n.16) diários. 

No segundo capítulo descreve "Dois Inimigos sutis da  Santidade": gnosticismo e pelagianismo. "Ainda hoje os corações de muitos cristãos, talvez inconscientemente, deixam-se seduzir por estas propostas enganadoras. elas aparece expresso um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica. Vejamos estas duas formas de segurança doutrinária ou disciplinar, que dão origem «a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos, nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente»" (n.35)

No terceiro capítulo, "À luz do Mestre", está a resposta para a pergunta de como ser, realmente, um bom cristão.  Ele sugere que é a partir das Bem-aventuranças e da vivência do capitulo 25 de Mateus. "Deste modo, ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase. Dizia São João Paulo II que, «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar». O texto de Mateus 25, 35-36 «não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo». Neste apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo"  (n.96).

O papa revê cada uma das Bem-aventuranças. "Ser pobre no coração: isto é santidade". A pobreza de coração também significa austeridade da vida (n. 70), e frisa: “Lucas não fala duma pobreza «em espírito», mas simplesmente de ser «pobre» (cf. Lc 6, 20), convidando-nos assim a uma vida também austera e essencial. Desta forma, chama-nos a compartilhar a vida dos mais necessitados, a vida que levaram os Apóstolos e, em última análise, a configurar-nos a Jesus, que, «sendo rico, Se fez pobre» (2 Cor 8, 9)”.

"Reagir com humilde mansidão: isto é santidade" se trata segundo o Papa de uma frase forte, neste mundo que, desde o início, é um lugar de inimizade, onde se litiga por todo o lado, onde há ódio em toda a parte, onde constantemente classificamos os outros pelas suas ideias, os seus costumes e até a sua forma de falar ou vestir. Em suma, é o reino do orgulho e da vaidade, onde cada um se julga no direito de elevar-se acima dos outros. Embora pareça impossível, Jesus propõe outro estilo: a mansidão. É o que praticava com os seus discípulos, e contemplamos na sua entrada em Jerusalém: «aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho» (Mt 21, 5; cf. Zc 9, 9).” (n.71) em um mundo "onde se litiga em todos os lugares" (n. 74).

“Saber chorar com os outros: isto é santidade” “O mundo não quer chorar: prefere ignorar as situações dolorosas, cobri-las, escondê-las. Gastam-se muitas energias para escapar das situações onde está presente o sofrimento, julgando que é possível dissimular a realidade, onde nunca, nunca, pode faltar a cruz” (n.75). O texto nos chama a “ter a coragem de compartilhar o sofrimento alheio” e a partir da dor dos outros e convida a ter compaixão. “Desta forma, descobre que a vida tem sentido socorrendo o outro na sua aflição, compreendendo a angústia alheia, aliviando os outros. Esta pessoa sente que o outro é carne da sua carne, não teme aproximar-se até tocar a sua ferida, compadece-se até sentir que as distâncias são superadas”  

“Buscar a justiça com fome e sede: isto é santidade”.  “Mas a justiça, que Jesus propõe, não é como a que o mundo procura, uma justiça muitas vezes manchada por interesses mesquinhos, manipulada para um lado ou para outro” . a "olhar com fome e sede de justiça", enquanto as "gangues de corrupção" compartilham o "bolo da vida" (nn. 78-79). 


"Olhar e agir com misericórdia: isto é santidade" "A misericórdia tem dois aspetos: é dar, ajudar, servir os outros, mas também perdoar, compreender". "Jesus não diz «felizes os que planeiam vingança», mas chama felizes aqueles que perdoam e o fazem «setenta vezes sete» (Mt18, 22). É necessário pensar que todos nós somos uma multidão de perdoados. Todos nós fomos olhados com compaixão divina." o que significa ajudar os outros e perdoar "(nn. 81-82),

"Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor: isto é santidade". "É verdade que não há amor sem obras de amor, mas esta bem-aventurança lembra-nos que o Senhor espera uma dedicação ao irmão que brote do coração". "Quando o coração ama a Deus e ao próximo" o coração é puro (n. 86). 

"Semear a paz ao nosso redor: isto é santidade". A "paz evangélica" não é excludente: "Não é fácil construir esta paz evangélica que não exclui ninguém; antes, integra mesmo aqueles que são um pouco estranhos, as pessoas difíceis e complicadas, os que reclamam atenção, aqueles que são diferentes, aqueles que são muito fustigados pela vida, aqueles que cultivam outros interesses"mas que "não pretende ignorar ou dissimular os conflitos, mas «aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo». Trata-se de ser artesãos da paz, porque construir a paz é uma arte que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza" 

E finalmente, "Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade". Santidade é até mesmo aceitar a perseguição, uma vez que hoje viver as bem-aventuranças é um risco. "Para viver o Evangelho, não podemos esperar que tudo à nossa volta seja favorável, porque muitas vezes as ambições de poder e os interesses mundanos jogam contra nós. São João Paulo II declarava «alienada a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização [do] dom [de si mesmo] e a constituição [da] solidariedade inter-humana». Numa tal sociedade alienada, enredada numa trama política, mediática, econômica, cultural e mesmo religiosa, que estorva o autêntico desenvolvimento humano e social, torna-se difícil viver as bem-aventuranças, podendo até a sua vivência ser mal vista, suspeita, ridicularizada.(n. 91). "As perseguições não são uma realidade do passado" (n.92)

No quarto capítulo está em questão assumir "Algumas Características da Santidade no Mundo Atual" e ponta  "alguns riscos e limites da cultura de hoje. Nesta se manifestam: a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece; o negativismo e a tristeza; a inércia cômoda, consumista e egoísta; o individualismo e tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso atual" (n.111).

No quinto capítulo, "Luta, Vigilância e Discernimento", salienta-se que a vida cristã é "uma batalha permanente", que exige "coragem e força para resistir às tentações do diabo e anunciar o Evangelho. Essa luta é muito bonita - ressalta Francesco - porque nos permite festejar toda vez que o Senhor ganha em nossas vidas ". 


FONTES: Vatican Insider, Radio Vaticano 

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